Mailson Ramos
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Mídia desonesta 11/Apr/2016 às 09:00
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Jornal Nacional: a desintegração da produção de sentido

O Jornal Nacional se tornou a marca da perda de audiência por seu jornalismo partidário e sem credibilidade. A mídia, em geral, vai no mesmo e irremediável caminho.

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Jornal Nacional: Renata Vasconcellos e William Bonner (reprodução)

Mailson Ramos*

Durante muito tempo, o Jornal Nacional representou a imagem impecável do jornalismo na TV brasileira e o simbolismo da repercussão de fatos diários ocorridos no Brasil e no mundo. Em sua forma imutável e padronizada, produziu uma espécie de público que não se caracteriza pela capacidade de contestar a notícia por ele veiculada; antes, o JN prevalece sobre um público dissuadido, inepto e insuficientemente capaz de questionar a organização dos fatos como eles são distribuídos no noticiário.

Recende aqui a ideia de que o Jornal Nacional manipula. E muito mais do que isso se tornou uma espécie de índex de notícias partidárias que serve a uma camada da população hoje descontente com o governo da presidenta Dilma Rousseff. O lugar de fala do telejornal se coaduna com as características jornalísticas TV Globo. É para os setores conservadores da sociedade brasileira que o JN dirige suas notícias, conquanto seja agradável – por fortuna – que as classes mais necessitadas também os ouça.

O partidarismo no Jornal Nacional criou nos últimos tempos uma figura horrenda do ponto de vista da comunicação: a manipulação e a reorganização de fatos para produzir efeitos que nem mesmo a TV Globo poderia contornar. O jornalismo sem responsabilidade, assim como todo ofício, é um risco à sociedade. E em tempos de conflitos muito mais ufanistas do que ideológicos por essência, um telejornal não pode incendiar a população e incitar ódios porque sua atribuição é “ater-se aos fatos”.

O Jornal Nacional não suprime notícias, mas as diminui; não deixa de ouvir os dois lados, mas dá um peso maior a um deles; não se refere com menosprezo a um partido, mas descaracteriza qualquer de suas ações. Na esfera de questionamentos feitos à mídia nestes tempos difíceis, um deles permanece intocável: será que o editor-chefe deste telejornal não percebeu a vaga nau naufragando? A audiência não é mais a mesma, pois a afirmativa de que o Jornal Nacional não mente se tornou, por aclamação, um chiste.

Nos últimos tempos, a predisposição do JN ao fracasso é evidente. Vários são os fatores, mas o principal deles é a internet. Com tantas fontes confiáveis para se informar, os brasileiros perderam o hábito de se sentar no sofá, antes ou após o jantar, para assistir ao noticiário global. A notícia está no computador, no tablet, no smartphone. Não é mais o Bonner que a entrega, mastigada e sob a sua edição, no simbólico coadunar de imagens e sons. A notícia hoje é texto, hipertexto, imagens, também vídeos e sons, mas não somente. Ela é acessível e na maioria das vezes passível de interpretação.

A comunicação usufrui de mecanismos muito sutis e processos simbólicos cada vez menos perceptíveis para quem não os compreende em sua teoria. A produção de conteúdo da grande mídia hoje se afirma nesta perspectiva. Entretanto a sutileza se torna partidarismo quando se diz que a manifestação de 13/03 foi do povo, numa generalização e profusão de símbolos que denota o lugar de fala e a quem esta fala se destina; enquanto que as manifestações dos dias 18 e 31/03 foram de entidades e centrais sindicais, e organizadas por partidos. Se isso não é descaracterização da notícia e do fato, é preciso rever os valores da comunicação.

Veja:
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Vê-se claramente a desintegração do Jornal Nacional como produção de sentido, ainda que o público por ele fidelizado construa verdades sobre ilações. Os níveis de audiência despencam tal é a deturpação da realidade. Jornalismo não deve agradar nem a gregos e muito menos a troiano, especialmente quando se trata de uma emissora que incensa todos os dias os seus fabulosos princípios éticos e editoriais. Mas não é isso o que se vê. Há distinção e ela pode ser provada por quem jamais leu qualquer coisa sobre análise do discurso. Não precisa ser da área da comunicação para perceber.

Leia aqui todos os textos de Mailson Ramos

Pela condição outrora ocupada, o Jornal Nacional deixa um legado e um padrão ainda copiado pela maioria das emissoras de TV, o que sem sombra de dúvidas homogeneíza o telejornalismo e mesmo a própria mídia tradicional. E a coloca em patamar de busca por alternativas que estão no seio do próprio jornalismo, mas que não são encontradas deliberadamente. Não é o valor sígnico de um cenário, a troca de uma apresentadora ou a possibilidade de movimento diante das câmeras que vão fazer um bom telejornal. O equivoco maior ainda está na essência e acima do JN e de todos os outros telejornais globais: é tentar produzir sentido quando e onde nem sentido há.

Leia também:
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*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Nossa Política. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

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Comentários

  1. Pedro Accioli Postado em 12/Apr/2016 às 11:22

    A verdade é que a manipulação da grande mídia em geral está tão descarada que não dá para levar nem um pouco a sério as notícias sobre política!!!

  2. DANIEL Postado em 12/Apr/2016 às 12:07

    mas a manipulação não está só relacionada ao jornalismo, começa lá na infância numa verdadeira lavagem cerebral onde nos são repassado valores que vamos levar pela vida inteira. valores como: violência, racismo, elitismo, preconceitos de toda ordem, onde eles com uma perversidade enorme massacra a estima de milhões de pessoas.