Redação Pragmatismo
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Capitalismo 30/Mar/2016 às 09:00
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Consumo de uns, miséria de outros

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Felizardo T. B. Costa*

Por que o consumo sem consciência é um problema?

Esta é uma questão problemática para a nossa era, pois o consumo desenfreado e irresponsável de bens essencialmente supérfluos é praticamente uma marca identitária da sociedade contemporânea.

Uma leitura não muito profunda sobre nossos hábitos de consumo é suficiente para nos permitir observar que cada vez mais nos afundamos num regime em que nos convencemos que comprar é sinônimo de felicidade, de ser feliz, ou seja, compramos por que temos a ilusão de que isso nos deixará felizes, ou pelo medo de continuarmos tristes pela falta.

Neste sentido as propagandas cumprem o seu papel de nos estimular a consumir enfiando-nos goela abaixo aquelas publicidades machistas onde mulheres são apresentadas como o equivalente a simples objetos, junto com carros, que supostamente tornariam os homens mais atraentes e desejáveis, perfumes que nos fariam a todos irresistíveis, ternos, óculos e outras opulentas bugigangas que nos deixariam supostamente muito mais inteligentes, ou atraentes.

No afã de garantir a continuidade dessa compulsão, a mídia vende à sociedade a ilusão de que nossa capacidade financeira melhorou, deixando-nos viver desse ledo engano, pois, compramos justamente pelo contrário e prova disso é que o que compramos, seja majoritariamente por meio de cartões de crédito, ou de forma parcelada e coisas desnecessárias, descartáveis em poucos dias depois de compradas, peças de roupa, feitas para serem usadas apenas uma vez, entre outros produtos de consumo imediato.

Infelizmente este nosso estilo, não nos deixe tomar ciência dos paradoxos que nos atropelam a todo o momento. O primeiro deles está no fato de que as coisas verdadeiramente essenciais continuam caríssimas e inacessíveis para a grande maioria da população mundial.

Produtos como habitação, saúde e educação, são luxos inalcançáveis para muitas pessoas. Em algumas partes do mundo, as hipotecas de casas tornaram-se num mecanismo altamente predatório para os clientes, mesmo que paradoxalmente lícito.

Em outros, uma casa é um item quase impossível de se obter e muitas pessoas, apenas têm acesso a uma em bairros sem absolutamente nenhuma estrutura social básica (rede de esgoto, energia elétrica, água canalizada, arruamentos, etc.).

A saúde que cada vez mais se mercantiliza por ação de planos privados, e pseudocooperativas de saúde fica cada vez menos acessível, mesmo em países que utilizam algum sistema universal de saúde.

A morte de crianças pobres se tornou corriqueira e para muitas famílias igualmente pobres, sair vivo de um hospital público é uma arriscada loteria.

A educação não está isenta desses efeitos nefastos. Pois, as escolas públicas, quase sempre são as piores nos quesitos mais importantes, quando são boas, reservam-se aos alunos que provêm das classes mais favorecidas, os filhos das elites. Aos pobres como sempre, sobram de graça, apenas os presídios.

Essa tendência encontra-se de modo mais atroz nos países considerados subdesenvolvidos, para onde nas últimas décadas têm-se deslocado as indústrias, que antes se localizavam no ocidente e aqui surge um dos grandes paradoxos desse consumo desenfreado, que é o seguinte:

O argumento para o deslocamento das indústrias do “primeiro” para o “terceiro” mundo foram a geração de empregos e a possibilidade de capacitação das populações locais, contudo, isso mostrou-se uma falácia, ao se constatar que o trabalho dessas fábricas é extremamente precarizado, os trabalhadores recebem salários miseráveis e por isso são forçados a viver em condições subhumanas. A promessa de um emprego provou ser um engodo para ajustar os lucros dos capitalistas à sua extrema miséria.

Como se supõe que eles já estavam mortos sem essa “intervenção”, então na cabeça destes empresários, não havia mal nenhum usá-los por míseros salários para produzir as roupas que eu e você podemos comprar por uma pechincha.

É aqui que a coisa fica nebulosa para alguns de nós, pois é onde o nosso consumo se esbarra com a miséria de uma parcela imensa, mas supostamente insignificante de algum país periférico desconhecido, sem expressão política na geopolítica mundial.

O deslocamento das indústrias para países em desenvolvimento com a desculpa de que gerarão empregos e possibilidades de capacitação das populações locais provou-se uma falácia, que na verdade serve para precarizar a indústria em vez de desenvolver tais países e para explorar “legalmente” pessoas que já vivem em condições subhumanas, pois normalmente são países com regulações ambientais extremamente falhas, com governos muito corruptos que fecham os olhos ao despejo de resíduos tóxicos sem nenhum cuidado poluindo lençóis freáticos e rios importantes como acontece, por exemplo, com o rio Ganges.

Por tudo isso, precisamos começar a nos questionar sobre esse consumo irresponsável e nos mobilizarmos para práticas que sejam menos tóxicas não apenas para nós mas para as futuras gerações em todas as partes do globo.

*Felizardo T. B. Costa é escritor e aluno da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Unesp e colaborou para Pragmatismo Político

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