Redação Pragmatismo
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História 01/Mar/2016 às 11:09
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Brasil: história, sofrimento e estupidez

desenvolvimento brasil história política
Imagem: Mídia Ninja

Há uma espécie de desgosto para com o Brasil, suas instituições políticas e literatura, sua música e personagens, dos rebeldes estrangulados aos amansados em estofos de pluma. Há um descaso jocoso e uma bufada burra para com os trejeitos brasileiros, o cotidiano nos trópicos, abarcando toda a nação e sua cultura em geral – isso quando não sentimos as raspas do desdém cortante que brota não apenas das classes emergentes, como do seio das surradas e exploradas. Para isso, as dirigentes dão de ombros. E não poderia ser diferente.

As promessas, projetos e anseios do sociólogo marxista, do operário nordestino e da guerrilheira revolta – para permanecermos num ringue presente já ensanguentado – foram abafadas e corroídas uma a uma, não apenas pelas traças de um país continental, mas seus vermes internos, tropeços pessoais, parcerias putrefatas e escolhas torpes. Afinal, seriam eles heróis?

Entre acertos e erros, num espaço onde não há milagres, há de se explicar ao desgostoso brasileiro, o mesmo a que cotidianamente assistimos esbravejar, este que se indigna, mas não se agita; que fala, mas não sabe do que está falando; que vê, mas enxerga com a retina de um visconde ou capitão, que este país ainda há de se fazer.

Neste eterno construir não existem salvadores, exceto nós mesmos. Ao desinformado pela opressão em demasia, mas também àquele que a detém despida dos propósitos públicos, populares e concretos, os quais visam à transformação radical profunda, um lembrete empoeirado urge se espalhar: nós somos produto de um processo moroso e de um longo, bruto e sofrido caminhar.

Nós somos choque, doutrinação, genocídio, correntes, tronco, açoite, fome, golpes, tortura, extração e rapinagem, internas e externas. Fomos e em parte ainda somos. O dia em que subvertermos esta lógica secular será aquele em que converteremos a indignação em ação consciente; a fala será produto de um conhecimento transformador – seja ele popular ou erudito –; e enxergaremos o inimigo como histórico e permanente, enraizado nos latifúndios e encalacrado nos mesmos estofos com as plumas de outrora.

Se a sofreguidão se fez regra, resistência, quilombos, piquetes e ocupações nos mostram o outro lado da moeda. E é para este lado que carecemos olhar. O dia em que subvertermos a lógica histórica será aquele em que conheceremos o nosso país de fato. Só assim a velha e pesada túnica do passado será incendiada. Só assim a estupidez crônica do presente acabará em cinzas.

O mestre Darcy Ribeiro foi categórico quando rabiscou o papel do Brasil no futuro. País que antes de dar grandes saltos, precisava examinar a si mesmo, invertendo a sua triste realidade.

O Brasil sempre foi um moinho de gente, moeu, liquidou seis milhões de índios que tinham aqui. Liquidou mais 12 milhões de negros africanos. Pra quê? Para adoçar a boca de europeu com açúcar. […] A nova Roma é o Brasil. Uma Roma lavada em sangue índio, lavada em sangue negro, melhor, tropical, e que está chamada a representar um importante papel no mundo”. [1]

Do desgosto e desprezo que uns e outros sentem, talvez vejamos um país que ainda há de se fazer – e então, almejaremos fazê-lo.

*Luís Felipe Machado de Genaro é historiador, mestrando pela UFPR e colaborou para Pragmatismo Político

Referência:

[1] RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro.

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