Wallison Ulisses Silva dos Santos
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Direita 01/Mar/2016 às 11:40
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A primavera brasileira não teve flores

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Imagem: Reprodução

Wallison Ulisses Silva dos Santos*, Pragmatismo Político

O ano de 2013 foi sem dúvida uma data marcante para a história brasileira. As manifestações ocorridas naquele ano indicavam que a população havia se interessado pela política e que estava disposta a lutar para garantir seus direitos. Os debates nas redes sociais não eram mais sobre futebol ou novela, mas sobre política e economia.

Muitos professores e defensores da importância da politização da sociedade pareciam comemorar o que muitos chamavam de “Primavera Brasileira” ou como os manifestantes diziam “o gigante acordou”. Os críticos diziam, porém que as manifestações embora desejáveis não tinham um foco e a maioria dos jovens não sabiam o motivo de estarem nas ruas.

Infelizmente os críticos estavam corretos e a “primavera brasileira” foi atípica e não produziu flores. Os jovens mostraram não ter folego e nem senso crítico suficiente para lutarem por pautas importantes. O que parecia uma primavera com o tempo mostrou ser um gelado inverno. Com o passar dos meses muitos jovens passaram a emitir comentários reacionários e passamos a assistir o aumento do racismo, homofobia, xenofobia e outros tipos de preconceitos indesejáveis.

O que teria feito uma esperança de politização da sociedade transformar-se em uma volta aos conceitos medievais? O que foi esquecido é que não é possível politizar uma população sem uma educação de qualidade e muito menos em um curto intervalo de tempo. A politização depende de um mínimo de conhecimento e de um constante exercício de debate. Em relação ao primeiro ponto nota-se que é comum matérias de jornais e debates em redes sociais onde uma parte ou ambas as partes envolvidas discutem temas que não sabem o que significam. Como exemplo pode-se citar os conceitos de esquerda e direita, bolivarianismo, capitalismo e socialismo, bolsa família e ditadura militar. A questão central não é o fato do indivíduo ser a favor ou contra uma posição, mas este tomar uma posição sem saber o que defende e o que critica.

Para entender o segundo ponto é necessário fazer uma curta análise histórica.

Durante a ditadura militar as disciplinas de humanas e sociais foram desvalorizadas pelo governo e discutir política foi transformado em algo ruim e aqueles que insistiam em fazer isto eram classificados como baderneiros e incitadores da desordem do país. Com o fim da ditadura, a ferida continuou aberta e os brasileiros em sua maioria continuaram negando-se a discutir política, desligavam a televisão no horário político, vendiam o voto como se isso não fizesse a mínima diferença e classificavam como baderneiro qualquer estudante que realiza-se uma manifestação de rua.

Sem um conhecimento básico sobre política, história, economia, filosofia ou sociologia e sem o costume do exercício da cidadania uma parcela da sociedade despertou para as questões políticas em 2013, mas sem os dois pilares necessários, estes jovens passaram rapidamente a ser uma massa de manobra e assim como a população da França durante a revolução francesa, mesmo tendo boas intenções, tornaram-se um instrumento para a luta de interesses de uma pequena parcela da sociedade.

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Alguém poderia questionar baseado em que fatos pode-se afirmar que a maioria dos brasileiros não possuem maturidade e nem conhecimentos básicos para exercerem de forma saudável a cidadania e o debate político. Basta um breve exercício de leitura dos comentários nas redes sociais ou em sites de notícias, pois um assunto sério e importante rapidamente transforma-se em uma briga em tons imaturos. Os fatos históricos e os indicadores são colocados de lado e as ofensas pessoais e palavras agressivas começam a dominar a discussão.

Quando se afirma que a população brasileira não é politizada, realiza-se uma crítica não a uma classe social, mas a toda a sociedade, pois a elite brasileira que deveria ter uma formação política “refinada” parece dominar qualquer assunto, menos a política. A democracia exige a participação de todos e um constante exercício de cidadania, mas o caminho passa por uma educação melhor, uma maior valorização das ciências humanas e sociais e uma maturidade para debater temas e opiniões de forma respeitosa, sem ofender aquele que tem uma opinião diferente. Talvez com um pouco de luz e água faça com que um dia as flores comecem a surgir e finalmente poderemos ver a primavera política em nosso país.

*Wallison Ulisses Silva dos Santos é economista e mestre em economia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), professor de economia no Instituto Cuiabano de Educação (ICE) e colaborou para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. José Ferreira Postado em 01/Mar/2016 às 15:51

    Pior que é isso. Por isso eles tem medo do Projeto de Lei "Escola Sem Partido".

  2. Eduardo Ribeiro Postado em 01/Mar/2016 às 18:08

    Bela análise. Certeira. Acho importante lembrar do episódio lapidar envolvendo Arnaldo Jabor, que numa noite descascou a manifestação (arruaceiros, ignorantes politicos, moleques de classe média safados) e na noite seguinte deu o maior apoio (essa juventude transformadora, força latente do país com força politica blablabla). Ali as jornadas de 2013 oficialmente morreram. Ali é o ponto em que, dentro do vácuo ideológico em que mergulharam, foram cooptadas. Porque elas não nasceram no vácuo, foram nele lançadas. Pois no inicio, quando mal passavam de mil pessoas, estavam lá os de sempre, os que sempre estão dando a cara a tapa e sendo linha de frente nas manifestações, e que foram expulsos quando juntou a galerinha do "sem partido" e "abaixa a bandeira". E tudo ocorreu pelo ciclo vicioso deseducação-despreparo intelectual-analfabetismo político. Que fique a lição: movimento/manifestação sem LIDERANÇA é extremamente reacionário e nocivo. Deve haver, sim, e sempre, lideranças, vanguardas e organizações, e sim, a participação de partidos, unificação de lutas, etc...do contrário, simplesmente não existe política. E é esse o cenário que a direita deseja: a alienação faz parte da estratégia política de direita, pois é a forma mais simples de manter as estruturas de poder. O discurso apolítico e alienante é uma das armas mais fortes da direita. Mais um texto que devia ficar pregado na tela principal do site por uns 3 anos.