Ediel Rangel
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Religião 16/Feb/2016 às 17:04
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Quando a intolerância política vem embutida na intolerância religiosa

O que temos hoje são líderes religiosos que de forma sutil pregam a intolerância ao afirmar que apenas a sua crença é verdadeira e levam a salvação e as demais são erradas, demoníacas e que levarão a condenação eterna.

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Ediel Rangel*, Pragmatismo Político

Recentemente vi um vídeo no Facebook onde um pastor evangélico (não sei se ele é cubano, mas a sua igreja fica em Cuba) afirma que a sua esposa foi presa pelo governo dos irmãos Castro e a sua igreja foi demolida [1]. Se tal fato ocorreu, seja a mando do governo cubano ou não, é algo de se abominar, além de tudo devemos ter respeito por nosso próximo.

A questão é: Não precisamos todos gostar da mesma coisa, mas devemos respeitar aqueles que pensam diferente.

Mas o que quero destacar é o fato do destaque ser o governo cubano, um governo comunista. Isso reacende todo aquele mito do comunismo que irá intervir até nas crenças religiosas do povo, privando ao máximo a sua liberdade. Também me lembra daquela velha história de que os comunistas “comem” criancinhas.

Ora, se o governo Castro tivesse visto a liberdade religiosa como algo ameaçador ao seu governo a mesma seria “podada” quando tomaram o poder nos anos 1950, no entanto o que temos em Cuba é uma grande diversidade religiosa. Mas sabemos que a grande maioria dos cubanos são católicos, há também protestantes, espíritas, judeus, muçulmanos e a Santeria (que seria como o candomblé aqui no Brasil) [2], sem falar da grande quantidade de lojas maçônicas na ilha caribenha.

Leia aqui todos os textos de Ediel Rangel

Pesquisando sobre o tema dos evangélicos em Cuba, me deparei com alguns sites com matérias do tipo “Como é ser um cristão em Cuba? [3]”, “Pastor batista é preso em Cuba [4]” (ambos com entrevista do mesmo pastor) e muitos outros. Em uma das declarações, esse mesmo pastor disse que há hoje o dobro de igrejas em Cuba do que há 30 anos. Ora, cadê o empenho do governo em acabar com as igrejas?

Mas vou para outro foco, o que eu pretendo de fato com este texto, e quero partir da mesma pergunta acima: Como é ser um cristão em Cuba?

Quero refazer um pouco essa pergunta, mudando apenas duas palavras:

– Como é ser um(a) MUÇULMANO no BRASIL?

– Como é ser um(a) ESPÍRITA no BRASIL?

– Como é ser um(a) CANDOMBLECISTA no BRASIL?

– Como é ser um(a) ATEU no BRASIL?

– Como é ser um(a) BUDISTA no BRASIL?

– Como é ser um(a) JUDAÍSTA no BRASIL?

Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão. (Mateus 7:5)

No Brasil, 86% se declaram cristãos. Destes 64,6% são católicos e 22,2% são evangélicos [5] [6]. O interessante é que mesmo sendo evangélicos e católicos cristãos, ambos não se combinam. O que vemos aqui no Brasil é católicos contra evangélicos, evangélicos contra católicos e todos contra as outras minorias.

Bem me lembro, na minha infância (evangélica), que era forte a briga de evangélicos e católicos. Quem nunca ouviu “Crente do c* quente”? Ora, isso era normal, os evangélicos eram a minoria e, no entanto, eram os oprimidos e perseguidos. Hoje a realidade é outra, digamos que o “jogo virou”.

Lembro também de evangélicos afirmando aos gritos que iriam para o céu enquanto católicos iriam para o inferno. Acirrando assim ainda mais a disputa de qual religião é a certa e qual é a errada.

A falta de respeito também já foi televisionada quando um pastor da Igreja Universal chutou a imagem de uma santa católica (1995) e símbolo religioso nacional [7]. 20 anos depois fatos similares ainda continuam a acontecer no nosso país, como em 30/03/2015 na cidade de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Natal (RN) [8]. Ou como outro caso em 16/07/2014 onde dois jovens evangélicos invadiram a igreja matriz da cidade mineira de Sacramento e destruíram oito imagens de santos, um dos rapazes alegou que não concorda com a idolatria às estátuas comuns na igreja católica [9].

Agora vemos também outras religiões sendo vítimas da intolerância religiosa, como o caso da menina candomblecista apedrejada quando saiam de um culto. Segundo relato da avó da criança, “O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’” [10].

Os muçulmanos também estão na lista dos agredidos, como o fato ocorrido aqui no Brasil após os atentados ao jornal Frances Charlie Hebdo. Muçulmanos passaram a ser agredidos fisicamente e moralmente. Como o caso ocorrido em Minas Gerais, onde uma muçulmana foi cuspida por uma pessoa enquanto brincava com o filho de seis anos no clube da sua cidade. “Assassina! Ninguém quer você aqui”, gritou o agressor [11].

Há o caso do espírita que foi agredido em frente a suas filhas por evangélicos. O espírita por reclamar de barulho de culto ao síndico do prédio [12].

O que temos hoje são líderes religiosos que de forma sutil pregam a intolerância ao afirmar que apenas a sua crença é verdadeira e levam a salvação e as demais são erradas, demoníacas e que levarão a condenação eterna. Pastores que usam as redes sociais para pregar o ódio e esquecem a verdadeira mensagem de Cristo, o amor.

Então, antes de reclamar a perseguição de um governo, lembrem-se da própria perseguição praticada dentro das igrejas e que em nosso país livre e democrática há tanta perseguição religiosa quanto qualquer outra nação, seja pela mão do governo ou pelos algozes religiosos.

*Ediel Rangel é graduado em Sistemas de Informação pelo Instituto Doctum de Educação e Tecnologia, graduando em Ciências Contábeis pela UFVJM, mestrando em Tecnologia, Ambiente e Sociedade pela UFVJM, autor do Blog Ediel Rangel e colaborou para Pragmatismo Político.

Referências:

[1] http://www.cpadnews.com.br/universo-cristao/32146/igreja-e-demolida-e-200-pessoas-sao-presas-em-cuba.html

[2] http://www.portalbrasil.net/americas_cuba.htm

[3] http://www.anajure.org.br/como-e-ser-um-cristao-em-cuba-confira-a-resposta-numa-entrevista-exclusiva-e-reveladora-com-o-pastor-cubano-mario-barroso/

[4] http://guiame.com.br/gospel/missoes-acao-social/pastor-batista-e-preso-em-cuba-irma-relata-injustica.html

[5] http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?tema=censodemog2010_relig

[6] http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-ibge-e-a-religiao-%E2%80%93-cristaos-sao-868-do-brasil-catolicos-caem-para-646-evangelicos-ja-sao-222/

[7] https://www.youtube.com/watch?v=VpPwWEsk0OY

[8] https://noticias.gospelprime.com.br/evangelico-igreja-quebra-santos/

[9] http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,evangelicos-invadem-igreja-e-destroem-imagens-de-santos,1530106

[10] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/06/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa-diz-que-vai-ser-dificil-esquecer-pedrada.html

[11] http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2015-01-25/islamofobia-no-brasil-muculmanas-sao-agredidas-com-cuspidas-e-pedradas.html

[12] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/02/intolerancia-religiosa-espirita-e-espancado-por-evangelicos.html

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 16/Feb/2016 às 19:12

    (Outro Rodrigo) "[...] antes de reclamar a perseguição de um governo, lembrem-se da própria perseguição praticada dentro das igrejas e que em nosso país livre e democrática há tanta perseguição religiosa quanto qualquer outra nação, seja pela mão do governo ou pelos algozes religiosos." Antes, não, mas sim concomitantemente, pois um erro jamais escusará o outro.

  2. Trajano Postado em 16/Feb/2016 às 20:35

    Naro, concordo em parte com sua interpretação caricaturada. Eu entendi que o texto fala de predominância de religiões cristãs no Brasil, bem como de intolerância e violência inter-religiosa, disputas ecumênicas, discursos de ódio e responsabilização por práticas antidemocráticas tanto governamentais quanto de líderes religiosos, em que o autor não atribui como características apenas de um país e ainda compartilha no início do texto suas vivências para ilustrar o quanto está presente em seu cotidiano e no de muitos cidadãos. Assim, me parece que ele tentou correlacionar aumento de intolerância religiosa com intolerância política – um puxa o outro - e implicar o cidadão religioso que pratica atitudes semelhantes a repensar suas posturas ao acusar a intolerância do outro. O problema é que Ediel Rangel apresentou inúmeros exemplos da parte religiosa, mas não apresentou exemplos pelo menos nacionais, em que o governo tenha praticado perseguição. Deu muita ênfase ao religioso, mas não tratou da convergência de poder entre religião e política, nem da intolerância da parte governamental. Talvez ele esteja se referindo às denúncias do pastor cubano lá em cima, mas então o texto só é coerente até o quinto parágrafo, depois, ao menos pra mim, se perdeu completamente em tentar contextualizar Cuba com a realidade brasileira sem falar, de fato, de intolerância política no Brasil. Parece um artigo incompleto. E, particularmente, debater posturas de religiões cristãs brasileiras sem incluir assuntos importantes como a isenção fiscal que recebem, os crimes denunciados de lavagem de dinheiro, os milhões que circulam sem declaração à Receita Federal, enfim, tudo isso com a conivência do legislativo e executivo, todos colocando no colo e fazendo cafuné nos religiosos, me parece um debate de um homem só: é como se alguém resolvesse avisar para as pessoas que está chovendo, apontando o dedo pra cima, quando todos já estão encharcados pelo temporal. Um abraço!

  3. Jonas Schlesinger Postado em 16/Feb/2016 às 20:49

    Quero ouvir o gritinho dos crentes!!!!!

  4. George Postado em 17/Feb/2016 às 13:32

    matéria da bbc-Brasil: Os mais religiosos Estes são os dez países mais religiosos do mundo segundo o levantamento da WIN/Gallup: Tailândia (94%). Armênia (93%). Bangladesh (93%). Geórgia (93%). Marrocos (93%). Fiji (92%). África do Sul (91%). Argélia (90%). Quênia (89%). Macedônia (88%).

  5. Alfa Postado em 18/Feb/2016 às 01:12

    Um pouco de lógica elementar: se as religiões são contraditórias entre si, então só uma é certa ou todas são erradas; se eu creio em uma delas, então eu creio que a minha é certa e as outras, erradas. O choque é inevitável. O cristão deve respeitar a escolha religiosa das pessoas, mas não pode, sem ser relativista, logo, logicamente autodestrutivo, colocar todos os discursos religiosos em pé de igualdade. Jesus, de fato, condena a hipocrisia, mas também diz "eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14:6) e que "estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida" (Mt 7:14). O relativismo é confortável, ainda mais ligado a uma percepção vazia do mandamento do amor, mas não vem de Cristo. Tolerância, sim, é algo profundamente cristão; respeito ao que diz outras religiões, não. Para um cristão, tudo o que contradiz os ensinamentos de Cristo é falso, é engano, é, portanto, "diabólico", já que "diabolos" quer dizer "caluniador, mentiroso". Fazer o quê? Relativismo e "respeito à verdade do outro" é sofística e preguiça intelectual. Mais nada.