Redação Pragmatismo
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Eduardo Campos 23/Feb/2016 às 11:38
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O filho de Eduardo Campos e a falácia da meritocracia

O primeiro emprego do filho de Eduardo Campos e a lenda da meritocracia: Nomeação de um rapaz inexperiente e sem precisar prestar concurso para um cargo de primeiro escalão provocou indignação nas redes sociais e em Pernambuco

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Marcos Sacramento, DCM

Para um jovem prestes a se formar em Engenharia Civil, a busca por um emprego é motivo de apreensão. Com a taxa de desemprego de 9% verificada em dezembro do ano passado, não está fácil encontrar um trabalho com ótimo salário e sem necessidade de experiência prévia.

A não ser que esse jovem seja herdeiro de um clã político de Pernambuco, como o filho do ex-governador do estado e ex-candidato à Presidência da República Eduardo Campos.

João Campos, de 22 anos, é o novo chefe de gabinete do atual governador Paulo Câmara. Caso ele tenha o mesmo ordenado que o titular anterior do posto, receberá um salário bruto de R$ 8.456,00, segundo informações do portal de transparência do Governo de Pernambuco.

A divulgação da nomeação de um rapaz inexperiente e sem precisar prestar concurso para o cargo de primeiro escalão provocou indignação nas redes sociais.

Veja: Filhos de Eduardo Campos são nomeados no estado e na prefeitura

Como já está virando rotina nas polêmicas da internet, criaram a hashtag #meuprimeiroemprego, usada por internautas para relatar as primeiras experiências no mercado de trabalho, todas elas bem menos remuneradas e pomposas que a do filho do Eduardo Campos.

O protesto é válido, embora nomeações como a de João Campos sejam tão comuns no serviço público quanto o café no copo de plástico e a caneta Bic amarrada à mesa com barbante.

Cargos comissionados, como são chamados os cargos públicos de livre nomeação sem necessidade de concurso público, servem como moeda de troca nos acordos políticos e para abrigar aliados ou apadrinhados.

Em tese, são destinados para cargos de chefia, assessoramento e direção. Na prática, distribuem cargos comissionados até para funções mais simples como telefonista, copeira ou motorista.

Na maioria dos casos os ocupantes estão lá para ganhar um dinheiro fácil, sem muito esforço e até mesmo sem precisar despachar na repartição, como a irmã da ex-amante de FHC, agraciada com um cargo no gabinete de José Serra.

Há, por outro lado, contratações relacionadas a um plano maior, como parece ser o caso de João Campos, que não esconde a intenção de disputar uma vaga de deputado federal em 2018.

A função de chefe de gabinete, que entre outras atribuições gerencia a agenda do governador, pode capacitar o mancebo nas artimanhas políticas e aumentar sua rede de contatos. Tolice é achar que ele está ali só pelos R$ 8.456…

João, aliás, está ocupando um cargo que já foi do seu pai, que chefiou o gabinete do governador Miguel Arraes na década de 80. A propósito, Arraes era avô de Eduardo Campos.

O sucessor de Eduardo Campos só está repetindo a jornada de herdeiros como ACM Neto, Marco Antônio Cabral (deputado federal e filho do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral) e Aécio Neves – como não lembrar dele, presenteado com um cargo público aos 17 anos?

Para quem tem essa linhagem, o sobrenome qualifica para qualquer cargo. Capacidade técnica e necessidade de processo seletivo ficam para os reles mortais, nascidos fora dos berços dourados das oligarquias políticas.

A tal meritocracia, propalada e endeusada por esta elite, não passa de uma “lenda do folclore brasileiro”, como escreveu a internauta @sammy-karoline no “tuitaço” em protesto contra a nomeação do Campos.

Leia também:
A falácia da Meritocracia
Quadrinho didático desconstrói falácia da ‘meritocracia’
Por trás do discurso da “meritocracia”, o nosso passado mal resolvido

Um mito que graças à internet aos poucos se desmancha.

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Comentários

  1. Leonardo Postado em 23/Feb/2016 às 14:00

    Perfeito!

  2. José Ferreira Postado em 23/Feb/2016 às 15:40

    Também concordo, caro Solbo. Isso aí é uma destorção da meritocracia: é o velho patrimonialismo.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 23/Feb/2016 às 15:40

    Já começou muito bem esse projetinho de Aécio Neves. Acompanhemos a evolução dessa jovem e promissora revelação, vinda das categorias de base da parasitologia política. Enquanto isso, aguardo ansiosamente bonecão inflável e panelaço indignado daqueles mesmos - tem que ser os mesmos - que enchem a boca pútrida pra falar de "meritocracia" quando o assunto é bolsa-familia e cotas para negros.

  4. isabela Postado em 23/Feb/2016 às 15:53

    em 2018 tá eleito. só esperar e lamentar.

  5. Carlos Postado em 23/Feb/2016 às 18:10

    Pros retardados que clamam pela volta da monarquia (acreditem, eles existem) tá aí. Ahh mas o seu sobrenome aristocrata não foi contemplado? Que peninha... Agora vocês sabem como o isso soa estúpido.

  6. Carlos Postado em 23/Feb/2016 às 18:13

    Exatamente! Não é meritocracia, porque meritocracia não existe. Essa é a questão.

  7. Alan Kevedo Postado em 23/Feb/2016 às 18:13

    Se fosse a MALALA teria recusado. Então, isso confirma o dito popular : " Quem nasceu pra tostão, não chega a milréis"

  8. Trajano Postado em 23/Feb/2016 às 18:23

    Tudo que a matematização do mundo não consegue dar conta ou aquilo que o método científico não suporta, não prevê, qualquer pessoa ou instituição pode assumir o “vácuo” como se fosse uma espécie de autoridade máxima de um assunto, mesmo que não se tenha o conhecimento mínimo, afinal, é da ordem do não falseável. No caso de desigualdade social, por exemplo: você prosperou financeiramente porque é um predestinado por alguma entidade divina ou teve fé o suficiente para que uma força metafísica concedesse suas bênçãos; se você não prosperou financeiramente, você não é um predestinado, não teve fé o suficiente em sua divindade ou, simplesmente, é uma provação mística em sua vida. Por outro lado, cientificamente podemos analisar múltiplas variáveis que justifiquem o desnível de renda e o fato de apenas algumas centenas de famílias acumularem fortunas superiores ao do somatório de bilhões de pessoas. O problema é que muitas variáveis, a complexidade, muitos aspectos a serem explorados sobre um mesmo assunto não encontra voz em uma sociedade adepta do binarismo em que só existe um e outro, eu e eles, tudo ou nada, contra ou a favor e o assunto se trava em campo acadêmico - não é abraçado pelo público mais amplo. Entretanto tanto a religião quanto a ciência e a filosofia são atravessadas pelo poder econômico daquelas famílias riquíssimas, então não é de se surpreender que tanto os religiosos quanto cientistas e filósofos possam dar as mãos em determinados assuntos, uma vez que controle social não é traço específico da Modernidade, mas de algo mais atemporal, no caso, as relações de poder. A legitimação da desigualdade social como um assunto moral é um discurso “de poder e para o poder” e dele se faz uso de grupos sociais, empresariais, religiosos, políticos, filosóficos, pseudocientíficos, enfim. Tal como a moral de igreja e o sistema de castas religioso que prega a predestinação e a benção como eixo do acúmulo de riquezas, se pode tranquilamente outorgar para um outra área e outro termo: meritocracia. Você prosperou financeiramente porque herdou capacidades intelectuais (genética no lugar da predestinação) de sua família ou teve esforço (fé) o suficiente para que o capitalismo (Deus) concedesse os privilégios da propriedade privada e do consumo (bênçãos); se você não prosperou financeiramente, você não tem as capacidades intelectuais necessárias (não é um predestinado), não se esforçou, não trabalhou o suficiente, logo, não pode usufruir da meritocracia (fé) por não suprir as necessidades do Mercado (Espírito-Santo) ou, simplesmente, é uma provação de que você deve empreender e divulgar mais sua força de trabalho ou negócio (mística). Fé, meritocracia... Não há nenhum problema em preencher o vazio do infalseável com qualquer coisa, a questão é por qual motivo se utiliza e quem o patrocina, afinal, é uma questão de poder antes de ser uma questão moral.

  9. Trajano Postado em 23/Feb/2016 às 18:52

    Existe a eugenia positiva e a eugenia negativa. Agora temos a eugenia “média”, minuciosamente fabricada para o consumo da classe média: a meritocracia. Como uma roupa da moda que veste bem, esteticamente aceitável e que comporta o pensamento binário social, a meritocracia é abraçada por seus consumidores mais fiéis. Não existem os campos de concentração em que os “eleitos”, a raça superior, a pureza intelectual, física e psicológica dos predestinados busca, literalmente, eliminar o diferente, mas existem os guetos, as favelas, as periferias para isolar grupos sociais por castas em que o culpado são eles, estão condenados por sua condição inferior, aqueles preguiçosos, não dedicados, sem dotação intelectual, ao passo que, misteriosamente, desaparecer com eles não seria bom para a economia... E não existiria um modelo que reafirmasse o estilo de vida médio, porque sem eles o gueto seria a própria classe média. Ao mesmo tempo, quando Deus é substituído pelo capitalismo, o Mercado torna-se o Espírito-Santo, o Tio Sam vira Cristo e a globalização personifica a Igreja, ser pobre é heresia, aqueles diabólicos desprovidos de crença na divindade máxima da Modernidade e, com isso, seres indignos de compartilhar da meritocracia - a fé que nos aproxima de nossa divindade. Amém, irmãos?

  10. Olga Postado em 23/Feb/2016 às 18:53

    Gente urge um tratamento para desparasitar o Brasil...Ë tanto verme comendo do prato que o povo trabalhador serve ...

  11. amarildo gabriel Postado em 23/Feb/2016 às 19:05

    e viva os filhos do rei

  12. Augusto Postado em 23/Feb/2016 às 19:15

    meu deus... o mundo está complicado mesmo... vc LEU O TEXTO? pelo amor de deus... antes de sair disparando bobagens e atacando o autor.... LEIA a porcaria do texto criatura... ele está falando justamente que os que apregoam a meritocracia e que ela existe no país (o que não é verdade) fazem uma papagaida dessa de colocar essa criança nesse cargo... raça dificil desses comentaristas que não entendem o título do texto e ainda assim comentam o que entenderam (errado)

  13. Herbo Postado em 23/Feb/2016 às 20:41

    Perfeito! Isso é canalhice, da braba, duplipensar, Orwell descreveu muito bem os mecanismos do socialismo em 1984.

  14. Rodrigo Postado em 24/Feb/2016 às 10:27

    (Outro Rodrigo) É a mesma "meritocracia" que beneficiou María Delfina Rossi, jovem de 26 anos nomeada por Cristina Kirchner para ser diretora no maior banco público argentino? Essa mesma "meritocracia" distorcida? http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/feminista-e-de-esquerda-nova-diretora-do-maior-banco-da-argentina-tem-26-anos.html

    • Rodrigo Postado em 24/Feb/2016 às 14:39

      (Outro Rodrigo) Ah, a mesma meritocracia deturpada também quanto ao afilhado de casamento de Dilma, que não tinha experiência para o cargo e foi nomeado para a ANAC?

    • Rodrigo Postado em 25/Feb/2016 às 10:00

      (Outro Rodrigo) Por vezes fico a perder meu tempo, pensando em uma eventual vitória (por exemplo) de Marina ou Ciro: um deles ganharia e o(a) não eleito(a) se uniria em coro a PT e PSDB (e respectivos militantes e/ou eleitores)? Então passariam a cobrar do(a) vitorioso(a) o cumprimento das promessas de campanha, ainda reclamando por ele(a) no Poder fazer tudo ou muito daquilo que os antecessores fizeram? E o(a) vitorioso(a), de seu lado, a cada nova denúncia, cobrança, estaria justificado ao dizer "eu não inventei a corrupção", "isso sempre esteve aí", "é intriga da oposição", "agora é a minha vez", "isso é coisa de gente que não gosta de viajar no avião com alguém no colo", "agora é a minha vez"? Quantos mais terão o poder-dever do "agora é a minha vez", antes que se passe efetivamente à conduta conforme a fala? Ao correto proceder, à autocrítica?

  15. Maria Célia Postado em 25/Feb/2016 às 13:34

    Esses petitis já nascem com a vida ganha!!