Redação Pragmatismo
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Direitos Humanos 04/Feb/2016 às 11:00
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E depois da liberação das armas para os “cidadãos de bem”?

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Leonardo Sakamoto*

Nutro uma certa inveja por pessoas que demonstram um pensamento binomial. Para eles, a vida é tão simples! É A ou Z – e só. Não existe outra coisa entre um polo e outro, nenhuma área cinzenta, nenhuma dúvida, nada.

Enfim, o mundo não é complexo. As “pessoas do mal” é que tentam turvar aquilo que é certo, confundindo os “homens e mulheres de bem”.

Daí, para a vida fazer sentido, dizem que todos têm que abraçar uma ideia e simplificar o mundo ao máximo. Se não não é possível fazer isso, sem problema, eles te dão uma mãozinha, rotulando você.

Se você não é hétero é homo.

Se você é da classe média e tem um smartphone, não pode defender políticas para os mais pobres.

Se critica campanhas de terra arrasada contra as drogas, é um usuário de crack que rouba a mãe pelo vício.

Se é contra mudar o Estatuto do Desarmamento, deseja que bandidos esfolem sua família sem possibilidade de defesa.

Vamos nos deter nesse último ponto, considerando que uma comissão especial aprovou a revogação de parte dessa lei, facilitando o porte de armas. O que, claro, é uma bizarrice sem tamanho.

Já contei aqui que uma parcela binária dos meus leitores reclama de uma foto minha, segurando um fuzil, tirada com o exército de libertação de Timor Leste durante uma reportagem em 1998 – foto que eu, orgulhosamente, publiquei em páginas nas redes sociais.

Leia aqui outros textos de Leonardo Sakamoto

Perguntam como alguém “de bem” pode ser a favor do desarmamento civil e a favor de um exército de libertação?

(Ai, gente. Que preguiça…)

Os que faltaram às aulas de história para ir jogar bola e videogame ou passear no shopping talvez tenham dificuldade de responder a essa pergunta. Então, vamos contextualizar.

Um povo passa um quarto de século lutando contra um exército invasor, que matou mais de 30% de sua população, estuprou milhares de mulheres através de uma política de limpeza étnica, roubou terras e recursos naturais e condenou outros tantos à inanição. E, praticamente sem ajuda de ninguém, vence, tornando-se um país livre. Ao sair, esse invasor e seus parceiros ainda promovem um último banho de sangue. O mundo saúda a conquista da autodeterminação e a história desse povo torna-se um exemplo.

Menos esse pessoal binário que acha que “resistência contra genocídio é bandidagem”, não conseguindo diferenciar uma coisa de outra através da reflexão.

Porque, por mais que sejam absurdas as estatísticas de mortes no Brasil, é um ultraje chama-las de genocídio, comparando ao que Alemanha nazista fez com judeus, os roma e homossexuais, ao que o Khmer Vermelho causou no Camboja, o que a Turquia fez contra os armênios, os hutu sobre tutsis em Ruanda…

Muitos desses colocariam membros da Resistência Francesa na Segunda Guerra no pau-de-arara. Aliás, tenho certeza que se, hipoteticamente, o Brasil fosse invadido por um exército estrangeiro, esse pessoal binário seria o primeiro a se oferecer como colaboracionista.

Certamente, em troca, pediriam que fosse garantida a ordem para que houvesse progresso.

Também não duvido que apontariam as mulheres que “mereceriam” um corretivo por não se portarem ou se vestirem como se espera delas.

A sugerir que minorias que reivindicassem direitos fossem caladas pelo risco que representam aos “homens de bem”.

A exigir que a “religião oficial” fosse respeitada em detrimento a “cultos demoníacos.”

E que, uma vez que uma cena como a da queima de livros de Fahrenheit 451 pareceria demodê, que os bancos de dados de sites que propagam ideias que respeitassem os direitos humanos fossem terminantemente apagados e seus autores presos.

Já disse aqui uma vez. Ser pacifista não significa morrer em silêncio, em paz, de fome ou baioneta. A desobediência civil professada por Gandhi é uma saída, mas não a única e nem cabe em todas as situações.

Há pessoas que reclamam da “violência” de ocupações de imóveis vazios, entregues à especulação, feitas por uma legião de gente pobre. Essas mesmas pessoas consideram foices e enxadas na mão de sem-terras ou arcos e flexas com indígenas armas de destruição em massa, mas defendem o livre porte de armas de fogo.

Resistência não é baderna, desordem e violência gratuita. Mas o oposto: uma luta pelo reestabelecimento do respeito aos direitos humanos. E, principalmente, significa que os pequenos podem, sim, vencer os grandes. E os fracos, rotos e rasgados são capazes de sobrepujar fortes, ricos e poderosos.

Por isso, o desespero inconsciente dos leitores binários. Afinal, são eles, consciente ou inconscientemente, os “soldados” da manutenção do status quo. Acham importante andar armados ao invés de reforçar a capacidade do Estado de garantir paz. Não apenas pela repressão, mas também por garantir direitos.

Leia também: A luta dos EUA contra um monstro que eles próprios criaram

Pois estão em guerra. Guerra contra seu próprio povo.

Não é de estranhar, portanto, a declaração de guerra de deputados federais contra a resistência de povos indígenas e quilombolas por sua própria sobrevivência.

A proposta de emenda constitucional 215/2000, que dá ao Congresso Nacional poder na demarcação de territórios de populações tradicionais, foi aprovada em uma comissão especial e vai a plenário. Considerando que o Congresso é ruralista, se a PEC for aprovada, a vida de muitos desses povos, que já morre de fome na beira de estradas ou de bala por fazendeiros que querem eles longe das terras que tradicionalmente os pertence, será ainda pior.

As bancadas do boi, da bala e da bíblia fazem o que querem, diante de um governo fraco e, não raro, conivente, uma oposição cega e também conivente e um Eduardo Cunha ágil em retribuir o apoio por sua eleição para presidente da casa e a criar cortinas de fumaça para seus escândalos.

Considerando que seguimos na inércia de séculos de história. Matar índio, física e simbolicamente, é mais do que necessário. É uma missão divina, um dever civilizatório. Os que resistem, morrem.

Ou, resumindo, para os leitores binomiais: caindo o Estatuto do Desarmamento e aprovando a PEC 215, vai morrer mais índio no Brasil. De um jeito ou de outro.

*Leonardo Sakamoto é professor, jornalista e doutor em Ciência Política

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Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 04/Feb/2016 às 12:53

    E os EUA estão sofrendo até hoje com essa liberação de armas, contudo o povo nunca vai abrir mão já que faz parte da cultura yanke. Sou contra a política de armamento ao cidadão que vai servir para o cidadão de bens do que o de bem, ambos bem diferentes um do outro. Agora sou contra quando pessoas se ocupam em terrenos e prédios particulares sem permissão. Por mais que passem 20 anos sem ninguém fazer nada ali, aquele terreno é de propriedade alheia, particular. Tem que sair sim e se for preciso utilizar a justiça e a polícia para forçar a reocupação de posse.

    • Mauro Pinto Postado em 05/Feb/2016 às 18:54

      Você defende a mesma coisa para : quem no passado ocupou o litoral norte de São Paulo, expulsando os caiçaras de suas terras, mas tem sobrenome "nobre"? Quem ocupa área de preservação mas tem dinheiro para "comprar" autorização? Quem compra ilha, como o Pitanguy?

      • Jonas Schlesinger Postado em 05/Feb/2016 às 21:27

        Eu defendo que terrenos particulares não são públicos para serem invadidos. Nem se fosse público, a prefeitura ou seja lá quem for iria tirar os sem terras. Não discordo que os mais pobres tenham um teto para morar, mas não no teto dos outros. Digo e repito, reintegração de posse é legal e invasão é ilegal.

      • Mauro Postado em 07/Feb/2016 às 16:03

        Leia aqui: http://tijolaco.com.br/blog/o-lula-ve-se-aprende-com-os-marinhos-a-fazer-casa/

    • Mauro Postado em 07/Feb/2016 às 16:05

      Então você deve ser do tipo" aos amigos tudo, aos inimigos a lei!"

      • Jonas Schlesinger Postado em 07/Feb/2016 às 17:48

        Meu deus. Quer dizer que se eu quiser roubar a casa de uma pessoa ou terreno de uma pessoa é o certo? Você é a favor do roubo? Você é a favor do crime organizado? Eu não quero saber de Lula nem de Marinho nem de nada. Só quero saber o seguinte: se o seu vizinho tem uma casa que há dois anos está fechada, você vai lá roubá-la pra você, é certo pra você? Desculpa, tive que ser direto.

      • Jonas Schlesinger Postado em 08/Feb/2016 às 15:09

        Mauro, desculpa qualquer coisa. Mas acho que a gente tem a mesma ideia. A liberação das armas só vai piorar mais as coisas. Fui.

  2. BRUNNO MARXX Postado em 04/Feb/2016 às 13:44

    Enfim, o mundo não é complexo. As “pessoas do mal” é que tentam turvar aquilo que é certo, confundindo os “homens e mulheres de bem”. Se você não é hétero é homo, Se você é da classe média e tem um smartphone, não pode defender políticas para os mais pobres, Se critica campanhas de terra arrasada contra as drogas, é um usuário de crack que rouba a mãe pelo vício, FALTOU ESSA PRAGMATISMO A MAIS IMPORTANTE:...→ se voce é contra falsas denuncias de estupro onde o denunciado é inocente ← as misandricas dizem que voce defende o estupro...A MAIOR INJUSTIÇA NÃO É UM CULPADO INOCENTADO,MAS UM INOCENTE CULPADO E PRESO, MAIS AUDIENCIA DE CUSTODIA.

    • Rita Candeu Postado em 05/Feb/2016 às 07:22

      ah! coitado agora as estupradas são misândricas? jura?

    • Guilhermo Postado em 05/Feb/2016 às 09:50

      Qual caso é esse?

    • poliana Postado em 05/Feb/2016 às 21:30

      rpz, n tô dizendo q vc precisa se tratar?! vc está parecendo um fanático com essa obsessão!

  3. José Ferreira Postado em 04/Feb/2016 às 16:11

    O André-Maria-Cesar Souza é meio p*orr@ louca, mas dessa vez ele está certo. Nos EUA morrem menos pessoas por armas de fogo do que no Brasil. O problema não é a arma, mas quem usa a arma. Quem quer matar sempre arranja um jeito para fazê-lo.

  4. Joao Postado em 04/Feb/2016 às 17:27

    programas fuleiros do tipo 190 e suas marionetes....

  5. gustavo0 Postado em 04/Feb/2016 às 18:07

    Caindo o Estatuto do Desarmamento e aprovando a PEC215, não morrerão só os índios não, bacana. Morrerão milhares, milhares de pessoas passarão a pertencer a um grupo de risco incalculavelmente maior de exposição à violência, a população inteira entrará em um contato absolutamente desnecessário com a morte. A sociedade brasileira não está nem perto de preparada para esta mudança, mas fazer o que? Os homens de bem querem atirar.

  6. Denisbaldo Postado em 04/Feb/2016 às 22:59

    Para melhorar tem que piorar. Liberem logo essas porras destas armas, coloquem os militares marionetes da direita escravocrata no poder, e que o sangue jorre de verdade em nosso país. Acabem com a educação e desçam o cacete nos manifestantes. Esse bando de "machões" que assiste novela e futebol peidam frouxo na primeira abordagem em que forem obrigados a usar seus novos "brinquedos". A maioria esmagadora dessa gente não tem coragem de matar uma barata em casa, quero ver matar um ser humano. Vão é tomar tiro da própria arma. Já basta de aguentar esse monte de lixo vomitando besteira. Tomem logo o poder, em 5 anos estarão de quatro igual aos nossos "nobres" representantes da ditadura. Eles só aguentaram 21 anos porque foram bancados pelos EUA. Hoje é cada um por si e pau nos seus cu.

    • poliana Postado em 05/Feb/2016 às 00:14

      Não fala uma coisa dessas nem brincando denisbaldo, pelo amor.....

    • Marcio Postado em 05/Feb/2016 às 01:03

      Falou tudo Denisbaldo, isso tudo tá dando nojo já essa racinha nojenta não se cansa de ficar chorando e provocando, quem sabe se liberar aconteça o que você falou, eles acabem se tomando vítimas das próprias armas, ai é lucro para o país, imagina no trânsito motoristas batendo boca? quanto pai de família vai morrer por causa de algum erro, qualquer descuido o "valentão" pega a arma e mata o cara em quanto os filhos ficam esperando a volta do paí em casa, cara se um coxa fascista desses matar alguém da minha família eu juro nem que seja a ultima coisa que eu faço na minha vida em meto bala no maldito não quero nem saber...

    • Mauro Postado em 05/Feb/2016 às 19:02

      Discordei de você várias vezes, mas desta concordo 100% O que está por trás dessa liberação são interesses americanos.

    • poliana Postado em 05/Feb/2016 às 21:32

      pois é naro, taí algo em q nós concordamos. recentemente até falei isso aki em outra matéria sobre esse assunto...tenho esse mesmo temor seu! n consigo nem imaginar a tragédia q isso seria no brasil!

  7. luis Postado em 05/Feb/2016 às 00:29

    Armas de fogo é coisa de vagabundo que não consegue matar seus inimigos a facadas!

  8. Rita Candeu Postado em 05/Feb/2016 às 07:23

    vc. faltou nas aulas de história? tá parecendo

  9. Rita Candeu Postado em 05/Feb/2016 às 07:24

    voces são tão primários que dá pena até parece que não é comum o caso de PM reagir a assalto e ser morto acha mesmo que basta ter uma arma e estará protegido?

  10. Thiago Teixeira Postado em 05/Feb/2016 às 14:12

    Homens de bem ..... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk o que seria homens de bem? Deixa eu adivinhar: Branco, Homem, machista, hetero, cristão, pai de "família, cabelo curto, sapato engraxado, limpinho, cheiroso, proprietário da própria casa, 2 carros, nível superior, cargo elevado, tucano, se informa pelo G1 e odeia o PT.

  11. Mauro Pinto Postado em 05/Feb/2016 às 18:55

    E você acha que vão morrer menos com a liberação?

  12. Mauro Postado em 05/Feb/2016 às 18:59

    Os EUA tem a maior população carcerária per capta do mundo.será que é por roubar galinhas? Los Angeles é a capital mundial das gangues de rua. Tem bairros que você leva bala apenas por estar vestindo uma camisa com a cor errada .

  13. Yrae Postado em 10/Feb/2016 às 00:11

    Se os EUA sofre com uso de armas, imagine o Brasil.