Redação Pragmatismo
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Injustiça 12/Feb/2016 às 19:01
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Dorothy Stang morreu em vão?

Quem matou Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2005, continua matando. A repercussão desse assassinato deu a impressão que a violência de crimes praticados por motivos idênticos, se não fosse eliminada, pelo menos diminuiria. Os fatos posteriores vêm provando o contrário. Condenado pelo assassinato da missionária está solto

Dorothy Stang assassinato
Reginaldo Pereira Galvão (esq), conhecido como “Taradão”, foi condenado pelo assassinato de Dorothy Stang a 30 anos de prisão, mas continua solto após apresentar recurso e aguarda o resultado (Pragmatismo Político)

Jacques Távora Alfonsin*

Camponesas e camponeses de Anapu, no sul do Pará, certamente vão se reunir neste 12 de fevereiro para lembrar a morte da freira Dorothy Stang, uma fiel e dedicada companheira delas/es, religiosa conhecida por sua coragem e disposição, assassinada em razão de sua luta em favor do povo pobre daquela região, da reforma agrária, e contra o desmatamento crescente que lá se verificava, promovido por latifundiários interessados, como em outros lugares do país, na expansão do plantio de soja, na conquista de espaço para o gado, em mineração e em vender madeira.

A repercussão nacional e internacional desse assassinato deu a impressão, como já ocorrera com o massacre de Eldorado do Carajás, sintomaticamente acontecido no mesmo Estado do Pará, que a violência de crimes praticados por motivos idênticos ao que matou Dorothy, se não fosse eliminada, pelo menos diminuiria.

Os fatos posteriores vêm provando o contrário, chamando a atenção até de órgãos da imprensa estrangeira como é o caso do Financial Times. Na sua edição de 10 de dezembro passado, abriu matéria sob a seguinte manchete: “Terras sem lei ameaçam compromisso climático brasileiro.”

É que estava em andamento naquela semana a COP 21, em Paris, encontro no qual o Brasil se comprometeu, segundo a mesma notícia, a acabar com o desmatamento ilegal, aqui, até 2030… O jornal manifestava pouco acreditar nisso (mesmo um prazo dessa extensão não ser nada pequeno, levando-se em conta a gravidade do problema) diante de mais um assassinato ocorrido então na mesma Anapu. Winslei Gonçalves Barbosa, de 23 anos, fora emboscado e morto:

“Uma bala está alojada em seu capacete, que rolou para o lado. Mas a polícia ainda não chegou e muito menos começou a buscas pelos seus assassinos. É mais um sinal da ausência de lei e da violência que afligem grande parte da Amazonia brasileira – problemas que têm um peso direto nas discussões globais que estão perto de um desfecho em Paris nesta semana.”

Sobre o trabalho da Irmã Dorothy, a notícia refere: “Tomar partido dos sem-terras foi parte do trabalho de Stang, cuja memória é homenageada em Anapu por uma procissão anual comemorativa através da cidade empoeirada, junto com o Fusca branco dela, muito bem cuidado. Stang defendeu dois grandes “projetos de desenvolvimento sustentável” em terras governamentais que os pecuaristas ocuparam: Esperança, onde Gonçalves Barbosa foi assassinado, e Virola-Jatobá. A ideia de Stang era permitir que os sem-terras fossem assentados em troca da preservação de grande parte da floresta. Um grupo de fazendeiros comandado por Reginaldo Pereira Galvão, conhecido como “Taradão”, encomendou seu assassinato para barrar a execução dos projetos. Galvão foi condenado pelo crime a 30 anos de prisão, mas continua solto após apresentar recurso e aguarda o resultado.”

Uma crítica procedente de um jornal estrangeiro pode ser colocada sob reserva, mas se ela for comparada com dados da própria CPT, recolhidos pelo site Agência Brasil no início de janeiro passado, tem-se de reconhecer como bem fundadas as desconfianças ali manifestadas sobre o nosso Estado de Direito:

“O número de assassinatos decorrentes de conflitos no campo em 2015 foi o maior dos últimos 12 anos no Brasil, com 49 mortes registradas, a maior parte na Região Norte” “A CPT ressalva, no entanto, que os dados são ainda parciais e podem vir a aumentar à medida que sejam consolidadas as informaçães provenientes do trabalho in loco.” “O número de mortes decorrentes de conflitos no campo no ano passado foi o maior desde 2003, quando foram contabilizados 73 assassinatos.” ” O Norte do país é um barril de pólvora‘, disse o coordenador da CPT em Pernambuco, Plácido Júnior, responsável pela compilação dos dados nacionais: Além do avanço do agronegócio tradicional, acreditamos que o aumento das tensões no campo em 2015 tenha relação com maiores disputas por recursos como madeira e água, o prosseguimento de grandes emprendimentos de mineração e energia e a diminuição no número de assentamentos e demarcações.” “Dados da entidade mostram que de 1.115 casos de homicídio decorrentes de conflitos no campo registrados entre 1985 e 2014, 12 foram julgados.”

A convivência com uma realidade de tamanha injustiça não pode continuar anestesiando a nação como se toda ela só dissesse respeito às vítimas dos seus trágicos efeitos. O passado tem-nos mostrado quantas pessoas “de fora” vêm para cá, escandalizadas com isso e por motivos bem diferentes das grandes empresas transnacionais. Oferecem as suas próprias vidas em defesa da nossa terra e da nossa gente, como fez a Irmã Dorothy e muitas/os missionárias/os.

O Frei Henri Burin des Roziers, advogado da CPT em Xinguara, também no Pará, tem de andar acompanhado de seguranças, como outras pessoas do clero e fora dele, ameaçado de morte como está. Em uma entrevista concedida à uma revista, anos passados, quando essa segurança praticamente lhe foi imposta, tão grande era o temor de se repetir o acontecido com a Irmã Dorothy, ele disse tudo o que precisa ser dito, a respeito da segurança e da paz a que têm direito as/os camponesas/os brasileiras. Por rejeitar o privilégio a ele conferido, por ser quem é, preferiria viver sem escolta alguma, num Estado garante de segurança para todas/os, fruto de uma convivência fraterna sobre terra, na qual a reforma agrária tivesse alcançado reparti-la de forma justa, não usurpada por poucos, em favor da reprodução da pobreza e em prejuízo da maioria.

*Jacques Távora Alfonsin é procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos

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Comentários

  1. Henrique Postado em 12/Feb/2016 às 20:59

    Nessas horas a justiça e a prisão convém não é? Só matando essas pragas

    • poliana Postado em 13/Feb/2016 às 15:39

      oi?! vc só pode estar de brincadeira né?! desde qdo a esquerda prega a impunidade??!!!

      • poliana Postado em 15/Feb/2016 às 20:01

        Pereira, no dia q o lula responder por qq crime, e for condenado por isso, q vá preso e cimpra sua pena! Vc n pode falar nada, pois como o rei das relativizações aqui do pp, vc sempre defendeu o eduardo cunha. Henrique, e sobre o cunha, taí um perfeito exemplo q vc deu em sua descrição e q seguem impune. Ele, sua esposa e sua filha. Falar q deve ir preso, eh fácil neh? Mas a gente sabe muito bem como eh q a banda toca. Poderia lhe citar varios outros exemplos aqui. Mas vc os conhece muito bem...

    • João Paulo Postado em 14/Feb/2016 às 06:39

      kkkkkkkkkkk Verdade, Henrique!

    • Eduardo Ribeiro Postado em 14/Feb/2016 às 14:19

      Maluco manja de esquerda como eu manjo de "mecatrônica robótico-nuclear". Só que eu não bostejo sobre o que não conheço.

  2. Henrique Postado em 15/Feb/2016 às 10:38

    Não estou citando impunidade, que há nesse caso, e sim a distorção. Vejamos, pobre, negro, com passagens por tráfico e homicídio é morto em confronto: Vítima da sociedade, era trabalhador, ditadura policial, estado repressor, ressocialização, desarmamento da polícia, blábláblá. Filho de rico, embriagado, atropela e mata ciclista: Canalha, elite porca, tem que apodrecer na cadeia. O contexo que citei foi com relação a isto, as operações contra corrupção tão criticadas aqui. Para quem se importa, ambos os casos acima devem ser rigorosamente punidos, desde o "jovem sem oportunidade" até o "riquinho filhinho de papai", passando pelo cangaceiro a mando desses grileiros que mataram a missionária!

    • poliana Postado em 15/Feb/2016 às 19:56

      Henrique, falar eh fácil, mas a gente sabe q no mundo real, somente os primeiros q vc citou eh q são presos. Os ricos criminosos seguem impunes! E msmo dentro da descrição q vc deu, em nenhum momento a esquerda prega a impunidade do criminoso por ele ser vítima da violência policial e cia...

      • Henrique Postado em 16/Feb/2016 às 21:50

        Os ricos criminosos seguem impunes...ok, concordo, infelizmente essa ainda é nossa realidade, mas e quando os donos das maiores empreiteras do país, ou quem sabe um dos homens mais ricos, banqueiro dono do BTG, ou grandes pecuaristas, ou politicos são presos, o que é vociferado? Vou dar uma dica: PSDB, mídia golpista, whiskas sachê...Mas vem cá tchê, não é tudo o que sempre foi pedido? Punição aos graúdos?

  3. George Postado em 16/Feb/2016 às 11:37

    vergonha para o meu estado. Vergonha desses governantes inoperantes para essas questões agrárias. No Brasil, desde que se entendeu como país, não houve reforma agrária e as terras estão até hoje nas mãos do poder econônico (oligarquias, latifundiários, grileiros em ação conjunta). Metade das terras são ilegais como mostrou uma reportagem da Carta Capital e a mídia tradicional (cheia de políticos fazendeiros donos de tv) não toca no assuno e quando toca simplesmente desinforma.

    • George Postado em 16/Feb/2016 às 13:46

      *econômico

  4. Jean Postado em 15/Feb/2016 às 16:33

    Tem alguma coisa a ver com o artigo acima? Em todo caso, qual o nome do canal?

  5. poliana Postado em 15/Feb/2016 às 19:57

    Pereira, por favor, qdo seu canal estiver no ar, venha aqui falar pra gente. Quero muito ver os seus vídeos. Rsrs

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