Eric Gil
Colunista
Compartilhar
Capitalismo 02/Feb/2016 às 11:50
12
Comentários

Crises econômicas: os ciclos sincronizados do capitalismo

crises econômicas mundial brasil capitalismo ciclo

Eric Gil*, Pragmatismo Político

Enquanto vivermos em um sistema capitalista teremos crises econômicas a cada mais ou menos dez anos. A atual crise no Brasil é parte da mesma que se iniciou em 2007-2008 nos EUA e que atingiu o mundo inteiro (de formas, períodos e intensidades diferentes).

Apesar de tudo apontar para isto, grande parte dos analistas econômicos – sejam economistas ou jornalistas – insistem que a crise econômica que enfrentamos hoje possui causas internas (deve ser coincidência que ocorra neste contexto mundial de recessão) e muito pouco tem a ver com a economia internacional. Aproveitando o ensejo já gritam que isto tudo ocorre por um excesso de gastos públicos com aumento irresponsável de investimentos em Educação, Saúde, Previdência e Assistência Social. Logo, desvinculações de receitas da União e reforma previdenciária tornam-se as palavras de ordem.

As crises são cíclicas

Para quem tiver memória curta, pode ver no gráfico abaixo que no Brasil a coisa não é diferente.

Gráfico – Taxa de crescimento do PIB brasileiro (1971 – 2014)

Gráfico Taxa crescimento PIB brasileiro
Fonte: IBGE; Elaboração: SGS/BCB

Mas muitos dirão que esta instabilidade é porque falamos do Brasil, um país subdesenvolvido e que não sabe cuidar de sua própria economia. Então vamos para um gráfico apenas com países desenvolvidos, ou como gostavam de falar em algum momento de nossa história, de primeiro mundo: Alemanha, Canadá, EUA, França e Reino Unido.

Gráfico – Taxa de crescimento do PIB da Alemanha, Canadá, EUA, França e Reino Unido (1971 – 2014)

Taxa de crescimento PIB Alemanha Canadá EUA França Reino Unido
Fonte: SGS/BCB

O resultado foi o mesmo, a cada mais ou menos dez anos, a maldita crise econômica aparece. Várias são as explicações para este fenômeno (para saber sobre este debate no campo da teoria marxista aconselharia a dissertação de mestrado do agora professor de Economia da UFF, Marcelo Carcanhlo), mas o que gostaria de chamar a atenção com este último gráfico é para a sincronia dos países. Só no ano de 1991 temos um país com um resultado totalmente destoante do restante, com a Alemanha crescendo a 13,22% enquanto que os outros países variaram entre um pequeno crescimento de 1,21% (Reino Unido) a uma recessão de 2,09% (Canadá). A regra é clara, além de cíclica a economia mundial anda mais ou menos em sincronia (mais ou menos sincronizada dependendo das relações comerciais internacionais de cada país).

Leia aqui todos os textos de Eric Gil

As economias são contagiadas pela crise que estoura em um determinado local através de diversos mecanismos, como demanda por produtos de importação, preços internacionais de commodities, fluxos de capitais, etc. A desaceleração chinesa, por exemplo, impactou grande parte da atividade econômica de outros países por conta da sua queda da demanda por minérios, fazendo com que os preços destes baixassem.

E o Brasil?

O Brasil sofreu o primeiro impacto da crise econômica mundial ainda em 2009, quando o PIB sofreu uma retração de 2,5% no terceiro trimestre daquele ano. Em resposta a isto, várias políticas econômicas anticíclicas distorceram este fenômeno e, incentivando naquela época a atividade econômica, postergou os efeitos para o ano de 2014.

É, no mínimo, estranho um argumento que descontextualize o Brasil da situação econômica mundial. Economias importantíssimas nem sequer chegaram ao nível do PIB per capita anterior à crise (aqui me refiro ao ano de 2007), como França, Inglaterra e Itália, e outras estão quase que ao mesmo nível daquele período, que é o caso do Japão, que de 2007 a 2014 aumentou pouco mais de 600 dólares per capita no seu PIB.

Se um governo não pode impedir a existência de uma crise, o que resta para ele? Dilma escolheu, sim, quem pagará a maior parte da conta. Os cortes na Educação, na Saúde e no seguro-desemprego, o compromisso com a reforma da Previdência, veto à Auditoria da Dívida Pública e um longo etc., contrastam com as bilionárias isenções por parte do Governo Federal aos empresários (esses sim responsáveis por verdadeiros furos no orçamento do Governo), taxas de juros altíssimas (uma das coisas que explicam os recordes de lucros dos bancos) e insistência no superávit primário.

Se a crise econômica é inevitável, o lado que se toma entre patrões e empregados é optativo.

*Eric Gil é economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. Guilhermo Postado em 02/Feb/2016 às 12:34

    "Enquanto vivermos num regime capitalista teremos crises a cada, mais ou menos, 10 anos". A solução então seria o socialismo, no qual a crise é eterna? O capitalismo é desigual e propenso à crises, mas pelo menos, é possível ascender socialmente. Enquanto isso, no socialismo, todos, com exceção dos líderes, são pobres. É uma igualdade sim. Mas não uma "boa" igualdade.

    • Lucas Postado em 03/Feb/2016 às 13:23

      Tu tem noção do que era a Rússia antes da revolução de 1917?

      • Eduardo Ribeiro Postado em 03/Feb/2016 às 15:45

        Não faz isso. Eu aprendi a não tocar nesse assunto. Essa sua simples e pertinente pergunta desencadeará uma reação cósmica cataclísmica...existe UMA resposta aceitável para sua pergunta, UMA palavra que descreve com precisão e rigor histórico a Russia pré-17, um feito que é engrandecido especialmente pelo que ela se tornou e realizou em meros 30 anos vindouros...porem, prepare-se para ser metralhado por todos os clichês possiveis e imagináveis. Geral virá te "ensinar" sobre os supostos males do socialismo. "mimimi cuba é um lixo", "mimimi stalin matou 3 bilhões", "mimimi china e coréia do norte", "mimimi PT bolivariano", "mimimi marx vagabundo", "mimimi ditadura esquerdista", "mimimi nazismo e socialismo são a mesma coisa"...assistirei.

  2. Danilo Postado em 02/Feb/2016 às 14:08

    Sabe tudo de socialismo hein Guilhermo?

    • Guilhermo Postado em 02/Feb/2016 às 19:10

      Me prove que algum regime que já tenha tentado implantar esse regime não tenha se tornado aquilo que mencionei acima. Só um.

      • Joao Postado em 03/Feb/2016 às 09:29

        Nunca existiu amiguinho !!

      • Guilhermo Postado em 03/Feb/2016 às 15:53

        Todos que tentaram não conseguiram. Antes da rev. Russa dominava o czarismo, que era praticamente uma sociedade feudal. Uma bosta. Depois da rev, virou outra bosta.

      • Ricardo Postado em 14/Mar/2016 às 12:30

        Sim, Guilhermo: daí depois da experiência soviética veio a terceira bosta.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 02/Feb/2016 às 15:47

    Falácia grosseira e desonesta para defender os DESGRAÇADOS E TREVOSOS TEMPOS DA DITADURA MILITAR. Em toda nação do planeta, em toda a história da humanidade, toda vez que um país vivenciou a transição de uma sociedade agrícola para urbana, houve crescimento assombroso do PIB. Este processo, no Brasil, se iniciou nos anos 30 (!!!!!) e se cristalizou nos anos 70. A falácia já está destroçada, mas vale lembrar que pobreza se combate com crescimento distribuindo renda, e nós que estudamos História do Brasil sabemos que o país chegou ao topo do ranking mundial da desigualdade social exatamente durante essa época, a assim chamada era do "Milagre Economico". O salário perdeu metade do poder de compra que tinha 10 anos antes, e o trabalhador era massacrado se reclamasse. Se abrisse a boca, logo era rotulado de comunista, era sequestrado, torturado e morto. No fim, os vagabundos ditadores entregaram um país mais desigual, violentíssimo, favelizado, e com os serviços públicos absolutamente destruídos. Terra arrasada. Enfim.....só esclarecendo que existe uma infinidade de indicadores e quesitos para se analisar um período histórico além de crescimento econômico. É obrigação de quem conhece a verdade dos fatos corrigir algumas imprecisões históricas que sempre vem pelos dedos da mesma pessoa.

  4. Eric Gil
    Eric Gil Postado em 02/Feb/2016 às 17:29

    Este argumento que me refiro é justamente o que estou respondendo no artigo, e não o que concordo. Foram "aspas".

  5. Danilo Postado em 02/Feb/2016 às 20:03

    Não temos mais um só conceito de socialismo, o chamado socialismo democrático, que pode até se tornar uma transição para o capitalismo, existe nos países nórdicos, e funciona muito bem!

  6. Wesley Postado em 08/Feb/2016 às 20:48

    O artigo fala das crises cíclicas mas cai no clichê ideológico de sempre. Para entender do assunto basta ver a escola austríaca de economia e os ciclos econômicos. Essa teoria mostra os efeitos nefastos das interferências estatais na economia que os governos fazem através dos bancos centrais. Funciona da seguinte forma: Os bancos centrais manipulam artificialmente a taxa de juros e estimulam artificialmente o crédito. Essa expansão de crédito leva a um investimento errado, pois setores são artificialmente incentivados pelo governo e não há uma genuina demanda para esses setores da economia. Após o período de bonança do crédito barato, o governo necessita aumentar a taxa de juros novamente para não haver hiperinflação. Aí que as pessoas percebem que os investimentos que fizeram foram artificialmente estimulados, então o capital investido foi desperdiçado pela distorção do crédito artificialmente barato. Ai vem o periodo de recessão, onde há a inevitável correção dos investimentos mal realizados. É ai que o Brasil está atualmente, depois de anos de credito artificialmente expandido pelos bancos estatais. Esse é o pior momento. Então essas crises cíclicas nao são a falencia do capitalismo como é dito e sim do keynesianismo, onde os bancos centrais manipulam as economias dos países de acordo com os interesses dos burocratas e dos empresários e banqueiros amigos dos governos. Se quiser abolir as crises cíclicas, basca abolir os bancos centrais. Mas como os bancos centrais financiam a farra dos governos, empresários amigos do governo e dos banqueiros, então eles fazem o que todo governo adora fazer que é passar a conta aos pagadores de impostos.