Redação Pragmatismo
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Direita 16/Feb/2016 às 17:57
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Ameaças de morte contra Sakamoto são um alerta para todos os jornalistas

Ameaças de morte contra Leonardo Sakamoto após distorções criminosas de jornal mineiro são um alerta para jornalistas de todo o Brasil, independentemente de suas posições políticas e ideológicas

Jornalista Leonardo Sakamoto ameaças morte
(Imagem: O jornalista Leonardo Sakamoto)

blog do Alceu Castilho

Leonardo Sakamoto costuma encarar as violências verbais de seus leitores com uma dose de humor. Desta vez está sendo impossível. Após ter um texto sobre aposentados distorcido em um arremedo de jornal mineiro, está sofrendo ameaças de morte. “A situação tem piorado bastante”, escreveu, nesta quarta-feira. Os difusores de ódio querem vingança. Não por causa da mentira que foi propagada por pseudoprofissionais. Mas por sua defesa sistemática dos direitos humanos.

O caso diz respeito a todos os jornalistas do Brasil. A categoria está sendo economicamente massacrada. Atordoada, sem rumo definido. Precisa, porém, achar forças para sair ao menos das cordas do fascismo. A redefinição dos rumos profissionais, neste novo mundo sem carteira assinada, precisa ser acompanhada pela reafirmação de seu papel na garantia dos direitos humanos fundamentais. E é por isso que o caso Sakamoto se torna um símbolo.

O jornalista se tornou conhecido pelo trabalho na ONG Repórter Brasil, especializada no combate ao trabalho escravo. Mas ganhou notoriedade com seu blog no UOL, onde se afirmou na defesa de direitos das minorias. É professor da PUC-SP e cientista político – condição evocada pelo jornaleco mineiro para distorcer suas afirmações irônicas, como se ele tivesse defendido que aposentados devem morrer. (Estava justamente dizendo o contrário.)

CONTEXTO ADVERSO

Na década de 70 boa parte dos jornalistas era engajada. Muitos eram comunistas. Até mesmo em chefias de redação. Lutavam contra a ditadura. A partir dos anos 80 o perfil começou a mudar. E o individualismo dos anos 90 (quando Sakamoto estudava Jornalismo na USP, em São Paulo) atingiu em cheio as redações – que, desde os anos 2000, começaram a ser esvaziadas. Cargos de editores e colunas foram sendo cada vez mais ocupados por defensores das ideias dos patrões.

Defensores de direitos passaram a ser encarados como uma espécie de extraterrestres nas redações. Como se estivessem defendendo uma revolução, e não conquistas da humanidade afirmadas pelo próprio capitalismo no pós-guerra. Salvo exceções, esses jornalistas particularmente atentos às suas funções foram para as bordas da grande imprensa. Um dos grandes méritos de Sakamoto foi mostrar que existe espaço, sim, para esse tipo de profissional. Demanda. Leitores.

A exposição teve consequências. A personalidade forte do blogueiro (ou até mesmo sua figura física, inconfundível), seu texto claro, didático e seu estilo por vezes blasé, recheado de ironias contra os difusores do ódio, acabaram formando um séquito de admiradores e catalisando a fúria dos internautas mais intolerantes, aqueles entre a barbárie e a extrema direita, legitimados nos últimos anos por uma política pusilânime dos portais e do Ministério Público.

Sakamoto não é vítima de inocentes criadores de memes. É vítima de fascistas. E é como tais que eles precisam ser encarados. Não é preciso ser jornalista para combater o fascismo. Mas chamam a atenção certos silêncios. Os sindicatos do setor esvaziaram-se. E se afirmam como os principais distraídos em relação a essa escalada contra a liberdade de expressão. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tornou-se um arremedo da instituição que lutou contra a ditadura.

Enquanto isso, longe dos grandes centros, jornalistas menos conhecidos continuam sendo assassinados – e o número tem aumentado. Ou calados. Um colunista sergipano foi condenado por escrever uma crônica – uma ficção – sobre um desembargador coronelista. Assistimos a tudo isso sem a ênfase necessária. Como se fosse admissível a existência de liberdade de expressão em apenas algumas ilhas de democracia. E os ovos foram sendo chocados. Agora estouram na metrópole, supostamente mais à vista do poder político. E há quem não queira enxergar.

REAÇÃO NECESSÁRIA

Não é preciso ser de esquerda para defender Sakamoto e cada jornalista ameaçado pelo exercício de sua profissão. Basta ter algum apego por esse mínimo de democracia em que vivemos. Advogados, organizações de direitos humanos, sindicatos e partidos (partidos que ainda tenham algum ponto de contato com a democracia efetiva, não apenas os joguinhos do poder) precisam olhar para esses e outros casos com a plena consciência de que não se trata apenas de uma reivindicação corporativa. E sim de compromisso com o país.

O envolvimento de outros setores da sociedade, porém, não exclui a necessidade de mobilização da categoria. Individualmente, o jornalista acionou seus advogados. Mas é preciso bem mais que isso. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) tem sido uma voz isolada em relação à violência contra jornalistas em manifestações. Outras iniciativas precisam ser tomadas. Jornalistas que trabalham em um campo contra-hegemônico lidam com algumas situações específicas e talvez seja esta a hora de começarem a se comunicar melhor e com mais frequência.

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Comentários

  1. Trajano Postado em 16/Feb/2016 às 22:17

    É um contexto difícil e por isso uma discussão muito interessante que requer medidas urgentes. Difícil porque maiores do que as ironias do Sakamoto são as ironias da vida: um jornalista publica falsa entrevista de um outro jornalista (!!!) e este crime gera mais crimes, com direito às ameaças de morte citadas, fora o disse-me-disse fraudulento para difamar a imagem do jornalista atacado por grupos fascistas da internet. Sim, não somente organizações, mas a própria sociedade precisa se mobilizar contra este atentado à democracia. E é uma situação emergencial. Uma questão minha agora: mas e os jornalistas brasileiros? E o compromisso da classe profissional? A sociedade irá se sensibilizar para que lutem de forma coesa e alinhada por um grupo de profissionais sem coesão e em constante tensão? Existe fascismo entre alguns jornalistas ao publicarem sua interpretação enviesada recheada de ataques sem se importar com os fatos e outros, ainda, que se retroalimentam do fascismo que fomentam na sociedade. Os jornalistas não estão de acordo nem com a regulamentação da mídia, assunto que, particularmente, considero fundamental – para eles, não. Óbvio que o alicerce deve ser os direitos humanos, a Constituição, isso é inegociável. Crimes como esse simplesmente não deveriam acontecer, muito menos o trágico assassinato de jornalistas. Na verdade é estarrecedor! Temos então um contexto aqui no país imerso nesta tragédia: a partir do momento que o jornalismo por vezes vende “ódio” muito mais do que “democracia, o que se está construindo para a sociedade? Existem jornalistas que simplesmente detesto, incluindo, por incrível que pareça, o próprio Sakamoto – seu trabalho é importantíssimo, inteligente, criativo e abrangente, mas sua arrogância, seus chistes, seu “modo blasé”, enfim, nunca tive boas experiências com suas leituras, mesmo aquelas que, à princípio, eu me identificaria facilmente; ao menos pra mim, ele se coloca a parte, “eu” e “eles”, mesmo de esquerda, me sinto “desconvidado” o tempo inteiro em seus textos. “Desconvite” aceito, foi a última coisa que deixei de ler da empresa da família Frias após a contratação do Kinta Kategoria. Bom, jamais admiti ou admitirei qualquer ataque pessoal tão grave a um jornalista e justificar por causa da minha visão de mundo, de política, ideológica... de gosto! O mesmo vale aos políticos, por exemplo. Mas da mesma forma que eu, como leitor, como cidadão, estou me implicando no processo, estou esperando sentado que os jornalistas, de forma geral, façam o mesmo. Se o Castilho convencer alguém de que é possível coesão entre jornalistas por uma mesma causa, bom, será um belo começo. Sim, devemos lutar pelos direitos humanos, independentemente da classe profissional, independentemente da classe política. Este discurso é mais coerente e concordo totalmente. Suprapartidário e não corporativista. Mas, por favor, jornalistas, se impliquem no processo também!

    • Eduardo Ribeiro Postado em 17/Feb/2016 às 11:21

      Trajano é monstro, gabarita demais...

  2. George Postado em 17/Feb/2016 às 08:40

    o "jornal" que espalhou as mentiras é criminoso e deve pagar pelo que fez.

  3. Henrique Postado em 16/Feb/2016 às 21:44

    É vero! tilt na produção

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