Redação Pragmatismo
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Racismo não 26/Feb/2016 às 16:41
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A reação de uma jovem ridicularizada em sala de aula por ter cabelo afro

Universitária desabafa sobre preconceito racial em sala de aula e vídeo se espalha pela internet. Depois de saber que colegas reclamaram do seu cabelo afro e sugeriram que ela cortasse as madeixas, jovem de 20 anos rebateu críticas e recitou poema contra o racismo

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Aluna desabafa sobre preconceito racial na aula e vídeo viraliza na web

O desabafo contra o preconceito em relação ao cabelo afro feito por uma estudante de jornalismo de 20 anos está repercutindo nas redes sociais.

Moradora de Divinópolis (MG), Brunielly Keith discursou na sala de aula após ser alvo de críticas. Até o início da tarde desta sexta-feira, o vídeo (assista abaixo) com a resposta da universitária já contava com mais de 600 compartilhamentos.

O episódio aconteceu na última semana. Segundo Brunielly, ela havia faltado à aula quando uma amiga foi procurada por um grupo de colegas de sala.

“Ela estava sentada no intervalo, mexendo no celular, quando um grupo de quatro pessoas começou a falar do meu cabelo com ela. Era óbvio que ela ia me contar. Eram coisas do tipo ‘Ah, dá um toquinho nela que precisa passar um creme, cortar aquele cabelo, que ele não é bom’, várias críticas”, explica.

A estudante soube do caso na manhã seguinte, quando havia acabado de ler o poema “O meu cabelo não é ruim”, de Thiago Yuri, e achou que poderia usar aquelas palavras para conscientizar os colegas.

Como não teve aula na sexta-feira, ela resolveu abordar a situação na última segunda, 22 de fevereiro, quando o vídeo foi gravado por uma colega. “Foi quando eu pedi cinco minutinhos ao professor, antes do intervalo. Uma amiga minha filmou e postou no Facebook”, diz.

“Essas pessoas têm que escutar esse poema pra entender que o meu cabelo não é ruim. Que você, você, e você, todo mundo aqui, é da forma que tem que ser. Eu não preciso ser magra, não preciso ter o cabelo liso pra ser um padrão que eu sou bonita”, diz a estudante nas imagens gravadas dentro da sala de aula.

Brunielly conta que duas das pessoas envolvidas nos comentários estavam presentes no momento do discurso. “Eu consegui ver pouco a reação deles, mas ficaram bem envergonhados, pelo que os meus amigos me contaram”, diz.

Brunielly ficou incomodada com esse tipo de reação dentro do ambiente acadêmico. Ela está no 6º período do curso. “Uma turma de comunicação social, jornalistas são formadores de opinião. Que tipo de profissionais são esses que fazem esse tipo de injúria? Se a gente vê isso dentro da faculdade, o que será que está acontecendo nas escolas?”, questiona.

“O pessoal fala essas coisas sem pensar, e injúria racial é crime, não é brincadeira. A gente não pode falar sobre o outro julgando. É uma sala de comunicação. No mínimo o que se espera é mente aberta”.

A jovem ainda não sabe se vai denunciar o caso à Justiça. “É complicado porque não sou testemunha, minha amiga que viu”, comenta. “Eu acho que o vídeo por si só foi uma lição de moral”.

AFRO

Brunielly conta que assumiu o cabelo afro há quase dois anos e em outubro de 2015 criou um canal no Youtube voltado para pessoas que estão em transição capilar – processo de abandonar as químicas de alisamento para recuperar a estrutura natural dos fios – e que têm cabelo cacheado.

Ela conta que não é a primeira vez que foi alvo de comentários maldosos. “O que mais me marcou foi quando entrei em um ônibus e me sentei ao lado de uma senhora que disse que eu era bonita. Falou que eu tinha olhos bonitos, boca bonita, nariz bonito, mas que era uma pena eu ter esse cabelo. Na hora eu disse ‘A senhora me dá licença porque não vou sentar ao lado de uma pessoa preconceituosa’”.

Para as pessoas que enfrentam o mesmo tipo de situação, ela aconselha. “Não se calem jamais, nunca. Quem disser que o cabelo é ruim está mentindo. Que conceito é esse de cabelo ruim? Ruim é ter que escutar piadinhas sem graça todos os dias e ter que ficar calada. Não se cale”, diz.

Vídeo:

ESSA É MINHA RESPOSTA PARA VOCÊ QUE TENTOU ME RIDICULARIZAR. Um grupinho de alunos da minha sala se juntou na quinta para me ridicularizar. Falar coisas do tipo “Fulana já que você é amiga dela, diz pra ela que o cabelo dela não ta legal, que ela está levando a sério dms essa coisa de deixar cabelo natural” “ela poderia passar creme ne” “e se ela cortasse aquele cabelo” entre outros absurdos …Eu poderia responder esse grupo de várias formas, mas escolhi a arma mais poderosa para jogar, as palavras. E então, além de explicar algumas coisinhas para esse pessoal, finalizei meu discurso de feminista negra, tentando incorporar um poema do Thiago Yuri. MEU CABELO NAO É RUIM. RUIM É VOCÊ QUE FALA MAL DE MIM, E NAO TEM A CORAGEM DE OLHAR NOS MEUS OLHOS PARA ESCUTAR A RESPOSTA. É incrível a capacidade do ser humano em ser mesquinho. Mas sem problemas, eu sempre irei argumentar.Tirem essa cagação de regras do meu caminho, pq eu vou passar com meu black, livre, leve, solto, pra cima e grande, SIM! LEMBREM… Faculdade nenhuma te ensina a respeitar os outros. Vamos ter mais empatia? Talvez esteja na hora de levar essas discussões para sala! Nunca deixem que lhe digam que seu cabelo é ruim. Ruim são eles que não sabem respeitar. Aproveitei a filmagem que algumas pessoas fizeram para mostrar que não estamos só. Espero que chegue até você !#naomecalo #aloinstituicoes #cadeorespeito?

Publicado por Brunielly Keith em Segunda, 22 de fevereiro de 2016

Cristiane Silva, EM

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Comentários

  1. Guilhermo Postado em 26/Feb/2016 às 19:34

    Acho bonito esse cabelo dela.

    • Will Postado em 26/Feb/2016 às 21:57

      Eu acho feio

      • Marco Postado em 27/Feb/2016 às 12:50

        Tu é bicha.

      • Guilhermo Postado em 27/Feb/2016 às 14:53

        E vc é livre para isso. ^^

      • Jonas Schlesinger Postado em 28/Feb/2016 às 22:49

        5 querendo ser um maior do que outro. No máximo esses aí que comentaram acima do meu comentário são do mesmo nível que a sola do sapato da mulher

  2. Eduardo Postado em 26/Feb/2016 às 21:20

    A vida já é complicada a bastante para se inventar mais complicações.... é cada problema besta que arrumam para encher o dia a dia, ninguém é amado por todos, seja branco, negro, indio, amarelo etc.... sempre terá os que o gênio não combina. Aí é o cabelo, o pé chato, a bunda grande, a roupa, a maneira de falar, tudo vira motivo para implicância. Temos que sermos maiores que os que não nos toleram e tentam nos oprimir, está é a maior força contra eles.... sejamos maiores que eles em personalidade.

  3. José Ferreira Postado em 26/Feb/2016 às 23:26

    Assumiu o cabelo afro? Que frase esquisita. Como se o fato dela passar um creme a fizesse menos afrodescendente (acredito que também afrodescendente e não só afrodescendente, pois não conheço os antepassados dela). Os caucásicos podem ter o cabelo que quiser, o nariz que quiser, a roupe que quiser, mas os negros não podem. Quem quiser usar, use. Quem não quiser, não use. Sempre tem pessoas que gostam de certos estilos de cabelo nas pessoas (naturais ou tratados, independente de raça).

  4. silvio feitosa Postado em 27/Feb/2016 às 11:12

    Sao interessante estes enfrentamentos, pois ajudam a desconstruir a mascara branca que nos empurram (o conceito e do livro d Franz Fanon, Peles Negras, Mascaras Brancas). Ademais, tambem ajuda a combater o racismo velado.

  5. Marco Postado em 27/Feb/2016 às 12:54

    Por que vc não sentou em outra poltona. Ela não estava com algum objeto atrapalhando a sua visão e sim com o cabelo dela, que é natural, portanto não deve ser motivo da pessoa ter que se reirar de um lugar por conta disso. Seria a mesma coisa que uma pessoa muito alta.

    • poliana Postado em 28/Feb/2016 às 16:39

      eu entendi o q o naro falou, marco. e de fato, ele chegou primeiro, n tinha pq ele levantar e trocar de lugar...achei a atitude da moça exagerada tb...em tempos de politicamente correto, o trato para com o próximo hj está realmente muito difícil. mas o naro estava certo, ele n era obrigado a mudar de lugar não.

    • Jonas Schlesinger Postado em 28/Feb/2016 às 22:52

      É por isso que eu me importo hoje com muito poucas pessoas. Até os meus amigos podem ser vítimas de minha indiferença. Eu ser vítima de uma vítima? Prefiro passar é longe disso.

  6. Guilhermo Postado em 27/Feb/2016 às 14:56

    Talvez isso tivesse sido evitado se vc tivesse mudado de lugar ao inves de pedir pra ela mudar. Não to querendo pregar moral, só dando uma sugestão mesmo.

  7. Adriano Postado em 27/Feb/2016 às 19:09

    Naro Solbo, você estava certo em reclamar, cara. Esse discurso de "incomodados que se mudem" é muito escroto. Quem incomoda é que tem de se tocar e parar de incomodar. Mas cinema é um inferno. Assisti o último Jogos Vorazes no cinema e tinha um casal na fileira da frente sem calar a boca o filme todo. Quando reclamei, só faltava o cara me dar uma voadora. Se fosse um militante, ia gritar no cinema que o patriarcado branco e classe média estava tirando seu lugar de fala. Vivemos em tempos insanos.

  8. Rafael Martini Postado em 27/Feb/2016 às 21:03

    Aconselhar a moça a "cortar o cabelo, passar um creme, dizer que ele não é bom" , além de inconveniente, demonstra falta de empatia e desconhecimento do significado e do peso que têm os "padrões de beleza", sobretudo para as minorias. Agora, se as coisas se deram de acordo com o texto, ver injúria racial aí é forçar a barra.

  9. Mônica Costa Postado em 28/Feb/2016 às 08:50

    Trocar de poltrona, passar creme, achar feio, achar bonito... Discussão em torno do cabelo da moça só mostra mesmo o quanto a aparência das pessoas incomoda as outras. Preconceito difícil de disfarçar não é?

    • Jonas Schlesinger Postado em 28/Feb/2016 às 22:55

      Deixa de ser estúpida e burra. Interprete o texto no comentário do Anagrama. Foda-se se a mulher tem o cabelo do tamanho de um cocar, se ela está atrapalhando o meu campo de visão, E SE ELA CHEGOU DEPOIS E O CINEMA ESTÁ LOTADO, ela tem mais é que sair. Ou passar um cortador de grama na cabeça (pronto falei) Não vou ser hipócrita pra agradar nem aqui nem na China.

  10. Deisi Postado em 29/Feb/2016 às 08:06

    Jonas, foi ironia? Ou o velho Jonas veio a tona,? Só queria saber!