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Direitos Humanos 06/Feb/2016 às 10:00
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A origem dos casamentos infantis no Brasil

Pobreza e abusos estimulam casamentos infantis no Brasil. Segundo o Censo de 2010, pelo menos 88 mil meninos e meninas com idades de 10 a 14 anos estavam casados em todo o Brasil. Na faixa etária de 15 a 17 anos, são 567 mil

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Imagine que sua filha vai se casar. Engravidou do primeiro namorado, um rapaz mais velho que ela conheceu na vizinhança. Vai deixar de estudar por causa da gravidez e do marido. O jovem casal vai morar na casa dos pais dele. No entanto, ela só tem 12 anos.

O casamento de crianças e adolescentes brasileiros, como na situação narrada acima, é o tema da pesquisa Ela vai no meu barco, realizada pelo Instituto Promundo, ONG que desde 1997 estuda questões de gênero.

De acordo com o Censo 2010, pelo menos 88 mil meninos e meninas com idades de 10 a 14 anos estavam casados em todo o Brasil. Na faixa etária de 15 a 17 anos, são 567 mil.

A partir dos dados do Censo, a equipe de pesquisadores – financiada pela Fundação Ford, com apoio da Plan International e da Universidade Federal do Pará (UFPA) – foi ao Pará e ao Maranhão, Estados onde o fenômeno do casamento infanto-juvenil é mais comum, e mergulhou no universo das adolescentes que tão cedo têm que se transformar em adultas.

Numa pesquisa qualitativa, foram entrevistadas 60 pessoas, entre garotas de 12 a 18 anos, seus maridos (todos com mais de 20 anos), seus parentes e funcionários da rede de proteção à infância e adolescência no Brasil.
A idade média das jovens entrevistadas foi de 15 anos; seus maridos são, em média, nove anos mais velhos.

Mas os pesquisadores descobriram que, no Brasil, o casamento de crianças e adolescentes é bem diferente dos arranjos ritualísticos existentes em países africanos e asiáticos, com jovens noivas prometidas pelas famílias em casamentos arranjados pelos parentes ou até mesmo forçados.

O que acontece no Brasil, por outro lado, é um fenômeno marcado pela informalidade, pela pobreza e pela repressão da sexualidade e da vontade femininas.

Normalmente os casamentos de jovens são informais (sem registro em cartório) e considerados consensuais, ou seja, de livre e espontânea vontade.

Naturalização

Entre os motivos para os casamentos, a coordenadora do levantamento, Alice Taylor, pesquisadora do Instituto Promundo, destaca a falta de perspectiva das jovens e o desejo de deixar a casa dos pais como forma de encontrar uma vida melhor.

Muitas fogem de abusos, escapam de ter de se prostituir e convivem de perto com a miséria e o uso de drogas. As entrevistas das jovens, transcritas no relatório final da pesquisa sob condição de anonimato, mostram um pouco do que elas enfrentam, como esta que diz ter saído de casa por causa do padrasto, que a maltratava.

Porque eu tava entrando na minha adolescência, eu queria sair, eu queria curtir, queria andar (…). Eu me relacionei com ele, namorei com ele três meses, ele me convidou pra morar na casa dele, aí eu fui pra casa dele. Não gostava muito dele, eu só fui mesmo pelo fato de o meu padrasto (me maltratar), aí na convivência nossa ele (o marido) me fez aprender a gostar dele, e hoje eu sou louca por ele“, conta uma das garotas.

A jovem casou-se aos 12 anos, grávida, com um homem de 19. No relatório, os pesquisadores afirmam que ela relatou ser abusada pelo padrasto, mas não fica claro o tipo de abuso.

Também em Belém, outra jovem entrevistada, que casou grávida aos 15 anos, diz que a mãe “achou por bem a gente se casar logo, pra não haver esses falatórios que ia haver realmente”. O rapaz era cinco anos mais velho.

Em São Luís, uma das meninas mais novas entrevistadas relata que se casou aos 13 com um homem de 36 anos. E mostra a falta de perspectiva como fator fundamental para a decisão, ao dizer o que poderia acontecer caso não estivesse casada: “Acho que eu estaria quase no mesmo caminho que a minha irmã, que a minha irmã tá quase no caminho da prostituição”.

A coordenadora da pesquisa de campo em Belém, Maria Lúcia Chaves Lima, professora da UFPA, disse que as entrevistadas falaram de modo natural sobre suas uniões conjugais, mesmo sendo tão precoces.

É uma realidade naturalizada e pouco problematizada na nossa região“, afirma.

Segundo Lima, a gravidez ainda é a grande motivadora do casamento na adolescência, e a união é vista como uma forma de controlar a sexualidade das meninas.

A lógica é: ‘melhor ser de só um do que de vários’. O casamento também aparece como forma de escapar de uma vida de limitações, seja econômica ou de liberdade“, diz.

Legislação atrasada

O casamento infantil, reconhecido internacionalmente como uma violação aos direitos humanos, é definido pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (CRC) – que o Brasil assinou e ratificou em 1990 – como uma união envolvendo pelo menos um cônjuge abaixo dos 18 anos.

No Brasil, acontece mais frequentemente a partir dos 12 anos, o que faz com que os pesquisadores definam o fenômeno como casamento na infância e na adolescência.

Segundo a pesquisa, estimativa do Unicef com dados de 2011 aponta que o Brasil ocupa o quarto lugar no mundo em números absolutos de mulheres casadas antes dos 15 anos: seriam 877 mil mulheres com idades entre 20 e 24 anos que disseram ter se casado antes dos 15 anos.

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Mas essa estimativa exclui, por falta de dados, países como China, Bahrein, Irã, Israel, Kuait, Líbia, Omã, Catar, Arábia Saudita, Tunísia e os Emirados Árabes Unidos, entre outros.

De qualquer modo, os pesquisadores alertam para a falta de discussão sobre o tema no Brasil e a necessidade de mudanças na legislação. No Brasil, a idade legal para o casamento é estabelecida como 18 anos para homens e mulheres, com várias exceções listadas no Código Civil.

A primeira exceção — compartilhada por quase todos os países do mundo — permite o casamento com o consentimento de ambos os pais (ou com a autorização dos representantes legais) a partir dos 16 anos.

Outra exceção é que a menor pode se casar antes dos 16 anos em caso de gravidez.

Sonhos que envelhecem cedo

De acordo com as entrevistas e a análise dos pesquisadores, o que acontece, na maioria das vezes, é que, em vez de serem controladas pelos pais, as garotas passam a ser controladas pelos maridos. Qualquer sonho de escola ou trabalho envelhece cedo, na rotina de criar os filhos e se adequar às exigências do cônjuge.

O título da pesquisa, Ela vai no meu barco, vem de uma frase de um dos maridos entrevistados, de 19 anos, afirmando que a jovem mulher, de 14 anos, grávida à época do casamento, tinha de seguir sua orientação.

Ela vai no sonho que eu pretendo pra mim, né? Ela vai seguindo… Acho que é uma desvantagem de a pessoa não ser bem estruturada, né? Geralmente cada um leva as suas escolhas, né? Mas por ela ser mais nova e eu ser mais velho, tipo assim, ela vai no meu barco“, resume ele.

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Casadas, as jovens muitas vezes enfraquecem seus laços de amizade, sua vida social e passam a se dedicar apenas ao marido e aos filhos. São alvo do controle e do ciúme dos maridos, e algumas relataram casos de violência.

Queremos alertar que essa situação não é apenas restrita aos rincões do país. As entrevistas foram feitas em Belém e São Luís, o que mostra que é uma questão que ocorre nos centros urbanos“, afirma Alice Taylor.

Fernanda da Escóssia, BBC

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Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 06/Feb/2016 às 15:04

    Nossa quanto alarde. No Brasil a idade consensual é de 14 anos pra cima sendo que é comum no ocidente meninas e meninos namorarem cedo. Já o casamento na adolescência eu acho precipitado justamente por serem pessoas imaturas e que ainda não possuem formação. Mas se a pessoa quer se casar antes dos 18 quem sou eu pra criticar, e se o juiz ver que está tudo certo então não vou contestar. Mas temos que ver quando o caso é de pessoas muito velhas se casarem com pessoas muito novas. Por exemplo, um homem de 40 anos querer se casar com uma de 14. Enfim, agora mais pior do que isso é quando lá na península arábica obrigam meninas de 9 anos a se casarem com velhos nojentos, muçulmanos e seguidores da sharia. É como sempre venho dizendo, ocidente= séc XXI,,, oriente= séc XIX

  2. Priscilla Postado em 06/Feb/2016 às 22:13

    Jonas Schlesinger amore a questão é que essas jovens, segundo o texto, se casam por falta de opção. As famílias tratam-nas como se fossem jovens moças da década de 1930, que não podem "ficar faladas", e as empurram para um casamento sem pé nem cabeça. Que garoto de 19/20 anos pode dar sustento e futuro pra uma garota grávida de 14/15 anos? Só pare e penso um pouco o plano de fundo disso... Em todas as situações a jovem fica em casa cuidando do lar, do filho claramente indesejado e do "marido". Se isso não é consequência do machismo, então eu não sei o que é.

  3. Emanuel Postado em 07/Feb/2016 às 04:20

    Há alguns pontos interessantes a serem analisados. Um que sempre me chamou a atenção é a idade dos cônjuges: Em média, 5 anos a mais que as meninas. Estamos falando de um homem na idade dos 20 anos e de uma adolescente de 14, 15. Qual o nível de maturidade do sujeito em questão? É dizer, o que leva um marmanjo de 20 anos a se envolver com uma mulher ainda em sua formação? O simples "culto da novinha"? A mulher apenas como acessório sexual? Ou de fato estamos diante de um sujeito infantilizado o bastante para satisfazer - se num relacionamento com alguém que, em teoria, teria maturidade bem abaixo da sua? Cabe ainda apontar que essas meninas buscam emancipação. Ao sair da casa dos pais, passam de filhas a chefes de família, por mais que subordinadas aos maridos. É uma forma canhestra de ascensão, mas muito utilizada. O resultado é o conhecido ciclo de famílias que começam sem qualquer estruturação emocional, de maturidade ou mesmo financeira... Afinal, poucos são os casos em que a escola continue sendo uma realidade na vida dessas famílias.

  4. Aliyah Postado em 07/Feb/2016 às 13:51

    Mais o Brasil é um país cristao evangelico.acontece isso?! Pra ver que religiao nao tem nada aver com pobreza e cultura. Ou sera que é so no Brasil que nao misturam casamento infantil com religiao e cultura.!

  5. Débora Postado em 10/Feb/2016 às 20:07

    Casamento infantil é antes dos 9 anos de idade. Antes da puberdade! Nada a ver com adolescentes.