Redação Pragmatismo
Compartilhar
Geral 02/Feb/2016 às 19:12
20
Comentários

A história desoladora de Paula Cooper, condenada à morte já na adolescência

Uma das detentas mais jovens condenadas à cadeira elétrica nos EUA, Paula Cooper obteve o que parecia impossível: conseguiu ser solta após passar uma vida na prisão. Em liberdade, superou todas as adversidades. Só que, no fim das contas, não foi o suficiente e cometeu suicídio. Sua história é desoladora

Paula Cooper

Amy Linn, TNYT

Quando Paula Cooper tinha quinze anos, ela e três colegas de escola em Gary, Indiana, decidiram matar aula e roubar algum dinheiro para jogar fliperama. Beberam vinho barato, fumaram maconha e entraram na casa de uma professora de Religião de 78 anos, Ruth Pelke, porque achavam que ela podia ter alguma quantia guardada em uma lata de biscoitos.

As adolescentes a convenceram a deixá-las entrar se dizendo interessadas nas aulas; lá dentro, porém, um delas a atingiu com um vaso. Paula a golpeou 33 vezes com uma faca de açougueiro. As outras ficaram paradas, olhando; uma a ajudou, as outras foram procurar o dinheiro. Saíram com US$ 10 no antigo carro da idosa.

As outras três garotas receberam penas longas. Paula admitiu o assassinato e, em 1986, foi condenada à cadeira elétrica, tornando-se a detenta mais jovem no corredor da morte da história do estado.

O que se seguiu foi extraordinário. Bill Pelke, neto da professora, perdoou Paula pela morte de sua querida avó, que nunca teria querido uma execução, disse ele. E começou uma campanha para salvar a vida da moça, mandando-lhe cartas constantes e fazendo visitas.

— Ela me disse que estava muito arrependida pelo que tinha feito — conta Bill, presidente da Journey of Hope: From Violence to Healing (”Jornada da Esperança: da Violência à Cura”), grupo anti-pena de morte que ajudou a fundar.

Mais de dois milhões de pessoas, a maioria da Europa, assinaram a petição em favor da jovem; na Itália, manifestantes começaram uma verdadeira cruzada pró-Paula Cooper, com direito a camiseta com a foto de sua ficha criminal. Até o Papa pediu clemência.

Em 1989, a justiça de Indiana mudou a pena de Paula para 60 anos de cadeia. Ela se formou, passou a treinar cães de trabalho para deficientes, cuidava das outras presas e era responsável pela cozinha do presídio. Em junho de 2013, após passar toda a vida adulta como a detenta 864800, foi libertada, com décadas de antecedência, graças ao seu bom comportamento.

Ela não sabia usar a internet. Vira e mexe se perdia; na cadeia não havia a necessidade de conhecer o caminho de nada porque sempre lhe diziam para onde ir.

— Não sabia usar o caixa eletrônico, não conhecia nada — admitiu.

Apesar disso, foi contratada para preparar hambúrgueres na Five Guys e logo se tornou gerente. Ficou noiva e se mudou para um apartamento com o futuro marido. Acabou conseguindo o emprego dos sonhos como assistente legal da Defensoria Pública em Indiana, comandada por sua amiga de longa data e advogada de defesa, Monica Foster.

— É preciso ter esperança. Se você desistir, nunca vai chegar a lugar algum — Paula disse.

Paula Cooper presa
Paula Cooper é abraçada pela irmã após receber diploma no presídio de Indiana, onde cumpria pena

Em 26 de maio de 2015, dois anos após a soltura, Paula se matou. Eu fui uma das poucas jornalistas a conversar com ela depois da saída da prisão e a última com quem falou, através de um telefonema, cerca de um mês antes de sua morte. Eu estava planejando ir a Indianápolis para finalmente conhecê-la e fazer um artigo sobre adolescentes no corredor da morte que se recuperaram.

Se tinha uma pessoa que representava superação, esse alguém era Paula. Mas ela me pediu para esperar um pouco.
— Minha vida está tranquila agora, do jeito que eu queria. Assim que o pessoal descobrir quem eu sou, vão falar o diabo por causa do que fiz. Vão começar a me pintar como um monstro — ressaltou.

Paula sofria de depressão severa desde a infância, segundo me disse sua irmã mais velha, Rhonda LaBroi – que implorou para que a caçula procurasse ajuda médica. Depois de tanto tempo na prisão, porém, Paula não confiava em ninguém. E conta que, no bilhete que deixou, escreveu:

“Quem sofre de alguma doença mental não deve fazer o mesmo; não se matem, procurem ajuda de qualquer forma possível.”

A história de Paula é desoladora: a mãe tentou cometer suicídio e matar as filhas, Paula e Rhonda, quando eram crianças. Com as meninas no carro, ligou o motor na garagem fechada. O pai, Herman, já falecido, batia nas duas diariamente, geralmente com um fio elétrico. A administração da escola, a polícia e a assistência social não se manifestaram.

— Imploramos para nos ajudarem, mas nunca fizeram nada — conta Rhonda.

Na detenção, o tormento continuou. Sobre o Presídio Feminino de Indiana, sua primeira “casa”, disse:
— Tinha guarda ali que vivia para fazer da nossa vida um inferno — afirmou .

Quando tinha vinte e poucos anos, passou três anos na solitária, acumulando novas cicatrizes sobre as antigas.

Segundo Monica Foster, advogada há trinta anos, as principais causas da criminalidade são traumas crônicos, negligência ou abuso.

— Paula mostrou que as pessoas têm possibilidades incríveis. Ela foi caindo, caindo, caindo, foi condenada a morte, cumpriu 28 anos, foi solta e se deu bem – conseguiu superar todas as adversidades. Só que, no fim das contas, não foi o suficiente, porque ninguém lhe ofereceu a ajuda que merecia — disse a advogada depois da morte de Paula. — Uma tragédia absurda.

Na detenção, o tratamento de problemas mentais não passa de um comprimido por dia. A própria Paula contou à irmã que tomou antidepressivos durante um tempo. Não se exige tratamento de acompanhamento para a “reentrada”, termo bastante adequado para o que se assemelha muito à volta do espaço sideral.

Mudanças básicas teriam feito uma grande diferença para ela – e, de acordo com juízes, psiquiatras e advogados, implantá-las hoje poderia ajudar milhares de outros presidiários. E isso não tem nada a ver com mordomia porque as reformas cortariam custos, reduzindo a reincidência.

Precisamos fazer avaliação de saúde mental, criar programas adequados de aconselhamento e tratamento, promover a reabilitação e fornecer medicação apropriada, e não só sedativos. O tratamento pós-soltura deveria ser premissa para a liberdade condicional, assim como a expansão do uso dos “tribunais de reentrada” especializados em saúde mental, que ofereceriam diretrizes e apoio intensivo.

Quaisquer que fossem os demônios que atormentavam Paula, ela os escondeu muito bem. Ela aprendeu a ir ao supermercado e a dirigir (muito mal). Era a voz paciente e alegre ao telefone com os clientes do departamento, solitários e assustados. Fez apresentações em duas faculdades, falando sobre “retribuição à comunidade”. Fez tudo o que podia para ajudar um sem-teto com problemas mentais em seu bairro.

Só que ela também se sentia doente mentalmente e o confessou à irmã. Rhonda contou: “Bill Pelke a perdoou, mas ela não conseguia se perdoar. Disse que sentia não ter direito à vida.”

Há muitas Paulas no país. As prisões soltam mais de 650 mil presidiários todo ano. Segundo a Agência de Estatísticas da Justiças, cerca de 70% das mulheres em prisões estaduais sofrem de algum tipo de distúrbio mental.

Paula precisava de ajuda para sobreviver ao desespero de ter cometido um crime. A irmã afirma que ela pensava nisso todos os dias. Quando o neto de sua vítima a visitou e a perdoou, chegou a lhe dar um abraço. “Você tirou um peso das minhas costas”, ela disse a ele. No fim, aquele não era o único.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. André Nelson Postado em 02/Feb/2016 às 23:00

    Eu ia escrever alguma coisa, mas como já fui censurado, não contribuirei para o site.

    • Jonas Schlesinger Postado em 03/Feb/2016 às 03:04

      Ué, mas vc escreveu alguma coisa :/

  2. luis Postado em 03/Feb/2016 às 00:34

    Que exemplo de vida! Eu tentei matar uma pessoa uma vez, mas na quinta facada já estava muito cansado e o desgraçado sobreviveu...

    • Daniele Postado em 03/Feb/2016 às 07:34

      Babaca.

      • eu daqui Postado em 03/Feb/2016 às 13:30

        Vitimopata

      • luis Postado em 03/Feb/2016 às 14:20

        Tenta matar alguém a facadas antes de criticar!

  3. João Paulo Postado em 03/Feb/2016 às 16:46

    Uma vida e 33 facadas em troca de 10 dólares. Ainda bem que não a executaram logo. A vida foi um inferno para ela. Agora, o inferno será sua vida. E que se fod... os hipócritas de plantão.

  4. sergio ribeiro Postado em 03/Feb/2016 às 16:51

    Ia repassar a coxinhas, mas são tão burros que jamais vão entender. Vão achar que tinha mais é que se matar mesmo, que eu devia adotá-la, etc., etc. Perda de tempo

  5. Wesley Postado em 03/Feb/2016 às 20:08

    SÓ TENHO PENA DA IDOSA...QUEM MORREU COMO UM BICHO, COM 33 FACADAS SEM AO MENOS TER MERECIDO E COVARDEMENTE.

  6. Guilhermo Postado em 03/Feb/2016 às 23:52

    Espero que ela (Paula Cooper) tenha sofrido bastante antes de morrer. Sem nenhuma falsidade. Espero mesmo. O texto ainda tenta transformar essa aberração em heroína. Tudo bem errar na vida, mas no momento que o erro é grotesco, ao ponto de esfaquear uma idosa 33 vezes sem motivo plausível algum, não consigo sentir pena da assassina.

    • eu daqui Postado em 05/Feb/2016 às 09:01

      Vitimismo é assim: transforma a hediondez em direito vingancista

  7. Torquato Postado em 04/Feb/2016 às 05:50

    Cara, não costumo comentar, porém, vocês leram o texto? A vida da mulher foi difícil desde sempre, abusada pelo pai, ignorada pela mãe, sem condições, sem educação, sem criação. Tudo bem, vocês podem falar que tiveram uma vida difícil (eu também tive), más os resultados são diferentes em cada um, sei que o crime cometido por ela é hediondo, porém não sou juiz, quando foi solta tentou se corrigir, tentou fazer o bem para a sociedade. Vocês que acusam a morte a qualquer um, a qualquer erro, lhes digo, na paz somos todos santos, na guerra o demônio mora a um passo. Se o neto foi capaz de perdoar, por que vocês a condenam? Qual é o seu direito? Em que lugar no pacto social está atitude que tantos tomam é justa? Bem em resumo, se existe um pós mundo, se existe um Deus, ou muitos, espero que as duas possam se reencontrar, e então, e só então existirá perdão ou não ... espero que sim. E pra quem for comentar que sou ingênuo, inocente, já logo digo: Curso História, conheço os massacres da humanidade e com bases lhes digo, erros pessoais são passageiros, erros de uma massa em ódio, em busca de uma falsa justiça, levam aos maiores genocídios imagináveis.

    • eu daqui Postado em 05/Feb/2016 às 09:00

      E o que a idosa assassinada tinha ver com as desgraças da assassina?

      • luis Postado em 05/Feb/2016 às 12:44

        Tinha a ver que se colocou entre ela e os cinquenta reais (10 dólares). Véia opressora do [email protected]!

    • Thiago Teixeira Postado em 05/Feb/2016 às 14:28

      Para os coxinhas adeptos a vida e o discurso fácil ... isso não vem ao caso. Se fosse branquinho de olhos azuis, seria distúrbios mentais, ai seria um coitadinho.

      • Jonas Schlesinger Postado em 05/Feb/2016 às 21:51

        Não senhor. A meliante matou uma mulher idosa. Pagou pelo que fez. Ela jamais será uma heroína e exemplo de vida. Só teve mais sorte porque não sentou na cadeira elétrica. Uma coisa que me deixa indignado é maus tratos a idosos, animais e crianças. Pessoas que fazem isso não deixarão de ser vilão, nunca!

  8. Ricardo Postado em 06/Feb/2016 às 15:21

    FALOU JOANS SCHLESINGER. AQUELE QUE JULGA OS OUTROS. IRÔNICO É QUE SCHLESINGER É SOBRENOME JUDEU. O MESMO POVO QUE MASSACRA OS PALESTINOS, SEJAM IDOSOS, JOVENS, MULHERES, HOMENS OU CRIANÇAS. A PERGUNTA QUE NÃO CALA É: PORQUE TU NÃO VAIS MATAR OS VILÕES? OU SEJA, OS TEUS! VIU COMO É ESCROTO JULGAR?

    • Jonas Schlesinger Postado em 07/Feb/2016 às 17:40

      Nossa quanta agressividade da querida! Ninguém te chamou pra conversa, hater em treinamento. Às vezes fico pensando se esse é um indivíduo diferente ou um outro nome de alguém que gosta de mim. Não vou falar nem o nome pra não dá enxame. E outra coisa, a gente tá falando de uma homicida que matou uma idosa por míseros dólares. Queria saber se a sua avó fosse morta com esse requinte de crueldade quero ver se ainda tivesse esse sangue de barata que tu tens.

  9. paul Postado em 11/Feb/2016 às 08:32

    Espero que essa maldita queime no inferno!

  10. Maria Célia Postado em 26/Feb/2016 às 15:22

    Quando ela teve consciência, viu o que fez e não se perdoou.

O e-mail não será publicado.