Luis Gustavo Reis
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Desigualdade Social 16/Feb/2016 às 18:38
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A fome e o desperdício

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Atualmente, mais de 100 milhões de crianças estão em estado de desnutrição no mundo. (reprodução)

Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

Josué de Castro, um dos geógrafos brasileiros mais respeitados no mundo, escreveu o seguinte trecho:

[…] a fome não é um produto da superpopulação: a fome já existia em massa antes do fenômeno da explosão demográfica do pós-guerra. Apenas esta fome que dizimava as populações do Terceiro Mundo era escamoteada, era abafada, era escondida. Não se falava do assunto que era vergonhoso: a fome era tabu.

Quase 50 anos depois da publicação do trecho, o tema da fome continua presente e constitui uma mancha na história contemporânea. Segundo relatório produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 805 milhões de pessoas sofrem de subnutrição no mundo. Cabem as perguntas: Por que ainda convivemos com a fome? Seria um problema de produção ou de distribuição de alimentos?

Estudos mostram que o desperdício de alimentos alcança índices alarmantes. Cerca de 1,3 bilhões de toneladas de comida vão para o lixo anualmente em todo o planeta, sendo que metade desse desperdício ocorre na fase inicial da produção, manipulação, pós-colheita e armazenagem. O restante acontece nas fases de processamento, distribuição e consumo.

No Brasil, por exemplo, mais da metade do que produzimos vai para o lixo. Um levantamento feito pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) aponta que o Brasil – quarto maior produtor de alimentos do mundo – desperdiça 40 mil toneladas de alimentos diariamente, quantidade suficiente para garantir as três refeições do dia (café da manhã, almoço e jantar) para mais de 19 milhões de pessoas.

Há no mundo regiões inteiras devastadas pela fome. Na África Subsaariana, uma em cada quatro pessoas convive com a fome crônica. No continente asiático, aproximadamente 526 milhões de pessoas não têm o que comer. Para termos uma ideia, os países desenvolvidos desperdiçam, em média, 222 milhões de toneladas de alimentos, quase a mesma quantidade produzida para alimentar a África Subsaariana, que produz 230 milhões de toneladas. Os dados assustam, sobretudo quando se constata que a fome é um problema de distribuição, não de produção.

Um documento elaborado pela Cúpula do Milênio, em reunião promovida pela ONU no ano 2000, fixava com um dos objetivos atingíveis até dezembro de 2015 a erradicação da extrema pobreza e da fome. Ainda que os 189 países-membros tenham ratificado o documento, as metas não foram atingidas. Atualmente, 1,2 bilhões de pessoas vivem em extrema pobreza. Um em cada oito indivíduos não dispõe de alimentação suficiente para suprir suas necessidades energéticas.

Enquanto a fome persiste, as autoridades públicas mundiais estão paralisadas pelo descaso. As grandes redes de fast-food, bastante conhecidas pelos desrespeitos às leis trabalhistas, destacam-se, sobretudo, pela quantidade de comida que jogam no lixo; além disso, pouco se mobilizam para conter o desperdício em suas dependências ou para criar ações de reaproveitamento de alimentos. Já os cidadãos descartam qualquer alimento que não consideram adequado para o consumo, além de transferir integralmente para o Estado a responsabilidade de eliminar a fome.

Conviver com milhares de famélicos no mundo é, no mínimo, vergonhoso. Constatar que dispomos de todas as técnicas de produção, mas que ainda assim milhares de crianças, adultos e idosos não têm condições mínimas de sobrevivência reduz nossa humanidade e coloca em xeque um dos princípios salutares da vida em sociedade: o compromisso com o próximo.

Leia também:
Brasil é referência no combate à desnutrição e à pobreza, diz ONU
Brasil é o país que mais reduziu a fome no mundo, diz ONU

*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colaborou para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Guilhermo Postado em 16/Feb/2016 às 19:45

    Textos assim já vi vários. E concordo. Só que não adianta reclamar e não propor soluções para eliminar o problema. Eu, assim como o autor do texto, admito não ter nenhum palpite para acabar com essa situação. Alguém aí tem alguma ideia?

  2. Jonas Schlesinger Postado em 17/Feb/2016 às 01:53

    Eu discordo de uma coisa: quando diz que é também dever nosso acabar com a fome no mundo. É dever do Estado. A população pode contribuir, mas nunca ser forçada a dar parte do seu dinheiro para os pobres. Isso só existe no dízimo dos evangélicos. Há famélicos? Problema dos governos, porque não interessa se for um progressista ou conservador. TODOS os governos têm interesses e até criam programinhas sociais meia-bocas que de fato dão alguma melhora. Não é obrigação minha dar dinheiro pra mendigo, porém pode ser um ato voluntário meu. Vejo mendigo todo o dia quando estou indo pro trabalho, sempre penso que isso é problema do estado; mesmo assim vou lá e ajudo. Má distribuição? Sim. Mas são os governos/estados que criam essa enorme relevância da fome e deixam que ela assole o mundo afora, e por fim o $$$$ prevalece em qualquer lugar. Talvez nunca melhore, infelizmente; porque em terra de Foice e Martelo e terra de Estrela de Davi pode haver muita diferença ideológica, mas na prática quem vence é o capital $$$$$$$ money $$$$$ dólar na mão, fome do cão.

  3. Joao Postado em 17/Feb/2016 às 10:45

    Capitalismo selvagem !

  4. João Paulo Postado em 17/Feb/2016 às 15:26

    Bem, uma coisa é certa: desde que o PT chegou ao governo, a fome diminuiu substancialmente. Não creio que tenhamos a receita para o problema, porque somos um país rico e desigual. Algo que não acontece em boa parte da África e Ásia, que são desiguais e paupérrimos. Ninguém tem dúvida que boa parte das mazelas do mundo decorrem do liberalismo. Todavia, é enfadonho e cômodo culpar figuras "extremamente" abstratas como o liberalismo, o capital e o Estado. Com o devido respeito ao senso geral, o Estado não é responsável pelas desigualdades. A desigualdade é quem criou formas de Governo e Estado. Este é apenas um instrumento do capital para aplacar a ira da sociedade e evitar o conflito de classes. Como superá-los? Saquear países europeus e magnatas para compensar os desmandos do passado? Intervenção militar? Com qual exército? A ausência de controle de natalidade é um tabu para direita, esquerda, centro, ou qualquer outra direção. As vítimas são tratadas apenas como vítimas de um sistema cruel. E realmente o são. Mas qual a contribuição efetiva, qual o esforço, seja ele qual for, existe para readequar suas realidades. Como planejar um futuro quando a fome é uma necessidade imediata? Não sei, mas certamente não é com o surgimento de proles nem recebendo migalhas de ONGs e países com interesses escusos. Independentemente de qual for a ideologia política-social e a convicção religiosa, desde anarquistas ateus a neo-liberais cristãos, aplica-se a teoria bíblica de multiplicação de semelhantes. A hipocrisia religiosa e de pseudo-direitos das mulheres em procriarem irresponsavelmente ainda permeia a opinião daqueles que acham que é "só acabar com a corrupção ou que a culpa é do Estado". Se o controle populacional não é chave para combater a fome, certamente é para atenuá-la. E isso não depende de ajuda divina, tampouco não pode (ainda) ser controlado pelos interesses econômicos.

    • Joao Pessoa Postado em 19/Feb/2016 às 11:01

      O Certo e que.....mesmo vivendo Decadas...nao veremos ou ouviremos tudo ! João Paulo - POSTADO EM 17/FEB/2016 ÀS 15:26 ''Bem, uma coisa é certa: desde que o PT chegou ao governo, a fome diminuiu substancialmente. Não creio que tenhamos a receita para o problema, porque somos um país rico e desigual. Algo que não acontece em boa parte da África e Ásia, que são desiguais e paupérrimos. Ninguém tem dúvida que boa parte das mazelas do mundo decorrem do liberalismo. '' Gracas a Estas Incriveis Opinioes e Ideias.....Continuaremos seguindo nesta Estrada que nao Leva a lugar nenhum..''Liderada'' por ''Lideres Populistas'' fabricados nas Entranhas mais Fetidas da Politica , que se utilizam da Ignorancia e da Miseria para Sobreviverem ! Enquanto Viver o Populismo e a Inercia Politica...a Ignorancia e a Pobreza nao serao Erradicadas !