Redação Pragmatismo
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Racismo não 22/Jan/2016 às 12:16
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Por que o Brasil é um dos países mais racistas do mundo?

O fosso que separa os negros dos brancos no Brasil é pior ainda quando se faz um recorte de gênero. Se os homens negros jovens são as principais vítimas da violência tanto institucionalizada por meio das forças de repressão do estado, quanto por meio social, são as mulheres negras as principais vítimas do racismo relacionado à estética. Racismo este que destrói e mutila a autoestima dessas negras

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Edergênio Vieira, DM

As jornalistas Cristiane Damaceno e Maria Júlia, a “Maju”, e as atrizes Thaís Araújo e Sheron Menezes, além de serem mulheres e negras, têm mais fatos que as ligam como personagens marcantes desse ano de 2015. O que conecta essas 4 mulheres e outras muitas anônimas no Brasil é o fato de que todas foram vítimas de racismo.

Alexandra Loras, que não é tão conhecida do público brasileiro quanto às mulheres acima, mas mesmo assim ela tem muito a dizer sobre esse tema. Alexandra é uma jornalista francesa de 38 anos, graduada pela mais respeitada escola de ciências políticas da França, a Sciense Po. Casada com Damien Loras, cônsul geral da França no Brasil, ela reside na capital paulistana há três anos, em recente entrevista a Revista Istoé, (N° Edição: 2400 /27.Nov.15) a senhora Loras, afirma peremptoriamente que “O Brasil é um dos países mais racistas do mundo”.

A consulesa fala com a propriedade de uma mulher que já viajou por mais de 50 países e que já morou em pelo menos 8, ou seja Loras, sabe, ou melhor já sentiu na pela e na alma o racismo à brasileira. O mesmo que sofreram, sofrem e sofrerão Thaíses, Sherons, Majus, Cristianes, Raíssas, Cíntias, Lidianes e Alexandras. O racismo à brasileira que de uma população 57 % de negros/as coloca apenas 4% nas telas das TVs. Racismo à brasileira que leva a invisibilidade negros/as nas escolas, nos ambientes de trabalho e nos círculos de poder.

Onde estão @s [email protected] [email protected]? Quantos somos nas universidades? Nas Câmaras Legislativas? Nas Assembleias? Nos Tribunais de Justiça? Nas prefeituras? Governos? Nos secretariados? Nós ministérios? Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas divulgaram por meio da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) uma análise das condições de vida da população brasileira em 2015, no último dia 04 de dezembro, que evidencia que algo vem sendo feito nos últimos anos no país, porém há ainda um abismo que separa [email protected] e [email protected] no Brasil.

E o fosso que separa os negros e brancos é pior ainda quando se faz um recorte de gênero. Se os homens negros jovens são as principais vitimas da violência tanto institucionalizada por meio das forças de repressão do estado, quanto por meio social, são as mulheres negras as principais vítimas do racismo relacionado à estética. Racismo este que destrói e mutila a autoestima dessas negras. E levam-nas a buscarem um processo de embranquecimento que vai desde o alisamento do cabelo que chegam até ao pasmem, produtos de beleza que prometem o clareamento da pele.

A pesquisa com as bonecas mostra que o buraco é mais embaixo: 85% das crianças negras escolhem a boneca branca como a boazinha e a negra como a má e feia. Tudo isso é fruto de uma ideologia que veicula nos meios de comunicação, nas novelas, seriados, em todos os cantos a supremacia de um fenótipo branco como “padrão de beleza”.

Mas e as mulheres negras o que sobra?

No período da colheita do café, que geralmente começava no mês das “noivas”, Maio. Nesses períodos os dias são bem longos e penosos. É inverno ainda, contudo um inverno dos trópicos, com seu sol a flambar nas dez horas de faina, transformando a terra em fornalha. Nessas horas as negras, queimavam ao sol, nas lavouras da plantations. As mãos suaves eram as escolhida para colherem o algodão. Além da lida no campo, elas eram responsáveis por inúmeras obrigações tanto físicas como sexuais.

É evidente que esse olhar da mulher negra como “pau para toda obra”, distancia-se da visão idílica de mulher como sexo frágil. Mesmo antes de o movimento feminista reivindicar o direito ao trabalho, as mulheres negras já ocupavam as lavouras e posteriormente as fábricas. Toda essa carga racista, machista e preconceituosa de outrora evidencia a atual situação das mulheres negras brasileiras. Queríamos que esse retrato da sociedade fosse uma fotografia do século XIX, queríamos, porém não o é. A ideologia dominante edificou o imaginário que relacionou a negra ao prazer sexual do branco, reconhecendo e fazendo recair em seu corpo o arquétipo da escrava e coisificação sexual, gerando a inveja das senhoras brancas.

As mutilações, extirpações, deformações e outras atrocidades praticadas pelas senhoras brancas no corpo das negras, das quais abundam exemplos na literatura da época, buscavam afetar regiões corporais comumente identificadas com o poder da sedução. Hoje as descendentes das sinhás atacam as negras não mais no castigo físico, na mutilação, mas sim na autoestima, no cabelo, na cor de ébano, naquilo em que as negras que se posicionam na sociedade mais prezam: sua identidade, sua negritude. Até quando?

A pergunta que fecha a entrevista de Alexandra Loras merece transcrição literal. Revista Istoé: O Brasil sabe que é um dos países mais racista do mundo? Alexandra: Não sabe e nem quer escutar isto. O Brasil é o país do otimismo, do samba, do carnaval, da natureza, dessa felicidade e da informalidade. É uma narrativa do estrangeiro. Na elite, as pessoas nem querem debater sobre isso, porque esse assunto incomoda. Mas, em dois anos de manifestações e tudo o que tem acontecido no país, sinto que o brasileiro é como um jovem adolescente rebelde. Ele hoje quer protestar, escutar e refletir.

Então vamos refletir, afinal, O Brasil é um dos países mais racista do mundo?

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Comentários

  1. Alfa Postado em 22/Jan/2016 às 16:06

    É? Sei não. Isso é coisa a ser afirmada com muito estudo, com pesquisa sociológica séria, com uma boa definição de "racismo", com um comparativo com outros países (já que queremos saber se é "um dos mais racistas do mundo"). Há racismo por aqui, é claro. O tamanho dele, não sabemos. É "grande"? Quanto é isto? É relevante? Pra quem sofre, qualquer tanto é. Seja como for, "mais racista do mundo" é só frase de efeito, mesmo que seja dita por alguma jornalista "viajada" (aliás, da impressão sobre OITO PAÍSES, concluir uma comparação com TODOS é, obviamente, falacioso; se ela tivesse dito "um dos mais racistas que visitei" ainda poderíamos dar crédito, embora não cientificamente).

    • João Paulo Postado em 23/Jan/2016 às 00:41

      Compartilho da mesma opinião! Em muitos países, inclusive desenvolvidos, o problema não é de racismo, e sim de ódio racial. E isso porque nosso leque de informações se restringe aos EUA e Europa.

    • Moacir Postado em 24/Jan/2016 às 09:45

      Nem tudo que é verdadeiro é científico, nem tudo que é científico é definitivamente verdadeiro. Os dados estatísticos citados no artigo acima são um grande apoio à opinião da consulesa (jornalista e graduada em ciências políticas) e que já viajou para mais de 50 países. Uma opinião (e não uma conclusão) que pode ser colocada em dúvida. Mas obviamente falaciosa não é.

    • Telmo Postado em 24/Jan/2016 às 10:11

      Considerando algumas características do nosso país, encontradas nas pesquisas abaixo, teremos mais elementos para entender o quão racista somos: http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/08/31/religiao-e-laicidade-discriminacao-e-violencia/

    • Eduardo Ribeiro Postado em 24/Jan/2016 às 20:54

      É sério que estão perguntando se o racismo brasileiro, secular e institucionalizado, absolutamente inegável, é "grande e relevante"??

      • Alfa Postado em 25/Jan/2016 às 01:59

        Moacir, vc não está me contrapondo. Meu comentário faz exatamente isso: reduzir a impressão dela a uma opinião. Como conclusão a partir de oito países (os que ela viveu, afinal, visitas não são boa base) seria falacioso tecnicamente. Em todo caso, a manchete da reportagem é, sim, bastante falaciosa em sentido informal, já que é uma pergunta complexa, que toma a opinião dela como dado e pergunta "por quê?". Eduardo, o que não é séria é a maneira como vc leu meu comentário. Se vc tivesse boa vontade, perceberia q eu não fiz essas perguntas com intenção de negar a existência do racismo no país.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 26/Jan/2016 às 10:47

        Mas negam. É como uma mulher que chega sangrando e sem 3 dentes prestando queixa contra o marido que a surrou e ser recebida com um "você tem certeza que apanhou mesmo?". Não tenho obrigação nenhuma de ter boa vontade com a negação do racismo. São perguntas que não se faz, "é relevante?", "quão grande é?". Se você é brasileiro, não chegou de Jupiter ontem, tem um mínimo de informação e tem boa vontade, você SABE que o tamanho do racismo é "do tamanho do Brasil", você SABE que o racismo é extremamente relevante, não é pontual nem coisa pequena nem exagero nem vitimismo nem estratégia petista, e você SABE que, mesmo involuntariamente, suas perguntas negam o racismo. Mais do que negar, para um negro que lê isso, é um DEBOCHE. E ele estará se lixando se foi voluntário ou involuntário, se houve intenção de debochar ou não houve. São perguntas que eu espero ler de um racista vagabundo, coisa que espero não ser seu caso, a exemplo de vários que temos aqui (nem preciso cita-los).

      • Alfa Postado em 26/Jan/2016 às 15:10

        As perguntas estão no contexto de criticar a reportagem, cara. Eu achei precipitado título da reportagem, que toma como dado que o Brasil é "mais racista do mundo", achei um pouco desonesto tomar uma hipérbole como fato, por isso fiz essas perguntas (tomei "grande" como um conceito relativo a outros países; e, obviamente, falei em "relevância" para CRITICAR, quando emendei que é "relevante para todos os que sofrem"). Por isso achei que sua critica não foi correta. Tb acho incorreta e exagerada sua analogia com a "mulher que apanhou". Tb é incorreta sua impressão sobre a "boa vontade", por eu NÃO TE PEDI para ter boa vontade com a negação do racismo, mas com a leitura do que eu disse, afinal, eu não concordo que meu comentário nega, vc acha que sim. Perceba o perigo: vc assume que sim, não aceita argumentos dizendo que não, e já se sente no direito de condenar quem vc ACHA que negou a existência do racismo. Por isso, acho que vc tem que aprender a ter boa vontade, sim, pelo menos para entender o que os outros dizem. Eu não gostaria de ser guilhotinado por um mal entendido... Presunção de inocência é o que falta a alguns sujeitos mais raivosos, como PARECE ser o seu caso...

  2. Thiago Teixeira Postado em 23/Jan/2016 às 10:57

    É racista porque não existiu um Malcon X, um Mandela, ou qualquer revolução armada e agressiva contra os brancos racista. Ajunta uns 30 cabeça fraca e começa a dar porrada, matar, esquartejar racistas pelo Brasil para ver se não para essa agressão a raça alheia. Já sei ... quanta violência, revanchismo ... nazinegrismo ... mas sempre existiu grupos de extermínio em prol dos interesses da direita nesse pais e ninguém diz nada, por isso que se tem medo de invadir terra grilada, as crianças de rua próximas da candelária já não dormem nas mediações do local, e na grande São Paulo se pensa duas vezes antes de tomar uma cerveja numa bar após as 22:00.

    • Moacir Postado em 24/Jan/2016 às 09:59

      A violência reacional à violência original é inevitável. Porém aqueles que produzem e controlam a distribuição das armas estarão sempre em vantagem. Pelo menos até que (mais cedo ou mais tarde) cometam uma grande besteira.

  3. gecy marty Postado em 25/Jan/2016 às 21:10

    Concordo! O mais racista do mundo sim e totalmente mascarados, não admitem nem a pau! Cheios de sutilezas com mascaras de somos felizes, mais isso já caiu.

  4. Jonas Schlesinger Postado em 25/Jan/2016 às 22:42

    Eu não sou racista. Eba!

  5. Fran Oliveira Postado em 26/Jan/2016 às 00:01

    Quem é negro sabe que o Brasil é pra lá de racista...

  6. Isaac Postado em 26/Jan/2016 às 13:17

    Um dos mais racistas não. O MAIS RACISTA! Pois é o pais com a maior população negra do mundo somente atrás da Nigéria. E os negros são pouco representados nos circulos de poder, na mídia, e no mercado de trabalho formal em geral. Basta fazer o chamado "teste do pescoço", ou seja, entrar num banco por exemplo e olhar as pessoas que lá trabalham, quantos negros tem. Numa grande corporação multinacional, quantos negros lá trabalham. Nas universidades, quantos negros lá estudam. Por outro lado se olharmos para as prisões, os negros são maioria, não que os negros são bandidos, mas a vigilância por parte da polícia em cima dos negros é maior, logo, eles vão presos se forem bandidos. Bandidos brancos se "camuflam" no racismo brasileiro, logo são poupados. E tudo isto, embora tenhamos dados que comprovem, que demonstram, que evidenciam, tem gente que nega, como em muitos comentários acima. Pq todo mundo é racista, menos ela. "Não existe", "coisa do passado", "vitimismo", "coitadismo", entre tantos ismos de pessoas brancas que nunca sofreram racismo e têm trânsito livre pelos diversos setores da sociedade racista...