Redação Pragmatismo
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Educação 22/Jan/2016 às 15:51
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O que as 55 redações confessionais do ENEM revelaram sobre violência doméstica

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Debora Diniz, Justificando

A prova do Enem já foi aquele escândalo em 2015. Como o Ministério da Educação teve a ousadia de sugerir como tema de redação a “persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira?”

No burburinho que se seguiu à prova, falou-se mais de gênero, da fantasia do fim das famílias, que mesmo da violência contra a mulher — o tema concreto da redação. O susto veio atrasado.

O ministro Aloizio Mercadante anunciou o balanço das provas do Enem: seu espanto foi que 55 candidatas fizeram da redação um texto confessional sobre a violência vivida ou testemunhada. Não eram peças retóricas sobre a persistência da violência, mas relatos de sobreviventes da violência doméstica e familiar.

O Ministério da Educação embaraçou-se. O que seriam aquelas redações: textos de provas, semelhantes às escritas pelos homens, ou pedidos de socorro? Aquelas mulheres apresentaram “relatos contundentes” — segundo palavras do ministro Mercadante, os relatos pareciam verdadeiros.

A inquietação foi como lidar com o vivido e escondido, mas agora escancarado pelos avaliadores das provas. Os textos sofreram uma metamorfose: não eram apenas letras para notas, mas catarses de mulheres que não encontraram outra retórica senão a da própria carne para expressar a abstração de um tema. Não perguntei ao ministro Mercadante por que resolveu falar das 55 redações publicamente, por isso ensaio aqui explicação própria, partindo de uma de suas frases: “Só tem um jeito de proteger, é ela tomar a iniciativa”.

É verdade, as mulheres precisam ter iniciativa. Falar é uma delas. Mas ser ouvida importa muito. Antes disso de falar e ouvir, é preciso que existam instituições, e que elas funcionem. E peço perdão pela retórica extensa: antes de as instituições existirem e funcionarem, as mulheres precisam acreditar nelas. Ou seja, o ciclo que antecede a mulher falar sobre a violência é longo: é preciso que haja instituições funcionando; é preciso que as mulheres acreditem nelas; é preciso que as mulheres cheguem até elas para falar da violência sofrida.

As 55 redações confessionais nos dão uma pista estranha sobre esse ciclo — as mulheres precisam falar sobre a violência, nem que seja em um prova de escola. A dúvida agora é: “o que iremos fazer com essas confissões e testemunhos?” Esperar que essas mulheres falem novamente. Só não sabemos para quem.

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Comentários

  1. olivires Postado em 23/Jan/2016 às 14:05

    “Só tem um jeito de proteger, é ela tomar a iniciativa”. Resumindo o Mercadante: Não vou fazer absolutamente nada, mas vou "denunciar" pra aparecer. Lendo assim, nem parece que o sujeito é ministro de estado. O governo tem o nome das candidatas e tem indícios de crime. Acione a polícia, apure, investigue, e se realmente houver crime, prenda.

    • Filipe Postado em 24/Jan/2016 às 16:52

      Ele não tem os nomes nem os indícios. Aquilo é redação de vestibular, não serve como prova de absolutamente nada. E ainda por cima o nome do candidato tem de permanecer anônimo, ou compromete a imparcialidade do processo seletivo. Nessa caso, infelizmente, a não ser que as próprias pessoas formalizem uma denúncia, não há o que fazer.

  2. João Paulo Postado em 26/Jan/2016 às 02:16

    O que acontece com mulher ofendida em banco ao procurar o Judiciário, segundo um juiz do TJ/RS? http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI232978,11049-Juiz+e+criticado+por+abordar+assedio+de+forma+grosseira