Redação Pragmatismo
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Política 11/Jan/2016 às 17:18
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O castelo de cartas de Cunha

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Tadeu Alencar Arrais*

Dinheiro é mansão no bairro errado,
que começa a desmoronar após dez anos.
Poder é o velho edifício de pedra,
que se mantém de pé por séculos.
Francis Underwood

O seriado House of Cards logrou, por vários motivos, sucesso no amplo cardápio de séries americanas. Francis Underwood, personagem do ator Kevin Spacey, é um político especialista nos bastidores do Congresso americano. Sua rápida ascensão no cenário político, saltando da liderança do Partido Democrata para a vice-presidência dos Estados Unidos da América reúne situações folclóricas, azeitadas por chantagem, corrupção e muito cinismo. Francis Underwood assume a Presidência na terceira temporada, após ameaça de um processo de impeachment e sucessiva renúncia do chefe do presidente da República. Não fosse o peso dos clichês, repetiria mil vezes que a vida imita da arte.

Eduardo Cunha nasceu em 1958. É economista de formação. Como político, ascendeu rapidamente pelos braços do PMDB, partido que se regozija, cotidianamente, de carregar o manto histórico da democratização. É, declaradamente, defensor de uma agenda conservadora. Mas o deputado, talvez por inspiração de Kevin Spacey, também foi iniciado na liturgia do teatro. Em 2010 saiu do armário, ou melhor, do anonimato, insinuando um projeto de criminalização do preconceito heterossexual. Bastou isso para sair dos bastidores. A vaidade demanda bajulação. A bajulação leva à visibilidade. Foi eleito, em 2015, para Presidência da Câmara dos Deputados. Os holofotes, naturalmente, foram mirados naquela casa. Desde então a recente história política do Brasil passa por suas mãos, como em uma tragédia comandada por um diretor sem talento.

Eduardo Cunha mentiu em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Jornais de diversos matizes políticas estamparam em suas capas extratos de contas bancárias internacionais com milhões de dólares. A Folha de S. Paulo divulgou a cópia de seu passaporte diplomático, enviado para a abertura de contas nos bancos suíços. Mentiu novamente. O procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, reuniu farta documentação sobre a conduta pouco ortodoxa do deputado. Produziu uma denúncia de 85 páginas, encaminhada para a segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que poderá, já que o acesso é público, ser aproveitada para um roteiro de série policial. O resumo das imputações, nesse documento didático, cujo acesso pode ser feito pela página da PRG, inclui uma engenharia de lavagem de dinheiro da Petrobras que resultou em aproximadamente US$ 40 milhões em propina. O método, conforme denunciado pela PGR, implicou em pulverizar e fracionar os recursos em empresas adjetivadas de offshore. O Ministério Público requer reparação no valor de R$ 138,680 milhões. Creio que esse documento será peça essencial na história da criminologia política brasileira.

O futuro de Eduardo Cunha, até a reunião do Congresso Nacional, no último dia 2 de dezembro, estava traçado pelo forte braço de Rodrigo Janot. O PSDB e o DEM, momentaneamente, o abandonaram. Mas Eduardo Cunha ainda tinha uma carta na manga. Acatou a abertura de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Sua estratégia, aparentemente, teve dois resultados. Retirou os holofotes de seu processo e, ao mesmo tempo, comprou a fidelidade das alas que desejam o impeachment de Dilma.

É difícil não se lembrar de House of Cards. Resta saber quem manda no jogo. Quando abrirem as cortinas do golpe não será Eduardo Cunha a interpretar Francis Underwood. Sua mansão terá desmoronado. Tenho a ligeira impressão que Michel Temer surgirá com toda carga retórica de um partido que frequenta os bastidores promíscuos da política brasileira muito antes de sua fundação. Como ensinou Underwood: “Afinal, não somos nada mais nada menos do que escolhemos revelar.”

*Tadeu Alencar Arrais é professor do IESA da UFG e colaborou para Pragmatismo Político

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