Redação Pragmatismo
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Educação 27/Jan/2016 às 15:14
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Notas de alunos cotistas superam a de não-cotistas na UFMG

Nota de alunos que ingressam na UFMG pela cota este ano já supera a dos não cotistas no último vestibular. "Minha avó é analfabeta e minha mãe não terminou o primário", revela estudante cotista, que será a primeira da família a ingressar em uma universidade

cotas UFMG estudantes desempenho
Lívia Teodoro e Talita Barreto (Imagens: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Márcia Maria Cruz, EM

Co­tis­tas que che­gam à Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Mi­nas Ge­rais (UFMG) ob­ti­ve­ram no­tas su­pe­rio­res às dos não co­tis­tas in­gres­san­tes em 2013, úl­ti­mo ano em que o ves­ti­bu­lar foi a por­ta de en­tra­da pa­ra uma das maio­res ins­ti­tui­ções pú­bli­cas do Bra­sil. As informações foram divulgadas pelo jornal Estado de Minas nesta segunda-feira (27).

Em Medicina, um dos cur­sos mais con­cor­ri­dos da Fe­de­ral, os co­tis­tas ti­ve­ram que al­can­çar a no­ta mí­ni­ma de 750,02 pon­tos pa­ra ga­ran­tir uma va­ga, pon­tua­ção su­pe­rior à que a am­pla con­cor­rên­cia con­quis­tou em 2013, de 685,3 pon­tos (ve­ja a tabela abai­xo).

Nes­te ano, pri­mei­ro em que a re­ser­va de va­gas foi apli­ca­da na to­ta­li­da­de – 50% das va­gas, con­for­me pre­vê a Lei das Co­tas apro­va­da em agos­to de 2012 –, os co­tis­tas en­fren­ta­ram maior con­cor­rên­cia en­tre eles. “Os co­tis­tas en­tram na UFMG mais bem pre­pa­ra­dos que os não co­tis­tas de pou­cos anos atrás”, afir­ma o pró-rei­tor de Gra­dua­ção, Ri­car­do Takahashi. Em 2013, a re­ser­va de co­tas era de ape­nas 12,5% do to­tal de va­gas.

Das 6.279 va­gas, 3.142 fo­ram des­ti­na­das às co­tas de es­co­la pú­bli­ca, le­van­do em con­ta re­ser­va pa­ra ne­gros e in­dí­ge­nas. Uma de­las foi con­quis­ta­da pe­la es­tu­dan­te Ta­li­ta Bar­re­to, de 20 anos. “To­do ano a no­ta de cor­te mu­da e ti­ve­mos mui­to mais ins­cri­ções pa­ra o Enem. Quan­do vi mi­nha no­ta fi­quei com me­do de não pas­sar, prin­ci­pal­men­te em en­ge­nha­ria, que é um cur­so mui­to con­cor­ri­do.” A ação afir­ma­ti­va foi fun­da­men­tal pa­ra que a jo­vem, fi­lha da dia­ris­ta He­le­na Bar­re­to, se tor­nas­se a pri­mei­ra em sua fa­mí­lia a ser apro­va­da pa­ra o en­si­no su­pe­rior nu­ma uni­ver­si­da­de fe­de­ral. “Era um so­nho fa­zer fa­cul­da­de. Mi­nha mãe sem­pre in­sis­tiu pa­ra que eu e meus ir­mãos es­tu­dás­se­mos. As co­tas nos pos­si­bi­li­tam aces­so a al­go que é nos­so”, afir­mou. A jo­vem tam­bém foi apro­va­da, por meio das co­tas, pa­ra mú­si­ca na Uni­ver­si­da­de do Es­ta­do de Mi­nas Ge­rais (Ue­mg).

Com a am­plia­ção do per­cen­tual de va­gas des­ti­na­das às co­tas, um dos fa­to­res es­pe­ra­do por Takahashi é que o in­gres­so de es­tu­dan­tes de es­co­las mu­ni­ci­pais e es­ta­duais se­ja am­plia­do. Nos pri­mei­ros anos das co­tas, ha­via um do­mí­nio de es­tu­dan­tes vin­dos de es­co­las fe­de­rais – es­sas ins­ti­tui­ções ocu­pam os pri­mei­ros lu­ga­res no ranking do Exa­me Na­cio­nal do En­si­no Mé­dio (Enem) 2015. “É pro­vá­vel que au­men­te um pou­co a pro­por­ção de es­tu­dan­tes de es­co­las es­ta­duais e mu­ni­ci­pais em re­la­ção aos es­tu­dan­tes egres­sos de es­co­las fe­de­rais de en­si­no mé­dio”, afir­mou. Es­sa pre­vi­são só po­de­rá ser con­fir­ma­da de­pois que os alu­nos efe­ti­va­rem a ma­trí­cu­la.

cotistas UFMG racismo

Os da­dos da uni­ver­si­da­de têm de­mons­tra­do que não há di­fe­ren­ça no de­sem­pe­nho de co­tis­tas e não co­tis­tas. “No que diz res­pei­to à qua­li­da­de, tu­do in­di­ca que não exis­ta ne­nhu­ma ra­zão pa­ra preo­cu­pa­ção”, dis­se Takahashi. O pró-rei­tor rei­te­ra que o au­men­to da com­pe­ti­ção pe­las va­gas na maior uni­ver­si­da­de pú­bli­ca do es­ta­do, de­cor­ren­te do Si­su, tam­bém cau­sou um au­men­to da com­pe­ti­ção en­tre os co­tis­tas.

De­bu­tan­tes da fa­mí­lia

Mui­tos es­tu­dan­tes que en­tram pe­las co­tas são os pri­mei­ros da fa­mí­lia a in­gres­sar no en­si­no su­pe­rior. É o ca­so da es­tu­dan­te Lí­via Teo­do­ro, de 24 anos, que foi apro­va­da em his­tó­ria, com mé­dia ge­ral de 667,92. “Ob­ti­ve 880 pon­tos na re­da­ção e acre­di­to que is­so te­nha me aju­da­do bas­tan­te.” Ela cre­di­ta o de­sem­pe­nho ao ati­vis­mo na in­ter­net, on­de pu­bli­ca­va tex­tos so­bre fe­mi­nis­mo ne­gro. A jo­vem es­cre­ve pa­ra o blog Na Veia da Nê­ga e é coor­de­na­do­ra-ge­ral do Clu­be de Blo­guei­ras Ne­gras de Be­lo Ho­ri­zon­te.

Lí­via cur­sou to­do o en­si­no fun­da­men­tal e mé­dio em es­co­la pú­bli­ca. “Ti­ve a opor­tu­ni­da­de de co­nhe­cer pro­fes­so­res que me ins­ti­ga­ram mui­to e fi­ze­rem des­per­tar es­se la­do apai­xo­na­do por es­tu­dar, en­tre­tan­to, não bas­ta que­rer pa­ra con­se­guir ab­sor­ver co­nhe­ci­men­to den­tro de uma es­co­la pú­bli­ca.Não é na­da fá­cil se con­cen­trar nu­ma sa­la com 40 alu­nos e go­tei­ras em dias de chu­va. Es­te era o re­tra­to de mui­tos dos meus anos es­co­la­res.”

Por um tem­po a uni­ver­si­da­de era al­go dis­tan­te pa­ra a jo­vem, que te­ve que aban­do­nar tem­po­ra­ria­men­te o en­si­no mé­dio. “Pa­rei de es­tu­dar por con­ta do tra­ba­lho, saía mui­to tar­de e não ti­nha o mí­ni­mo fo­co nos es­tu­dos, após um dia in­tei­ro de tra­ba­lho.” Lí­via re­co­nhe­ce que, mes­mo gos­tan­do mui­to de es­tu­dar, o en­si­no em es­co­la pú­bli­ca não a co­lo­ca­va em pé de igual­da­de com alu­nos que es­tu­da­ram na re­de par­ti­cu­lar.

“A UFMG pa­ra mim é um so­nho, que não acre­di­ta­va con­se­guir. Fi­quei em pri­mei­ro lu­gar das co­tas. Sem as co­tas não te­ria se­quer ten­ta­do e, não por não acre­di­tar na mi­nha ca­pa­ci­da­de, mas sim por di­ver­sos fa­to­res que nos dei­xam atrás da­que­les que tem to­da uma es­tru­tu­ra pri­vi­le­gia­da pa­ra as­se­gu­rar que eles che­guem lá”, afir­mou.

Lí­via se­rá a pri­mei­ra a se for­mar no en­si­no su­pe­rior na fa­mí­lia, tan­to do la­do pa­ter­no quan­to ma­ter­no. “Mi­nha avó, com quem mo­ro, é anal­fa­be­ta, mi­nha mãe não ter­mi­nou o pri­má­rio. Am­bas mu­lhe­res for­tes e guer­rei­ras, que, co­mo po­dem ima­gi­nar, es­tão des­lum­bra­das em me ver en­trar em uma uni­ver­si­da­de pú­bli­ca.”

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Comentários

  1. José Ferreira Postado em 27/Jan/2016 às 16:01

    “A UFMG pa­ra mim é um so­nho, que não acre­di­ta­va con­se­guir. Fi­quei em pri­mei­ro lu­gar das co­tas. Sem as co­tas não te­ria se­quer ten­ta­do..." A própria tabela na reportagem mostra que as menores notas entre os cotistas são bem menores que a dos não cotistas. A moça que disse a frase que destaquei se mostra orgulhosa de entrar na universidade "pela porta dos fundos". Acho que não é esse o caminho a se percorrer para resolver os problemas da educação pública. Bom é elas se mostraram, assim os futuros colegas de faculdade, nos trabalhos em grupo, estarão preparados para trabalhar mais, para compensar a falta de preparo das meninas.

    • Ana Nunes Postado em 27/Jan/2016 às 16:16

      Não, José. A matéria diz, já no início do primeiro parágrafo: "Co­tis­tas que che­gam à Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Mi­nas Ge­rais (UFMG) ob­ti­ve­ram no­tas su­pe­rio­res às dos não co­tis­tas in­gres­san­tes em 2013". A comparação é entre os cotistas do SISU com os não-cotistas que ingressaram pelo último vestibular. Ou seja, há aumento significativo na nota de corte, não apenas entre cotistas (este, evidentemente, mais emblemático), mas também entre não-cotistas.

      • Deisi Postado em 27/Jan/2016 às 17:03

        Tadinho do "historiador"! Interpretação de texto não e se forte!

      • José Ferreira Postado em 27/Jan/2016 às 17:10

        A comparação que fiz é sobre as notas SISU 2016 - cotistas com as notas do SISU 2016 - não cotistas. A imagem da reportagem mostra a situação.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 27/Jan/2016 às 16:43

      caraca...a sirene na casa do Istoriador é boa mesmo....tocou imediatamente assim que a materia foi postada.....""""me solta...me solta que eu tenho que ir no PP relativizar o último texto deles que fala de negros...eu tenho que minimizar as cotas...minha vida é negar o racismo.....me larga""""

      • José Ferreira Postado em 27/Jan/2016 às 17:11

        Hehehehe... Eu comento em muitas reportagens desse espaço. O problema é que você só "vê maldade" nas reportagens que falo sobre assuntos relacionados aos negros e/ou cotistas.

  2. Deisi Postado em 27/Jan/2016 às 16:54

    Parabéns, as meninas cotitas! Viva as cotas! Viva a inclusão! Viva o ENEM! Aos chorões, que odeiam cotitas, filho de pedreiro, que graças as cotas serão futuros engenheiros, filha de diarista futura médica. Um conselho, estudem muito, só assim conseguirão dividir os bancos das universidades publicas, com filhos de pedreiros e diaristas.kkkkkkkkkl!

  3. Jonas Schlesinger Postado em 27/Jan/2016 às 17:53

    (se minha namorada vê esse comentário, tô morto) MAS até algum tempo atrás eu era mais conservador na beleza feminina, hoje já acho linda uma negra com seus cabelos crespos enroladinhos que dá vontade de encher a mão. Acho bonito e fiquei mais assim por causa da minha mina kkkkk que é de esquerda e quer me mudar à força! Mas assim, na moral, as negras são lindas e competentes. Por isso conseguem passar com alto nível às universidades.

  4. Ednaldo Costa Postado em 27/Jan/2016 às 18:19

    Muito se escuta: "As cotas denunciam a incompetência dos governos que não investem na escola pública para dar-lhe qualidade e assim seus alunos concorrerem de igual para igual com os não-cotistas". Certo. Mas é preciso dizer que resultados na qualidade da educação não se obtém da noite para o dia. É necessário sim medidas emergenciais para que a geração atual tenha já oportunidade de ingressar na vida acadêmica. Se assim não for, nem nossos jovens que necessitam de tais ações afirmativas nem nossa educação pública darão passos, ficarão como ficaram por mais de 500 anos: curtindo o atraso.

    • José Ferreira Postado em 27/Jan/2016 às 21:39

      Vocês sabem como são os políticos. Eles colocam as cotas e fazem as pessoas acharem que isso é bom. É evidente que eles não estão nem aí para resolverem o problema pela raiz: com a valorização da escola pública. Eles querem uma "massa burra" para votarem neles.

  5. rafael Postado em 27/Jan/2016 às 18:57

    Qual a justificativa para cotas raciais? Na minha opinião deveria ser 50% playboys e 50% baixa renda. O mais justo mesmo seria uma tabela progressiva relativa à renda. Assim seriam 10 vagas para renda per capita familiar de até 1 s.m., 10 vagas para 1 <s.m.< 3 e assim por diante, igual imposto de renda. Sejamos práticos, quem se ferra nesse país são os pobres. E tem mais, universidade pública só deveria ser gratuita para estudantes de baixa renda familiar. Ninguém reclama de pagar pelos correios e por gasolina. Por que diabos a universidade tem que ser gratuita? Um dia isso tudo vai quebrar, daí elegeremos alguém do PSOL como última esperança. Só que o presidente do PSOL vai privatizar tudo e extinguir a universidade pública. Mas não nos preocupemos, a Petrobras é nossa!!!!

  6. Thiago Teixeira Postado em 28/Jan/2016 às 13:44

    E ai coxinhas?

  7. eu daqui Postado em 29/Jan/2016 às 15:03

    Então quem tá passando pelas cotas passaria sem as cotas: cade a revolução?