Redação Pragmatismo
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Contra o Preconceito 19/Jan/2016 às 16:49
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Por que uma mulher “promíscua” e “vulgar” merece tanta atenção?

Mulher, negra, periférica, sem nenhuma instrução acadêmica e facilmente confundida com uma travesti, Inês Brasil é o tipo de indivíduo que tinha tudo pra dar errado. Reúne em sua figura um misto de minorias marginalizadas por nossa sociedade medíocre

Inês Brasil História mulher

Paulo Dendê, via Facebook

“Por que uma mulher baixa, promíscua e vulgar merece tanta atenção? Por que vocês acham graça e repercutem idéias de uma figura tão grotesca?”.

Quem tá chegando agora e esbarra na imagem da Inês realmente não tem muito subsídio pra achá-la positiva. Mas quem se deu ao trabalho de ir um pouco além sabe que a análise sobre ela é mais complexa.

Mulher, negra, periférica, sem nenhuma instrução acadêmica e facilmente confundida com uma travesti, Inês Brasil é o tipo de indivíduo que tinha tudo pra dar errado. É um caldeirão de minorias que são marginalizadas na nossa sociedade medíocre.

Carrega nas costas os preconceitos sofridos por todas as classes citadas acima, e que mesmo indiretamente, se identificam com ela. Logo, falar da Inês e do que ela se tornou também é falar de representatividade.

Quando apareceu na internet com um vídeo de inscrição pra reality show, era só mais uma personagem apelativa, das quais nascem e morrem todos os dias.

Ver alguém quase nu pregando princípios religiosos realmente soa como uma caricatura, uma piada: um personagem.

Mas com o passar do tempo, a gente foi vendo que não era bem assim.

Depois de vários vídeos que reforçavam a ideia de que ela era algo programado, foi submetida a um quadro onde os protagonistas sofrem uma série de ataques gratuitos e propositais, sem saber que estão sendo gravados (Telegrama Legal).

Falando especificamente sobre ele, 90% dos “testados” realizam exatamente o mesmo ciclo: ultraje, instabilidade emocional e descontrole, até que a “brincadeira” é revelada.

Os que escolhem não partir pra agressão não podem ser considerados “animais indefesos se debatendo”.

Quase todos, ao se verem destratados, se tornam agressivos. Mas ela não.

Pra surpresa de muitos, ela se manteve fiel aos princípios que seu suposto personagem pregava: compreensão e amor ao próximo (aliás, não é sobre isso que falam a maioria das religiões?).

O que nos levou a concluir que ela não era um personagem.

Sim, essa união cômica entre o sagrado e o profano, essa máquina fabricante de pérolas intermináveis é de verdade.

Foi a partir daí que uma grande parcela das pessoas, mesmo que inconscientemente, passou a admirá-la.

Inês Brasil é admirada pelo talento musical divergente que tem? Claro que não.

É admirada por difundir a vulgaridade andando seminua e falando baixarias? Obviamente não.

A singularidade da Inês é encontrada na forma divertida, cômica, e principalmente autêntica, que ela encara a vida.

Vida essa que tinha tudo pra ser um poço de amargura.

Desafio qualquer um a se prostituir por oito anos, em um país e cultura que não são os seus, chegando a “trabalhar” até 20 horas por dia (como ela afirma em uma entrevista).

O sexo se torna tão banal que você provavelmente veria o corpo humano como uma peça de carne coberta por tecidos (quando vestido).

E a sua relação com o mundo?

Certamente perderia um punhado de parâmetros sociais quando o assunto fosse pudor.

Essa é a origem muito provável da sua hipersexualização. Que inclusive, feita com muita consciência (quem acompanha sabe que ela é ciente do desconforto que causa, mas exibe o corpo como um troféu).

Por não possuir formação intelectual, muitas vezes não tem suporte pra construção de argumentos consistentes. Daí a inferir que ela porta distúrbios mentais é muita prepotência.

Sabemos que não é na inteligência que ela agrega.

É aplaudida, sim, simplesmente pela genialidade de ser, sem a pretensão de ser.

É adorada por ser real. Quem já foi em algum show sabe que ela não é tratada como boba da corte, e sim como rainha. Por quê?

Sabe aquele parente querido, que resolve se aventurar no ramo artístico, e você, mesmo sabendo que ele possa não possuir tanto talento, apoia só por saber que é importante pra ele?

Pois é.

O fato é que a Inês já é querida por muitos de nós, e apesar da carne “não pura”, possui um coração que certamente é.

Não conseguir enxergar que ela tem bem mais a oferecer que um par de próteses e um arsenal de bordões, é muita limitação.

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Comentários

  1. Sara Rezende Postado em 19/Jan/2016 às 17:04

    Jurava que fosse um travesti...

  2. marcondes Postado em 19/Jan/2016 às 17:11

    É por isso que cada vez mais admiro está página.Inês sempre foi e sempre será nossa diva profana e ao mesmo tempo sagrada.Vida longa a autencidade de Inês.

  3. Matheus Postado em 19/Jan/2016 às 17:13

    Essa mulher me representa, ela pode ser vulgar, ex-prostituta, etc. Mas o conceito de ética q ela passa para nós é simplesmente perfeito, respeito a cima de tudo!

  4. Luis Postado em 19/Jan/2016 às 17:25

    Ela prega mais amor e justiça social que muitas religiões que estão aqui pra isso. E o melhor de tudo isso é que ela prega com uma das intenções mais puras que eu já vi na minha vida, que é espalhar o amor ao próximo.

  5. Jonas Schlesinger Postado em 19/Jan/2016 às 20:17

    "Vamu lá bofi, vamu tomar uns bons drinque" Só resta saber se tem aids ou não.

    • Natalie Postado em 20/Jan/2016 às 09:58

      Pena que não dá pra apagar seu comentário preconceituoso ( principalmente com os portadores da doença). Vc e todo mundo aqui vai ter que conviver com o que vc escreveu, mas acredito ser muito pior conviver com o que vc vê refletido no espelho.

    • Jose Antonio Postado em 20/Jan/2016 às 11:19

      Um dos comentários mais estúpidos que já li na rede. E olha que são milhões de comentários idiotas por dia em todo o mundo.

    • Trajano Postado em 20/Jan/2016 às 14:51

      Jonas, algumas pessoas tem o dom de serem preconceituosas, outras, duplamente preconceituosas em uma única frase. Primeiro por você colocar uma fala de Luisa Marilac como se fosse da Inês Brasil, como se todas fossem iguais, como se o que serve pra uma valesse pra outra, estereótipo, estigma e outros problemas; segundo que seu suposto interesse por doenças além de incrivelmente ambíguo, é depreciativo tanto para Luisa ou Inês quanto para quem é soropositivo, como se a condição clínica definisse o “resta saber” de alguém. Luisa Marilac, assim como as travestis e transexuais, sofrem com o imperativo da segregação que é a destituição de se ter a possibilidade de compor a parte economicamente ativa da população, seja por histórico de abuso parental, por isolamento social, por impossibilidade de ingressar em educação formal, pelo “desconvite” das empresas para empregos regulamentados, tudo isso regido pelo preconceito violento em uma sociedade supostamente civilizada. A Luisa Marilac em reportagem para a Carta Capital, narrou sua felicidade por conseguir um emprego, por usar um uniforme, coisa que certamente muitos não poderão compreender o valor que isso representa. Por outro lado, Inês Brasil, que tem filha adulta, que batalhou a vida toda por seu espaço e sustento, que sofreu as ações que a sociedade reserva de pior, fala de Deus, de compaixão, de respeito, ao mesmo tento que ostenta o seu corpo como vitória, com orgulho. Nos dois casos, uma luta por conservar valores humanos poderosos de dignidade, de bem-estar, de aceitação de si, de liberdade de expressão, tudo isso em uma situação socioeconômica muito frágil e, por isso, uma condição de vulnerabilidade duradoura. Isso fala muito sobre o que foi e o que é o Brasil. Mas o seu comentário, Jonas, também fala do Brasil. Aquele Brasil médio, sempre mais ou menos, que não sofre do tédio existencial dos ricos, nem vive sob as urgências quase dostoievskianas dos mais pobres; aquele Brasil fabricado para consumir e somente isso, que vê oportunidade de consumo em tudo, até quando comenta sobre Inês Brasil: “só resta saber se tem doença”. Nada contra os médios condicionados ao consumo, são necessários, mas realmente não entendo de onde parte a afirmação de ser preconceituoso camuflada de sarcasmo e ironia ao melhor estilo Gentili de ser, talvez porque quando os “classistas médios” bradam suas filhadaputices, suas maldades, suas canalhices, é um dos poucos momentos que conseguem mostrar que são humanos ao invés de máquinas de consumo, afinal, seus interesses de consumo particulares, o que sustenta os médios, não despertam o interesse em ninguém. Então, eu pergunto: Jonas, você tem doença? Um abraço!

    • Thiago Teixeira Postado em 20/Jan/2016 às 23:25

      Se ela me respondesse que tinha ... não ia pular fora não!!!!!!! kkkkk

  6. Julio Postado em 20/Jan/2016 às 11:24

    Eu amo essa mulher, é simples, fala de deus de uma forma torta, porém muito melhor que pastoreco que paga horário na tv. E além de tudo respeita o próximo independente de qualquer coisa.

  7. Thiago Teixeira Postado em 20/Jan/2016 às 23:23

    Vem ne mim promiscuidade!!!!!!!!!!!!!!

  8. Guilhermo Postado em 21/Jan/2016 às 19:41

    Por que o BBB insiste em ser cego e não selecionar essa mulher para participar? Se ela entrasse na casa, eu assistiria o BBB com vontade. Até votaria. Graças a deus, me chama que eu vou. Vamos todos gozar juntos de amor e alegria.