Redação Pragmatismo
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Educação 22/Jan/2016 às 16:36
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Morador de rua é aprovado em concurso público em 1º lugar

Andarilho de 41 anos vai trocar as ruas por um emprego. “Eu tive que me dedicar muito. Estudava nos bancos da praça ou em qualquer lugar que eu estava. Pelo menos quatro vezes no dia eu pegava nos livros”

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O andarilho Valter Fonseca dos Santos, de 41 anos, vai trocar as ruas por um emprego. O sonho que dura 16 anos será possível porque passou em 1º lugar no concurso público da Prefeitura de Patos de Minas para o cargo de coveiro. Ele disputou as três vagas abertas com outras 21 pessoas e o primeiro investimento, segundo o novo funcionário público, será alugar uma casa para morar.

Há 16 anos Valter dos Santos saiu de Ilhéus (BA) para tentar a sorte na cidade mineira, mas a falta de emprego e oportunidade acabou fazendo com que o sonho fosse adiado. “Nasci numa favela, num local onde brigas e crimes eram frequentes. Mas nunca quis isso para a minha vida e depois de ter uma decepção amorosa não pensei duas vezes em ir embora. Um conhecido comentou de Patos de Minas e eu tentei a sorte, mas foi tudo bem diferente do que eu pensava”, lembrou.

Ele disse que no início chegou a trabalhar em uma lavoura de tomates para garantir pelo menos o sustento, mas logo que a safra terminou, ele foi para a rua. “Passei por muito preconceito, tanto pela situação de rua que eu me encontrava como também pela minha cor. Várias vezes fui abordado pela polícia, perseguido e agredido por populares. Até o colchão que usava para dormir foi queimado. A vida nas ruas não é nada fácil”, afirmou.

Busca por emprego

O morador de rua contou que o fato de não ter endereço físico causou vários empecilhos na busca de um emprego fixo. Por isso, muitas vezes a forma de conseguir sobreviver foi fazendo “bicos” (serviços extras feitos em curtos espaços de tempo).

Valter contou que olhava os carros nas ruas, fazia serviço de servente e limpava quintais. Às vezes, ganhava apenas R$ 2, mas isso já o ajudava a comprar algo para comer. Mesmo na situação difícil, nunca deixou a fé de lado e sempre que podia frequentava um centro espírita da cidade, aonde chegou até a terminar os estudos sobre a doutrina.

Na passagem pelas ruas, conheceu o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). E foi por meio da diretora de proteção social especial, Maria Augusta de Lacerda Ferreira, que veio a ideia de fazer o Concursos públicos. O edital foi divulgado em maio deste ano. “Maria Augusta foi quem me apresentou o Creas e tentou por diversas vezes conseguir um emprego para mim. Sem sucesso, logo que o edital foi divulgado ela me incentivou a participar da concorrência. Eu pensava que não seria capaz, mas com o apoio que recebi resolvi tentar”, contou.

Após a inscrição, a rotina mudou e os livros e materiais preparatórios ganharam espaço na vida dele. Como já tinha o ensino médio, optou pela vaga de coveiro, profissão que sempre chamou a atenção. “Eu tive que me dedicar muito. Estudava nos bancos da praça ou em qualquer lugar que eu estava. Pelo menos quatro vezes no dia eu pegava nos livros e nos materiais que a Maria Augusta conseguiu para que eu estudasse. Lembro que ela me exigiu, ‘em troca da ajuda’ o 1º lugar do concurso e foi isso que aconteceu. Tive quatro meses para me preparar”, afirmou.

Resultado

O resultado definitivo da prova objetiva foi divulgado na última terça-feira (8), mas Valter dos Santos não se cansa de ver o nome no topo da classificação. O cargo que ele pleitiava tinha sete candidatos por vaga (total de 21 inscritos). “De 30 pontos eu tirei 26. Eu não esperava por isso, pois achava que os demais candidatos eram mais capacitados que eu. Essa não é uma conquista só minha, tive a ajuda de Deus e do pessoal do Creas, que ‘pegou no meu pé’, ‘puxou minha orelha’ e me fez acreditar em algo que talvez nem eu mesmo tinha crença”, disse.

Agora ele aguarda ser convocado para assumir a função, que tem remuneração prevista de R$ 805,18, além de benefícios como vale-alimentação, vale transporte e plano de saúde. “A primeira coisa que vou fazer com meu salário é alugar uma casa para morar. Tive a chance e vou aproveitá-la bem. Quero ainda construir uma família e ser feliz, pois eu acredito que eu mereço”, concluiu.

Mão amiga

Maria Augusta foi quem incentivou Valter Fonseca na caminhada rumo ao serviço público. Ela contou que descobriu o morador de rua em uma das rondas do Creas – unidade pública da política de Assistência Social onde são atendidas famílias e pessoas que estão em situação de risco social ou tiveram seus direitos violados.

Ela contou que o convidou para conhecer o Creas e, a partir daí, tiveram um contato profissional maior. “Eu consegui encaminhá-lo para um albergue e reformular o currículo dele. Pelo menos três vezes por semana ele passava pelo Creas e numa de nossas conversas falei da possibilidade do concurso com ele”, comentou.

Maria Augusta lembrou que Valter chegou a dizer para ela que não daria conta de passar e foi então que ela reforçou o apoio. “Eu sabia da vontade dele em trabalhar e constituir família. Consegui alguns materiais para que ele pudesse estudar. Também arrumei exercícios para que ele fizesse e retornasse para eu corrigir. O que ele não conseguia fazer, eu o ajudava”, acrescentou.

Para a diretora de proteção social especial, ver o nome dele na lista dos primeiros colocados foi emocionante. “Senti uma alegria enorme por essa conquista. Foi como ver o resultado positivo de um dos meus filhos”, vibrou.

Maria Augusta acrescentou que Valter nunca havia prestado um concurso na vida, mas que mostrava ser uma pessoa inteligente e com vontade de aprender. “Ele errou apenas duas questões de português e duas de conhecimentos gerais. Em raciocínio lógico ele tirou dez. Eu confiei nele e acredito que todo o trabalho e esforço feito valeram a pena”, concluiu.

Fernanda Resende, G1

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Comentários

  1. Juliana Postado em 22/Jan/2016 às 18:55

    Linda e emocionante história. É gratificante ler notícias como esta e imaginar quantas Marias e quantos Valter têm espalhados por este Brasil. Faz a gente acreditar que existe esperança no futuro.

    • Rogerio Postado em 24/Jan/2016 às 08:43

      Concordo plenamente com vc. E é isso que incomoda os ricos. Pobre com as mesmas condições. Comentei no face o seguinte, num assunto semelhante: Na verdade o pobre não exclui outro pobre. Não o vê de forma diferente. O rico é que se auto eleva, se acha. Precisa de pobre para limpar sua casa, lavar seu carro e se fazer se sentir como rico. Pobre ter salário melhor, ter condições iguais ou próximas faz o rico se sentir menos glamuroso. O pobre quer algo que não é nocivo. Quer ter condições. Não basta um bom salário. Tem que saber gastar. Não basta ter condições de fazer faculdade. O estudo é o mesmo. O esforço é o mesmo. O governo só facilita. O pobre é que estuda e trabalha. Estamos numa crise recente. E é uma crise mundial. Não quero estar na pele da Dilma nem na do Lula quando voltar. É uma responsabilidade imensa cuidar de um país. E tem que cuidar do pobre sim. Rico, pode a inflação ir à 5000% ao ano, como era no governo FHC. Rico continua rico. E o pobre? A burrice do rico é não perceber que o governo também o ajuda. Pobre com melhor salário compra, gasta. Já vi empregada pagar 1200 reais por um cabelo. Fora as roupas. Perto da patroa vc nem sabe quem é madame e quem é empregada. A dona do salão certamente reclama do governo. Mas não reclama da empregada pobre indo lá gastar lá. Pq reclamar? As empregadas dela ganham mais quando o governo aumenta o salário. Disso ela reclama. Mas com esse aumento, as empregadas dela vão comprar sapatos mais caros. Mas... As empregadas da loja de calçados vão fazer pé e unha e cabelo no salão. Entenderam? Todo mundo ganha. Conclusão... O pobre deixa de ser uma despesa e se torna um ganho. O seu funcionário é uma despesa pra vc, mas cliente onde vc compra seu carro. O funcionário da garagem é uma despesa pro patrão dele, mas lucro pra vc. Por isso que o dono da garagem sai ganhando, porque vc aumentou o salário do seu funcionário. E com o lucro, o dono da garagem pode contratar mais funcionários pra empresa dele, tornando-os assim seus clientes. Então não reclama pq teve que aumentar o salário do seu funcionário. Ele vai gastar, gerando lucro pro seu cliente gastar comprando o seu produto.

      • Carlos Magno Postado em 24/Jan/2016 às 20:52

        Rogério, muito boa a sua percepção e a forma didática como explanou. O assalariado não guarda dinheiro, ele gasta mais se ganha mais e isso gera um ciclo virtuoso na economia. É o ganha-ganha que todos almejam. .

    • Carlos Magno Postado em 24/Jan/2016 às 21:07

      Juliana, se tivesse como chegar uma mensagem ao Valter eu diria a ele que tivesse muito orgulho da profissão que acaba de ingressar por dois motivos - 1: Porque entrou disputando a vaga e foi vitorioso. 2: Porque é uma profissão nobre e extremamente importante, pois será através do trabalho dele a concretização da passagem Bíblica : Gênesis 3-19 "..porque tu és pó e ao pó da terra retornarás" - ao final todos dependemos do trabalho dele, sem exceção - independente do credo, raça, classe social, etc.., etc....,

  2. Guilhermo Postado em 22/Jan/2016 às 21:00

    Não é o melhor emprego do mundo, mas bem melhor do que viver na rua do jeito que ele estava. Parabéns a ele e que o futuro lhe reserve coisas ainda melhores.

  3. Fonseca Postado em 22/Jan/2016 às 21:38

    Que história massa! Tá de parabéns e é exemplo p o país!

  4. José Ferreira Postado em 22/Jan/2016 às 23:20

    Eu vi essa história em outra mídia. Parabéns para o rapaz.

  5. Jonas Schlesinger Postado em 22/Jan/2016 às 23:37

    Se fosse pra ser coveiro do cemitério Bom Jardim aqui de Fortaleza, ele ia sofrer muito. Se vocês vissem os cemitérios públicos da cidade onde moro. E ainda fica no bairro de periferia chamado Bom Jardim onde rola bala toda a hora. Nunca que fui nesse bairro, muito menos no cemitério que mais parece terreno baldio com as covas destruídas, plantas que parecem aquele lugar chamado Acre e rodeado por traficante feito bando de urubus. Oh prefeito Roberto Cláudio mora no mesmo bairro nobre que eu e tem jazigos em cemitérios top, que nem eu tbm, se o próprio pref não aguenta aquela esculhambação imagine um cidadão de bem. Mas a incompetência fala mais alto e os irmãos metralhas Ciro/Cid botaram um maldito déspota que estragou a cidade. Tomara que essa desgraça não se reelege.

  6. Eduardo Postado em 23/Jan/2016 às 01:00

    tão grandioso quanto passar num faculdade de medicina, pois a vitória é o prêmio pelo esforço e pelas agrúrias que ele passou para estudar e ser aprovado e em 1º lugar então é para ser exemplo mesmo. O Brasil de hoje é um país que realmente está se tornando o país da oportunidade, em outros tempos ele estaria concorrendo com engenheiros e advogados para uma das 3 vagas.

  7. Carlos Postado em 23/Jan/2016 às 10:09

    Mesmo nascido em favela, condenado à miséria e ao sofrimento desde o nascimento e ser obrigado viver nas ruas esse cara não perdeu sua fé e conseguiu crescer na vida(não que isso queira dizer que exista meritocracia, é um caso bem raro). Emprego de coveiro não parece ser algo tão maravilhoso pra mim ou pra maioria das pessoas que tem chances na vida, mas pra esse cara representa o primeiro passo pra sua vitória. Espero que ele aproveite seu potencial e continue estudando. Que Deus o abençoe e abençoe todos os moradores de rua que sofrem com esse mundo cruel e de desigualdades.

    • José Ferreira Postado em 23/Jan/2016 às 10:38

      A meritocracia existe. Ela não existiria se a vaga fosse decidida por sorteio ou indicação política. O emprego de coveiro pode não ser o dos sonhos de muita gente, mas ele está em um emprego honesto, a prestar serviços para a sociedade. Bem diferente do que fazem os nossos políticos.

  8. odilon nestor pereira sob Postado em 23/Jan/2016 às 11:05

    Não importa o que se vá fazer, qualquer trabalho honesto dignifica o seu executor. Parabéns Valter Fonseca, extensivo à Maria Augusta, sua "protetora"

  9. Thiago Teixeira Postado em 23/Jan/2016 às 11:12

    É a prova que as pessoas tem capacidade sim de aprender, independente do berço em que elas vieram. O que as pessoas não entendem é que um vagabundo, preguiçoso, acomodado e desinteressado de uma favela, tem menos oportunidade do que as pessoas da mesmas características da classe A e B, que contam com o PAItrocício para corrigir esse problema e jogar o filho lá na frente. A frente ainda daquele pobre que se esforça e estuda no banco da praça.

  10. João Paulo Postado em 23/Jan/2016 às 18:15

    "- Se ele estudar, pode virar médico! Basta força de vontade ao invés de se vitimizar!" - coxinha reproduzindo mais do mesmo.

  11. Eduardo Ribeiro Postado em 24/Jan/2016 às 21:25

    A coxinhada tá com aquela coceira pelo corpo, completamente desesperada pra usar o cara como "modelo de meritocracia" e "olha aí o que acontece quando há mais trabaljo e esforço, e menos vitimização". Esses exemplos devem ser citados sempre como a exceção da exceção do cúmulo do fato isolado. Deve ser celebrado sim, mas com o cuidado de não dar à direita meios para cooptar ideologicamente esse tipo de evento e envenenar o julgamento dos brasileiros de bem no que tange as bem sucedidas ações afirmativas.

  12. Filipe Postado em 25/Jan/2016 às 00:36

    Equação é uma "representação" matemática de um fenômeno. Essa sua "equação" não se sustenta, a não ser que você tenha um entendimento religioso sobre as variáveis (Se você for trabalhador vai para o céu, ou algo assim), ou um entendimento muito particular. Do contrário, a "equação" não descreve um fenômeno.

  13. Fernanda Postado em 25/Jan/2016 às 10:05

    Meu conterrâneo! Desejo a esse moço um futuro brilhante!

  14. Thiago Teixeira Postado em 25/Jan/2016 às 12:56

    esforço + dedicação + PAItrocício = Sucesso. Esforço + Dedicação + Discriminação Social = Herói.

    • Jonas Schlesinger Postado em 25/Jan/2016 às 14:57

      Paltrocício? kkkkkkkkkk

      • Thiago Teixeira Postado em 27/Jan/2016 às 07:11

        Papai paga tudo! kkkkk

  15. eu daqui Postado em 27/Jan/2016 às 12:54

    Retado: esse é o cara. Eu já gosto de conhecer uma historia dessas !!

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