Redação Pragmatismo
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Geral 08/Jan/2016 às 18:41
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Leonardo Boff: A sociedade do cansaço e do abatimento social

“Como sair deste inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto, não representa o povo, mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada ou, no máximo, de baixíssima intensidade. Vejo uma saída possível”

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Leonardo Boff*

Há uma discussão pelo mundo afora sobre a “sociedade do cansaço”. Seu formulador principal é um coreano que ensina filosofia em Berlim, Byung-Chul Han, cujo livro com o mesmo título acaba de ser lançado no Brasil (Vozes 2015). O pensamento nem sempre é claro e, por vezes discutível, como quando se afirma que “cansaço fundamental” é dotado de uma capacidade especial de “inspirar e fazer surgir o espírito” (cf. Byung-Chul Han, p. 73). Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil além do cansaço sofremos um desânimo e um abatimento atroz.

Consideremos, em primeiro lugar, a sociedade do cansaço. Efetivamente, a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação que nos chega pelas mídias sociais, nos produzem, dizem estes autores, doenças neuronais: causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade.

Efetivamente, chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados. Nem dormimos direito, desmaiamos.

Acresce ainda o ritmo do produtivismo neoliberal que se está impondo aos trabalhadores no mundo inteiro. Especialmente o estilo norte-americano, que cobra de todos o maior desempenho possível. Isso é regra geral também entre nós. Tal cobrança desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade permanente. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se, como já me referi nesta coluna, o dito da revolução de 68 do século passado, agora radicalizado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido de vida e verdadeiros infartos psíquicos.

Detenhamo-nos no Brasil. Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral turbinada com grande virulência verbal, acusações, deformações e reais mentiras e o fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vindita por parte das oposições. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda. Tal fato fez perder costumes civilizados. A linguagem se canibalizou. Saiu do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Somos cordiais também no sentido negativo dado por Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos.

Tal situação se agravou com a ameaça de impeachment da presidenta Dilma, por razões discutíveis.

Descobrimos um fato, não uma teoria, de que entre nós, vigora uma verdadeira luta de classes. Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade que vieram ocupar o lugar, antes reservado apenas para elas. Importa reconhecer que somos um dos países mais desiguais do mundo, vale dizer, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos sem conta que equivalem em número à guerra do Iraque. Temos ainda centenas de trabalhadores vivendo sob condição equivalente à escravidão.

Grande parte desses malfeitores se professa cristãos: cristãos martirizando outros cristãos, o que faz do cristianismo não uma fé mas apenas uma crença cultural, uma irrisão e uma verdadeira blasfêmia.

Como sair deste inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto, não representa o povo, mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada ou, no máximo, de baixíssima intensidade. De cima não se há de esperar nada, pois entre nós se consolidou um capitalismo selvagem e globalmente articulado o que aborta qualquer correlação de forças entre as classes.

Leia aqui todos os textos de Leonardo Boff

Vejo uma saída possível, a partir de outro lugar social, daqueles que vem debaixo, da sociedade organizada e dos movimentos sociais que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para eventualmente, propor uma alternativa de sociedade ainda não ensaiada, mas que possui raízes naqueles que no passado lutaram por um outro Brasil e com projeto próprio.

A partir daí formular outro pacto social via uma constituição ecológico-social, fruto de uma constituinte exclusiva, uma reforma política radical, uma reforma agrária e urbana consistentes e a implantação de um novo design de educação e de serviços de saúde. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível biocivilização nos trópicos.

Tal sonho pode nos tirar do cansaço e do desamparo social e nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir para nós, para nossos descendentes e para a própria humanidade. Utopia? Sim.

Como dizia Oscar Wilde: “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom e esperançador, pois esta é a lição que o processo cosmogênico nos deu no passado e nos está dando no presente. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento teremos uma cultura da esperança e da alegria.

*Leonardo Boff é filósofo, ecologista e escritor

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Comentários

  1. Rogerio Postado em 10/Jan/2016 às 02:10

    Como a mídia internacional noticiou os protestos: http://youtu.be/j9E0AhxY9v0

  2. Trajano Postado em 10/Jan/2016 às 21:35

    O título é: a sociedade do cansaço e do abatimento social. O comentário do Andréjúliomariacesarpereiraxongasouza é sobre... Jacques Wagner! Gente... Ok, a Vaza Jato anda a todo vapor, principalmente agora que o Aécio virou figurinha repetida nas delações, o que possibilita que a nossa querida “imprensa” se esbalde em falar do PT e fazer pose de isenta, coisa que não cola mais. Aliás, que tantas conversas de celular são “vazadas” tão facilmente para a imprensa ultimamente, não? Alguém lembra de “vazamentos” das conversas de algum investigado da oposição? Em tempo: se for a delação do Cerveró, esse não vale, o cara não falou coisa com coisa, datas que não batem, pior do que o Rocha no caso Randolfe. Quanto ao lance do Fundef, você poderia explicar melhor sobre o que está sendo publicado por aí? Eu não entendi muito bem. O Wagner teria facilitado os negócios para a Deloitte? Como foi feito? E, claro, que tipo de negócio, afinal? Qual a opinião do Janot? Realmente estamos vivendo tempos de cansaço. Esse atual André (que em breve deve mudar de apelido) não se dá nem ao trabalho de comentar assunto de matéria, só vem aqui divulgar material da Veja, Folha e Estadão e nem sobre o que quer dizer ele desenvolve algum assunto. Um porre!

  3. Trajano Postado em 10/Jan/2016 às 21:35

    Andréjúliomariacesarpereiraxongasouza, por que não falar do quanto nossa rotina atrapalha nossos ritmos biológicos, nosso sono, nossa saúde? Ou você não faz nada na vida e só fica assediando os outros em sites de esquerda por aí? Lendo a matéria, lembrei do tempo que trabalhava mais de oito horas por dia e estudava no horário da noite. Anos fazendo isso! Que coisa horrível, depois de um tempo vivia doente, já acordava cansado, vida social cada vez menos satisfatória, terrível. Foi necessário, fundamental para o que quero da vida, mas isso não significa que estava com uma rotina saudável. E fora trabalhar de frente para um computador, cruzes, ainda não me livrei disse, não aguento mais! Um saco! Horas e horas perdendo anos da vida na frente da porra de uma máquina, aff! Abatimento social é quase impossível de se evitar pra quem tem uma rotina diária tão massacrante.

  4. Eduardo Ribeiro Postado em 11/Jan/2016 às 10:55

    Sinto muito cansaço, desânimo e abatimento feroz quando leio algo do andre-xonga. Ele não sai desse roteiro: Ou é 1- algo incomparavelmente estúpido e boçal que não se sustenta em pé 5 segundos diante de um escrutínio benevolente e pré-primário (qualquer raciocinio dele entra em colapso no primeiro "mas por que vc acha isso?"), ou 2- um factóide, uma terrível mentira já desmistificada ou uma notícia parcial/manipulada que nada-nada-nada-nada tem a ver com o assunto em voga (sempre é hora de falar por exemplo de Foro de SP, das urnas fraudulentas e do amigo do Lula). É um personagem muito querido. O único com aproveitamento fecal de 100% cravados. Ninguém conseguiu ser um "gabarito invertido" tão perfeito quanto ele. Até do José Istoriador Ferreira conseguiu levar esporro. Menino andre-maria-xonga é o "boneco sparring do PP".

  5. Thiago Teixeira Postado em 11/Jan/2016 às 13:21

    Quem não fica uma semana sem escândalo é a sua mídia golpista. Qualquer nome forte do governo torna-se naturalmente a bola da vez para a direita.

  6. Trajano Postado em 11/Jan/2016 às 18:21

    Andréjuliomariacesarpereiraxongasouza, você é da Frente Nacionalista?

  7. julia Postado em 11/Jan/2016 às 18:50

    Disse o profeta"Feliz daquele que pensa que a corrupção e toda sorte de mazelas mundiais estão a cargo de um partido, de um líder, de uma nação, de uma corrente filosófica, de um regime de governo e assim sucessivamente..., esses, certamente, serão os escolhidos para viverem felizes no reino dos céus".

  8. Alice Postado em 11/Jan/2016 às 23:00

    O Pragmatismo está infestado de reaças

    • Wellington Postado em 17/Jan/2016 às 15:48

      E de comunistas também