Mailson Ramos
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Educação 19/Jan/2016 às 13:25
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Carta aberta de um cotista a Alexandre Garcia

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Mailson Ramos*

Alexandre Garcia vive no passado da ditadura de onde converge a base de todos os seus comentários, na TV Globo. E só mesmo quem foi assessor de comunicação de um ditador pode reagir contra a política de cotas. Não que as cotas não possam ser questionadas, mas há, no comentário deste jornalista um peremptório cunho elitista e conservador.

O que significa mérito? É vergonhoso entrar numa universidade através das cotas? Um estudante aprovado em regime de cotas não será um bom profissional ou não saberá concorrer no mercado? Não estará preparado por não ter mérito? E onde está o mérito do não acesso à universidade? Que critérios o Alexandre Garcia utilizou para tecer a análise de que as políticas de cotas são uma “humilhação”?

O Milton, filho do carroceiro, exemplificado por Garcia, viveu num tempo em que pobre não pisava numa universidade nem mesmo para conhecê-la. E o acesso restrito concedeu aos filhos das famílias mais humildes um futuro dedicado às chances que não teve; à irremediável frustração de não ter sido um diretor de rádio, um engenheiro, um advogado. E se não houve chance, paciência, o mundo não é para todos.

Leia aqui todos os textos de Mailson Ramos

Assim pensam os adversários dos governos petistas. Porque só entendem o Brasil sob a perspectiva da meritocracia. Se você nasceu negro, pobre e numa periferia, deve lutar para alcançar seus objetivos; e se não alcança-los, deve entender que a vida é assim mesmo. Ou seja, o mundo foi feito para as famílias ricas e as famílias pobres devem entender que jamais as alcançará.

Desde que ocorreram mudanças na educação superior, o Brasil tem dado um exemplo de como as coisas podem ser mais justas. De como o filho do açougueiro pode ser tão inteligente quanto o filho do dono do frigorífico. A universidade, ainda hoje, tem condições de horizontalizar a capacidade de alunos advindos de diferentes estágios de aprendizado. E isso é um desafio para um país com as dimensões e desigualdades sociais como o Brasil.

Leia também: Professores e alunos repudiam comentário racista exibido na Globo

Na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde estudei, havia cotistas com um grau de sabedoria e inteligência que superaria qualquer estudante mais preparado. Acontece que o jovem da periferia está condicionado a encarar o mundo sempre como um desafio. Não é o auxílio das cotas que o fará chegar ao fim do curso com excelentes notas; e conheci cotistas que não saíram da universidade sem receber homenagens; isso é mais meritório do que concorrer abertamente para mostrar-se desafiador.

Alexandre Garcia não acredita que exista racismo no Brasil. Por isso não concorda com as cotas. Erra duplamente e diante de milhões de brasileiros. Querer incutir vergonha ou humilhação em todos aqueles que são cotistas ou já foram é uma atitude muito perversa. O Brasil precisa pensar no acesso de jovens periféricos e marginalizados à academia. Talvez seja a única chance que eles tenham de lutar contra este sistema que por si já é arrasador e ainda encontra eco na voz da elite. Porque é só isso que a TV Globo e Alexandre Garcia representam.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Nossa Política. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

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Comentários

  1. José Ferreira Postado em 19/Jan/2016 às 14:05

    Repito o comentário que havia feito em outra reportagem desse canal, por achar pertinente uma análise do ponto de vista de um jovem, chamado de "periférico" pela esquerda: "Os índices que mostram que o desempenho dos cotistas é semelhante ao dos não cotistas não leva em consideração uma coisa: eles usam a nota dos trabalhos acadêmicos dentro da universidade, que podem ser feitos em grupo com os não cotistas. Dessa forma, não dá para usar isso como parâmetro, pois a nota dos cotistas está "contaminada". As notas de corte nos vestibulares dos cotistas é cerca de 20% menor que a dos não cotistas (é só observar as notas do SISU desse ano). Além disso, há altas taxas de desistência dos cotistas nos cursos de exatas (75% entre os cotistas, segundo uma reportagem que vi na Carta Capital), onde a maioria absoluta dos trabalhos são individuais. Eu ainda acredito que a escola de qualidade para todos seria a melhor solução, visto que a Coreia do Sul era pobre que nem a Nigéria, mas se desenvolveu através da educação".

    • eu daqui Postado em 19/Jan/2016 às 16:08

      Concordo com seu conceito de solução que é completamente diferente de esmola paliativa e eleitoreira.........Quanto ao texto, eu me sentiria diminuida se precisasse de cota sim, mas como se tarta de sentimento e subjetivo, portanto, então cada qual sinta o que puder, quiser e for........

    • Marcos Postado em 19/Jan/2016 às 16:21

      1º Cota não substitui investimento em edução 2ºE o que se fará com as "vítimas" da atual educação pública? mandará eles refazerem todo o ensino básico/médio

      • José Ferreira Postado em 19/Jan/2016 às 22:37

        Na teoria não substitui, mas sabe como são os políticos... Vão dizer que isso é a solução e ponto final. Afinal eles querem uma massa burra para votar neles.

    • Ana Amelia Postado em 21/Jan/2016 às 11:47

      Vou repetir um comentário já feito aqui tbém: A diferença de notas entre cotistas e não cotistas, no Sisu é de no máximo 4%. Ou seja, mostra que o aluno não é menos capaz, menos inteligente ou menos esforçado. Uma pequena diferença que traz grande ajuda para aquele jovem que teve infinitamente menos oportunidades. Estamos falando aqui de escolas, cursos de línguas, intercâmbios, professores particulares, cursinhos, psicólogos, psicopedagogos, etc. Além de transporte confortável e rápido, tempo para estudo, pais com infinitamente mais cultura e preparo para auxiliar orientar os jovens, empregadas domésticas, etc...Quem tem mais mérito? O cotista ou o não cotista? Eu sempre falo para os meus filhos: Passar no vestibular, com todas as oportunidades oferecidas a eles, não é mais do que a obrigação. http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2016/01/19/diferenca-da-nota-de-corte-de-cotistas-e-nao-cotistas-do-sisu-e-no-maximo-4.htm

  2. Herbert Postado em 19/Jan/2016 às 15:59

    Sou a favor das cotas para alunos oriundos de escolas públicas, somente. "Sou a favor de uma escola de qualidade para todos.." Só você, né? e enquanto essa escola de qualidade não existe o preto, pobre da periferia continua sem estudo? Ou você acha mesmo que do dia para a noite o Brasil sairá das últimas colocações em educação para uma educação de qualidade? Daí precisaríamos substituir os três poderes por uma trupi de mágicos. Assim que o ensino público se desenvolver ao decorrer do tempo (possível) as cotas naturalmente deixaram de existir, pois o rico estudará desde a infância na escola pública juntamente com os de classe social mai baixa, pois será um ensino de qualidade, nesse caso, as vantagens das cotas serão para todos, não havendo desigualdade de oportunidades, como existe no atual cenário. É fácil tomar as escolhas mais sábias, para quem espera seus resultados no antro de seu conforto estável na sociedade.

  3. Carlos Postado em 19/Jan/2016 às 16:02

    Vc cita que os cotistas possuem grau de sabedoria, nao duvido, acho qeu todos sao capazes, mas se defende os cotistas com tais argumentos, pq então eles nao podem estudar, correr atras e tirar o atraso e passar de igual p igual? Se um cotista entra em um curso de Engenharia com baixa base matematica, eu tenho certeza qeu se ele correr atrás la dentro, buscar livros, etc, ele suprira a necessidade. Pq nao fazer isso antes, no vestibular? Livros sao encontrados de graça hoje na internet, eu mesmo ja recorri a essas ferramentas para suprir necessidade pretérita minha.

    • Yrae Postado em 19/Jan/2016 às 22:43

      Ótimo. Joga a responsabilidade por uma educação de qualidade no estudante negro ou pobre ao invés do poderoso e gigantesco governo brasileiro. Se nasceu pobre, estude mais, mesmo com todas as adversidades, sem reclamar da desigualdades gritantes desde alimentação ao lazer. Isso que você defende - a meritocracia é um fenômeno conhecido como elitismo., classismo ou segregação sócio-racial. Trofeú desumanidade pra ti.

    • Barba Postado em 20/Jan/2016 às 09:13

      Pra essa disputa ser justa, o Brasil precisa acabar com o ensino privado na educação básica e média, o fim dos cursinhos especializados e privados, dar saneamento básico para todas as famílias do Brasil, dignidade salarial mínima acima de 3 mil reais. Quando esses preceitos mínimos forem alcançados, quando o background do garoto dos jardins for igual do garoto do Capão Redondo, aí sim poderemos acabar com as cotas.

    • Ana Amelia Postado em 21/Jan/2016 às 12:30

      Caramba! ".... A diferença entre as notas de corte entre candidatos cotistas e não cotistas nos cursos oferecidos no Sistema Unificado de Seleção (Sisu), este ano, foi de no máximo 4% nos dez cursos mais concorridos. O índice é considerado baixo pelo Ministro da Educação, Aloizio Mercadante. "Os cotistas, como são das escolas públicas, representam 80% dos candidatos. Eles têm uma concorrência muito forte também", disse o ministro...." Pode apostar que o cara que entrou numa pública para engenharia é capaz de acompanhar a aula.

  4. Márcio Ferreira Postado em 19/Jan/2016 às 16:03

    Por que não cotas para alunos de baixa renda da rede pública? Mas uma cota generosa mesmo, da ordem de 25% a 45% das vagas, por exemplo. Representaria apenas a continuidade do financiamento estatal da graduação de alunos que cursaram o ensino fundamental e médio. Como a grande maioria das escolas públicas é frequentada por alunos negros, essa medida já abarcaria a polêmica cota racial por tabela e representaria a inclusão de estudantes que não têm condições de arcar com mensalidades de faculdades particulares. Menos alunos ricos em faculdades gratuitas representaria menos financiamento para as particulares e menos recursos com FIES, menos dívidas para alunos pobres, ampliação do número de alunos de maneira geral. Não sou especialista, mas se houver algum aqui (parece que há vários), poderia esclarecer por que essa medida não é adotada.

  5. Malcom King Postado em 19/Jan/2016 às 16:22

    Uma vez meu pai que é negro, me disse que também sou negro, que foi realizado um estudo científico onde era provado que os brancos são mais inteligentes que as pessoas negras. Aleguei ao meu pai o seguinte: Como este estudo pôde garantir o critério de igualdade a brancos e negros, se de um lado temos na maioria das vezes pessoas que desde o seu nascimento não têm alimentação adequada para o desenvolvimento de suas crianças, e durante o decorrer da vida nem moradia com saneamento básico por exemplo ou um emprego bem remunerado. Não existe estudo de comparações que me convença, desde que os estudados sejam expostos as mesmas condições desde o seu nascimento.

    • Yrae Postado em 19/Jan/2016 às 22:46

      Há estudos que comprovam que o racismo prejudica o desenvolvimento cognitivo das crianças. Não é só moradia, alimentação, lazer e saúde que nos colocam em posição de vantagem sobre os outros - o racismo e a homofobia também constroem barreiras.

  6. eduardo de paula barreto Postado em 19/Jan/2016 às 16:39

    . TRONCO . Os capitalistas Por serem egoístas Não sabem dividir Querem o mundo todo E exigem que o povo Venha lhes servir. . Odeiam aeroportos cheios E no trânsito gritam: Odeio Esses carros populares! Detestam filas nos cinemas E consideram um problema A Faculdade Zumbi dos Palmares. . Porque acham um absurdo Suas empregadas terem estudo E requererem os seus direitos Querem serviçais acomodados Em cubículos improvisados Como nos navios negreiros. . Se julgam superiores Como se fossem feitores De escravos da atualidade Mas eles são os escravos Porque vivem acorrentados Ao tronco da mediocridade. . Eduardo de Paula Barreto 19/01/2016 .

    • Rodrigo Postado em 19/Jan/2016 às 17:37

      (Outro Rodrigo) Eduardo, veja as notas do ENEM 2014 e 2015. Veja o percentual de notas da redação abaixo de 600 (6,0). Veja o percentual de notas acima de 800 (8,0); percentual este que pouco alcança 20% do total de alunos que concluíram seu ciclo de ensino e que não terão oportunidade para refazê-lo. Assim, sendo a favor das cotas (e que, com a melhoria no ensino, o transcurso do tempo torne-as desnecessárias por si só), tenho de reconhecer que a qualidade do ensino público (salvo as valorosas exceções), bem como o nível de interesse (geral) dos alunos (de escolas públicas e particulares), vem se mostrando preocupante. Se, pois, não temos o direito de querer "tudo para nós", não podemos também ser comodistas ao ponto de nos esquecermos daqueles que se preparam para um curso superior e são seguidamente abandonados, pensando "ah, podem ser aprovados continuamente, não precisamos discutir tanto a melhoria na escola, pois vão entrar na Faculdade mesmo": são os dois extremos de pensamento que temos hoje, ambos igualmente nocivos.

  7. ana carolina Postado em 19/Jan/2016 às 17:18

    Eu acho valida a cota pra quem estudou a vida toda em escola pública. Independente da raça.

  8. Eduardo Ribeiro Postado em 19/Jan/2016 às 20:25

    A cada dia aumenta a satisfação de ver as cotas se consolidando, e do jeito que tem que ser: a contragosto, a fórceps, "de atravessado", goela abaixo dos racistas que choram a cada privilégio secular perdido. O mimimi dos playboys brancos só aumenta a diversão..."""""uma vergonha esse país...paguei escola particular e cursinho pra um pretinho ficar com a miiiiiiiiinha vaga...e fez menos pontos que eu......cade isonomia? cade meritocracia???""""". Filhinho de papai revoltado é das coisas mais hilárias que o mundo nos deu de presente. De Alexandre Garcia nem falo muito. O porta-voz da ditadura. Criatura nojenta e execrável. É uma afronta, um deboche ele aparecer todo dia na TV. Desde o dia em que afirmou que o Brasil nunca foi racista (!!) e que o racismo VEIO COM as cotas (!!!!!!!!!!!!!), ele tornou-se oficialmente um inimigo do povo e do país, e uma voz extremamente ativa na transmissão e re-alimentação da ideologia dominante, que sabidamente é a ideologia da CLASSE dominante, a qual, como sabemos, "o-d-e-i-a" cotas. É um velho canalha. Uma boa cusparada na cara é o mínimo que ele merece.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 20/Jan/2016 às 11:12

      QUE PORRADA MÃE http://oi64.tinypic.com/fc412e.jpg

  9. Jaqueline Bispo Postado em 20/Jan/2016 às 12:05

    Como se diz no bom baianês, o autor do texto "botou pra f..."!!! Parabéns!

  10. Jaqueline Bispo Postado em 20/Jan/2016 às 12:06

    Como diz no bom baianês, o autor do texto "botou pra f..." Parabéns!

  11. enganado Postado em 20/Jan/2016 às 20:34

    Esse filósofo de banheiro da gRoubo ainda vai virar "" antropólogo"" premiado por alguma universidade Anglo-Sionista. Duvidam? Aguardem!

  12. sidney Postado em 20/Jan/2016 às 21:29

    Alexandre harcia é PUTA da globo...

  13. Thiago Teixeira Postado em 20/Jan/2016 às 23:59

    Perda de tempo escrever para um golpista. Duvido que ira ler devido sua arrogância e mundinho medíocre que vive.

  14. ivone Postado em 21/Jan/2016 às 09:53

    Gente, não concordo com o Jornalista. porem fica uma pergunta? Porque precisa de cota se ja existe prouni e sisu e fies e tudo mais e estas pessoas que são diferenciadas por cotas podem concorrer de igual pra igual? No enem tem cotas também? Desculpem a ignorância rsrsrsrsrs mas não vejo a logica...

  15. Ana Amelia Postado em 21/Jan/2016 às 12:10

    http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2016/01/19/diferenca-da-nota-de-corte-de-cotistas-e-nao-cotistas-do-sisu-e-no-maximo-4.htm

  16. Ana Amelia Postado em 21/Jan/2016 às 12:25

    "A diferença entre as notas de corte entre candidatos cotistas e não cotistas nos cursos oferecidos no Sistema Unificado de Seleção (Sisu), este ano, foi de no máximo 4% nos dez cursos mais concorridos. O índice é considerado baixo pelo Ministro da Educação, Aloízio Mercadante. "Os cotistas, como são das escolas públicas, representam 80% dos candidatos. Eles têm uma concorrência muito forte também", disse o ministro." Estamos falando dos melhores alunos de escola pública. O cotista que passa numa Federal tem que ser muito esforçado, inteligente e capaz. Ele é um sujeito com muuuuuito méritos! Méritos infinitamente superiores que os do não cotista! Só que o abismo era tão absurdamente grande que mesmo com tantos méritos, ficava quase impossível. Tão difícil, a ponto de não se encontrar quase negros ou alunos de escola pública nas melhores universidades públicas. Eu estudei num curso concorrido de uma universidade pública e posso confirmar que só haviam brancos de classe média e alta. Agora, embora seja ainda muito difícil - só os bons conseguirão - se tornou possível. Como alguém pode ser contra a cotas!?? Só que não enxerga além do próprio umbigo.

  17. Luana Postado em 22/Jan/2016 às 15:23

    Parabéns. Excelente resposta. Espumem de raiva aqueles que são contra as cotas.