Redação Pragmatismo
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Exploração Trabalhador 30/Dec/2015 às 18:34
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“Que horas elas voltam?” – Foto de Casé e Dieckmann com domésticas gera polêmica

Foto de Carolina Dieckmann e Regina Casé com empregadas domésticas divide opiniões e reacende debate estimulado em filme protagonizado pela própria Regina em 2015

Dieckmann Casé empregadas domésticas
Página Empodere Duas Mulheres criticou foto de atriz com domésticas (Captura de tela/Reprodução)

Uma imagem publicada por Carolina Dieckmann no Instagram dividiu opinião nas redes sociais. Na foto, a atriz global aparece acompanhada da apresentadora Regina Casé e de empregadas domésticas uniformizadas para preparar a ceia de Natal.

“Aqui, com essas lindezas batalhadoras, que fazem tudo tão caprichado e com tanto carinho, que a gente saiu de lá flutuando de amor”, escreveu a atriz.

Curiosamente, Regina Casé recebeu elogios este ano por interpretar uma empregada no filme Que Horas Ela Volta?, que traz um olhar bastante crítico para as relações entre patrões e empregados no Brasil.

No Facebook, a página Empodere As Mulheres reagiu de maneira crítica à imagem. “Regina Casé e Carolina Dieckmann postando foto com as empregadas negras uniformizadas que prepararam a ceia de Natal. Que horas elas voltam?”, questionou a página.

A escritora Cidinha da Silva, autora de “Racismo no Brasil e afetos correlatos”, comentou o episódio em texto publicado no portal Geledés que reproduzimos a seguir:

O selfie de Dieckmann e Casé com as empregadas e o contexto sociocultural das domésticas no Brasil

por Cidinha da Silva

Quando vi a foto de Regina Casé e Carolina Dieckmann com as quatro trabalhadoras domésticas, na casa da primeira, na noite de natal, ratifiquei minha sensação de que Ana Muylaert, diretora de A que horas ela volta, um dos melhores filmes de 2015, acertou em cheio ao escolhê-la para o papel principal. Regina é a cara do Brasil.

As mulheres populares do país têm muitas caras e a de Regina é uma delas. Não nos surpreenderíamos se ela fosse uma das quatro trabalhadoras fotografadas. O mesmo não aconteceria com Carolina Dieckmann se tivesse sido convidada a protagonizar o filme. Embora a diretora tivesse total liberdade para fazê-lo, seria meio inverossímil ou, pelo menos, sua presença obliteraria o vigoroso debate de classe instaurado pelo filme. Seria algo semelhante à Lucélia Santos representando Isaura, a escravizada.

Creio que aqui começa o incômodo causado pela foto e pelo letreiro. Existe um contexto de hierarquia racial que subjaz à imagem que uma parcela do Brasil não deixa mais passar incólume. Pela razão mesma da resistência a que muitas pessoas brancas de hoje não se sintam herdeiras da casa grande, ainda que desfrutem confortavelmente de tudo o que foi construído pelas mãos, pés e cabeças do povo negro escravizado durante 350 anos e que o racismo tratou de assegurar nas mãos brancas devidamente lavadas.

As quatro trabalhadoras domésticas fotografadas evocam os 77 anos de organização sindical das trabalhadoras domésticas, iniciada por Laudelina de Campos Mello, em Santos, SP, na busca de 34 direitos garantidos à maioria das demais categorias de trabalhadores e que só foram parcialmente atendidos pela PEC das Domésticas em 2013. Evocam os 70 anos de atraso em relação às conquistas da CLT.

Elas nos lembram que existem cerca de 8 milhões de trabalhadoras domésticas em todo o país, incluindo adolescentes e crianças, e destas, em torno de 6 milhões não têm carteira assinada e não ganham sequer um salário mínimo. Mesmo que, provavelmente, as trabalhadoras em tela façam parte dos dois milhões que têm os direitos trabalhistas assegurados.

Não conheço Carolina Dieckmann, mas me passa uma impressão excelente. Gosto dela como atriz e avalio bem suas declarações sobre o ofício, educação dos filhos, sobre sua relação com as personagens. Lembro-me de uma que tinha câncer, perdeu o cabelo no tratamento quimioterápico e num determinado momento (não me lembro se a personagem ou a atriz) foi mostrada raspando os cabelos. Foi uma cena belíssima, comovente. Parece ser boa pessoa, a Carolina, e o mesmo se diz de Regina Casé. Não se trata aqui, de abominá-las porque são patroas. Por outro lado, não há também como isentá-las dos sentidos revolvidos pela imagem porque são pessoas legais.

Ademais, além do contexto sociocultural, há duas questões, o selfie itself e o texto que o reforçam. Esses retratos com artistas têm uma lógica própria. Se uma pessoa qualquer pede uma foto para outra, famosa, e trata de postá-la, pode ser uma coisa inofensiva, tipo, “ei, amigos, vejam quem está do meu lado”. Pode ser também uma armadilha como a que Kim Kataguiri armou para Ney Matogrosso, vinculando-o a uma manifestação pelo impeachment da Presidenta Dilma, fato que levou o artista a classificá-lo como imbecil.

Quando é o artista ou celebridade quem tem a iniciativa de postar as fotos tiradas com fãs, pessoas comuns ou trabalhadoras, como no caso das três senhoras e uma jovem, empregadas ou contratadas por Regina Casé, existem mensagens que essas pessoas querem emitir para seus seguidores. Carolina abraça carinhosamente uma das moças. Regina tem a delicadeza de se posicionar ao fundo. As mulheres-trabalhadoras estão na linha de frente. E, convenhamos, devem estar contentes, porque até prova contrária, as duas artistas são pessoas idôneas, boa gente, e quero crer que mantenham relações trabalhistas corretas com as pessoas que lhes prestam serviços.

Então, qual seria o problema? Por que estaríamos chorando de barriga cheia? Trata-se do bendito contexto, sobre o qual já falei. A gente ainda não se recuperou da imagem das babás negras postadas pela Fernanda Lima e de toda a discussão sobre elas protagonizada pela patroa. Tampouco da filmagem da funcionária ou prestadora de serviço que segurava um guarda-sol para proteger a apresentadora de TV, Angélica, da chuva, enquanto ela própria se molhava. Tão semelhante à pintura de Debret, de um escravizado que segurava o guarda-chuva aberto para proteger do sol o escravizador que urinava na rua. Ainda dói na memória também outra imagem das babás de Fernanda Lima colocando os filhos da patroa dentro do carro e permanecendo na chuva, à espera de outra viagem que as recolhesse.

O texto de Carolina Dieckmann diz muito pela falta: “Aqui, com essas lindezas batalhadoras, que fazem tudo tão caprichado e com tanto carinho, que a gente saiu de lá flutuando de amor”. Fofo! Admita! Mas, a gente é chata e pergunta: qual é o nome das lindezas batalhadoras? Ou isso não tem importância?

O nome das senhoras é irrelevante, como o era o nome das empregadas de Luciano Huck e Angélica que trabalhavam com a família quando o helicóptero que transportava o grupo sofreu uma pane? É isso? Tá bom, tá bom! Era mensagem do Instagram. Precisava ser curta. Afinal, uma imagem vale mais que mil palavras.

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Comentários

  1. João Paulo Postado em 30/Dec/2015 às 20:29

    "Mimimi" cansativo. Nada demais e creio que a intenção foi prestigiar as trabalhadoras. Comparar a sinhá Angélica e seu guarda-sol com essa foto é forçar a barra ...

    • EDUARDO Postado em 30/Dec/2015 às 23:47

      João infelizmente tudo que vem de globais não pode ser acreditado pelo lado do bem, pois é praxa a pratica de formar opiniões de que existe um elite e a classe trabalhadora para manter esta elite....

    • eu daqui Postado em 31/Dec/2015 às 12:48

      O problema é que esse pessoal de midia faz "caridade" no intuito de construir e polir imagem.

      • Paulo Figueira Postado em 31/Dec/2015 às 17:04

        Eu diria despoluir a imagem, a imagem elitista e anti povo de tudo que vem da Rede Globo

  2. Guilhermo Postado em 30/Dec/2015 às 23:46

    Não tem diretamente relação com a matéria, mas sabe aqueles programas de TV que pegam uma mulher humilde e a transformam numa "mulher bonita" num dia de rainha? Programas cheios de frases do tipo: " A Fulana é tão guerreira e batalhadora e sempre foi linda por dentro" e coisas do tipo? Não sei por que, mas acho essas coisas extremamente preconceituosas. Na minha opinião, estão sempre rebaixando a pessoa, de forma bem sutil, ao invés de levantá-la. Mas é assim mesmo a mídia televisiva. Quer ibope com historinhas "de cortar o coração" sobre pessoas humildes. Tem também aquelas novelas toscas que colocam as empregadas em papeis cômicos cheios de clichês e bordões. PQP... Não sei se essas coisas ainda passam na TV pq ja faz anos que não assisto...

  3. Trajano Postado em 31/Dec/2015 às 01:58

    Já vi muitas fotos de médicos com celebridades espalhadas por aí, óbvio, com a referência ao nome do profissional na legenda. É a lógica do restaurante, da barbearia, do botequim, do comercial de pomada de hemorroidas, do famoso da Friboi: o dono coloca “na moldura” uma foto que tirou junto com uma personalidade da mídia para atrair algum tipo de publicidade para si, para o seu produto ou para o estabelecimento. Isso é cultural, antigo, disseminado na sociedade e não apenas brasileiro. Não acredito que estas profissionais tenham ficado aborrecidas com a exposição. Claro, existe uma diferença fundamental aí: os nomes das senhoras não aparecem lá, o que difere totalmente do conceito de “marketing” pessoal - soa como o indecoroso “Babá 1 Babá 2” de matéria de jornal xexelento. Para além, empregadas domésticas estão na sua casa, convivem com você, bem diferente do médico que operou o seu nariz e, sim, merecem mais do que “lindinhas” e hashtags. Mas uma coisa considero importante: a Carolina Dieckmann é atriz. Ela não é socióloga, não é antropóloga, não é psicóloga, não é filosofa, não é historiadora, não é pedagoga, não é do ramo político, da iniciativa privada que atua no social, enfim. Ao menos não é conhecida por isso. Ela é atriz da Rede Globo. Vocês acham mesmo que atores e atrizes de novela têm alguma relevância na modificação de padrões de discriminação social?!?! Oras, quantos atores ou atrizes até hoje, principalmente os atuais, promoveram algo de realmente construtivo para modificações de padrões socioculturais? Se o calo deles não está doendo, vocês acham que eles irão se preocupar com o joanete dos outros? Isso não é teatro de protesto! Eles não tem o estudo, o preparo, o treino necessários para isso, e nem precisam ter, o foco do seu trabalho não é este! Nem a liberdade eles têm, eles estão incluídos em um sistema empresarial que sobrevive justamente graças à manutenção do status quo de Casa Grande e Senzala. Vocês acham que um ator de novela vai criticar, por exemplo, a atuação da mídia, a mesma que o alimenta? E sem o estudo e preparo necessários, vocês acham que eles irão atuar na sociedade de forma consistente? Em minha opinião, deveríamos dar mais atenção a quem realmente apresenta algo de relevante, abrangente, profissional para a transformação social ao invés de ficarmos dando tanta atenção ao canto da sereia. Um abraço!

  4. enganado Postado em 31/Dec/2015 às 11:38

    Tudo muito lindo! Mas na hora do voto, votam no PSDB/DEM e as bobas que pertencem ao 7P's continuam sendo escravas. Maravilhas da DIREITA=rede gRoubo= ...

  5. Alfa Postado em 31/Dec/2015 às 14:55

    Nossa, quanta forçação de barra! Eis o "problema": "A gente ainda não se recuperou da imagem das babás negras postadas pela Fernanda Lima e de toda a discussão sobre elas protagonizada pela patroa. Tampouco da filmagem da funcionária ou prestadora de serviço que segurava um guarda-sol para proteger a apresentadora de TV, Angélica, da chuva, enquanto ela própria se molhava." Ah, tá. Então, que a Cidinha da Silva se "recupere" antes de cometer a falácia do acidente: se é artista, então deve, de algum modo, produzir um "contexto". A única coisa em comum entre a Angélica e a Dieckmann parece ser o fato de que são "globais". Em todo o resto, demonstraram atitudes diferentes em relação às mulheres que trabalham com elas. Por favor...

  6. José Ferreira Postado em 31/Dec/2015 às 15:02

    O povo implica até mesmo com as fotos tiradas com as empregadas. Se for assim, então, a partir de agora, os que tem empregadas poderão tirar as fotos com todo mundo, menos com as empregadas. Elas não são negras e nem escravas, pois recebem salário e tem os seus direitos de acordo com a lei e, como a maioria dos brasileiros, é miscigenada e não há nenhum problema nisso (a não ser para aqueles que acham que o Brasil é uma "Nigéria"). Na Mauritânia a escravidão se tornou crime apenas em 2007 e não vemos nenhum órgão de imprensa (de esquerda e de direita) a se posicionar em relação a isso.

  7. Thiago Teixeira Postado em 03/Jan/2016 às 17:07

    Infelizmente tenho que admitir que certas entidades "esquerdistas" regridem o movimento a pó. Temos que lutar contra intolerâncias, violências e repressão aos despossuídos, e não pré supor imaginar achar e adivinhar as intensões das pessoas ao tirarem uma foto.

  8. Eduardo Ribeiro Postado em 04/Jan/2016 às 10:50

    Não deixa de ser uma ironia da vida, pois o filme citado, protagonizado pela Regina, além de ser um puta filmaço, é absolutamente pertinente, brilhantemente crítico, é certamente das melhores coisas já feitas na história do cinema brasileiro. E que pegou até leve na filhadaputice dos patrões e na precarização da vida de doméstica. Na real a coisa é pior que no filme, é um sistema de castas informal. Isso posto, o que deve ficar claro é que a bisonhice da situação não é a foto em si, que já é errada por si só, "olhem minha foto com o proletariado". O erro realmente grotesco é anterior a foto: botou as mulheres pra trabalhar em plena noite de Natal? E ainda meteu um uniformezinho pra ficar bem claro que estão todas ali pra servir? A coitada prepara a própria ceia na própria casa para a própria família que horas, porra? Ironia suprema: quer dizer que no (belissimo) filme, Casé é a Val, mas na vida real vira a patroa? Só faltou mandar que trata as "colaboradoras do lar" como se fossem "da família", que comeram na mesma mesa na ceia de Natal, que comeram do bom e do melhor, e até ganharam uma lembrancinha. A verdade é que a foto em si é apenas a cereja no bolo.

  9. Rodrigo Postado em 05/Jan/2016 às 17:24

    (Outro Rodrigo) Ai, meu "figu"... A cada dia que passa tenho mais certeza de que o ato de reclamar virou um fim em si mesmo.