Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 23/Dec/2015 às 12:40
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Homem bate em mulher no meio da rua e PM diz que 'não pode fazer nada'

Homem dá soco em mulher no meio da rua e é liberado mesmo após testemunhas registrarem a covardia. Apesar de encorajada por populares, vítima não quis registrar queixa. Antes de ir embora, agressor ainda ameaçou jornalista que o fotografou

homem agride mulher rua

Felippe Canale, Eaí?Conteúdo

Avenida Paulista, esquina com a alameda Campinas, 23h10 de uma quinta-feira à noite, dia 10 de dezembro. Estou andando na calçada e vejo um cara de mais de 1,80 de altura, cabeça raspada, camiseta preta, bombado e estilo bad boy. A descrição parece até caricata para a cena que está prestes a acontecer. Ao seu lado, tem uma mulher de cabelos compridos presos em uma trança. Ele grita com ela e a chama de vagabunda. Eu paro e tiro o celular do bolso. Imediatamente ligo para a polícia.

Tarde demais! Enquanto eu falo com a atendente do outro lado da linha, o cara da foto acima dá um soco que pega em cheio no ombro dela.

Algumas mulheres em volta gritam “seu covarde” enquanto eu clico a foto acima. Ligo mais uma vez para a polícia, passo o endereço e digo o que está acontecendo. Do outro lado da linha, eu escuto:

— Mas a vítima precisa de ajuda?

Eu repito que sim, pois ela está sendo agredida na minha frente. A atendente diz que vai verificar se tem alguma viatura próxima. Eu me aproximo do casal e digo que chamei a polícia.

O grandalhão covarde diz pra eu cuidar da minha vida. Ela me olha assustada e diz que é melhor eu não mexer com ele. O meu sangue ferve, me sinto um gigante e vou pra cima dele com o celular. Neste momento, vejo na esquina que algumas mulheres fecharam o trânsito e estão trazendo com elas um policial militar. Ele chega e pergunta “Qual é a ocorrência aqui?”.

Aproveito para clicar o agressor mais de perto. Agora, na presença da polícia, ele está calmo e até sorri: “Aqui não tem ocorrência nenhuma. É apenas uma briguinha de casal de namorados”.

A garota do meio da foto faz parte do coro em defesa da mulher. Diz que presenciou a agressão: “Bate nela agora de novo. Quero ver se você tem coragem!”.

Uma pequena multidão se forma em volta. Uma das mulheres diz: “Não faça isso com você mesma. Ele te agrediu e vai acabar te matando se você não denunciar”.

Eu digo que sim, que estou disposto a ir à delegacia depor a favor dela e contra ele. Todos ao nosso redor concordam.

O policial militar pergunta para ela: “Vai querer prestar queixa ou não?”. Ela sussurra que não, pois vai ser pior. “Depois ele vai me bater de novo.”

Eu questiono se isso já não é suficiente pra levá-lo pra delegacia. Digo que tirei fotos, que temos testemunhas. Digo que sou jornalista. Digo que existe a lei Maria da Penha. Digo que… já não sei mais o que digo, me sinto impotente, e o desespero aumenta quando o policial diz que o assunto está resolvido, devolve o documento para o agressor e fala que eles podem ir embora.

Faço um clique do policial e ele vem pra cima de mim: “Tá me fotografando por quê?”. Eu explico que tenho o direito de fotografar a omissão da parte dele.

O agressor, antes de entrar no carro junto com a namorada, me olha e diz: “Seu babaca! Fica espero, hein! Marquei o seu rosto”.

Pasmem, ele vai embora na contramão e o policial não faz absolutamente nada. NA-DA!

— Senhor policial, posso perguntar o seu nome?
— Pra que você quer saber?
— Vou escrever uma matéria sobre isso. Vou denunciar a agressão e a sua omissão.
— Anota aí. Sargento Juliano. Se a vítima não quer denunciar, eu não posso fazer nada. Infelizmente é assim. A vítima precisa querer ser ajudada. Tá tudo errado. As leis, a justiça. Tudo!

Eu volto pra casa, escrevo estas linhas e penso…. Tá tudo errado.

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Comentários

  1. Kátia Ferreira Postado em 23/Dec/2015 às 13:07

    Talvez seja exatamente isto que precisa mudar na lei: independente da vontade da vítima, havendo flagrante de agressão e testemunhas, o agressor deve ser detido e a ocorrência registrada. A pena poderá variar em função da gravidade, mas que a prisão imediata deve ocorrer, isso deve.

    • SILVIO MIGUEL GOMES Postado em 24/Dec/2015 às 12:25

      Mas é assim. Independe da vítima querer ou não. A lei Maria da Penha mudou e o fato do elemento ameaçar na frente de testemunhas e a vítima dizer ao Policial Militar que corre risco já é o suficiente para levar ao plantão policial e apresentar do Delegado de Polícia. E se a vítima estiver com lesão aí não existe mais nem fiança.

  2. Luciana Postado em 23/Dec/2015 às 13:35

    Infelizmente o policial está certo....

    • poliana Postado em 23/Dec/2015 às 14:39

      oi???????????????????????????????????????????????

      • Tammy Postado em 23/Dec/2015 às 15:33

        Ele está certo quando diz que está tudo errado. Inclusive a atitude dele. Tá Serto.

      • Denisbaldo Postado em 23/Dec/2015 às 19:17

        Poliana, infelizmente é isso mesmo que a lei manda. Esse é um caso de ação penal privada. Sem queixa da vítima, as autoridades estão de mãos atadas.

      • Denisbaldo Postado em 23/Dec/2015 às 19:25

        Peraí, acho que eu me enganei no comentário acima. Parece que o STF mudou essa prática em 2012 com a Lei Maria da Penha. Esse policial deveria se informar melhor, aliás todos nós deveríamos. http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/02/09/relator-no-supremo-valida-lei-maria-da-penha-mesmo-sem-denuncia-da-vitima.htm

    • preto velho Postado em 23/Dec/2015 às 18:37

      Infelizmente você está errada. O policial poderia ao menos ter recolhido o valentão.

    • Gabriel de Barcelos Postado em 25/Dec/2015 às 09:17

      Não está correto. Pela Lei Maria da Penha ele poderia sim realizar a prisão.

    • Thiago Teixeira Postado em 28/Dec/2015 às 08:31

      Infelizmente o machismo é alimentado por mulheres machistas.

  3. Bruno Naves Postado em 23/Dec/2015 às 13:38

    "Faço um clique do policial e ele vem pra cima de mim", estou na espera da foto.

  4. Karla Viana Postado em 23/Dec/2015 às 14:00

    tá tudo errado mesmo, porque os crimes previstos na Lei Maria da Penha são de ação penal pública incondicionada e o cara tava em flagrante

  5. Thiago Teixeira Postado em 23/Dec/2015 às 14:06

    Policial não fez nada simplesmente porque o cara é Branco, um "homem de bem" que teve um surto de raiva...

  6. Junior Postado em 23/Dec/2015 às 14:06

    Coloca o "segurança gato do metrô" que sentou o cassetete no jovem que manifestava dentro do metrô, vamos ver se ele tem toda essa marra mesmo! Tudo bundão, na frente de um homem maior que eles!

  7. Rogerio Postado em 23/Dec/2015 às 14:33

    Policial ganha do imposto que o povo paga. Valoriza mais o bico do que o trabalho de policial. Político ainda pode ser trocado a cada eleição. E esses vagabundos fardados? Ela deveria procurar a DDM e denunciar o agressor. Depois a corregedoria e denunciar o PM vagabundo.

  8. Henrique Postado em 23/Dec/2015 às 21:06

    O problema é a ineficiência e omissão do Estado, personificada no policial. Qual o motivo da mulher não denunciar? o medo do futuro, do que pode acontecer a ela depois pela experiência, crença ou falta de confiança na proteção e punição do e pelo Estado!. Infelizmente o policial pode pedir para que o acompanhe até a delegacia mas se a mulher não tiver coragem de denunciar ele não necessariamente precisa ir e ela só vai sair da delegacia de volta para casa com um merda mais agressivo ainda. Este excesso de burocracia, de proteção, de presunção de inocência quando todos os pontos atestam o contrário apenas serve como estopim em uma bomba prestes a explodir

  9. João Paulo Postado em 23/Dec/2015 às 23:19

    O crime é de ação pública incondicionada, o policial deveria levar o sujeito à DP, etc. No mundo das leis e do "faz-de-conta", tudo está ok. Mas é difícil aturar que isso aconteça ao final: "O agressor, antes de entrar no carro junto com a namorada, ..."

  10. Roberto Postado em 30/Dec/2015 às 18:06

    O problema é um só e a culpa é de todos vocês, nós, vós etc. Ninguém conhece exatamente as idiossincrasias das leis desse país. Se houvesse de fato educação de qualidade, mais de 50% dos nossos problemas sociais seriam resolvidos facilmente, mas óbvio que isto é um desatino surreal. Há protestos de todos os tipos, mas a educação não merece tamanha atenção infelizmente. Sobre o fato acima eu me pergunto algumas coisas; houve de fato agressão? Isto foi claramente documentado? A vítima agredida desistiu da ocorrência, porquê? Havia culpa por algum outro motivo? Qual foi a real circunstância da briga? Porquê não chamaram uma policial feminina? Anotaram as características do veículo do agressor? Além de toda a ladainha escrita até o momento, este caso seguirá adianta, ou servirá exclusivamente de escrutínio nas mídias sociais? Enfim, acho melhor cuidar da minha vida...