Redação Pragmatismo
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Terrorismo 23/Nov/2015 às 18:58
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O Estado Islâmico e as rudimentares lentes da mídia

Estado Islâmico mídia internacional

Pedro Ítalo Carvalho Silva*, Pragmatismo Político

Há algo de podre, não no reino da Dinamarca, como escreveu Shakespeare em Hamlet, mas na arraigada forma de enxergar fatos sociais complexos por lentes rudimentares e reducionistas. Afirmo isso, ainda que relutantemente, pois percebi que qualquer manifestação acerca dos fatos correntes, neste momento, será precipitada e engolida por um turbilhão de novas informações emergentes a cada novo click, por me incomodar categoricamente com a forma minguada como a mídia, e até mesmo alguns doutos “especialistas” e “intelectuais”, vêm tratando o fenômeno ISIS (Estado Islâmico).

A regra, com raras e bem-vindas exceções, parece ser a simplificação, por uma ótica que nos convém, da brutal, porém não menos refinada e elaborada, tática adotada pelo ISIS. A mensagem que nos passam é que se trata de uma mera dualidade maniqueísta, o bem contra o mal, ou, nos termos de Maniqueu, filósofo cristão do século III, Deus contra o Diabo. Aqui, mais uma vez, como vem sendo a infeliz tônica que alicerça os debates políticos dos últimos tempos, o raciocínio binário faz morada. Neste aconchegante binarismo, fatos, indivíduos, grupos e ideias são despidos de todo o robusto leque de fatores que lhes formam, cercam e dialogam, para dar lugar a uma cômoda
dicotomia, como se procurássemos refúgio em um mundo preto no branco, oito ou oitenta, frio ou calor, ou seja, em um contexto político menos complexo e conflituoso que, obviamente, não toca o terreno da realidade. A estratégia é reconfortante, eu sei, mas é moral e politicamente insuficiente e inaceitável.

Leia: Leonardo Boff: O Ocidente escolheu o pior caminho

Há, é bem verdade, inúmeras formas de aclarar e perceber o fenômeno do Estado Islâmico, desde os motivos e contextos do seu surgimento, até a sua forma organizacional, fortalecimento, estratégia, financiamento, motivações e objetivos finais. Estas formas se distinguem umas das outras em diversos pontos, porém, convergem-se em uma questão estrutural: o ISIS é um movimento complexo, uma rede de emaranhados fatores políticos, bélicos, territoriais e religiosos, e que, portanto, não é passível de explicações condensadas em clichês compactos que satisfaçam os assustados ouvidos da audiência. É preciso respeito. Respeito diante dos fatos, da história, da(s)
verdade (s) e, principalmente, dos receptores da mensagem. Ainda que se trate, como no título do documentário do ex vice-presidente dos EUA, Al Gore, de uma “verdade inconveniente”.

Outro recorrente traço dessa reduzida abordagem midiática sobre o lamentável atentado de Paris, parece-me ser uma interpretação quase que hegemônica sobre os membros do ISIS e suas motivações. Aqui, ainda que, muito provavelmente, de forma involuntária, surge uma realocação do conceito arendtiano de “banalidade do mal”, presente na clássica obra “Eichmann em Jerusalém” de 1963. Como percebeu a filósofa judia, Hannah Arendt, no julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Israel, muitos analistas de hoje tratam de atribuir aos membros do ISIS uma espécie de “maldade fora do armário”, algo como uma trivialização da violência que surge no bojo de um “vazio de pensamento”. Contudo, ao contrário do que logrou Arendt, julgo aqui estarem equivocados aqueles que assim interpretam o fenômeno ISIS. Não se trata apenas de uma expressão maléfica independente, de uma conduta perversa desconexa de objetivos e motivações maiores e coletivas. O mal do ISIS não é um mal que nasce e existe por si só, não é banal, ao contrário, é matematicamente planejado e aplicado como parte de uma estratégia maior. Ao contrário de Eichmann e outros nazistas, os membros do Estado Islâmico não utilizam o “mal” apenas como um meio necessário para a conquista de um objetivo qualquer, sem refletir sobre tais condutas, tampouco para galgar promoções e benefícios particulares em uma estrutura burocratizada como era o Estado nazista. A lógica aqui é outra, não cabendo assim, portanto, uma pobre análise que nos leve a crer em uma maldade pura e descontextualizada.

Arcaico. Esse é outro termo frequentemente utilizado nos telejornais para descrever o ISIS. Oras, como pode ser arcaico um grupo que se auto-proclama um “Estado” e não sem razão? Sim, o ISIS, como um Estado politicamente constituído, controla cidades, fornece sistemas de saúde, educação, “segurança”, produz leis, forma estruturas de poder burocráticas e possui estratégias de marketing e recrutamento tão eficazes quanto as de quaisquer outros grupos legalmente legitimados. Aqui, fico com a opinião do sociólogo Rodrigo Prado Mudesto: o Estado Islâmico é sim moderno, tanto quanto as redes sociais e séries de TV. Nas palavras de Mudesto: “Os jovens do EI são produto da
mesma época que produz trolls de internet, empreendedores de startups, nem-nens e os jovens militantes da multidão, do ocuppy e do anonymous e da nova direita. Hidras diferentes que compartilham contemporaneidade.”. Da MESMA contemporaneidade!

Documentário: Por dentro do Estado Islâmico

Por fim, mas sem a pretensão de esgotar o tema, dentre as interpretações possíveis que não vemos nos noticiários, está uma hipótese lançada pela economista Laura Carvalho, que aqui transcrevo: “Para os que não entenderam, os ataques não foram a um local representativo da sociedade francesa. Tampouco foram a um símbolo do poder financeiro ou militar do país. A casa de shows e o restaurante são em um bairro frequentado principalmente por jovens progressistas. Justamente aqueles que são mais propensos a dar boas-vindas a refugiados, por exemplo. Assim como no Charlie Hebdo, os valores atacados não foram o imperialismo e a política francesa de guerra. Foram os valores franceses da liberdade, igualdade e fraternidade, pra ficarmos em um cliché. Não me parece coincidência. Ao alimentar o ódio onde se odeia menos, ao fomentar desejos de guerra em quem não os tinha, o monstro só cresce. É essa a parte mais triste e perigosa.”

Leia também: De onde vem nossa fraternidade seletiva?

Há que se desconfiar de explicações simples para questões abstrusas, especialmente quando elas partem de veículos e vozes com capacidade de formar e influenciar as opiniões de milhões. Um fenômeno tão labiríntico quanto o Estado Islâmico e todo o contexto que o envolve não pode ser reduzido a uma pífia interpretação de “terrorismo”. E aqui não se trata somente de mastigar a notícia para que o espectador possa digeri-la com maior facilidade. Não! Trata-se de despreparo, preconceito e resistência em entender o ISIS fora do enraizado “Establishment” e modo de pensar ocidental.

*Pedro Ítalo Carvalho Silva, 24 anos, graduando em Ciências Sociais pela UFBA – Universidade Federal da Bahia e em Direito pela FRB – Faculdade Ruy Barbosa, pode ser encontrado em: https://www.facebook.com/PedroDelMar1

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Comentários

  1. Guilhermo Postado em 23/Nov/2015 às 21:20

    A impressão que fica é que o autor tenta escrever sem ter o conhecimento necessário sobre o assunto.

    • Heitor Hass Postado em 24/Nov/2015 às 02:26

      Acho que faltou informações pra quem gostaria de explicar o que é, de fato, o Estado Islâmico. Mas entendi o que o autor quis dizer, pois há semanas venho tentando entender melhor o que é esta célula de ideologia forte, onde seus membros não temem matar e nem morrer por seus objetivos. O pensamento deles é totalmente diferente do nosso (estamos embebidos na ocidentalidade), porém ambos reconhecem o sistema que vivemos, consequentemente os dois procuram uma revolução que faça abalar as estruturas deste sistema, nós na América Latina assistimos o conservadorismo e política neoliberal triunfar e com isto nasce a contra hegemonia que deseja revolucionar, os militantes de esquerda, como eu, sabemos que a revolução que tanto almejamos não virá de mão beijada. Os membros do Estado Islâmico vivem uma realidade diferente, mas desejam revolução, porém não é A Revolução, a que destituiria opressores e oprimidos. Para eles a revolução, além do cunho econômico e cultural, é predominantemente religioso, e eles já sabem que a revolução que eles pregam só acontecerá com a luta armada. Enfim, vim debatendo bastante a respeito, daria pra passar uma vida só pra estudar essas peculiaridades.

      • ademar Postado em 24/Nov/2015 às 14:07

        Heitor, desviando um pouco do tema do texto, poderia falar um pouco sobre sua citação : "Os militantes de esquerda, como eu, sabemos que a revolução que tanto almejamos não virá de mão beijada."

      • ademar Postado em 26/Nov/2015 às 11:44

        Heitor?

      • Renato Postado em 23/Mar/2016 às 09:14

        Revolução armada, ele quis dizer. Mas uma a revolução armada de esquerda seria, no máximo, patética frente aos poderes econômicos e militares da direita. Não há contexto, não há mobilização popular, não há conjectura pra isso.

    • João Grillo Postado em 24/Nov/2015 às 08:41

      MODERNO, também, são as fotos e vídeos dos civilizados membros do ISIS jogando pessoas do alto de prédios com a beneficiada população assistindo e conferindo os corpos estendidos no chão.. Decepar cabeças de infiéis, também é outra besteira dos ocidentais.

  2. luis Postado em 23/Nov/2015 às 23:01

    Se a gente não consegue lidar nem com o ISIS, o que será quando chegar no HARDIS?

    • Denisbaldo Postado em 24/Nov/2015 às 08:39

      Boa! Hahaha!

    • poliana Postado em 24/Nov/2015 às 15:31

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...ri alto agora...

  3. C.Paoliello Postado em 23/Nov/2015 às 23:02

    EUA, Reino Unido e França são cúmplices dos terroristas: http://btpsilveira.blogspot.com.br/2015/11/a-droga-do-terror-o-vicio-ocidental-de.html

  4. Rogerio Postado em 24/Nov/2015 às 00:23

    Allah a galera falar do ISIS. Essa violência tem que akbar. É islamentável! Até inshallah meus ouvidos com tanta AliBaboseira. É maomesmo jihadiscurso de sempre. Só sabem maomenos sobre o assunto e já fazem baisharia. Hamas desistem. Estão em burca de alguma coisa, mas InSULTÃO a fé dos caras. Bando de esfiha da mãe! Aqui tem café no tabule, seus califanfarrões!

    • Guilhermo Postado em 24/Nov/2015 às 10:17

      Morri rindo aqui, véi! hahahahahahahahahah

    • luis Postado em 24/Nov/2015 às 22:44

      Pô, tentei descontrair um pouco e o cara chega com uma dessas... ahuahauahuahauahua

  5. Thiago Postado em 24/Nov/2015 às 01:31

    Acho sim que o mal existe, e isso não é uma adesão a um discurso maniqueísta simplório, mas uma reafirmação de valores que jamais devem ser esquecidos. "Igualdade, liberdade e fraternidade" pode ser um clichê, mas ainda é preferível à ideologia do Estado Islâmico, que decapita, crucifica crianças, estupra. O Ocidente tá longe de ser perfeito, mas ainda é infinitamente melhor que nações onde mulheres são apedrejadas pelos menores motivos. A reação da "grande mídia" foi simplesmente uma reafirmação vigorosa e implacável de valores que nos são caros , e que demoraram muito tempo pra ser conquistados: liberdade religiosa, sexual, política. Os Bolsonaros e muçulmanos da.vida sempre nos quererão jogar de volta ao tempo do obscurantismo e do medo. Mas jamais se deve ceder. Durante a ascensão do nazismo, muitos tentaram "compreender" o nazismo, lhe "contextualizar" , tentar anuir com algumas de suas práticas. O resultado foi a gestação de um dos regimes mais nefastos de todos os tempos. O El deve ser compreendido apenas o suficiente para ser completamente derrotado e erradicado da face da terra. Sim, nós (com.todos os nossos defeitos) somos os mocinhos, e eles, ainda que seres humanos como nós, são os bandidos.

    • Wellington Postado em 24/Nov/2015 às 15:52

      Thiago tu é foda!!! agora deixa eu explica aqui um pouco o ISIS é a mesma coisa que Nazismo e Comunismo(principalmente o Stalinismo)a diferença entre esses 3 é simples.O nazismo quer escravizar ou exterminar todos aqueles que não são Arianos e isso incluem judeus,arabes,negros,indios,asiáticos,eslavos,mestiços etc.O comunismo Stalinista quer escravizar ou exterminar todos aqueles que fossem burgueses desde os ricos banqueiros aos vendedores da quitanda;aqueles que fosse religiosos desde o papa aos lideres do camdomblé,macumba ou vodum;aqueles que fossem inúteis para trabalhar para o Estado ou questionar o Estado e isso incluem os Gulags,Grande Expurgo e outros crimes do Stalinismo.Já o ISIS quer escravizar ou exterminar todos os infiéis o que conclui,entre outros,voce,eu toda a população de Mariana,os acionistas da VALE,petralhas,coxinhas,Cristiano Ronaldo,Messi,Jean Wyllys,Bolsonaro.Pro terrorista do ISIS tanto faz se é frances,alemão,portugues,catalão.Eles querem te escravizar ou assassinar só isso

      • Eduardo Ribeiro Postado em 24/Nov/2015 às 17:40

        """"""""""""" ISIS é a mesma coisa que Nazismo e Comunismo """"""""""""""

  6. Luis Guilherme Postado em 24/Nov/2015 às 06:02

    Rogério, luis, vão imediatamente assinar um contrato com o zorra total ou a Praça é nossa. Têm futuro!

    • Guilhermo Postado em 24/Nov/2015 às 10:18

      Achei a sacada do Rogério inteligente demais para participar do zorra total. O cara tá um nível acima já.

    • Rogerio Postado em 24/Nov/2015 às 11:06

      Prefiro porta dos fundos.

  7. sergio ribeiro Postado em 25/Nov/2015 às 16:51

    Acho o texto um tanto difuso e incompleto. Acho sim que os militantes do ISIS são monstros totalitários, mas o que faltou o autor dizer é que os mesmos que agora os chamam de monstros financiaram os mesmos terroristas para lutar contra a URSS, contra Síria, Irã e todos aqueles que atrapalham seus interesses na região (a manutenção do estado de Israel, o comércio de petróleo e minérios, etc.). Venderam armas para eles e agora que o feitiço virou contra o feiticeiro, querem guerra. Há anos a população da região sofre atentados recorrentes, com muito mais vítimas que os franceses, e o bonzinhos ocidentais nunca mexeram uma palha. A tendência é matar os líderes do ISIS e manter os problemas de sempre na região.

    • Renato Postado em 23/Mar/2016 às 09:17

      Até a Al-Qaeda diz que o EI é desumano e violento. Só a esquerda brasileira que não quer enxergar isso