Redação Pragmatismo
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História 24/Nov/2015 às 11:46
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O dia em que Marinho, dono da Globo, fez um pedido deplorável a Leonel Brizola

Jornalista relembra o momento em que o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, apresentou ao presidente das Organizações Globo o projeto revolucionário dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), idealizado por Darcy Ribeiro, cuja proposta era oferecer aos jovens uma escola em tempo integral, unindo cultura e cidadania

Brizola Marinho Globo Escolas

Fernando Brito, Tijolaço

Luis Augusto Erthal é um teimoso. Insiste em ser jornalista, insiste em ser brizolista, insiste em editar livros e insiste em promover a cultura de sua terra, Niterói, onde me encontro exilado já faz tempo. Faz pior, insiste em ser meu amigo há mais de 30 anos, desde a finada Última Hora. E insiste, juntando toda a teimosia, em publicar jornais, um deles o que me envia, sobre os 30 anos do Programa Especial de Educação, que o povo conhece como Cieps, ou Brizolões.

Tem mais coisas, mas começo pelo depoimento pessoal que dá, no qual eu tenho culpa, porque “matriculei-o” por dois anos nos Cieps, em horário integral. Mas como jornalista, capaz de trazer detalhes, propostas, conquistas e dificuldades do mais ambicioso projeto educacional que este país já viveu. Ia dizer já viu, mas não o posso fazer porque não viu, pois essa revolução educacional, que mobilizou milhares de professores e centenas de milhares de crianças, jovens e adultos, numa área construída maior do que Brasília, na sua inauguração, foi criminosamente boicotada pela mídia.

Uma grande e generosa aventura, que jamais sairá de nossos corações, de nossas vidas e de nossos sonhos, que deixo que ele conte, porque o faz melhor que eu.

“Governador, faça umas escolinhas…”
Roberto Marinho tentou fazer Brizola abortar o projeto desde o início

Luiz Augusto Erthal

Não poderia publicar uma matéria sobre os Cieps sem dar um depoimento pessoal, por mais que me doam algumas das lembranças hoje sopesadas na distância desses 30 anos. Tive o privilégio de ver esse programa nascer e acompanhar cada passo da sua implantação. Talvez seja o jornalista que mais colocou os pés dentro dessas escolas, em muitas delas quando ainda se encontravam na fundação.

Estive no Palácio Guanabara, como jornalista e assessor de imprensa, nos dois governos Brizola (1983-1987 e 1991-1995). Cheguei em 1984 para participar de um projeto jornalístico, cujo objetivo era criar um caderno noticioso dentro do Diário Oficial do Estado, o D.O. Notícias, como ficou conhecido, uma estratégia para tentar enfrentar o cerco da mídia contra o governo. Fui designado pelo editor, Fernando Brito, mais tarde assessor-chefe de imprensa do governador, para cobrir as áreas de educação e esportes.

Passávamos os dias como combatentes às vésperas de uma grande batalha naqueles primeiros meses. Brizola conquistara o governo fluminense superando grandes obstáculos, desde atentados à sua vida até a fraude da Proconsult, uma tentativa desesperada de impedir sua chegada ao governo fluminense.

Havia uma enorme expectativa em torno dele desde a posse no Palácio Guanabara, que mais pareceu a queda da Bastilha, com o povo ocupando de forma descontrolada aquele símbolo de poder. Afinal, nos estertores da ditadura, cada naco de poder reconquistado pelo povo era valioso. Vigiado de perto pelos militares, que permaneciam ainda no controle, bombardeado pela mídia conservadora e sufocado economicamente, Brizola tinha pouco espaço de manobra. Até que algo aconteceu.

“Agora esse governo começou!”, lembro bem da exultação do Brito ao voltarmos da apresentação do projeto dos Cieps, com a presença de Brizola, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, no Salão Verde do Palácio Guanabara. Uma revolução havia sido colocada em marcha. Estava claro para todos nós.

Brizola não tinha condições políticas de retomar naquele momento, como nunca mais teve, a reforma agrária e as outras reformas de base preconizadas por ele e por Jango em 64. No entanto, cria como ninguém no poder transformador da educação. Órfão de pai, que morreu emboscado ao retornar da última revolução farroupilha, em 1922, ano do seu nascimento, Brizola e seus irmãos foram alfabetizados pela mãe em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul. Calçou os primeiros sapatos e usou a primeira escova de dentes aos 12 anos, na casa de um reverendo metodista, cuja família o adotou. Pode, então, estudar até formar-se em engenheiro. Fora salvo pela educação.

Quando governador do Rio Grande do Sul (1958-1962), construiu nada medos do que 6.300 escolas. “Nenhum município sem escola”, era o lema. Mas a realidade do Rio de Janeiro nos anos 80 era bem diferente. Ao retornarem do exílio, após 15 anos, Brizola e Darcy se depararam com a obra macabra da ditadura: o inchaço das grandes cidades, a favelização, a desestruturação familiar e o surgimento do crime organizado, que separavam, como bem sabemos hoje, nossos jovens de seu futuro. Aquelas escolinhas alfabetizadoras e formadoras de mão-de-obra técnica e rural do Rio Grande do Sul não resolveriam o problema do Rio de Janeiro pós-golpe.

A solução: uma escola integral em turno único, ofertando educação, cultura e cidadania; mantendo os jovens durante todo o dia longe das ruas e da sedução do crime organizado; dando alimentação, assistência médica, esportes e muito mais. Tudo isso, porém, tinha um custo e exigiria a ruptura de um velho paradigma da política brasileira – de que os recursos públicos sejam colocados à disposição das nossas elites e não do povo. A inobservância desse princípio levou o presidente Getúlio Vargas ao desespero e suicídio; o presidente João Goulart à morte no exílio e a presidente Dilma, agora, a um completo isolamento político, culpados, todos eles, por fazerem transferência direta dos recursos públicos para o povo e não para as elites.

Logo após o lançamento do programa dos Cieps, Brizola ainda tentou estoicamente obter o apoio do então presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho. Sabia o quanto ele seria capaz de influenciar, para o bem ou para o mal. Apresentou-lhe pessoalmente o projeto e nos relatou depois:

“Ele olhou, olhou, olhou e não disse uma palavra. Em uma segunda oportunidade em que nos encontramos, eu cobrei: ‘Então, doutor Roberto, o que achou do nosso projeto’. Então ele disse: ‘Olha, governador, se o senhor quer construir escolas, está muito bem. Mas não precisa disso tudo. Faça umas escolinhas… Pode até fazê-las bonitinhas, tipo uns chalezinhos…’.” Depois disso não houve mais diálogo entre eles.

Os Cieps começaram a brotar do chão com a arquitetura inconfundível de Oscar Niemeyer. Eu fazia sobrevoos de helicóptero para fotografar as obras e, vistas do alto, indisfarçáveis, pareciam pragas que irrompiam da terra árida dos subúrbios e das cidades da Baixada Fluminense. Era a praga rogada pelo povo esquecido que, enfim, tomava sua forma visível e ameaçadora, pois apontava para uma nova ordem.

“As gerações formadas pelos Cieps farão por este País aquilo que nós não pudemos ou não tivemos a coragem de fazer”, afirmava Brizola. Esta, e só esta, é a razão do ódio e do horror que essas escolas incutem até hoje em nossas elites.

Eles ainda estão aí. Descaracterizados, desconstruídos, desativados, degradados. Mas cada um desses 508 Cieps ainda traz consigo a semente da grande revolução sonhada por Brizola e Darcy. São quinhentas “toras guarda-fogo” feitas de concreto armado, uma imagem dos pampas gaúchos com que Brizola gostava de ilustrar o futuro do nosso povo:

“Às vezes a fogueira do gaúcho parece ter-se apagado à noite, mas existe sempre a tora guarda-fogo, que esconde aquela centelha interior. Pela manhã, basta assoprá-la para a chama ressurgir.”

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Comentários

  1. Vania Postado em 24/Nov/2015 às 13:29

    Lastimo o modo como os cieps tem sua existencia apagada. Tentei localizar dados e materiais pedagogicos usados nessa epoca e nao encontro nada na internet. Eram materiais muito interessantes que mencionando nomes de autores e ilustradores e como se nunca tivessen existido. Como se arranca pagina de tamanha importancia?

  2. Tô aí! Postado em 24/Nov/2015 às 13:48

    Não sei se isso é verdade, mas sei que Brizola deu uma ajuda imensa ao crime organizado com um único ato "humanista", colocou um orelhão dentro da cadeia. esse fato está no livro "cv_pcc: irmandade do crime" de Carlos Amorim. Sem falar que a filha dele adorava "passear" nos morros e que ele criou a uma burocracia enorme para liberar helicopteros em operações policiais.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 24/Nov/2015 às 16:34

    Roberto Marinho achando exagerado o investimento em educação pública de qualidade....isso surpreende alguem? Considerando que apoiou fortemente - e se beneficiou - a Ditadura Militar e que é nela, a Ditadura, que deve recair a culpa pelo início do processo de sucateamento da educação pública brasileira, esse cidadão obviamente foi um dos grandes inimigos da evolução intelectual/educacional do povo brasileiro. A dívida dos Marinho com a pátria brasileira é impagável.

  4. Eduardo Ribeiro Postado em 24/Nov/2015 às 16:37

    """"""""um velho paradigma da política brasileira – de que os recursos públicos sejam colocados à disposição das nossas elites e não do povo. A inobservância desse princípio levou o presidente Getúlio Vargas ao desespero e suicídio; o presidente João Goulart à morte no exílio e a presidente Dilma, agora, a um completo isolamento político, culpados, todos eles, por fazerem transferência direta dos recursos públicos para o povo e não para as elites.""""""""""... MEÇA SEUS GABARITOS, PAI ERTHAL. ESFREGAR VERDADES NA FACE PREJUDICADA DOS REAÇAS É REALIZADOR, MAS PEGA MAIS LEVE..

  5. enganado Postado em 24/Nov/2015 às 22:34

    Roberto Marinho, FHC, çERRA, AERÓPIO, BOÇALNARO, gen Mourão .... todos gostam tanto do BRASIL e querem acabar com o analfabetismo em nossa Pátria. Agora então contem a piada do macaco em um bacanal no céu, qdo S. Pedro perguntou a ele o que lá fazia, pois já estava castrado a muito tempo. Aí ....

  6. sergio ribeiro Postado em 25/Nov/2015 às 10:15

    Se falou muito na época que esses tais Cieps ficavam em áreas distantes e os alunos tinham dificuldade de chegar até elas. Estava mais para um erro de projeto do que falta de apoio político. Aliás, para se instalarem escola, é preciso de apoio de mídia?

    • João Paulo Postado em 26/Nov/2015 às 01:30

      Da mídia, não. Basta não haver intromissão dos bons e velhos interesses escusos, patrocinados pelo organização criminosa dos Marinhos. A imagem da cidade do Rio de Janeiro e de Brizola foram massacradas (e ainda são, em menores proporções) pela Rede Bobo, tal qual a da Presidenta Dilma. A estigma de ÚNICA cidade extremamente violenta do país, que acabou com o Carnaval de rua e o turismo como um todo por duas décadas, se deve a uma rixa entre Brizola e o Roberto Marinho. Aquele papo de que paulista, mineiro e pernambucano tem medo de vir ao RJ persiste até hoje por causa disso. Sem contar os documentos vazados da CIA que dispunham de planos para por o Brizola mais cedo para dormir ...

    • claudio vigas Postado em 26/Dec/2015 às 11:45

      Verdade!... Faz-se um projeto desses e, vai pedir a opinião ou benção de Roberto Marinho!!.. vá entender!

  7. junior maia Postado em 25/Nov/2015 às 12:14

    A Globo parece ser a emissora que reflete um sentimento muito comum da elite brasileira: covardia!