Redação Pragmatismo
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Racismo não 12/Nov/2015 às 23:10
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Entrevista da consulesa da França no programa do Jô foi uma aula sobre racismo

Alexandra Loras “quebrou tudo” no Programa do Jô. A consulesa da França em São Paulo, que já desenvolveu pesquisas sobre a visibilidade das minorias na mídia, foi performática, reflexiva, e deu não somente uma aula sobre racismo, mas sobre como lidar com as câmeras, com o tempo curto da TV, com a plateia do estúdio e o público de casa

consulesa da França Alexandra Loras
Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo (reprodução)

Cidinha Silva, DCM

Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo quebrou tudo no Programa do Jô (vídeo abaixo). Sua entrevista teve repercussão maior do que a participação no Esquenta, Amaury Júnior e mesmo em programas sérios de jornalismo. Acontece que Jô Soares e sua produção constituíram um produto televisivo formador de opinião, principalmente da claque universitária que disputa vagas no auditório diariamente.

A consulesa, por sua vez, sabe lidar com as câmeras, com o tempo curto da TV, com a plateia do estúdio e o público de casa. Também manejou bem o entrevistador que costuma intimidar muita gente e a alguns sequer deixa falar. Além do carisma pessoal e de todos os encantos de uma mulher muito segura de si, Alexandra Loras é jornalista e desenvolveu pesquisas sobre a visibilidade das minorias na mídia. Tem também no currículo sete anos como apresentadora de TV na França.

Na entrevista do Jô ela foi performática e reflexiva. Assim, quando o apresentador perguntou se ela já havia passado por preconceito no Brasil, a consulesa sorriu e disparou: ah, era essa a pergunta que você queria me fazer. Foi uma rasteira na previsibilidade das abordagens que pretendem tratar a discriminação racial como tema ameno, aprazível para o café da tarde.

A performance vive o segundo grande momento quando a entrevistada exemplifica uma situação discriminatória vivenciada no exercício protocolar da diplomacia francesa ao receber os convidados de uma recepção na porta da Embaixada. Ela conta que várias pessoas a ignoram, não a cumprimentam, passam por trás dela. Seu discurso não deixa dúvidas de que isso ocorre porque é negra. Não há espaço para o apresentador tergiversar ou sofismar baseado nas relativizações que o brasileiro médio faz sobre o racismo e suas manifestações.

No terceiro ato Alexandra Loras bate bola com o apresentador, muda de lugar e o entrevista. Formula perguntas sobre expressões de racismo e segregação no Brasil, usa como exemplo o uniforme branco das babás. Sua larga experiência internacional é usada para dar suporte à afirmação.

A novidade é a possibilidade de a consulesa emitir uma voz negra crítica neste programa e, de resto, na mídia brasileira. A rigor, ela diz coisas que o Movimento Negro contemporâneo diz há décadas. Sem escuta.

Abdias Nascimento numa situação política em que as mulheres negras não tinham voz disse que se faria cavalo delas, ou seja, emprestaria o corpo para que suas demandas se manifestassem. Alexandra Loras tem sido cavalo dos negros brasileiros. Tem emprestado seu corpo, elegância e sabedoria para, de maneira didática e espetacular, provocar as pessoas brancas a pensar o mundo ao revés. Ou seja, ela as força, em nome da boa educação, a ouvir uma preleção sobre os lugares de subalternidade construídos para as pessoas negras no mundo, nos quais, o exercício é fazer com que os brancos assumam a posição sociocultural dos negros.

É mesmo um espetáculo o que ela encena quando propõe que as pessoas brancas tirem a mochila do passado das costas e livrem-se das responsabilidades imputadas pelo escravismo e colonialismo. A seguir introduz a questão das cotas chamando-as de feias e humilhantes. A plateia que tinha um grito de insatisfação preso na garganta depois de toda aquela chatice de ver o mundo ao revés, vai para a galera e aplaude a performer em cena aberta. Enfim, a mulher belíssima e articulada entendeu o lado deles.

Só que não. Era pegadinha ou estratégia de comunicadora hábil. Alexandra Loras retoma as rédeas da situação depois de ter desnudado os privilégios brancos gozados pela audiência.

Se fosse técnica de futebol, a consulesa seria do tipo motivacional e manipularia os aspectos psicológicos dos jogadores para conseguir os resultados desejados. Mas, que nada. Seu tema predileto por aqui tem sido a explicitação do racismo que vivencia como mulher negra que circula elegantemente pelos espaços de elite no Brasil. Estamos diante de uma grande comunicadora que prima pelo raciocínio lógico e que usa uma flauta doce para encantar najas.

Vídeo:

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Comentários

  1. a.ali Postado em 13/Nov/2015 às 00:53

    Inteligentíssima... e a platéia que exultou mostrando como, realmente, pensam ?

  2. Mark Postado em 13/Nov/2015 às 00:54

    Na verdade "essa era a pergunta que queria você me fazer" eu acredito que ela quis dizer "essa era a pergunta que eu queria que você me fizesse", pois essa construção com esse tempo verbal é bem complicada para um extrangeiro aprendendo o português, que é o caso dela.

    • Luzia Postado em 14/Nov/2015 às 03:00

      ..português de Portugal.

    • Luzia Postado em 14/Nov/2015 às 03:01

      ..essa era a pergunta que vc queria me fazer

  3. Du du Postado em 13/Nov/2015 às 05:03

    Esperava comentários sobre as cotas aqui

  4. Entrevista da consulesa da França no programa do Jô foi uma aula sobre racismo | Além da Mídia Postado em 13/Nov/2015 às 05:45

    […] post Entrevista da consulesa da França no programa do Jô foi uma aula sobre racismo apareceu primeiro em Pragmatismo […]

  5. Quiqui Postado em 13/Nov/2015 às 07:13

    Fabulosa é pouco! Lacrou!

  6. Viviane Aranha Postado em 13/Nov/2015 às 08:39

    Aos 9h35 da entrevista Alexandra Loras diz: "Eu acho que as cotas são humilhantes. As cotas talvez sejam a pior solução". E TODA A PLATÉIA APLAUDE FORTEMENTE. Mas aí ela completa: "Mas eu concordo de uma certa forma. Eu acho que infelizmente é a única solução. Porque já tivemos 127 anos para nos dar conta de que sem cotas não se equilibra de maneira orgânica, de maneira natural". PLATÉIA MUDA.

    • tatiana reis Postado em 26/Jan/2016 às 13:12

      a coxinhada vibrou qndo ela falou mal das cotas

  7. Chico Postado em 13/Nov/2015 às 09:05

    "As cotas são humilhantes" - CLAP CLAP CLAP CLAP!!! "Mas são a única forma de equilibrar" - cri cri cri cri

  8. Naldo Postado em 13/Nov/2015 às 09:39

    o que é mais justo cota por cor ou condição financeira?

    • Aline Postado em 13/Nov/2015 às 13:19

      A lei 127111/2012 prevê as duas coisas. Estudantes egressos de escolas públicas (que tenham estudado integralmente em escola pública, não basta ter feito o último ano); oriundos de famílias com renda inferior a 1,5 (um salário-minímo e meio) per capita. E os autodeclarados pretos, pardos e indígenas. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm

      • Eduardo Postado em 13/Nov/2015 às 15:53

        Isso é pra ingressar na universidade Aline. Pra concursos públicos nao tem esse pré-requisito. Basta se auto declarar negro. O que acontece na prática é que o negro com mais recursos passa.

      • eu daqui Postado em 16/Nov/2015 às 15:03

        E os negros e os não negros com menos recursos ficam de fora.

  9. Marcelino Postado em 13/Nov/2015 às 10:05

    Como pode ser 'significativo' um status de consulesa...Responsavelmente social

    • Andre Postado em 13/Nov/2015 às 11:42

      Já se perguntou porque são por cor, queridão? Sabe quais os critérios para o acesso por cotas? Se sabes, tua pergunta não tem fundamento. Se não sabes, vá e se informe!

  10. Eduardo Ribeiro Postado em 13/Nov/2015 às 10:29

    A bela consulesa fala sobre as cotas, e se mostra desfavorável à existência de tal medida para a inclusão dos negros nas universidades. São a pior solução. A plateia BRANCA aplaude efusivamente...êxtase total...orgasmos múltiplos coletivos......logo em seguida ela diz que a cota racial, até o momento - mais de 1 século após a abolição da escravidão - é o MELHOR E UNICO meio de garantir o acesso da população negra à universidade. E desce o sarrafo na USP por patetica e vergonhosamente não aderir a medida, já que o acesso à educação e informação é um dos meios que podem acabar com a criminalização e o preconceito que os negros sofrem no país. PEGA LEVE COM ESSE GABARITO, CONSULESA. ESTÁ PETULANTE DEMAIS. DEIXA UM POUCO PROS OUTROS. PRA QUE FAZER ISSO? PRA QUE ENVERGONHAR TANTO BRANCO RACISTA DE UMA VEZ? POR QUE MITOU TANTO, MÃE??

  11. Moacir Postado em 13/Nov/2015 às 10:55

    Muito mais humilhante do que as políticas de cotas é a cota de exclusão social dos direitos básicos da cidadania.

  12. Denisbaldo Postado em 13/Nov/2015 às 11:37

    Isso sim é uma mulher bonita, inteligente e empreendedora. Ela empreende sua inteligência e beleza a favor daqueles que não tem voz. E a plateia coxinha...CHUPA CHUPA CHUPA!

    • eu daqui Postado em 16/Nov/2015 às 15:05

      A plateia talvez qeira chupar a consulesa mas não vc..............

  13. Roseanne Postado em 13/Nov/2015 às 12:17

    Ridícula a a participação da platéia. Alexandra deu um show de inteligência.

  14. Valdete Lima Postado em 15/Nov/2015 às 11:52

    Como eu gostaria que todos os negros brasileiros tivessem esse entendimento. Foi preciso uma negra francesa ir ao Jô pra dizer todas essas verdades. Eu adorei o fato de o Jô ficar impactado pela exposição dela. Principalmente quando ele diz que o uniforme branco era uma questão de higiene e ela diz simplesmente: '' quer dizer que os outros com roupas diferentes estão sujos?" A melhor entrevista do ano no programa dele.