Redação Pragmatismo
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Tragédia 11/Nov/2015 às 16:47
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Da lama à ordem: Mariana e o jornalismo que não dá nome aos bois

Por trás da lama da Samarco afirma-se o gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Ignoram-se os conflitos, minimizam-se as contradições e se assimilam os discursos cínicos. Primeiro enumeremos os donos: já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale. E a quem pertence à Vale? Esse capítulo, que costuma ser omitido, merece uma atenção especial

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A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois (Pragmatismo Político)

Alceu Luís Castilho, Outras Palavras

Por trás da lama da Samarco afirma-se o gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Dezenas de pessoas estão desaparecidas em Mariana (MG). Entre elas, crianças. O vídeo abaixo mostra como era o cotidiano de um povoado destruído. Mas a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI  já começa a ser soterrada pelos jornais, após uma cobertura protocolar. Da lama à ordem: ignoram-se os conflitos, minimizam-se as contradições e se assimilam os discursos cínicos de executivos e de membros do governo. Com a clássica blindagem dos sócios da empresa.

Primeiro enumeremos os donos. Já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale, a Vale que tirou o Rio Doce de seu nome e nele despejou lama tóxica. A outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em Trinidad & Tobago. Já protagonizou na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras do mundo.

E a quem pertence à Vale? Esse capítulo costuma ser omitido, quando se fala de impactos sociais e ambientais. A empresa é controlada pela Valepar, com 53,9% do capital votante (1/3 do capital total). Com 5,3% para o governo federal, 5,3% para o BNDESpar, 14,8% para investidores brasileiros, 16,9% na Bovespa e 46,2% de investidores estrangeiros (este percentual cai para 33,9% no caso do capital total). De qualquer forma já temos que a Samarco – com a metade anglo-australiana e com esses investidores estrangeiros da Vale – tem mais da metade de suas ações nas mãos de estrangeiros.

E quem manda na Valepar, que controla a Vale? 1) Fundos de investimentos administrados pela Previ, com 49% das ações; 2) A Bradespar, do Bradesco, com 17,4%; 3) A multinacional Mitsui, um dos maiores conglomerados japoneses, de bancos à petroquímica, com tentáculos na Sony, Yamaha, Toyota, com 15%; 4) O BNDESpar, com 9,5. (Ignoremos os 0,03% da Elétron, do Opportunity e seu onipresente Daniel Dantas. E registremos que, com a Mitsui, aumenta ainda mias a participação de estrangeiros na Samarco.)

BNDES? Previ? Mas por que, então, a imprensa acostumada a fustigar o governo federal não fiscaliza com mais atenção a Vale, símbolo da privatização a preço de banana? Simplesmente porque não tem o saudável hábito – a imprensa brasileira – de fiscalizar corporações. E porque essas instituições não estão sozinhas. Porque tem a Mitsui, o Bradesco – o bilionário Bradesco. Com um governador petista dando entrevista coletiva na sede da Samarco. (O capitalismo não é para amadores.) Não há um acompanhamento sistemático do custo social e ambiental das aventuras plutocratas, sob governos de siglas diversas. Pelo contrário: o que há é um marketing despudorado.

EXECUTANDO ADVÉRBIOS

Essa rede de donos da Samarco manifesta-se por meio de um jovem executivo, Ricardo Vescovi. Os gerentes de crise da empresa tiraram o site do ar (sabe-se lá com quais informações) e divulgaram esse vídeo do presidente no Facebook. Com seu milagre de multiplicação de advérbios insossos e pronomes totalizantes, insensíveis aos dramas dos mineiros. “Lamentavelmente”, “imediatamente”, “absolutamente todos os esforços” em relação ao “ocorrido”, “todas as ações”, “todos os esforços”, “igualmente não medindo esforços”, “todo apoio”, “toda solidariedade”, “lamentamos profundamente” o “acontecido”.

Os mais desavisados poderão até ficar com dó do pobre coitado. Ainda mais após as declarações do governo mineiro de que a Samarco foi “vítima” do rompimento da barragem. E após jornalistas irresponsáveis replicarem notícias sobre “tremores de terra” que acontecem todos os dias. Muito embora a empresa já soubesse, desde 2013, que a barragem – como outras pelo país que ainda não desabaram – estava condenada. E que essa não tenha sido a primeira tragédia em Minas Gerais. São esses mesmos jornais que não se furtam a cobrir, de forma reverente, o que as empresas chamam de “sustentabilidade”, “responsabilidade social e ambiental”.

Alguém poderá argumentar que um jornal da grande imprensa, o Estadão, divulgou notícia sobre o laudo de 2013 que mostrava os problemas estruturais na barragem. Sim. Em 2015. Mas cabe lembrar que uma ou outra notícia isolada após uma tragédia está longe de caracterizar a cobertura crítica de um setor econômico. Se o tema não se mantém na manchete (passou longe disso, neste domingo, nos principais jornais do país), em artigos recorrentes, editoriais sistemáticos, não há o agendamento político efetivo – e sim o convite ao esquecimento. E à impunidade. (Quem vai fazer uma Operação Lava Lama?)

IMPRENSA DOS VENCEDORES

Essa mesma imprensa se esquece também de contar ao leitor que existe um choque entre modelos de apropriação do território e dos recursos naturais. O vídeo da TV Cultura sobre a comunidade destruída mostra – ainda que com uma abordagem que privilegia o exótico – um modo de vida bem diferente, onde as moradoras vão na casa das outras, plantam-se pimentas no quintal e se produz geleia, coletivamente, em uma associação. Uma lógica econômica muito diversa da predação extrativista – e esgotável – protagonizada pela Samarco, esse nome amorfo emprestado a dois expoentes do capitalismo mundial. Quem disse que há consenso?

Existem movimentos sociais específicos de atingidos pela mineração, ou atingidos pelas barragens. Até mesmo de atingidos pela Vale. Por que não se dá voz a essas pessoas? Se nem após os desastres isso acontece, o que se dirá do dia a dia?  Porque os cadernos e até revistas especializadas são de “negócios”, como se esses negócios pudessem pairar (numa sociedade democrática) acima dos interesses dos cidadãos. Por que os calam? Por que essa censura? Por que a destruição de uma comunidade inteira e de um ecossistema não comovem? Porque esse jornalismo é situacionista, economicamente situacionista. Torce para os vencedores.

Os mais eugenistas nem se constrangem em dizer que aquelas populações não deviam estar ali – deviam abrir alas para a distinta mineradora. Como se fosse um bem infinito para o país o esgotamento de seus recursos minerais. Não se questiona o modelo e nem suas conexões com outros temas: a falta d’água, o crescimento e a falta de infraestrutura das periferias urbanas, inchadas também pela expulsão das populações tradicionais. Faz-se tudo menos um jornalismo sistêmico, que consiga olhar para temas simultâneos, para tendências econômicas e para o clima, para a desigualdade e os riscos ambientais. Com nome aos bois (ou aos caranguejos), o nome dos beneficiários. Quem ganha com isso?

NATURALIZAÇÃO

De um modo geral o efeito obtido no caso de Mariana é o de naturalização de uma matança e de um crime ambiental histórico. Como não houve chuvas, inventa-se um terremoto. A morte horrível de moradores e a destruição de um povoado por uma empresa ganham, no máximo, uma cobertura similar à das tragédias em São Luís do Paraitinga ou Petrópolis (fruto também da especulação imobiliária), ignorando a cadeia de sócios, os interesses políticos em torno das mineradoras ou o risco estrutural que esse tipo de exploração impõe ao ambiente, aos trabalhadores e vizinhos, bola pra frente que em janeiro teremos “outras enchentes”. Como se fizesse parte do sistema ser soterrado por uma lama tóxica enquanto se planta alface.

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Comentários

  1. Da lama à ordem: Mariana e o jornalismo que não dá nome aos bois | Além da Mídia Postado em 11/Nov/2015 às 18:48

    […] post Da lama à ordem: Mariana e o jornalismo que não dá nome aos bois apareceu primeiro em Pragmatismo […]

  2. João Paulo Postado em 11/Nov/2015 às 19:46

    As grandes corporações são verdadeiros feudos (procurem por neofeudalismo). Não se submetem à lei, à fiscalização ou ao Judiciário. Estão acima do bem e do mal, seguindo sistematicamente as regras que criaram em seu mundinho à parte. Não se reportam às autoridades, tão-somente a seus senhores feudais - representados atualmente por diretores, executivos, CEOs ou quaisquer nomenclaturas que soem pomposas. Digo isso com um superficial conhecimento de causa, o que já é suficiente para gerar repulsa indescritível. O discurso do Secretário de Desenvolvimento mineiro gera um misto de nojo e raiva ao igualar a situação da "empresa" à das populações afetadas. O Governo é e permanece omisso. Sequer disfarça. Qual a medida? Autorizar a liberação do FGTS e aguardar a solidariedade da população. Asqueroso. No mais, chamemos à responsabilidade o sr. privateiro, que doou em troca de esmola a atual Vale do Rio Podre em nome da eficiência.

  3. Alex Postado em 12/Nov/2015 às 00:23

    Muito boa a matéria. É impressionante como uma tragédia desta proporção não se dá a importância devida e nem se fala no nome da Vale do Rio Doce.

  4. Guilherme Postado em 12/Nov/2015 às 01:06

    Excelente exposição!

  5. Thiago Teixeira Postado em 12/Nov/2015 às 07:26

    Tem petista do meio? Tem como vincular o ocorrido com o governo federal? Não. Então ... BORA REVIRAR LIXO PARA ALIMENTAR O GOLPE.

    • Pedro Postado em 13/Nov/2015 às 11:24

      Isso ae, só se o filho do Lula for dono da vale tambem, deve ter comprado do FHC a preço de banana, ai vira noticia séria.

  6. Eduardo Ribeiro Postado em 12/Nov/2015 às 11:30

    Duro é ver o prefeito de Mariana dando entrevista na Globo....fazendo reuniãozinha com diretoria, "é...os prejuizos foram de aproximadamente 100 milhões, a gente vai se acertar....mas Mariana não pode viver sem a mineração...tem que ver isso aí"....LACAIO SUBSERVIENTE. Tem que meter todo mundo na justiça, prender diretoria, engenheiros, cair de pau em cima de BHP/Vale/Samarco, cobrar indenização de no mínimo 30-40x esse valor aí, e foda-se a mineração e as mineradoras, verdadeiro CÂNCER. Porra. Eu nem quero imaginar o quanto uma Vale doou, em época de eleições, para PT/PMDB/PSDB, pra não ficar ainda mais bolado. Você tem o prefeito da cidade de quatro com a calça arriada pra mineradora depois de um desastre tão colossal, somado a omissão da mídia canalha e aos zumbis que já estão se manifestando por aí "em defesa da coitada da Samarco". É a versão brasileira de Fukushima e tem gente empenhadissima em poupar a coitada da empresa, até abalo sísmico encontraram aí (abalo de 2 pontos....se eu jogar meu sapato no chão, treme mais do que isso aí). Estado, mídia, sociedade, "democracia", está TUDO NO BOLSO das grandes corporações. Aí a barbárie, o caos, a destruição, a morte, se tornam mero detalhe em nome do lucro e do interesse privado.

  7. Wesley Postado em 12/Nov/2015 às 21:49

    TODOS OS PODERES ESTÃO CONTAMINADOS COM A CORRUPÇÃO INCOMPETÊNCIA E BURRICE...O RESULTADO, É TODO DIA UMA DESGRAÇA NOVA NOS JORNAIS E MÍDIAS DIGITAIS...NÃO HÁ UMA NOTÍCIA BOA...SÓ TRAGÉDIAS, PILANTRAGENS, ASSASSINATOS E ROUBALHEIRAS...ESTAMOS NO LIMITE...O BRASIL ESTA ATRASADO...ESTÃO NOS ESPERANDO DO OUTRO LADO...\0/

  8. enganado Postado em 13/Nov/2015 às 19:45

    Esta reportagem deveria ser leitura de cabeceira para o oJênio Boechatô, porque até então faltou coragem de falar a verdade dos estrangeiros donos do negócio. Só falou mal do governador porque o mesmo é do PT, penso que o Fernando Mitre e o próprio estão levando alguma grana pelas as omissões diárias sobre esta verdades dos fatos, depois não digam que não sabiam de nada. Sabem TUDO e muito mais que nós, não é Boechatô? Aliás, o mesmo não perde uma chance de pixar qq pessoa do PT. Pergunto: """Qdo vai falar alguma coisa (pixar) no mesmo tom (escrevi, mesmo tom! ah! ah! ah!) do PSDB/DEM/FHC/CAIADO/AERÓPIO... em suas críticas vergonhosas? NUNCA! Perde o emprego! Covardia orquestrada da Direita ANGLO_SEMITA (Imprensa Empresa Press_tituta Anglo-Semita) que detestam o BRASIL e só querem sugar nossas riquezas=todas as riquezas! Vcs pensam que enganam com esse palavreado mentiroso, sacana e falso. Me desmintam.

  9. Onde estavam os paneleiros durante o comercial da Samarco na TV aberta? Postado em 22/Feb/2016 às 11:57

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