Redação Pragmatismo
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Desigualdade Social 23/Oct/2015 às 15:44
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Por que Joana, negra e pobre, não teve a mesma sorte de Juliana?

Joana é negra, carroceira, sem dentes, dependente de drogas e desde muito cedo sofre com a omissão do Estado. Juliana é branca e rica e, mesmo tendo matado duas pessoas, é beneficiada pela ação do Estado

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Juliana Cristina da Silva, 28, foi presa após atropelar e matar duas pessoas e tentar fugir. Levada ao DP, fez o teste do bafômetro, que comprovou que ela havia bebido (Mario Angelo/Sigmapress/Folhapress)

Djamila Ribeiro, CartaCapital

No dia 15 de outubro Juliana Cristina da Silva, de 28 anos, responsável pelo atropelamento de dois operários que pintavam uma ciclo-faixa, foi libertada da prisão onde estava desde o dia do acidente, 18 último, para responder ao processo em liberdade.

Juliana terá de pagar um fiança de 20 salários mínimos, o equivalente a 15 mil reais, e comparecer ao fórum a cada dois meses. Foi comprovado que Juliana estava embriagada no momento do acidente.

José Airton de Andrade e Raimundo Barbosa dos Santos morreram vítimas do atropelamento. O primeiro deixa dois filhos e o segundo, quatro. Além de atropelar e matar os dois homens, Juliana fugiu do local do acidente e chegou a percorrer cerca de 3 quilômetros antes de ser parada pela polícia. E Juliana responderá em liberdade.

Dina Alves, advogada e ativista, concluiu uma pesquisa de mestrado nesse ano na PUC São Paulo, na qual analisou o modo pelo qual rés negras são tratadas pelo judiciário. A pesquisaRés negras, Judiciário branco: uma análise da interseccionalidade de gênero, raça e classe na produção da punição em uma prisão paulistana, tinha o objetivo de oferecer uma análise interseccional de gênero, raça e classe sobre a distribuição desigual da punição no sistema de justiça criminal paulista e aprofundar a relação entre a feminização da pobreza e feminização da punição.

“A análise interseccional oferece possibilidades de descentralizar (ou complexar) os estudos sobre as prisões que têm privilegiado a perspectiva de classe social em detrimento de uma abordagem mais ampla e condizente com a realidade racial brasileira”, diz Dina.

“Embora as mulheres presas tenham sido objeto de crescente interesse entre pesquisadores do sistema penitenciário nacional, as mulheres negras não aparecem em suas discussões, ainda que constituam o principal grupo de presas no país. Alguns trabalhos têm mostrado que as mulheres, de modo geral, possuem uma vulnerabilidade específica, marcada por sua condição de gênero em uma sociedade estruturada a partir de desigualdades entre homens e mulheres”, prossegue.

“Apesar de tais estudos ajudarem a entender a dimensão de gênero nas prisões – uma vez que elas têm o mérito de des-masculinizar as narrativas sobre o universo prisional – eles têm se revelado insuficientes no que diz respeito à especificidade da mulher negra”, conclui.

Para tal, Dina entrevistou algumas rés negras para que falassem de suas situações e eventuais violências sofridas e as histórias demonstram a parcialidade da justiça brasileira. Dina não colocou os nomes verdadeiros das mulheres, segundo ela o uso do nome fictício foi político “para preservar a imagem da entrevistada e para romper com a lógica burocrática que a reduziu a números, tanto nos seus prontuários que tive acesso, quantos nos processos criminais”. Dessas, se destaca a história de Joana.

“Eu peguei sete anos de novo e tou aqui com minha filha, e agora ela teve um bebê, meu neto. Quando fui presa, trabalhava como carroceira e morava nas ruas, embaixo do viaduto do Glicério. Eu tava na cracolândia e o policial me levou. Eu engoli três pedras de crack pra não ser presa. Já perdi as contas de quantas vezes vim pra cá. A primeira vez foi com 17 anos quando fui para a Febem, e hoje tenho 49 anos. Já vivi mais aqui do que lá fora. O que eu quero hoje é poder ficar com minha filha mais perto e meu neto. O pai do menino a polícia matou e eles querem levar meu neto para a adoção, mas eu não vou deixar. Já falei com a Pastoral”, relata uma entrevista realizada em 5 de outubro de 2014.

Sobre Joana, Dina diz: “Nos meus encontros com Joana percebi a figura de uma mulher negra, carroceira, sem dentes, obesa e dependente de drogas. A experiência de Joana como usuária e vendedora de drogas na Cracolândia ajuda a entender o que a socióloga norte-americana Julia Sudbury chama de “feminização da pobreza”.

Cada vez mais marginalizadas do acesso às esferas de produção de consumo e direitos de cidadania, mulheres negras, como Joana, figuram na economia ilegal do tráfico de drogas como vendedoras, mulas ou simplesmente consumidoras. Joana tem uma história de uso de drogas que tem tudo a ver com o processo de racismo e feminização da pobreza no Brasil.

Sua história de aprisionamento começou aos 11 anos de idade quando viveu entre as ruas e abrigos do Estado. Foi apreendida aos 17 anos de idade na atual Fundação Casa (FEBEM) e hoje cumpre pena na penitenciaria Feminina de Santana com sua filha e seu neto recém-nascido. Entre a prisão e as ruas, Joana tem a vida marcada por um assalto patriarcal ao seu corpo que pode ser visto em sua aparência doentia e envelhecida, embora possua apenas 49 anos de idade”.

Joana não teve a mesma sorte de Juliana. Joana é negra, pobre e desde muito cedo sofre com a omissão do Estado. Juliana é branca e rica e, mesmo tendo matado duas pessoas, é beneficiada pela ação do Estado que concede privilégios ao grupo branco por conta do racismo estrutural. Joana, aos 49 anos seguirá encarcerada e sem oportunidades.

VEJA TAMBÉM: E quando o autor das facadas é um playboy?

Juliana, após tirar a vida de dois trabalhadores por dirigir alcoolizada, o que também configura crime, vai passar o natal com a família porque na lógica desigual racista, foi só uma moça de bem que cometeu um erro.

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Comentários

  1. Jose Antonio Postado em 23/Oct/2015 às 16:43

    O Judiciário brasileiro é uma instituição racista e conservadora. Não há formas de corrigir isso exceto por pressão externa.

    • Ruy Dias Postado em 23/Oct/2015 às 17:54

      Jose não negócio o racismo brasileiro. Tem até um vídeo muito bom sobre isso do Porta dos Fundos. Mas não me parece ser esse o caso acima. Não sei porque a moradora de rua foi presa. Mas a branquinho rica foi presa por homicídio doloso. A justiça brasileira dá aos réus o direito de responder em liberdade desde que tenham emprego fixo, moradia etc para evitar a fuga. Além disso todos tem direito a defesa e quem não tem grana recorre a defensora pública. A diferença portanto é de quem tem bons advogados e recurso e que não tem. Nada a ver com cor. O Simpson era negro e culpado mas como teve bons advogados escapou. Negro rico é igual a branco rico.

      • Eduardo Postado em 23/Oct/2015 às 23:43

        Ruy nem doloso foi, registraram como culposo, pela noticia que vi na mídia..... este é o Brasil dos que pedem a volta da ditadura militar, se bobear esta senhora bateu panelas nas manifestações.... mas as coisas estão mudando, antigamente menina pobre só servia para ser doméstica, tudo bem, mas agora tem que pagar o justo e acompanhado pela Receita Federal.....

      • GabrielG Postado em 24/Oct/2015 às 18:01

        Já eu vi no Jornal Nacional que ela irá responder por homicídio culposo, não doloso.

      • Iran Bayma Postado em 25/Oct/2015 às 20:59

        Tenho observado que no Brasil vc é maltratado independente da cor. Só pela sua condição social ou origem regional. Mas a cor da pele,infelizmente, está associada às duas variáveis antes citadas (pobreza e origem regional). Somos um país de desinformados e analfabetos funcionais quando se trata da discussão de políticas afirmativas e inclusivas daquilo que não sei porque se chama de "minorias", quando na verdade a maioria da população é pobre mulata ou negra.

  2. José Ferreira Postado em 23/Oct/2015 às 16:59

    Essa reportagem comparou casos de reincidência com um caso de uma ré primária. Essa divisão por raça feita pela matéria também é errônea, pois a Joana teria sido solta se fosse uma ré primária e tivesse o dinheiro para pagar a fiança. É evidente que desejo a punição de ambas as criminosas.

    • Vicente Postado em 23/Oct/2015 às 19:13

      Caro José, talvez você tenha razão. Em parte. Uma coisa me chamou atenção em seu comentário: "e tivesse dinheiro para pagar a fiança". Isso é no mínimo estranho que uma pessoa que tenha dinheiro par pagar, possa ficar livre. Isso não é pedagógico. Outra questão que a reportagem não esmiuçou, mas que já vimos tão comumente: pessoas pobres não conseguem pagar bons advogados e acabam sendo condenadas, ao passo que pessoas ricas conseguem, muitas vezes, se não a absolvição, a prescrição ou a conversão da pena em penas alternativas e leves. É um bom debate.

      • Osvaldo Postado em 23/Oct/2015 às 20:53

        São muitos os pontos desconexos entre um caso e outro, a matéria seria melhor se fossem utilizados exemplos de situações em condições de semelhança "onde a cor, raça, sexo, estética ou credo, seja de fato a principal diferença entre os casos".

      • Marlos Postado em 24/Oct/2015 às 09:23

        No caso de pobreza o habeas corpus quase sempre vem sem fiança. Acho sim que a matéria foi infeliz na escolha dos casos comparados e isso desmerece a pesquisa apresentada. o judiciário está sim minado de erros, mas a questão da primariedade do réu é bastante clara, se precisa ser reformada é outra história. Há de se ter cuidade com o discurso para que em um caso assim não pareça que se almeja mais que se desrespeite o direito ao habeas corpus do branco burguês do que se proteja o direito ao preto pobre.

      • Bruno Ferreira Postado em 27/Oct/2015 às 01:03

        Perfeito comentário, Vicente!

    • paulo Postado em 23/Oct/2015 às 19:25

      Reincidência ou falta de políticas públicas A anos. Oportunidades diferentes que vem desde o século passado. O crime de uma e bem diferente da primeira que vem da desestruturação familiar que também vem de outra familiar sem oportunidades ou financiamento de um simples terreno a qual o estado brasileiro PROIBIU NO BRASIL HA NEGROS E INDIOS( século 19 e mais da metade do 20) enquanto outros imigrantes so tiveram que trabalhar um período e receberiam em TROCA financiamento de terras. então como fica o crime da marginalização de muitos. É fácil julgar assim. E se não acredita pesquise.

    • Eduardo Postado em 23/Oct/2015 às 23:45

      esse papo de primária não faz voltar a vida das duas vitimas da irresponsabilidade dela ao volante.... e quanto a dinheiro para fiança é outra coisa interessante..... é mais uma forma de dizer quem tem dinheiro tem vantagens sobre quem não tem.... compra até a liberdade.

      • Bruno Ferreira Postado em 27/Oct/2015 às 01:03

        Fato!

  3. CLÁUDIO LUIZ PESSUTI Postado em 23/Oct/2015 às 17:22

    É isso aí. Nem precisa complementar.

  4. Eduardo Ribeiro Postado em 23/Oct/2015 às 18:13

    """""Embora as mulheres presas tenham sido objeto de crescente interesse entre pesquisadores do sistema penitenciário nacional, as mulheres negras não aparecem em suas discussões, ainda que constituam o principal grupo de presas no país.""""".....COMO É POSSÍVEL? Se falar de brasileiras presas é falar de mulheres negras, fizeram limonada sem limão aí. Isso só mostra o quanto o racismo é enraizado e institucionalizado. Pesquisadores olham para mulheres presas enquanto alvo de estudo, enxergam um predomínio de negras, e não enxergam ali algo de errado, algo que merecesse estudo, sequer se perguntam "mas por que tanta negra?". Eles olham, com olhos treinados de pesquisadores especializados no assunto, olhos que buscam problemas a serem analisados, e tudo que eles enxergam é NORMALIDADE. Do tipo, está tudo no lugar onde deve estar. Isso é sintomático demais.

  5. Isaac Postado em 23/Oct/2015 às 18:34

    O racismo é institucionalizado, pois o próprio sistema é racista. Se olharmos as universidades, a esmagadora maioria é constituído por brancos. Se por outro lado olharmos as prisões, tudo aquilo que não deu certo na sociedade, a maioria são negros. Dois pesos, duas medidas. O negro desde cedo já sofre violência dos agentes do Estado; é discriminado no mercado de trabalho, assim torna-se um ciclo de pobreza atrelado à cor da pele. Sim, a juliana foi solta porque é branca, porque é rica, pq o sistema vê ela, e percebe que é muito parecida com sua filha, irmã, tem o penteado que lembra o da esposa, pois a Juliana tem representação na mídia, na imprensa, no judiciário, porque é branca e rica. Sim é isso...

  6. Felipe Postado em 23/Oct/2015 às 22:18

    Matéria muito mau feita com exemplos totalmente diferentes não tem como comparar, outra é o fato de certos crimes terem fiança como o assassinato e isso é um absurdo e outra é o fato de que infelizmente atropelar e matar pessoas são crimes que não te deixam preso se ligar no cidade alerta (sim o jornal que só mostra tragédia, aliás que é péssimo) vão ver vários exemplos de pessoas pobres que bebem dirigem se envolvem em acidentes ou até em mortes e no dia seguinte estão em liberdade e sim existe racismo mas nesse caso o exemplo não tem absolutamente nada a ver.

  7. Felipe Postado em 23/Oct/2015 às 23:33

    Aqui ta cada pior muitos comentários são excluídos ou nem entram fica difícil ser bem vindo como uma vez um moderador disse ao Rodrigo bem vindo com censura???

  8. Thiago Teixeira Postado em 24/Oct/2015 às 08:13

    São exemplos claros que o Brasil é um pais racista e dominado por uma elite branca sem escrúpulos. Um dia as ditas "minorias" pela direita, vão acordar e retalhar qualquer intolerância do Sistema com pessoas despossuídas de recursos, pois apenas com violência e socialismo haverá justiça nesse país.

  9. Rodrigo Postado em 24/Oct/2015 às 11:20

    Por que uma era réu primária e a outra foi presa várias vezes? Por que a reportagem não diz o crime que a outra cometeu? Por que apenas aponta de uma? Haaa talvez porque o tamanho da ficha criminal da outra não iria caber na matéria.

    • poliana Postado em 24/Oct/2015 às 14:30

      tem razão, rodrigo. o cerne da questão é a primariedade da ré! vc tá "sertinhu". continue negando O ÓBVIO!

    • Thiago Teixeira Postado em 26/Oct/2015 às 07:37

      A "outra" foi presa várias vezes porque é loira e de corpinho panicat. Já a sua ré primária nunca cometeu um delito antes (não porque ela nunca foi pega pela polícia ... imagina), certamente nunca transportou drogas no carro, nunca roubou uma comanda de um bar numa balada, não falsificou identidade para entrar num show quando tinha 15 anos, jamais trocou etiqueta de mercadoria dentro de uma loja ou sequer entupiu a restituição de IRPF de notas falsas de dentistas para aumentar o valor a receber, trata-se de uma moça de vida ilibada.

      • eu daqui Postado em 28/Oct/2015 às 10:31

        Ainda creio que alguém deve ser punido conforme a lei e não segundo a raça.

  10. Lidat Postado em 24/Oct/2015 às 12:45

    Quanta falta de massa cinzenta!... A reportagem não falou do crime pq não importa muito os crimes e sim como são tratadas as pessoas que cometem. Se é negra e pobre é tratada de um jeito pelo Estado, mas se é branco e rico é tratado de outro. Justiça tem cor e conta bancária.

    • José Ferreira Postado em 24/Oct/2015 às 15:59

      A reportagem poderia ao menos ter usado outro exemplo para comparar. Poderia pegar duas criminosas de raças diferentes, mas com o mesmo tamanho da conta bancária.

      • Felipe Postado em 24/Oct/2015 às 20:39

        A reportagem além de tendenciosa foi mau feita com exemplos totalmente diferentes um do outro.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 26/Oct/2015 às 11:11

      Lidat...só desenhando. Só escrever não adianta, tem que desenhar. Assim como fizeram um quadrinho genial pra estuprar o mito da "meritocracia" - palavra que só sai da boca imunda dos porcos coxinhas e que perdeu até sua razão de existir tamanha foi a cacetada que sofreu - , será necessário alguem fazer um quadrinho pra explicar que JUSTIÇA NO BRASIL TEM COR. É preto e pobre? Tratado de um jeito específico. Branco e rico, dentes impecáveis e todas as vacinas tomadas, geladeira cheia? Tratado de um jeito DIAMETRALMENTE OPOSTO ao preto pobre.

  11. Rodrigo Postado em 24/Oct/2015 às 21:57

    Tem razão Poliana, a fecha criminal deve ser ignorada, afinal não importa o que a lei diz sobre ser réu primária não é? É Negra e pobre? Solta, é vítima do sistema. Peguem dois casos semelhantes, pegue uma branca com a quantidade de crimes a outra, assim seria uma pesquisa imparcial e honesta.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 25/Oct/2015 às 13:50

      Essa meninada é ingênua demais. Cega demais. Meu deus do céu...não conseguiriam enxergar que a justiça brasileira tem cor nem se acontecesse um caso explícito - como o exemplificado aqui - dentro da casa deles com a mãe deles...

  12. Sergio Carneiro Postado em 25/Oct/2015 às 12:19

    Se seguirmos a lógica da reportagem, a Somália é o país mais racista do mundo. Afinal a população carceraria é 100% de negros.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 26/Oct/2015 às 11:05

      ??? Detalhe seu raciocínio, por gentileza.

      • Thiago Teixeira Postado em 26/Oct/2015 às 17:15

        Sofisma é a lógica dos coxinhas.

  13. Carlos Postado em 25/Oct/2015 às 19:22

    Verdadeiro genocídio que a bandidagem faz com a população do Rio de Janeiro e do Brasil em geral, e os esquerdinhas atacando a polícia a defendendo bandidos em geral, graças a vcs que a população sofre, graças aos políticos que pensam como vcs.