Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 15/Oct/2015 às 10:27
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O dia em que desaprendi a sorrir para desconhecidos e cumprimentá-los

"De pistola e cassetete, ele me encurrala na parede: assédio nosso de cada dia. Nesse dia morreu algo dentro de mim. Morreu minha prontidão por cumprimentar sorrindo e de brilho nos olhos a desconhecidos [...]"

assédio mulher

Naeli Simoni de Castro, Portal Geledés

Todo o dia encontrava com eles. Sempre me preocupei em olhá-los e vê-los para além daquele traje de trabalho, aquela farda, ou a vassoura na mão. Olhar aqueles olhos por debaixo da boina ou do chapéu. Principalmente eles, tão invisibilizados, estigmatizados na sociedade elitista. Uns mais simpáticos outros recatados, mas sempre nos caía bem um “Bom dia. Tudo bem? Como passou de final de semana?”

Nesse dia não foi diferente: período de férias, faculdade vazia, poucos funcionários. Cumprimentei porteiro, falei “oi” pra segurança e segui corredores adentro. Meio do caminho segurança me alcança: “Tá indo pra aquele lado?” “Sim, estou indo ao banco”, respondi. “Vamos juntos, também estou” – completou.

Não haveria porque me preocupar: Sorriso doce, olho brilhante e sempre pronto a um “bom dia” eram suas características. Então seguimos lado a lado naquele corredor cujo silêncio ecoava, às 14 horas de uma sexta-feira a alguns dias do natal.

Corredores que se estendiam e os papos engatavam, como aqueles assuntos de elevador: “o tempo”, a “chuva” e o “natal”. Topamos com um vácuo, saleta reclusa no meio do corredor. Ele diminui os passos. E com olho nos meus olhos diz: “queria falar com você…” E tratou de vir diminuindo os poucos centímetros que nos distanciava.
“Mas… mas, não estamos a conversar já?”

“Quero te conhecer melhor”- respondeu.

Não saberia contar os segundos em que me demorei a perceber o olhar malicioso, sorrisinho em canto de boca que se molhava como quem saliva para a primeira mordida.

“Hey, não cara, não vai rolar” – eu tentei.

Moço não se contentou: “Mas, você sempre foi tão simpática, sempre conversamos, você sorrindo, eu achei que tava rolando…”

“Não cara não. Eu sou assim. Sou assim com todo mundo, isso não quer dizer nada. Sou assim até quando perto de namorado, e você sabe disso. Não sou diferente ao lado dele. Aliás, você também tem namorada e por isso nunca achei que você fosse confundir alguma coisa”.

Ele não se contentou. Ficou pasmo que falar oi, perguntar sobre o final de semana e mostrar os dentes (leia-se sorrir) não são sinônimos de “quero que você me agarre num corredor vazio, fardado, com pistola e cassetete, me encurrale na parede e insista por um beijo”. Mesmo se, com o namorado, agisse com a mesma simpatia.

“Mas ele (o namorado) não vai ficar sabendo, não tem ninguém aqui” – insiste.

Esse era o problema. Ninguém veria. Assim nenhuma alma poderia me ouvir se gritasse. Por milésimos de segundos me apercebi da situação: faculdade vazia, corredor sem sinal de vidas, pistola de um lado, cassetete de outro. Mas não, independente do preço que eu poderia pagar, não foi pra isso que busquei me empoderar, não foi pra me render que fui apresentada ao feminismo.

“Não cara, você se confundiu. Eu sou assim com qualquer pessoa, sempre converso, mas não significa nada além de uma conversa. Sinto muito, mas você se confundiu”.

“Mas então um presente de natal pra eu não me sentir tão mal. Eu sou tão feio assim que não mereço nem um beijo de natal?”

Eu já não acreditava em tamanha insistência. Mas já não estava em muitas condições de partir pra grosseria ou aumentar o tom de voz. Então usei da mesma arma que ele me apontava – a simpatia. Com olhar mais doce que conseguia, embora num tom sério e firme sutilmente neguei pela última vez: “Não cara, de verdade, você se confundiu. Mas fique tranquilo, a amizade continua. Agora temos que ir que o banco já esta a fechar. Você vai também?”

Óbvio que foi meu dia de sorte por não terem me interrompido a caminhada. Mas nesse dia morreu algo dentro de mim. Morreu minha prontidão por cumprimentar sorrindo e de brilho nos olhos a desconhecidos, independente de quantas vezes por dia meu olhar cruze com os deles, nem todos estão prontos a receber um olhar um pouco mais brilhante, ou um sorriso nos lábios com a mesma sinceridade em que lhes são oferecidos.

Aprendi nesse dia que por mais difícil que seja deixar de sorrir para o porteiro que se parece tão simpático e cansado de tanto trabalho é preciso desaprender, porque dias após outro ele aprenderá a te chamar com fiu-fiu quando você passa por ele, aprenderá também que ele se sente no direito de te chamar assim, “porque é teu amigo”. Aprendi com eles que é preciso “embrutecer o olhar”, diminuir o sorriso. Porque como diz um sábio amigo filósofo “a simpatia também é uma experiência, nem todos saberão apreciar sem invadir a privacidade do outro”.

Eu fui violentada? Sofri uma opressão? Muitos dirão que não. Mas: Quais eram minhas reais chances de negar aquele beijo e sair ilesa? Quais eram minhas opções se ele resolvesse se dar um presente naquele natal? Para quem eu ligaria depois disso? O que diria a polícia: “sua saia esta curta demais, você procurou por isso” ou “ele disse que você queria, e só está inventando essa história”.

Ou talvez com muito azar, nem 190 eu teria condições de discar, e poderia ser só uma historinha contada sobre certa aluna que hoje vive a 7 palmos da terra. O corredor poderia se tornar assombrado e como nos filmes de terror eu poderia ser aquela personagem branquela que depois de morta, sua alma continuaria vagando pelos corredores e que mataria os “ômi” que assediassem as mulheres na rua, na escola, em casa.

Aprendi que não é só o “fiu-fiu” que tem de ser banido. Aprendi que assédio não é só quando diz “gostosa” pra desconhecida na rua. Tem um tom de voz, um brilho nos olhos, próprios dos assediadores. Tem o ambiente milimetricamente calculado para te encurralar.

E foi nesse dia que aprendi que mulheres são violentadas o tempo todo, na rua, na calçada, no corredor, no posto, no bar. E que não há um número sequer em que podemos requisitar por socorro. Porque será ridicularizada: “não há marcas, dirão”. Onde está a lei que me protege antes mesmo que eu me torne tetraplégica como Maria da Penha, vítima de uma violência doméstica? Onde está a lei que me protege de assédios na rua que cotidianamente me coagem, me tiram o direito de ir e vir? Estamos todos à espera que Maria da Penha seja nossa história pessoal para só então admitir: “isso sim foi violência”?

Cotidianamente encontro com ele. Já não pergunto sobre o final de semana, tampouco pronuncio o “tudo bem”, apenas um leve balanço de cabeça como quem diz “oi”. E todos esses dias me lembro do medo, e do que poderia ter acontecido. Essa história me atormenta, me causa maus estares, me dá arrepios. E se isso não foi assédio é porque estamos muito acostumados a perceber que o assédio só tem marcas físicas.

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Comentários

  1. wellen dias Postado em 15/Oct/2015 às 10:57

    Cara, sempre repito isso para varias pessoas, alguns pensam que é machismo da minha parte, mas me sinto na obrigação de abrir os olhos de quem me cerca, digo sempre que não existe amizade entre homens e mulheres, claro não podemos generalizar, mas em todo caso, olhos bem abertos ao "amigos" que te cercam!

    • Marcos Vinicius Postado em 15/Oct/2015 às 14:52

      Como é? Você ao mesmo tempo disse que não existe amizade entre homens e mulheres, porém ao mesmo tempo disse "não podemos generalizar"? Será que isso não significaria que existe SIM a possibilidade de amizade entre homens e mulheres?

    • juliano Postado em 15/Oct/2015 às 14:53

      opa, correção: não existe amizade entre mulheres e homens idiotas.

      • Marcos Vinicius Postado em 15/Oct/2015 às 15:04

        Isso mesmo. Por isso que machistas são tão contraditórios na hora de exporem suas "opiniões" sobre mulheres.

  2. tatiana reis Postado em 15/Oct/2015 às 11:15

    se a mulher é simpatica, é uma p que quer dar, se a mulher não é simpatica, é uma p metida.. n tem p onde fugir, não...

    • Miguel Postado em 16/Oct/2015 às 13:50

      Pura verdade. A realidade é essa. Infelizmente.

  3. Jhon Carter Postado em 15/Oct/2015 às 11:15

    Gosto de ler o Pragmatismo Político, sério sou fã, mas querer substituir a "ditadura do machismo" pela "ditadura do feminismo" não vai levar a sociedade a lugar nenhum, ainda mais postando esses "testemunhos". Sinceramente é preferível ser ignorado por uma mulher à esperança ilusória de tê-la. Somos seres sexuais, a velha programação biológica: Nascer - crescer - se reproduzir - morrer, fala alto em nós, a quem querem enganar? Se compreendermos o sentido da (perdoem o português chulo) bunda, do peito, do rebolado, das roupas curtas, do ponto de vista psicológico e biológico o debate seria mais elevado. A plumagem do pavão, o cio, os feromônios, o som emitido pelas baleias no acasalamento, etc. e avaliarmos o lugar do ser humano nesse contexto evolutivo, natural e reprodutivo, veremos que os trajes e partes ditos anteriormente possuem similaridade inegável com os recursos presentes na natureza e empregados na reprodução.

    • talita m Postado em 15/Oct/2015 às 13:11

      Achei que você escreve muito, PARA QUEM NÃO TEM NADA A DIZER !!!

    • Isabella Postado em 15/Oct/2015 às 13:45

      Me desculpe, mas o que você quis dizer com isso? Sua colocação está muito confusa. Quer dizer que o fato de uma mulher se sentir acuada por um babaca que a interpretou mal - e não tinha a capacidade de entender o significado de um "não" - é "ditadura feminista?? Acho que você não entendeu nada!

    • Marina Postado em 15/Oct/2015 às 13:52

      Realmente. Nenhuma contribuição nesse blá blá blá todo aí. Fala sério.

      • Jhon Carter Postado em 15/Oct/2015 às 19:48

        Foi só uma opinião (sim, eu sei, ninguém pediu). Dizer que meu comentário é confuso não é argumento, se foi confuso, o que dizer do testemunho acima? O que eu disse foi: Eu prefiro ser ignorado por uma mulher à ilusão de tê-la, um sorriso têm vários significados, uns verão uma gentileza, outros um convite ao desejo, daqui que descobrimos a diferença já estaremos iludidos.

    • Ana Postado em 17/Oct/2015 às 00:24

      você só esqueceu de dizer que nasceu de uma mulher, deve ter uma esposa, irmãs ou filhas, que podem (não deveriam) encontrar imbecis com PROGRAMAÇÃO BIOLÓGICA, iguais a você, pela vida.

  4. Cecimila Calc Postado em 15/Oct/2015 às 11:22

    Adorei o texto. Hoje em dia não exito em gritar: "Isso é assédio!" quando recebo palavras obcenas ou até mesmo olhares mal intencionados. Grito pra [email protected] ouvirem... porque acredito que mais cedo ou mais tarde as pessoas vão entender que vai muito além da violência física.

  5. Maria do RJ Postado em 15/Oct/2015 às 11:55

    Texto muito bem escrito, essa moça poderia ser escritora! Querida, nós mulheres estamos sempre muito desprotegidas e essa Lei Maria da Penha não serviu de nada, haja visto quantas são assassinadas mesmo procurando usá-la nas delegacias e nada, absolutamente nada foi feito contra o agressor. E falam tanto dessa tal Lei. Acho que precisa ser aprimorada, precisa de treinamento dos policiais para que surta algum efeito e impeça a morte.

  6. Tatiane Oliveira Postado em 15/Oct/2015 às 12:32

    Lendo o relato eu acredito que senti as mesmas emoções da pessoa que escreveu esse texto. É muito duro isso, o zelador do prédio que moro teve a mesma impressão que o segurança que você citou, e o mais assustador foi que ele estava dentro da minha casa me ajudando a consertar a torneira! Isso faz mais ou menos um mês, nunca mais olhei nos olhos dele, falo o mínimo possível, não uso mais short se não estou com meu namorado. É muito dura essa sensação e sinceramente só mulheres que passaram por isso compreendem o quanto é assustador! Parabéns por expor esse momento tão assustador! E mulheres vamos continuar nossa luta ainda falta muito!!!

  7. Mariana Postado em 15/Oct/2015 às 12:36

    Jhon Carter, então vc assume que tema inteligência e auto controle de um cachorro? Que a racionalidade, característica que te separa de todos os animais que vc citou, é inexistente nos homens? Seus instintos são mais fortes do que as noções de respeito e empatia? Vamos ver se vc vai repetir esse discurso se for assediado por um gay algum dia (de verdade, que nem mulher é, e ter medo de "virar mocinha"). Afinal, ele sente atração né, é o propósito do homem segundo a natureza.

    • Jhon Carter Postado em 16/Oct/2015 às 08:04

      Mariana, já fui "assediado" por um gay quando era adolescente, não voltei sorrindo, simplesmente segui meu caminho. Se tivesse sido empático, sorridente, dito "obrigado pela cantada", eu não teria dado esperança ao sujeito? Você considera que os animais são desprovidos de sentimentos, de sensações e por isso somos racionais e os animais não? Você já teve algum cachorro? Eis um exemplo de fidelidade e afeto, e raciocínio também, já vi mãe por filho em lata de lixo, mas nunca vi um cachorro abandonar seu dono, isso é instinto ou raciocínio Mariana?.

    • Paulo Postado em 16/Oct/2015 às 12:30

      kkkkkkkkkkkk inteligência e auto controle de um cachorro,kkkkkkkkkkkk, pô Mariana, não deu chance de defesa pro rapaz, na pleura,kkkkkkkk

    • Mauro Postado em 16/Oct/2015 às 19:33

      Mariana, lamento informar, mas alguns homens são animais mesmo.Alguns estupradores são exatamente isso, animais, não conseguem frear seus instintos, por isso estupram.Infelizmente a ciência ainda conhece as causas.

  8. Enderson Postado em 15/Oct/2015 às 12:46

    Triste 😢

  9. Anderson Postado em 15/Oct/2015 às 13:03

    Por ser homem, sei exatamente como a autora se sentiu. Aliás, quando sirvo cafezinho ou água para os colegas de trabalho, deixo bem claro que faço essa caridade não por causa de Deus, ou por estar interessado em alguém. quando pego um cafezinho pra mim, faço a gentileza de levar um café pra outra pessoa, por ter sido educado assim. Só isso!

    • Thaisa Postado em 22/Oct/2015 às 18:29

      ??????????????????

  10. Luciana Postado em 15/Oct/2015 às 14:33

    Acho que 80% das mulheres já passaram por situação semelhante,aprender a impor limites e a ouvir a intuição são melhores formas de se prevenir/proteger contra esses tipos assustadores

  11. Brunno marxx Postado em 23/Oct/2015 às 12:49

    Não entendo faz tempo que o "Pragmatismo político" vem pregando o femismo e a misandria...que transformou e capturou a mente de milhões de mulheres e ate alguns homens que são idiotas úteis facilmente manipuláveis e consumistas inclusive de ideias e leis que aprisionam a própria mulher e pregam a segregação entre homens e mulheres depois de tudo dominado fica fácil dominar a todos...hoje fiu,fiu,é crime de alto potencial é um estupro, 4 milhões de usuários por dia no metro mais da metade são homens e todos são tarados,assediadores é isso prega essa raça o femismo que é o falso feminismo e a misandria quero ver uma de vc's vir aqui e falar que não existe "encoxadas consensual" que nunca uma mulher foi reciproca a uma encoxada vem aqui falar bando de "lésbicas revoltadas"....o que vc's precisam aprender que a mulher manda no corpo dela,Tanto p/ fazer o aborto, como p/ decidir quem pode toca lá ....ex:" olha ele esta te encoxando,qual o problema o corpo é meu, e se for consensual o que você tem a ver com isso" eu já vi isso no metro tatuape....

  12. BRUNNO MARXX Postado em 23/Oct/2015 às 13:04

    Quando fala a verdade vc's não liberam os comentarios né " pragmatismo politico" e pior que eu divulguei essa mer# desse jornalzinho...democracia já...ou a direita ja comprou esse jornal...