Redação Pragmatismo
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Racismo não 15/Oct/2015 às 09:38
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Ex-supremacista branco relata transformação pela 'bondade de quem odiava'

"Bondade de quem eu odiava mudou minha vida". Ex-supremacista tocava canções racistas e tinha prazer em agredir pessoas desconhecidas que não fossem brancas. Arno Michaelis chegou a machucar muita gente gravemente. Hoje, ele lidera uma organização que trabalha para melhorar a relação entre as raças. Confira a seguir o seu relato

arno skinhead supremacista branco

Como integrante da banda de “hate-metal” Centurion na década de 1980, o skinhead americano Arno Michaelis subia aos palcos para cantar canções racistas. Fora dos palcos, durante sua juventude em Milwaukee, Wisconsin, nos Estados Unidos, Arno feriu gravemente várias pessoas inocentes.

No entanto, sua vida começou a mudar e, em 2012, um massacre em um templo da religião sikh em Wisconsin fez com que ele abandonasse seu passado de ódio.

Hoje, aos 44 anos, Arno Michaelis lidera a ONG Serve 2 Unite, que trabalha para melhorar as relações entre as raças – atuando, inclusive, no Brasil.

Em depoimento ao programa Outlook, da BBC, ele compartilhou sua história.

“Meus pais brigavam muito porque havia problemas de alcoolismo na família”, disse Arno. “Mas os dois me amavam muito e fizeram (por mim) tudo o que puderam. Acho que a violência emocional, combinada com um certo vício nato em adrenalina, me levaram a agredir as pessoas.”

Arno contou que sempre que podia, escapava de casa e saía em busca de emoções perigosas.

“Quando me comportava de forma antissocial e agredia as pessoas, sentia um certo frisson.”

E foi também em busca dessa adrenalina que Arno aderiu ao movimento dos supremacistas brancos.

“Uma das coisas que me davam essa sensação era provocar raiva nas pessoas. E se você procura um jeito de fazer as pessoas ficarem com raiva, experimente uma suástica.”

supremacista branco
Arno com as crianças do projeto do qual participa hoje; ‘a bondade (de pessoas diferentes) me assombrava e me lembrava de que eu estava fazendo algo errado’

“Fiz minha primeira tatuagem de suástica aos 17 anos. Eu entendia a ideologia por trás daquilo, mas o frisson daquela coisa proibida era o que mais me motivava.”

Aos poucos, explicou Arno, seu ódio se estendeu de minorias étnicas –negros, latinos, asiáticos – aos próprios brancos.

‘Traidores da raça’

“À medida que você se aprofunda na narrativa dos supremacistas brancos, começam a surgir as teorias conspiratórias. No final, eu acreditava que os judeus tinham colocado em ação um plano contra os brancos. Coloquei os judeus no topo da minha lista dos ‘não favoritos’. E mais acima nessa lista estavam os brancos que não eram violentamente racistas”, disse.

“Eram vistos como traidores da raça e estavam definitivamente no topo da lista das pessoas que eu odiava.”

Às vezes, pessoas que ele supostamente deveria odiar o tratavam com bondade. Nessas horas, disse Arno, era particularmente difícil continuar sentindo raiva delas.

“Era exaustivo ter pessoas que eu tentava odiar me tratando com bondade. Aquilo fazia buracos nas justificativas que eu criava para poder odiá-las.”

Esse foi o caso, por exemplo, de um judeu dono de uma estamparia de camisetas que deu emprego a Arno. “Apesar de eu estar portando uma suástica dentro da fábrica dele, e apesar de eu tentar recrutar todos os brancos que trabalhavam comigo, (o chefe) se recusava a me demitir e insistia que eu era um menino bom e só precisava de uma chance.”

“Saber disso, quando eu tentava promover essa narrativa antissemita era exaustivo. A bondade que ele demonstrava, a bondade de negros e latinos, isso me assombrava e me lembrava de que o que eu estava fazendo era errado.”

Arno contou que machucou gravemente muita gente.

“Atacávamos mais brancos, no final. Apesar da nossa conversa de durões, éramos covardes e não queríamos ir aos guetos, onde corríamos o risco de puxar uma briga de verdade. Então, acabávamos indo às partes mais afluentes da cidade. Mas se encontrávamos um negro ou um latino em uma área mais escondida, onde podíamos atacá-los, fazíamos isso.”

supremacista branco skinhead
O grupo supremacista do qual Arno fazia parte: ‘Quando você se aprofunda na narrativa dos supremacistas, começam a surgir as teorias conspiratórias’

“Feri muita gente com minhas próprias mãos e vou ter de viver com isso para o resto da minha vida. Ainda penso no que fiz – ou no que lembro de ter feito. Eu bebia muito na época. Não quero usar isso como desculpa, mas muitas das minhas lembranças são vagas por causa disso.”

A virada na vida de Arno Michaelis aconteceu, literalmente, porque ele se cansou de odiar.

“(Foi) exaustão. Era exaustivo me fechar para o resto do mundo, algo que é necessário para se manter uma visão de mundo baseada em uma teoria conspiratória fundamentalista. Você tem de bloquear todas as informações que não sustentam a narrativa da supremacia branca.”

Arno contou que dentro de um ano passou de skinhead a raver. Agora, passava as noites dançando house music em festas underground, cercado de gays, lésbicas, pessoas transgênero, bissexuais – pessoas de todas as etnias possíveis, ele disse.

“Todos me aceitaram de forma incondicional e sem fazer perguntas. Mas eu continuava com um comportamento muito autodestrutivo. Além do álcool, usava muitas drogas.”

Um empreendimento que não deu certo e o fim de um relacionamento levaram Arno ao fundo do poço.

“Meu passado voltou para me assombrar . Sentia que merecia todas aquelas coisas ruins. Passei um ano me sentindo suicida. Minha filha me ajudou a sair daquilo. Se não fosse por ela, acho que teria me matado.”

Pacifista

Em 2012, um homem cometeu um massacre em um templo sikh em Wisconsin. Seis pessoas foram mortas. Mais tarde, descobriu-se que ele era membro do grupo supremacista branco que Arno havia integrado. O caso teve um efeito profundo sobre a vida de Arno.

“Foi devastador. Passei a noite acordado, me perguntando se seria alguém que eu tinha recrutado. No dia seguinte, descobri que eu não conhecia o atirador, mas ele tinha a minha idade, era membro da gangue de skinheads que eu tinha ajudado a fundar e também era cantor de uma banda de White Power, como eu tinha sido”, disse Arno.

supremacista branco skinhead arno
Na ONG, Michaelis realiza ações contra o preconceito e a violência racial

“Então, de várias formas, esse era o homem que eu tinha sido. Ele tinha se colocado em uma situação de tanta infelicidade que só o homicídio seguido de suicídio pareciam fazer sentido para ele.”

Naquele mesmo ano, Pardeep Kaleka, que perdeu o pai, Satwant Kaleka, no massacre, entrou em contato com Arno. “Conversamos por quatro horas sem parar e, desde então, somos irmãos”, disse.

Hoje, o pacifista Arno Michaelis trabalha com várias ONGs, entre elas a Serve 2 Unite, fazendo palestras e mediando uma revista online.

Quando perguntado se existe alguma coisa que poderia ter evitado que ele seguisse pelo caminho que seguiu, ele respondeu:

“Bondade foi o que mudou o rumo da minha vida.”

“Ninguém teria sido capaz de se livrar do nazista que existia em mim na base da pancada. Eu apanhava com a mesma frequência com que batia nas pessoas. Foram as pessoas que me trataram com bondade, e que tiveram a coragem verdadeira de não devolver minha agressão, que ajudaram a mudar o rumo da minha vida.”

BBC Outlook

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Comentários

  1. evando de araujo filho Postado em 15/Oct/2015 às 10:13

    Ainda bem que reconheceu a tempo que ainda é um ser humano, não um "animal irracional", digo irracional porque ha muito animal que esta demostrando racionalidade com os humanos.

  2. Ricardo Postado em 15/Oct/2015 às 10:32

    Parece que ele comprovou a lição de Cristo de que a bondade é um imperativo categórico - assim como os direitos humanos...

  3. Rogério Britto Postado em 15/Oct/2015 às 10:53

    Diante desse exemplo, acredito na possibilidade da direita raivosa, alcançar maior empatia com as necessidades do outro e também deixar aflorar a sensibilidade para reconhecer uma pessoa séria e honesta, como é o caso da Dilma.

  4. marc Postado em 15/Oct/2015 às 11:32

    isso é legal, mas ainda acho q a pancada na medida certa pra esse tipo de pessoa e a opressão ostensiva e constante é o q vai fazê-los ficarem controlados, esse papo de "vire a outra face", não parece ser seguido pelos q acumulam arsenais atômicos por exemplo.

  5. Eduardo Ribeiro Postado em 15/Oct/2015 às 11:34

    ""Eu apanhava com a mesma frequência com que batia nas pessoas""......só que ""não queríamos ir aos guetos, onde corríamos o risco de puxar uma briga de verdade"". Ou seja: esse bosta nunca apanhou de fato. Deve ter levado um tapa ou um arranhão de vez em quando, de alguma senhora negra de 60 anos que ele espancou junto dos seus amiguinhos. Como se trata de um rato covarde, ele soube evitar uma boa surra, uma surra muito bem dada por algum maluco de gueto, surra de perder o rumo de casa, de perder 3 ou 4 dentes e ficar hospitalizado um mês. Esse "aprendizado pelo amor dos massacrados" é bonito, mas quase joga nas costas do oprimido - que deve se postar diante do opressor armado apenas de amor e paciência - a responsabilidade pela recuperação do opressor, no caso, um neo-nazista violento, um racista vagabundo.

    • tatiana reis Postado em 15/Oct/2015 às 11:51

      é muito bom ter a oportunidade de mudar, evoluir, poder ajudar .. sai desse pedestal julgador...mude, evolua, ajude

    • Eduardo Ribeiro Postado em 15/Oct/2015 às 14:21

      Julgamento é o minimo do mínimo do mínimo que esse tipo de crápula merece. Não estou em pedestal, e exatamente por isso tenho o direito e dever de julga-lo. Não neguei em nenhum momento que é muito bom ter a oportunidade de mudar. Mas eu não fico triste quando o oprimido não tem a divina paciência de esperar por essa mudança enquanto é massacrado, e reage à altura dos ataques que sofreu do opressor. Um racista declarado e agressivo levando um chute na boca por parte de um negro é coisa linda de deus.

  6. Pedro Accioli Postado em 15/Oct/2015 às 11:35

    Lições de vida como esta e da Angela Moss (aquela garota que falava mal de pobres na praia) são possíveis, basta o coxinha se esforçar para mudar!

  7. Gabriel Postado em 15/Oct/2015 às 11:44

    Não se combate trevas com trevas, só a luz expulsa a escuridão.

    • Rodrigo Postado em 15/Oct/2015 às 14:54

      (Outro Rodrigo) Perfeito, Gabriel.

  8. sergio ribeiro Postado em 15/Oct/2015 às 13:18

    O problema é que a grande maioria dos cretinos fundamentais nunca acorda para isso. Precisam mesmo de uma boa lição para que acordem para a vida, como o risco da morte ou a perda de algo importante. Pode ser bonita a resistência pacífica, mas muitas vezes não funciona.

  9. Thiago Teixeira Postado em 15/Oct/2015 às 13:35

    Racismo e intolerância se aprende dentro de casa, nos almoços de "família".

  10. vilmar Postado em 15/Oct/2015 às 17:43

    ele fala que não é mais racista, mas não caio nesta mentira de enganar trouxa.

  11. André Postado em 16/Oct/2015 às 09:44

    Não se deixes vencer pelo mal, mas, vence o mal com o bem.

  12. Wanderson Postado em 18/Oct/2015 às 12:10

    A história desse homem comprova que o fanatismo tem cura.Enquanto ele dava surras nos outros,indiretamente levava uma surra de bondade,um tapa sem mãos que o levou a refletir sobre sua própria mediocridade.Irônico.

  13. sidney Postado em 26/Oct/2015 às 18:43

    Sinceramente estou de saco cheio desses imbecis branquelos que pensam que são alguma coisa. Esses merdas merecem morrer e sumir do mapa.