Redação Pragmatismo
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Educação 15/Sep/2015 às 19:02
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Como combater o analfabetismo funcional nas redes sociais?

analfabetismo funcional

Luiz Guilherme Melo*

A internet expõe o melhor e o pior do ser humano. Conhecemos pessoas e iniciativas fantásticas, mas ao mesmo tempo ficamos cara a cara com a latrina da humanidade (os constantes casos de racismo na web estão aí para comprovar). Nas redes sociais, por exemplo, vivemos em um tempo em que os debates foram substituídos por embates e combates – sem vencedores.

O que temos presenciado nas últimas semanas é a prova disso, como no debate sobre a maioridade penal, que é do tipo de tema que desperta tantas paixões, principalmente porque só vem à tona sob os gritos das figuras sensacionalistas da mídia que aproveitam episódios trágicos para propagar as suas ideias. E funciona, haja vista os jargões (“bandido bom é bandido morto”, “tá com pena do menor infrator? Leva pra casa” e similares) repetidos de forma automática (à exaustão) nas redes.

Pra completar, os debates no Congresso de pautas que exigem razão ao extremo, há tempos se tornaram uma extensão dos fóruns mais malcheirosos da internet. Triste.

A insegurança pública não será reduzida magicamente, da noite para o dia, com leis penais paliativas – não é nem nunca foi em nenhum lugar do mundo. A violência não diminuirá sem redução da desigualdade social, da ampliação da cidadania, da garantia de direitos e oportunidades de uma vida digna a todos. As soluções existem, mas demandam tempo, dinheiro e políticas de curto, médio e longo prazo.

A respeito da maioridade penal em si, é preciso levar em consideração o ciclo de violência de uma sociedade desigual, não apenas em termos de riqueza e pobreza, mas principalmente nas condições desiguais em que crescem e são educados os filhos dos ricos e dos pobres. E no tratamento desigual (em termos de oportunidades e possibilidades) que esta mesma sociedade oferece aos criminosos ricos e pobres.

É razoável que a questão da maioridade penal seja avaliada no contexto abrangente que envolve a criminalidade e a violência no Brasil. E também que se leve em consideração a maior amplitude possível de ações e políticas públicas que possibilitem não apenas o tratamento do crime cometido ontem (que envolve tratamento ao criminoso e oferta de justiça à(s) vítima(s) ), que foi notícia e que causa revolta em todos nós, como também e principalmente a justiça social necessária para amanhã, no país que os nossos descendentes herdarão.

Em resumo: qual é o conjunto de ações necessário à redução da criminalidade e da violência em nossa sociedade? E de que forma a sociedade brasileira pode oferecer às suas crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social (ou seja, aqueles que tem convivência próxima e imediata com o crime) oportunidades e possibilidades de um projeto de vida no qual o crime seja desconsiderado como alternativa para o acesso aos bens sociais disponíveis às classes mais favorecidas?

Poucos nas redes sociais parecem se importar em levar em consideração essas nuances preventivas em seus “textões”.

Muito pelo contrário, debates como esse, que exigem um olhar acurado, sempre caem na vala comum dos discursos com gosto de sangue na boca em que os “argumentos” se resumem aos jargões já mencionados e aos “memes” simplistas e descontextualizados.

…Pensando bem, observando a gritaria que toma conta das redes sociais sempre que temas que despertam dicotomias vem à tona, me tornei a favor de uma só redução: a do analfabetismo funcional. Explico.

O analfabetismo funcional, ou seja, saber ler, mas não captar integralmente o teor do que lê, deve ser encarado como um câncer a ser combatido porque causa, em parte, o empobrecimento do debate público, assim como a ascensão de figuras públicas deploráveis (que não vou nomear aqui porque eles já têm publicidade o suficiente). E é um desafio a ser encarado tanto quanto a erradicação do analfabetismo.

Campanha pela leitura

Alguns dados estatísticos ajudam a nos explicar por que o nosso país padece desse mal. Um deles foi exposto na abertura do Seminário Internacional sobre Política Públicas do Livro e Regulação de Preço (realizado em Brasília) pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, quando ele disse que o Brasil não dá a importância necessária à leitura e que é uma vergonha o nosso índice de livros per capita ser de apenas 1,7 por ano.

O ministro defende que seja feita uma campanha de estímulo à leitura semelhante à contra a paralisia infantil. É por aí. Afinal, o índice de leitura brasileiro ser menor que o de países vizinhos mais pobres que o nosso é um “alerta vermelho” que soa há muito tempo, mas que nossas autoridades vêm ignorando.

O resultado dessa negligência vemos todos os dias na internet, em que a maioria dos assuntos mais comentados são impulsionados justamente pela falta de leitura acerca do que é discutido ou pela má interpretação de textos, de dados, de gráficos etc.

Enfim, o fato é que o Brasil nunca será uma “pátria educadora” se a leitura continuar sendo tratada como “disciplina de segunda classe” nos currículos escolares.

Outro fato: todos nós precisamos de uma educação de qualidade. Nós e eles, os “dimenor”. Todos. Sem exceção.

Esse “papo” de educação e estímulo à leitura desde a infância não vai resolver todos os nosso males, claro, mas a mudança passa por eles. Meu desejo é que os nossos distintos representantes despertem e comecem desde já a construir um país educador e uma sociedade justa com raízes fincadas na razão às próximas gerações.

Otimismo demais? Sim, necessitamos de um pouco de otimismo nesses tempos em que os debates públicos andam tão tresloucados.

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*Luiz Guilherme Melo é jornalista e formado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas

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Comentários

  1. Paulo Cézar da Paz Postado em 16/Sep/2015 às 00:22

    Quando eu era criança, eu morava na zona metalúrgica de Minas Gerais e meu pai trabalhava de carpinteiro na siderúrgica. Como ele tinha extrema facilidade fazer móveis de jacarandá, ele adquiriu certa fama e foi descoberto por um dos gerentes da siderúrgica - dr. Hélio - que não cheguei a conhecer. Ficaram muito amigos e este gerente, além de adotar meu pai como seu marceneiro particular, passou a presenteá-lo com, além dos móveis que iam sendo substituídos, livros, discos de música clássica, e coleções de Seleções do Readers Digest e, principalmente, um livro que foi fundamental para mim: Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Estes presentes mexeram com minha imaginação e eu adquiri o hábito de ler. Sentava-me num canto e ficava horas a fio viajando com Emília, Visconde Sabugosa, Dona Benta e os outros personagens. À medida que os anos foram se passando, fui aprimorando meus gostos literários e artísticos - Guimarães Rosa, Machado, inúmeros poetas e músicos eruditos, visto que eles são amiúdes citados em publicações. Depois, entrei na universidade para fazer dois cursos superiores -engenharia e letras - puxado pelo gosto dos livros, cuja falta é o fator preponderante nos altos níveis de reprovação. Por causa deste detalhe fortuito em minha infância, toda vez que leio em algum meio sobre o descaso com a leitura, eu me lembro do meu desconhecido amigo Dr.Hélio e digo: Obrigado, amigo. Você deu um norte à minha vida e abriu meus olhos para o maravilhoso mundo da arte e da cultura! Obrigado mesmo e espero que esteja muito feliz onde quer que se encontre! Sem livros não há solução!

  2. Reinaldo Soares de Souza Postado em 16/Sep/2015 às 01:42

    Bom texto vejo isso no meu dia a dia e canso de falar para pessoas lerem se não, sempre estarão recebendo ordens e as vezes de pessoas sem nenhuma condições de da-la.Sou incapaz de ficar sem leitura diária,já deixei de almoçar para comprar jornais.

  3. Juniperos Postado em 16/Sep/2015 às 08:58

    Converso muito com pessoas de todas as idades. O imediatismo e superficialismo da informação se tornou um dos maiores problemas da nossa língua. Ninguém quer (e/ou sabe) interpretar nada. Quando apresento uma resenha de um filme, ou texto, aos mais jovens, recebo a reclamação: “não tenho paciência para isso”, com um certo fundo de deboche, aos que se esforçam um pouco mais pela digestão do assunto. Sugiro então outro texto mais simples, e depois outro ainda mais, até que por fim, percebo que a pessoa em si está tendo dificuldades para interpretar textos primários. Em seguida dizem que o texto “era muito sem graça, muito sem mistério”. Eu ressalvo que o mistério vem de um texto mais longo e complexo, que se acaso houver interesse real, será necessária uma leitura mais atenta e repensada. Tenho sido procurado por colegas de trabalho, as vezes, com papeis na mão, instruções de maquinário e de operações. Fico surpreso e assustado, quando vejo alguém com dificuldades para interpretar textos extremamente simples. Esses são os dias de hoje: ninguém quer fazer isso. A informação precisa entrar correndo, possuir duas ou três linhas no máximo e poder ser resumida numa meme de internet. E o pior: Qualquer um que discorde, ou é antiquado, ou quer criar situações para dificultar a vida dos outros. Converso com professores, que revelam as vezes estarem exaustos pelas frustradas tentativas de lecionar o mínimo do português a alunos que se comunicam por gírias, abreviaturas e linguajar chulo. E a mídia? E a politicagem? Diga-se o português deles. Não espero da sociedade um refinamento poético mas o nível atual está vulgar de mais. Nos textos, musica, quadrinhos e etc. As crianças estão REALMENTE desaprendendo a nossa língua. Simplesmente desapontador.

  4. Juniperos Postado em 16/Sep/2015 às 09:14

    Fico assim achando que as pessoas além de não quererem se esforçar, adotam a opinião da mídia, que é mais divertido usar o português de internet e seus memes. O único lamento desses é não pode-los utilizar em uma prova escolar.

    • junior lobato Postado em 16/Sep/2015 às 10:03

      realmente...

  5. sergio ribeiro Postado em 16/Sep/2015 às 16:56

    O problema da violência não é só questão de educação, cidadania e combate à pobreza. Juntam-se a estes itens uma reforma séria na polícia brasileira (que não resolve mais de 90% dos casos que a ela chegam), no poder judiciário (a lentidão dos processos, os excessos de recursos, etc. tornam a justiça no Brasil praticamente inviável) e principalmente uma reforma política séria, que dê aos cidadãos maior poder de decisão e transparência na administração pública. Sem isso tudo, o país continuará girando em falso com a impunidade, a corrupção e os desmandos.

  6. Rodrigo Postado em 17/Sep/2015 às 10:08

    (Outro Rodrigo) Outro dia um amigo reclamava da companheira dele e, então, pedi que refletisse se ele próprio também não teria atitudes, costumes, excessos que a incomodavam. Ao fim ele percebeu que era tão humano quanto a companheira e que ambos tinham defeitos. O parâmetro aqui é o mesmo, havendo de ser sempre analisado o extremismo, a grosseria, o excesso de um, conjuntamente com os próprios - o de quem prontamente chama de nazista quem aponte qualquer falha, o de quem fala que vai pegar em armas, o de quem diz que odeia quem é de determinada religião, classe média, branco, paulista, que tem seu paralelo no de quem diz que odeia ateu ou quem é de religião afro, quem é menos favorecido, quem é negro, indígena, quem é nordestino. Olhar para si mesmo auxilia na compreensão da humanidade do outro, leva à aceitação da humanidade de si mesmo, tornando a crítica mais justa e abrangente, assim propiciando a verdadeira transformação evolutiva. De outro lado, julgar-se isento de falhas apenas leva à estagnação e manutenção dos erros usuais.