André Falcão
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Cuba 09/Sep/2015 às 22:29
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A moça do souvenir

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André Falcão*

Era uma bela cubana de olhos azuis-claros, tez alva, cabelos negros longos e levemente cacheados, displicentemente repartidos ao meio e jogados para trás, numa espécie de rabo de cavalo adornado por discreto adereço de artesanato da ilha, incapaz, porém, de impedir que ombro e colo fossem parcialmente recobertos por mechas sinuosas, conferindo-lhe um ar de espontaneidade a harmonizar-se com toda a sua figura e gestos. Sua simpatia estava tão à flor da pele quanto a largueza de seu sorriso e acolhimento genuíno.

O hotel pertencia ao estado cubano, bem assim a loja de souvenirs lá situada, onde trabalhava. Havíamos acabado de tomar o café da manhã após nosso primeiro dia em Havana e entramos para olhar e, se o caso, comprar alguma coisa. Embora não mais fumante, meus olhos foram atraídos por uma bela e elegante carteira de cigarrilhas, Cohiba Club 20, onde inobstante se lia: “recuerda, eres el espejo para tus hijos, no fumes – minsap”, o suficiente para dissuadir-me de eventual ímpeto tabagista.

Logo estávamos os três a conversar alegremente; nós, com disfarçada curiosidade, temendo até menos ser indiscretos do que ignorantes, afinal, como viemos a definitivamente constatar dias após, em se tratando de Cuba, diferentemente dos milhares de turistas canadenses, europeus e demais latino-americanos e caribenhos que a invadiam diariamente, os ignorantes éramos nós, os ainda poucos brasileiros que visitavam a ilha caribenha.

Ela, por sua vez, sabia do investimento do Brasil às empresas brasileiras no Porto de Mariel, do Mais Médicos, de Lula e da reeleição de Dilma. Como já à vontade, engolimos a vergonha e confessamos que boa parte da sociedade brasileira era muito ignorante a respeito de Cuba, por isto mesmo extremamente preconceituosa em relação à ilha, ao ponto de considerar Fidel um ditador, terrível e sanguinário e Cuba um lugar atrasado e sem atrativo.

Assim que terminou de nos ouvir, ela, notoriamente surpresa, envergou o tronco para baixo, sorrindo farta e esplendorosamente, mas meio como se desculpasse de nós porque sorria. Recompondo-se, passou a dizer-nos, em tom de indisfarçável surpresa e brandura: Fidel, terrível sanguinário? Cuba, ditadura? Meu Deus, temos um socialismo democrático! Somos consultados e participamos de tudo o que diz respeito à nossa vida e ao nosso país. Temos eleições até demais, meus amigos brasileiros. Quando voltarem à Cuba, tragam um desses para que ele veja por si mesmo. “Tô fora!”, respondi.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 13/Sep/2015 às 18:09

    (Outro Rodrigo) " [...] ao ponto de considerar Fidel um ditador [...]." Parece que o colega Advogado, André Falcão, esqueceu-se das diferenças fundamentais entre ditadura e democracia. Sobre liberdades essenciais, a exemplo de ir e vir, direito ao devido processo legal, bem como o conceito de eleições, do direito democrático de escolher o governante. Poderia seguir enumerando pilares essenciais da democracia (que, certamente, não são observados em sua inteireza por tantos outros Estados, sendo sempre bem vinda e devida a crítica), mas, para permanecer no mesmo nível do autor, mostra-se mais didático um "tá de brinqueitchon tu me"? P.S.: o único ponto digno do texto é a necessidade de ser visto o cubano como um igual, não devedo jamais ser discriminado, sofrer "pré-conceito" em função das atitudes do seu ditador governante.