Redação Pragmatismo
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Protestos 18/Aug/2015 às 11:48
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As manifestações de domingo e a estratégia da Globo

A cobertura das manifestações pelos veículos do grupo reafirma a opção da emissora pela chamada governabilidade. Para a Globo, manter um governo petista em frangalhos pode ser um bom negócio

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Gustavo Gindre, Intervozes

Muita gente estranhou o recente comportamento da Globo, depois de uma conversa de dirigentes da empresa com senadores petistas. O grupo passou a moderar sua cobertura do governo Dilma e, em editorial do jornal impresso O Globo, chegou a pedir que as forças políticas atuem em prol da governabilidade. Da surpresa surgiram diversas explicações estapafúrdias. De um lado, petistas achando que a Globo teria se rendido à força dos governos do PT. De outro lado, nas passeatas deste domingo 16, houve quem dissesse que a Globo era comunista.

Na verdade, não deveria haver surpresa alguma. A Globo faz o que sempre fez. Atua a favor de seus próprios interesses, quase como se fosse um partido político. Traça uma estratégia, analisa a conjuntura e faz alianças de curto, médio e longo prazo. E a cobertura da emissora dos protestos deste final de semana não nega este raciocínio.

No segundo mandato de Dilma, quando percebeu que a Operação Lava Jato teria potencial para derrubar o governo, a Globo chegou a flertar com a hipótese de impeachment. Com isso, seus noticiários recrudesceram a cobertura e a ordem, aos seus obedientes jornalistas, era criticar o governo de todos os modos possíveis. Mas a Globo se assustou, tanto com o crescimento de Eduardo Cunha quanto com o festival de posições reacionárias ensandecidas que foi às ruas contra o governo.

No caso de Cunha, preocupa tanto sua ligação com o pentecostalismo (do qual a Globo nunca foi muito próxima) quanto o fato de ele parecer ter agenda própria, descolada do establishment da política nacional – além de fazer política com o fígado.

A última experiência da Globo em apoiar alguém com um perfil semelhante (Collor) acabou não sendo boa para os interesses dos Marinho. Collor se virou contra a emissora, que o criara como “caçador de marajás”, tentou articular a construção de um império próprio nas comunicações e acabou apeado do poder com ajuda fundamental da própria Globo. Outra iniciativa deste tipo só será tentada se não houver alternativas, o que não é o caso.

Foi, então, que a Globo concluiu que manter um governo petista em frangalhos pode ser um bom negócio. Frágil, lutando para sobreviver, o governo Dilma pode aceitar uma agenda imposta de fora para dentro, que acentue a virada liberal iniciada com a chegada de Levy ao governo. Ficariam na conta do governo Dilma as políticas impopulares dessa virada liberal, o que de resto teria a vantagem de liquidar as chances de um novo governo petista em 2018.

Plano B

Ao mesmo tempo que aposta na governabilidade, a Globo sabe que mais denúncias da Lava Jato podem acabar inviabilizando de vez o governo Dilma. Aí é necessário construir um plano B. A alternativa seria um governo Temer, absolutamente submisso aos interesses do grande capital, defendidos pela Globo. Mas, para que Temer possa governar com tranquilidade, é preciso neutralizar Eduardo Cunha. Para isso, foi escalado o presidente do Senado, Renan Calheiros. A Globo conta, também, que a Operação Lava Jato acabe, enfim, alcançando também o presidente da Câmara.

Contribui ainda para a análise da Globo a percepção de que os tucanos não conseguiram galvanizar a crise do governo Dilma e acabaram a reboque da extrema-direita, que tomou as ruas. Definitivamente, o PSDB foi uma decepção para os interesses defendidos pela Globo.

O que impressiona mesmo é que o restante dos grandes grupos de mídia (exceto a Record) não consiga ter uma agenda própria e, nos momentos críticos, abaixe a cabeça e siga o rumo definido pelos Marinho. No fundo, eles reconhecem seu caráter ancilar e o predomínio avassalador da Globo.

História

Para entender o comportamento da Globo, é preciso analisar um pouco de nossa história recente. Até a década de 70, a imprensa brasileira era criada a partir de interesses da vida partidária. Havia o jornal getulista, o periódico lacerdista, etc. Mas o surgimento da TV Globo muda esse cenário.

Já no início dos anos 70, setores dentro da ditadura começaram a se preocupar com o crescimento da Globo e com o fato de que ela viesse a construir uma agenda própria, não necessariamente dependente dos militares. Esses setores acabaram derrotados por aliados da Globo, como o então Ministro da Justiça, Armando Falcão, e a Globo teve carta branca para crescer, com todo o apoio, inclusive financeiro, do Estado brasileiro.

A Globo ainda chegou a retribuir o apoio da ditadura no caso Proconsult e na cobertura das Diretas Já, mas pagou caro, sendo hostilizada nas ruas. Desde então, o grupo percebeu a utilidade de ter uma agenda própria. Foi assim, por exemplo, que a Globo apoiou a Nova República e recebeu em troca o Ministério das Comunicações, dado ao homem de confiança, Antônio Carlos Magalhães (o único ministro civil escolhido por Tancredo que ficou até o final do governo Sarney, demonstrando a força dos Marinho).

Mas, veio, então, a opção Collor, que se revelou um desastre. Collor usou laranjas para comprar a TV Manchete, construir a OM (hoje uma pálida sombra chamada CNT) e a TV Jovem Pan, e ajudou Edir Macedo a montar a Record. Obviamente a Globo percebeu a movimentação de Collor e PC Farias e entrou de vez na canoa da oposição, definindo o jogo a favor do impeachment.

Sob a direção dos filhos de Roberto Marinho, mais pragmáticos que o pai, a Globo percebeu a vantagem de não tentar movimentos bruscos, aceitar alguns fatos da política e procurar tirar vantagem deles. Foi assim que “aceitou” a vitória de Lula em 2002, mas tratou de garantir que seus interesses não seriam afetados. A ida de Luiz Inácio ao Jornal Nacional, logo após a vitória, sinalizou que o novo mandatário havia entendido o recado.

Em 2006, no auge do “mensalão”, a Globo novamente demonstrou como atua na política. Bateu bastante no governo. Não ao ponto de criar uma crise institucional ou de inviabilizar a reeleição de Lula. Mas, o suficiente para que o presidente nomeasse um ex-empregado da Globo como Ministro das Comunicações (Hélio Costa), acatando todas as demandas da empresa e garantindo um decreto presidencial para a transição à TV digital que liquidou qualquer expectativa democratizante. A Globo trocou inteligentemente a reeleição de Lula pela manutenção de seu absoluto predomínio na TV aberta (ainda a galinha dos ovos de ouro).

E assim chegamos às eleições de 2014. Em 2012 (R$ 2,9 bilhões), 2013 (R$ 2,6 bilhões) e 2014 (R$ 2,3 bilhões), mesmo com a crise econômica, a Globo teve sucessivamente o maior lucro líquido de uma empresa de capital fechado no Brasil. Ficou para trás o período do início dos anos 2000, onde a empresa dos Marinho quase quebrou. A Globo hoje é uma potência econômica sem paralelo nas comunicações brasileiras. Nunca houve um grupo de mídia com tanto poder político e econômico.

Seu único desafio é o cenário de convergência, que atrai ainda mais grupos estrangeiros e aumenta a influência da internet.

Mas, na política, não há com que se preocupar, especialmente com um governo fraco. Foi por isso que, ao contrário do que pensavam alguns petistas, a Globo não usou o Jornal Nacional da véspera do domingo do segundo turno para tentar uma bala de prata contra Dilma. Por que a Globo se arriscaria a tanto? O que ela teria a perder com Dilma no poder? A resposta vem sendo dada agora, com a atual crise: nada!

O que vivemos hoje é a consequência da opção dos sucessivos governos do PT em compor com os interesses dos grandes grupos de mídia e não alterar a estrutura do sistema midiático brasileiro; em não enfrentar a agenda da regulação das comunicações; em aceitar tacitamente a mentira de que um novo marco regulatório seria uma forma de censura.

Agora, acuado pelas crises econômica e política, não há muita esperança de que este governo venha a adotar qualquer iniciativa para quebrar a nefasta influência que a Globo exerce sobre a política nacional. Ao contrário, o governo é cada vez mais refém dos interesses dos Marinho e busca apenas a sua sobrevivência até 2018.

Aos militantes em prol da democratização da comunicação, cabe a tarefa de manter viva essa luta e seguir acreditando que um dia acertaremos e será cumprida essa tarefa imprescindível para a efetiva construção de nossa democracia. Apesar da Globo.

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Comentários

  1. junior lobato Postado em 18/Aug/2015 às 12:13

    Parece até que as eleições ainda não acabou.

    • deisi Postado em 18/Aug/2015 às 14:19

      Pra oposição raivosa e coxinhas inconformados, não acabou! mesmo se passando dez meses do segundo turno, buscam incessantemente um terceiro turno.

      • Denisbaldo Postado em 18/Aug/2015 às 15:11

        Pois é Gilberto, e mesmo assim ela ainda está no poder. Será que vocês ainda não perceberam que há algo de errado com suas conclusões estatísticas? Ou será que 7% da população mandam nos 93%??? O que seria isso? Quanto poder que nós temos não é mesmo??? Em Salvador houve 4 mil manifestantes e vcs ainda falam em 93% da população brasileira, meu Deus, a ignorância é infinita mesmo.

      • Rodrigo Postado em 18/Aug/2015 às 15:21

        (Outro Rodrigo) Foi assim que Lula acabou com a fome, Gilberto. Eu ainda achava que tinha sido com a súbita alteração de critérios, a partir da posse de José Graziano, mas vejo que foi transformando uma população em uma bandeja de quitutes: de um lado estão coxinhas e, de outro, uma porção mista de enroladinhos e pastéis de vento.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 18/Aug/2015 às 16:44

        """"""""" Lula deu continuidade ao programa do FHC de transferencia de renda. """"""""""

      • Rodrigo Postado em 18/Aug/2015 às 17:37

        (Outro Rodrigo) Você não me entendeu, Gilberto... Fui irônico... Remeti à cisão de um povo em "coxinhas x pastéis de vento e enroladinhos", bem como à alteração de critérios promovida na FAO, tão logo o Sr. José Graziano foi alçado à mesma. Aliás, algo contumaz (a "súbita" alteração de critérios), vez que o mesmo ocorreu no Brasil, hoje pessoas que ganham R$ 290,00 per capita sendo consideradas pessoas que ascenderam economicamente.

      • poliana Postado em 18/Aug/2015 às 18:05

        impressionante como q a coxinhada se apegou a essa falsa e manipulada estatística de 93%!!! eles acham q o brasil se resume a sp...e mesmo em sp, certamente esse índice é falso!! mas cada um acredita naquilo q lhe convém, né?!! acho q esse povo pensa q suposto índice de reprovação é fundamental legal pra abertura de processo de impeachment! é muita falta de informação!

  2. Denisbaldo Postado em 18/Aug/2015 às 12:32

    A Globo só está obedecendo ordens superiores: Financial Times, a bíblia do capital predador mundial. Muitos se esquecem dos investimentos astronômicos realizados pelos grupos estrangeiros e acreditam piamente que um monte de babacas bêbados domingueiros com a camisa do 7X1 tem alguma importância nesse jogo. O Financial Times e o NY Times apoiam a Dilma e a Globo só obedece ordens dos gringos como sempre. O PSDB está capitalizando alguns votos, afinal é o que lhe restou nesta história patética.

  3. Beto Postado em 18/Aug/2015 às 14:11

    "transição à TV digital que liquidou qualquer expectativa democratizante" não entendi direito essa frase, mas o texto como um todo muito bom! Eu uma vez me perguntava quem era que dava ibope pra Globo,agora me pergunto, quem não dá? E quem não da, como faz? Eu tento procurar jornais de fora ou a própria mídia livre da internet mas que também me questiono até onde é "livre".

    • felipe Postado em 18/Aug/2015 às 14:43

      Não existe imprensa livre, alias nenhuma que faça barulho muitos sites são mantidos por políticos afim de defender seu interesse, TV paga é um pouco melhor mas não deixa de ter seu interesse em tudo que transmite.

  4. felipe Postado em 18/Aug/2015 às 15:35

    Fico imaginando até quando vai durar esse namoro do gov com a globo kkkk

  5. enganado Postado em 18/Aug/2015 às 19:11

    Caro Denisbaldo. Só para esclarecer. O Financial Times é aquele jornal fdp (tablóide inglês) que colocou um busca pé no CRISTO REDENDOR para pichar nossa economia. Agora qdo nos EUA o Lehman Brothers Holdings Inc., foi um banco de investimento e provedor de outros serviços financeiros, com atuação global, sediado em Nova Iorque, QUEBROU; não tiveram a coragem de colocar a tocha da estátua da Liberdade enfiada no cx. Isto porque o capital judeu fala mais alto. Agora o desrespeito a um símbolo religioso de nossa Pátria não faltou coragem! O que nós fizemos? NADA! Na Igreja do Católica, o bajulado, D. Irani Tempesta,, essa então saiu pela porta dos fundos. Porque a igreja é fé ou GRANA? Por essas e outras é que NÃO somos respeitados e chamados de Vira-Latas. Se gostássemos do BRASIL, mesmo! O Exército é o Pai da rede gRoubo (quem os pariu), pois deveria partir DELE nestas horas o enquadramento dessa PUTADA, mas NÃO! Temos um Clube Militar que os adora e ainda por cima dão alerta para o comunismo eminente. Pois então mande um general dos EUA/iSSraHell fazer algo contra sua Pátria como os daqui fazem! FORCA! BOÇALNARO é que o diga, esse bandido armado a favor do capital Anglo-Semita que manda e desmanda na gRoubo. País de merda/infelizes/desgraçados onde uma rede de televisão dita os destinos da nação, e assim servimos de chacota para o 1º mundo. Rede gRoubo/banqueiros/anglo semitas/o bando da paulista/ ... está é a sorte da nação! Não foi à-toa que o Getúlio se suicidou, pois em 1954 já sabia perfeitamente com quem estava lidando, qdo dizia: "As Forças Ocultas"=Banca Anglo-Semita=EUA, lógico! Desde quando judeuSS aceitam governos Patrióticos? NUNCA, NUNCA, NUNCA, e a rede gRoubo reza na CARTILHA. Ou será porque o Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô, faliu? Era a gRoubo do Getúlio, portanto Patriota! Adivinhem quem os MILITARES do GOLPE de 1964 puseram em seu lugar: rede gRoubo, pois coisa vem desde o Herbert Moses (judeu) foi um advogado e jornalista brasileiro. Foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa, e que montou o jornal o gRoubo. Leia "Os Protocolos dos Sábios dos Sião" e verás como a coisa funciona. Rede gRoubo ditando nossos destinos com os MERDAL´s & cia. Quem sabe que uma guerrinha civil poria tudo isto em pratos limpos? Como diz a 2ª estrofe do Hino a Independência: " ... Brava gente brasileira! Longe vá... temor servil: Ou ficar a pátria livre Ou morrer pelo Brasil. Estou pronto! E sem medo!

  6. Ingrid Postado em 19/Aug/2015 às 11:19

    Concordo

  7. Thiago Teixeira Postado em 19/Aug/2015 às 11:45

    "...Lula deu continuidade ao programa do FHC de transferencia de renda.." kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  8. Thiago Teixeira Postado em 19/Aug/2015 às 11:48

    De dentro do avião presidencial a Dilma diz: "Adeus cesar Souza, troll da direita, até 2018 quando eu passar a faixa para o Lula, adeussssssssssss". PSDB é o maior freguês do PT.