Redação Pragmatismo
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Racismo não 17/Jun/2015 às 18:59
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O curioso caso da mulher branca que se passava por negra

O que leva um branco a se dizer negro? Essa é a pergunta que os Estados Unidos mais tentam responder esta semana. Escândalo protagonizado por Rachel Dolezal levanta novos questionamentos sobre o racismo

Rachel Dolezal negra racismo eua
Ativista Rachel Dolezal fingiu ser negra durante vários anos nos EUA (divulgação)

Cristina Fernández-Pereda, EL País

Essa é a pergunta que os Estados Unidos tentam responder há dois dias.

Rachel Dolezal é a presidenta local da organização pelos direitos dos afro-americanos NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor) no Estado de Washington. Desde a adolescência mostrou-se interessada nos direitos das minorias, estudou em Mississippi e fez um mestrado na Universidade Howard, onde predominam os alunos de minorias. Atualmente também é professora de estudos afro-americanos e pertence a uma comissão policial de sua cidade. Quando solicitou esse trabalho, definiu-se como branca, negra e nativa americana.

Mas se olharmos uma fotografia tirada quando ela era criança, enquanto crescia em Montana, Dolezal é uma jovem loira, de olhos azuis. “É nossa filha biológica e somos caucasianos, isso é um fato”, disse seu pai. Com essas declarações, os progenitores de Dolezal – de ascendência checa e alemã – acenderam a chama de um complexo debate que deixou todo um país coçando a cabeça enquanto procura respostas para um fenômeno com escassos precedentes: uma pessoa branca que diz ser negra.

Na atualidade, Dolezal tem o cabelo enrolado, sua pele é mais morena e usou desde cachos retos de uma cabeleira afro até um elegante coque de tranças no alto da cabeça. Tentou enganar alguém? Pensaria que se não fosse negra não poderia presidir a organização com mais experiência na luta pelos direitos dos afro-americanos? É só a aparência física que determina se uma pessoa é branca ou negra? Ou é sua experiência? Dolezal é a única que pode decidir sua identidade ou também importa como seus pais se definem?

Perguntada neste sábado por vários jornalistas se é branca ou negra, Dolezal respondeu simplesmente “não entendo a pergunta”, antes de se afastar dos microfones. Também declarou que se for dar explicações, será para sua organização e não “para uma comunidade que não acho que vá entender as definições de raça e identidade”. Por enquanto, a NAACP afirma que a raça de uma pessoa não a qualifica nem desqualifica para liderar a organização e respalda publicamente a trajetória dela.

Muitas pessoas se fizeram “passar” por brancas ao longo da história dos EUA. Segundo um estudo da Universidade de Yale, cerca de um em cada cinco afro-americanos. Mas o caso inverso é menos frequente e faz com que, se quisermos abordar também essa conversa, não tenhamos os recursos – pessoais, sociais e até linguísticos – para responder, sem grandes dificuldades, às perguntas que são colocadas.

“A razão pela qual sua história é tão fascinante é que expõe de maneira inquietante que nossa raça é uma atuação”, escreve Steven W. Thrasher no The Guardian. “Apesar das distintas maneiras em que se percebe nossa raça, todas se baseiam no mito de que nossas diferenças existem e são perceptíveis”. Dolezal estaria contribuindo, talvez sem querer, para questionar o uso da identidade racial no contexto da justiça social e econômica.

Esse debate coloca a questão, por exemplo, de que se aceitamos que Dolezal “mentiu” sobre sua raça, assumimos também que a identidade racional não é pessoal, mas social. Isso quer dizer que uma pessoa deve justificar quando afirma ser branca ou negra? A resposta é mais complexa do que parece e obriga a reconhecer o que é a identidade racial e por que pesa tanto em um país como os EUA.

Um dos pontos-chave foi explicado por uma historiadora de Princetonao The New York Times. Na época da segregação, as leis de Jim Crow estabeleceram a “regra da gota de sangue”. Se uma pessoa tivesse uma única gota de seus ancestrais afro-americanos, por mais distantes que fossem, e por mais branca que fosse sua pele, seria classificada como negra, discriminada e despojada de direitos como o de votar antes de 1965. Uma lei racista serviria, portanto, para aceitar que, embora pareça branca, Dolezal é negra.

Segundo os dados revelados por meios norte-americanos, a protagonista desse debate está divorciada de um homem negro, com quem tem um filho de 13 anos. Também cresceu com quatro irmãos adotivos negros e a briga pela custódia de um deles é o que teria levado seus pais a declarar que a jovem mente sobre sua identidade. Deixando as disputas familiares de lado, essa experiência pessoal, cuja interpretação não corresponde a ninguém mais que a ela, poderia ter ajudado a que se identificasse como negra.

Mas nos EUA é difícil desvincular essa identidade de um passado de escravidão e discriminação com reverberações tão recentes como os últimos escândalos de violência policial. Por isso muitos afro-americanos denunciaram nas redes que, a não ser que uma pessoa compartilhe essa experiência – não só a cor da pele –, não deveria dizer que é negra.

E assim chegamos ao segundo ponto desse debate. A experiência pessoal de milhões de afro-americanos é uma na qual a cor de sua pele, sua história e a de seus antepassados fechou as portas para oportunidades e direitos que desfrutaram, e continuam desfrutando, os norte-americanos brancos. Eles não podem dizer que sua raça é outra, enquanto que Dolezal, que alega ter sido vítima de ameaças e ataques de ódio por parte de grupos supremacistas, poderia voltar a se identificar como branca e, supostamente, sentir-se protegida do racismo.

A Unesco declarou, em 1950, que raça, em termos biológicos, só existe uma, a humana. Depois de consultar com psicólogos, biólogos, sociólogos e antropólogos, descreveu qualquer outra conotação em torno à cor de nossa pele como um “mito”. Nesse caso, o escândalo sobre Dolezal nos obriga a responder por que continuamos diferenciando as pessoas em função da cor de sua pele e a admitir que muitas disparidades socioeconômicas que sobrevivem hoje nos EUA desapareceram das leis, mas não da realidade.

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Comentários

  1. Salomon Postado em 17/Jun/2015 às 19:49

    "Você é branco ou preto? Não entendo a pergunta". Excelente!

    • karina Postado em 18/Jun/2015 às 00:22

      Sim. Excelente!

    • Su Dias Postado em 18/Jun/2015 às 07:31

      Mais perfeito impossível!

    • adelane Postado em 18/Jun/2015 às 17:39

      " Voce é branco ou preto? Sou humana "!

    • Luiz Souza Postado em 19/Jun/2015 às 16:58

      Seus comentários são brilhantes, Salomon, mas permita-me discordar: Antes de ser esquerda ou direita, sou preto; antes de ser católico ou protestante, sou preto; antes de ser anglo-saxão ou latino-americano, sou preto; antes de ser homem ou mulher, sou preto; hétero ou gay, sou preto. Quaisquer ideologias são facilmente esquecidas quando entram em cena relações de raça. Sionistas e neonazis estão unidos ao redor do mundo. Brancos pararam de matar uns aos outros e passaram a matar os "degenerados", i. é., pessoas como eu, árabes e indígenas. O maravilhoso ensaio de José Jorge de Carvalho (UnB), Racismo Fenotípico e Estéticas da Segunda Pele, explica perfeitamente isso, até mesmo o argumento válido dos coxas de que "em Cuba, quanto mais alto o cargo, mais brancos o ocupam".

      • Pollyana Postado em 02/Aug/2016 às 19:24

        coxas? aff, mais um vitimista

  2. poliana Postado em 17/Jun/2015 às 20:06

    gente, como q ela conseguiu "escurecer" a pele!? e o cabelo crespo? olha a diferença nas fotos!! impressionante!!! se n fosse essa foto da esquerda mostrada pelos pais biológicos dela, ia morrer dizendo q ela é negra. tô impressionada.

    • Felininho Postado em 18/Jun/2015 às 08:24

      "e o cabelo crespo?" https://www.google.com.br/search?q=permanente

  3. wander Postado em 17/Jun/2015 às 21:33

    E convenhamos ficou muito mais bonita negra do q branca, Não sei porque tanto auê, sou branco mas me identifico muito mais com os negros!

    • eu daqui Postado em 18/Jun/2015 às 12:18

      Lamento por vc. Eu me identifico mais com os idealistas.

  4. DodôAssassino Postado em 17/Jun/2015 às 21:43

    Ela tem é Culpa.

  5. José Ferreira Postado em 17/Jun/2015 às 23:20

    Ela dizia também que tinha ascendência caucasiana e indígena, para justificar os olhos verdes. O tom escuro da pele pode muito bem ser feito com bronzeamentos artificiais, de diversos tipos. Eu não sei exatamente como, mas sei que existe um jeito para "encrespar" os cabelos.

    • Lola Postado em 18/Jun/2015 às 08:50

      Se chama permanente, nos anos 70 era muito popular todo mundo queria ter cabelos crespos e armados ,diferente de hj que a moda é alisar .

    • poliana Postado em 18/Jun/2015 às 14:01

      jose ferreira, mas a pessoa qdo é muito branca, qdo ela toma sol, ela fica vermelha e ainda corre o risco de contrair uma queimadura de 3º grau. nunca vi um branco q tomasse sol e ficasse negro, ou ao menos bronzeado. e olha o cabelo dela natural..nenhum permanente no mundo ia tornar um cabelo de raiz lisa e extremamente liso, em cabelo crespo! tô impressionada com a mudança dessa mulher.

  6. Esther Postado em 18/Jun/2015 às 00:02

    Nao importa, ela fez a demostracao do que sente...Vai em frente querida!

    • luciane Postado em 18/Jun/2015 às 07:26

      E ficou lindaaaa

    • Talita Postado em 18/Jun/2015 às 09:30

      Exatamente. Um país que estampa nas capas de suas principais revistas um homem que se identifica como mulher e o acolhe porque é como ele se sente, mas não aceita que alguém se identifique como negro? Vai entender...

  7. Lizz Postado em 18/Jun/2015 às 00:44

    Entretanto, acho que nesse aspecto cabe ressaltar uma espécie de apropriação cultural, não? Visto que a moça tomou para si características físicas que a ela não competiam, ou seja, encarou um personagem, e provavelmente sofreu descriminações que se ela assumisse o seu fenótipo ''original'' não sofreria.

  8. Julia Postado em 18/Jun/2015 às 02:31

    nas duas fotos o nariz dela ta super diferente

  9. Rafaela Postado em 18/Jun/2015 às 06:09

    O que vocês parecem não entender aqui é que a apropriação dela não foi só uma questão de se identificar com uma outra raça, ela se apropriou da luta, do sofrimento, das experiências e das oportunidades dadas a minorias. Isso é um sinal de um narcisismo e egoísmo muito grande. Ela ganhou bolsas que eram somente para afro-americanos, e não para ela. Quando ela faz de conta que sofre o mesmo racismo que outras pessoas sofrem de verdade, ela está transformando o sofrimento destas pessoas em um ganho pessoal, para se vitimizar. O problema da vitimização escolhida da Rachel é que ela desrespeita vítimas de verdade.

    • Lizz Postado em 18/Jun/2015 às 14:53

      Concordo!! Isso é apropriação cultural

  10. dirce Postado em 18/Jun/2015 às 07:19

    Linda seja o que quiser a vida é sua.

  11. André Anlub Postado em 18/Jun/2015 às 07:55

    Ela fazia um bom trabalho no cargo presidencial que assumia? Então não importa como ela se autodeclarava. Acho que na visão de muitos o "estranho" é sobre o ato em si, e não as causas que levaram ao mesmo.

    • Rodrigo Postado em 18/Jun/2015 às 10:00

      (Outro Rodrigo) Pois é, André. Mas, infelizmente, temos essa mania de deixar nossa condição humana em último lugar e buscamos nos afirmar ou, eventualmente, buscar a afirmação de (inexistente) superioridade com base em um caractere qualquer, a exemplo de cor, escolaridade, condição econômica, credo ou ausência de credo etc. Não vejo problema algum em que ela fosse branca, negra, indígena, cigana etc. e estivesse engajada na luta pelos direitos humanos das pessoas negras. Ninguém, pois, deveria buscar uma etiqueta para negar a capacidade do ser humano de atuar em prol de outro ser humano.

  12. Márcio Ramos Postado em 18/Jun/2015 às 08:59

    Quem sou eu? Minha avó materna, negra. Meu avó, branco. Minha mãe, "parda". Meu pai, negro. Eu, negro. Minha esposa, "parda". Nosso filho, negro. Nossa nora...

  13. Maria Postado em 18/Jun/2015 às 09:17

    Observando as outras fotos dela no google não considero que ela estava querendo se passar por negra, e sim que ela e branca com um penteado afro, tantos querem alisar, outros podem optar por enrolar...

    • silisboa Postado em 26/Dec/2015 às 19:53

      ELA ESTAVA QUERENDO SE PASSAR POR NEGRA SIM POIS SE DECLARAVA COMO NEGRA, SEU PAI FOI QUEM DIVULGOU SUA FOTO COMO BRANCA O QUE CAUSOU ESPANTO ENTRE AS PESSOAS, MAS SINCERAMENTE SE ELA SE SENTE BEM QUE SEJA FELIZ.

  14. Atila José Postado em 18/Jun/2015 às 09:24

    Ela é exatamente o contrário de Michael Jackson

    • Wanderson Postado em 18/Jun/2015 às 17:27

      Pensei o mesmo.É um caso a se pensar, realmente.Mau-caratismo ou transtorno de personalidade?

  15. Thiago Nascimento Postado em 18/Jun/2015 às 09:54

    Olha, será mesmo que ela fingiu? A mídia pode muito bem estar procurando cabelo em ovo. Provavelmente ela se identifique com os negros desde sua infância, chegando até a casar com um; sendo assim, é natural que ela faça bronzeamento artificial, pra deixar a pele - dentro da concepção dela, mais bonita, e encrespe os cabelos. Há tantas mulheres que fazem isso por pura estética, não causaria estranhamento ela fazer pelo mesmo motivo e, até mesmo, por identificação. Acho que estão tentando, sim, desarticular uma causa maior da qual ela é engajada, que é a luta pelos direitos das minorias.

  16. José Ferreira Postado em 18/Jun/2015 às 13:20

    É engraçado que tem gente que ainda a defende. O que ela fez é de uma desonestidade sem tamanho.

    • poliana Postado em 18/Jun/2015 às 14:02

      mais uma vez, me vejo obrigada a concordar com vc...estranho isso..mas....

      • José Ferreira Postado em 18/Jun/2015 às 15:37

        Pior.

      • poliana Postado em 18/Jun/2015 às 17:17

        pior o q, homem?rsrs

      • José Ferreira Postado em 18/Jun/2015 às 23:10

        Pior é estamos concordando. É meio estranho isso.

      • poliana Postado em 19/Jun/2015 às 16:47

        kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....pois é...põe estranho nisso. kkkkkkkkk

  17. Line Postado em 18/Jun/2015 às 14:28

    Ela levou vantagens sobre direitos que não eram dela ao se passar por negra. Se ela não estivesse de má fé, teria pelo menos recusado as bolsas de estudo e a presidência da ong de afrodescendentes. Ela foi desonesta e mal caráter sim e retirou oportunidades de pessoas que eram negras e necessitadas.

    • poliana Postado em 18/Jun/2015 às 17:15

      isso line, vc tirou as palavras da minha boca. por isso achei um absurdo toda essa farsa.

    • Rodrigo Postado em 19/Jun/2015 às 09:59

      (Outro Rodrigo) O que eu fico pensando, Line, é quanto ao poder e alcance da "autodeclaração". Se, pois, bastar a autodeclaração, em tese ela seria negra por assim se sentir e poderia fruir de todos os direitos assegurados aos negros. Por isso achei esse caso tão intrigante, conflituoso e, de certa forma, útil para a discussão, reflexão. De meu lado, para exercer a presidência de um instituto, sendo ela humana, não vejo lá óbice algum, pois a defesa do ser humano (entendo eu) pode ser exercida por qualquer outro ser humano. E, quanto aos direitos, a priori entendo que não poderia deles gozar, por eles ser beneficiada, mas, então, chegamos na validade e eficácia da autodeclaração...

  18. Rafael Postado em 25/Jun/2015 às 23:58

    Isso me faz lembrar de O Homem Bicentenário, noveleta do Isaac Asimov e outros conceitos advindos do cyberpunk. Nós podemos chorar e chiar a vontade, mas a medida que os meios evoluem, nossas certezas mesquinhas morrem e você experimenta e exerce uma liberdade que assusta até mesmo você. Sobretudo você. Admirar a garota e admirar a desconstrução que o ato dele fez são coisas diferentes. Como disseram, é difícil acreditar em idealismo quando se ganha bolsas que eram originárias para etnias de origem. Mas não acho que podemos colocar ela na vala comum dos oportunistas, afinal não foi um meio premeditado e pacientemente esquematizado por anos para sacanear os negros. E ainda que fosse, isso realmente joga uma luz nova em cima da questão dos meios técnicos derrubando as fronteiras de etnia, já que, independente de que método ela tenha usado, ele deve ser calcado em conhecimentos sobre o corpo humano.

  19. Pollyana Postado em 02/Aug/2016 às 19:31

    quando se trata de identidade de gênero, pode-se desprezar a biologia, mas em relação a cor não se pode escapar dela, é isso?