Eric Gil
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Economia 18/Jun/2015 às 11:47
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“É a política, estúpido!”

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Eric Gil*

De 2008 a 2011 cursei o bacharelado em Ciências Econômicas na Universidade Federal da Paraíba. Do final desta graduação até agora me dediquei, academicamente, às pesquisas na área da Política, cursando o mestrado e agora o doutorado em Ciência Política. Como um egresso do curso de Economia, teria uma coisa a sugerir aos professores dos departamentos de Economia pelo Brasil: ensinem para seus alunos o porquê de (ao menos ainda!) existir a palavra “política” no meio da expressão “política econômica”!

Não, a política econômica não é uma decisão apenas técnica, só a mais ingênua criatura poderia acreditar nisto (se quiser desacreditar há rios de bibliografias, de todas as matrizes teóricas, na Economia, Ciência Política, Sociologia e na Administração Pública, contestando este senso comum). As políticas econômicas são frutos de disputa de interesses no interior do Estado entre industriais, banqueiros, trabalhadores, etc., seja via suas entidades associativas, seja individualmente, como lobistas de uma empresa específica. Hoje poderíamos dizer que quem ganha esta queda de braço é a turma dos banqueiros, que conseguiu até colocar seu representante como ministro da Fazenda!

Em pesquisas pelo Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, ligado à UFPR, constatamos origens e destinos de grandes autoridades de instituições formuladoras de política econômica no país (nossas atuais pesquisas abrangeram o Ministério da Fazenda, Banco Central do Brasil e Ministério do Planejamento). Podemos citar a título de exemplo o caso do economista Francisco Roberto André Gros, presidente do Banco Central do Brasil (BCB) por duas vezes (no governo Sarney e depois no governo Collor), que teve uma trajetória profissional bastante curiosa: no seu primeiro mandato de presidente do BCB trabalhara anteriormente como diretor do BNDES, e depois que saiu do cargo assumiu a presidência da Aracruz Celulose; já na segunda vez, trabalhara como presidente do BFC Banco S.A, e depois se tornou diretor-executivo do banco norte-americano Morgan Stanley & Co. Inc. Ligações que a literatura de Ciência Política sugere que pode colocar em xeque o caráter técnico da decisão de uma política econômica. Bem, qual seria um melhor exemplo do que o próprio Joaquim Levy, escolhido pelo presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, para assumir a pasta, depois do próprio Trabuco recusar o convite da presidente Dilma para assumir a Fazenda.

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Mas para hoje podemos pensar no resultado de mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que decidiu neste mês a nova taxa básica de juros (a Selic). O resultado já era esperado, a Selic aumentou uma vez mais chegando ao maior nível em quase nove anos, 13,75%, seu maior nível nos últimos nove anos, e a expectativa é de mais um aumento no próximo mês. Esta decisão se deu apesar de na última ata do Copom os diretores e presidente do BCB admitirem que grande parte do aumento dos preços tem como natureza a opção do governo (os preços administrados), além das opções dos exclusivamente dos governos estaduais (não citadas na ata), tal como no Paraná, que o aumento do ICMS impactou em quase 2 pontos percentuais a mais de inflação (vide o último resultado do IPCA para Curitiba) e a conta de energia (a Copel, empresa de fornecimento energético paranaense, é de capital misto, mas tem como sócio-majoritária o Governo do Estado) neste ano, que já teve um aumento de 51%.

Além disto, vivemos em meio a uma crise econômica com diminuição de emprego e renda, e mesmo assim a solução é aumentar taxa de juros (que seria uma resposta, segundo eles mesmos, para uma inflação de demanda). Se fizéssemos uma pesquisa sobre a opinião dos economistas brasileiros, seria pouco provável que a maioria achasse uma lógica mínima para aumentos na taxa de juros. Inclusive, apostaria que os que acenariam positivamente para esta política seriam aqueles gestores de “investimentos”, ouvidos sempre pela Globo News, que possuem interesses diretos no aumento dos juros da dívida pública brasileira, com aumento da Selic, pois seus clientes, detentores dos títulos de dívida pública, ganhariam mais dinheiro ainda.

Parafraseando James Carville, mas invertendo o motivo, esta persistência de uma política de aumento de juros que empobrece a população em detrimento de uma mínima parcela, o “mercado”, só pode ser explicada de um jeito: “é a política, estúpido!” (a de interesses de classes).

*Eric Gil é economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Natália MS Postado em 19/Jun/2015 às 15:38

    ótima explicação para os leigos de plantão!

  2. Bruno Ferreira Postado em 30/Jun/2015 às 17:09

    Belo texto para muitos, inclusive eu, que ainda boia no assunto político econômico.