Saullo Diniz
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Homofobia 16/Jun/2015 às 12:00
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Ditadura gayzista

Até quando? A heterofobia e a ditadura gay existem apenas nos sonhos de alguns lunáticos cegos. A realidade, meu amigo, é outra. Todos os acontecimentos relatados na crônica são episódios reais só que contra os gays, até quando acharemos isso normal?

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Saullo Diniz*, Pragmatismo Político

Acordei.

Ainda meio sonolento, tentando olhar minhas mensagens no celular enquanto ia ao banheiro liguei a TV e vi a notícia de um jovem hétero assassinado por outro grupo de jovens gays contrários a sua orientação sexual. Na mesma reportagem, o jornalista afirmou que morre uma pessoa por dia no Brasil da mesma causa: a opção sexual de ser hétero. Confesso que foi irrelevante, afinal, muita gente morre em nosso país todos os dias, não é a morte de um hétero que vai me incomodar. Não tenho nada contra, mas ele escolheu ser hétero.

Um pouco antes de sair de casa rumo ao pesado dia de trabalho, ouvi um barulho em meu portão, eram dois religiosos que me chamavam. Fui até eles e após meia dúzia de palavras disse que estava atrasado. Entregaram-me um folheto. Ao passar rápido os olhos, vi que o papel usava trechos de um livro sagrado que tratava das “leis” e que condenava o heterossexualismo com as palavras de que se deitar com uma pessoa do sexo diferente seria uma “abominação”. Lembrei-me logo de que ouço isso desde que nasci, mas já li em algum lugar, que não lembro agora, que antes era normal pessoas de sexos diferentes terem relações, isso acontece até com milhares de espécies de animais. Mas, a vida é curta, não dei novamente muita atenção, afinal, pra quê questionar? Mesmo que eu não concorde muito, ouço que ser hétero é pecado desde que me entendo por gente.

No tempo que fiquei esperando no ponto de ônibus, percebi que havia um casal com dois filhos: um menino e uma menina. Um dos pais falava atentamente ao filho: azul é cor de mulher, homem usa rosa! Enquanto o outro advertia a menina: você não pode brincar dessas coisas, boneca é coisa de homem! Mesmo que sem querer fiquei pensando naquilo: desde crianças, somos adestrados a gostar de um tipo de cor e algum seleto grupo de brinquedos, que diferença isso faz? Muito provavelmente os pais tinham medo que seus filhos por brincarem com outros brinquedos ou usassem outras cores de roupa se tornassem héteros no futuro. Palhaçada! Eu, particularmente, acho que não tem nada a ver, não vai ser isso que vai fazê-los deixar de serem gays, ora! E mesmo assim, acho que não seria um problema se, quando grandes, eles gostassem de pessoas de sexos diferentes. Coitados, tão pequenos e já colocados numa “caixinha de comportamentos”.

O trânsito é impiedoso, além da morte, essa é uma das únicas certezas da vida: vai ter engarrafamento. Nesse momento, o celular torna-se meu refúgio diário. Quando abri no Facebook, percebi que tinha um líder religioso, conhecido como Mal-a-fala, condenando um comercial de perfume que mostrou um casal hétero se abraçando, “não é possível que os gays vão aceitar isso”, dizia ele. Eu não entendi o motivo de tanta revolta, que mal tem dois héteros se abraçarem? Esse mesmo líder é contra o casamento de pessoas de sexo diferente. Eu não acho que dois héteros não têm capacidade de criar duas crianças e muito menos que não devam ter direitos iguais aos nossos, os gays. Qual o problema dos héteros também terem o direito de se casar a adotarem crianças assim como nós? Não entendo.

O fato dos héteros não poderem ter os mesmos direitos me deixa confuso, e acabei comentando com um colega de trabalho assim que cheguei na empresa. Ele não pareceu ser muito a favor, mesmo dizendo que tinha amigos héteros, mas de forma alguma gostaria de ter filhos que não fossem gays. Alguns outros colegas que ouviam a conversa concordaram, diziam que não tinham nada contra, mas também diziam que eles tinham que ser héteros “no canto deles”, não tem porque se casarem. Um colega, tentando embasar seu discurso citou até um político, não lembro o nome, mas eles se orgulhavam de denominarem-no como “Bolsolixo” dizendo que esse sim falava a verdade em prol dos costumes gays e que os héteros eram uma ameaça a seus costumes. Preferi não discutir. Por que esse pessoal cisma em dizer que os héteros vão acabar com a família homossexual do Brasil? Assim como um gay pode ter um filho hétero, um hétero também pode ter um filho gay, a humanidade não acabaria. Além do mais, héteros, mesmo que não possam ter filhos, adotam os filhos dos gays, isso é bom, temos menos crianças sem família. Enfim… preferi voltar ao trabalho, pensar me desgasta muito.

Chegou a melhor hora do dia: hora do almoço. O único problema é que em época de eleição o assunto é sempre o mesmo: votar em quem? Novamente surgiu o assunto do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Será que as pessoas realmente não entendem? Por que essa implicância com os héteros? Eles são gente como a gente. Um dos colegas citou um dos candidatos a presidência o qual convocava a maioria gay contra a minoria hétero. Mas o quê ele quer vencer exatamente? Como um candidato a presidência diz ser contra uma parcela da população? Não entendi como ele ousava dizer que iria impor a vontade da maioria gay, democracia não é exatamente garantir o direito dos héteros também? O pior é que tinha gente apoiando. Sendo que os mesmos que apoiavam diziam não ter nada contra os héteros e que não eram heterofóbicos. Vai entender.

Acabei por lembrar que lá na empresa, algumas pessoas não foram aceitas por serem héteros e que isso não era muito incomum no Brasil, tem um dado que mostra que 20% das empresas no país não contratam héteros. Então agora a pessoa que gosta do sexo oposto tem menos capacidade?

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Quando voltava para o trabalho, aproveitei e comentei com um colega mais próximo que não entendia essa aversão aos héteros. Ele concordou comigo e me contou que um sobrinho dele deixou de ir a escola porque tinha um jeito mais masculino e os amigos zombavam de sua forma de falar. Pensei que trágica seria a vida de uma criança condenada por outras crianças só por não ter um jeito afeminado igual às demais. Que triste a vida de uma pessoa que ainda não sabe o que é sexualidade ser julgada por uma opção sexual que ainda nem sabe se tem.

Fiquei o resto da tarde inteira pensando na quantidade de pessoas renegados por suas famílias e amigos só por pensarem em gostar de pessoas de sexo diferente. Quantas pessoas devem sofrer diariamente por terem de esconder seus gostos. Ameaças diárias que o rei divino não as ama por isso e que elas não habitariam o céu após a vida. A gente têm dado mais valor aos sentimentos de ódio do que os de amor, que estranho. Lembro que quando freqüentava a religião do amor, todos diziam que o amor era o dom supremo, mas que não havia amor entre pessoas de sexo diferente. Quem somos nós pra dizer que héteros não têm sentimentos por pessoas de sexo diferente? Quem somos nós pra questionar o dom supremo?

Todos esses acontecimentos do dia me entristeceram, como podemos relegar o valor das pessoas à opção sexual de cada um? Falam que os héteros querem privilégios, mas eles só querem o mesmo direito que nós, os gays temos. O quê muda na minha vida se dois héteros casarem? Nada! Eu não vou deixar de ser gay se o governo permitir que os héteros possam se casar, que coisa!

De repente, ouço meus pais, após um breve alvoroço, desligarem a TV. Perguntei o que tinha acontecido, se havia tido uma cena de violência ou algo revoltante desse tipo. Meu pai virou e falou: dois héteros se beijaram na novela, onde já se viu isso? Agora não posso nem mais assistir TV em paz! Meu pai assiste diariamente noticiários que retratam detalhadamente formas brutais de assassinato nas grandes cidades, mas se chocou com uma representação de amor?

Realmente, por que perseguimos os héteros? Deixem eles ser felizes como nós somos. Nunca vi ninguém virar hétero só por ver um beijo entre pessoas de sexo diferente, que mal tem? Isso é uma hipocrisia, dizemos que não somos heterofóbicos, mas não queremos que eles tenham os mesmos direitos que a gente. Enquanto refletia sobre isso em meu quarto, minha TV particular noticiou que um homem e uma mulher foram vistos de mãos dadas e foram agredidos por um grupo de gays por serem héteros, mas era engano, eram pai e filha. Caramba, que tenso! A que ponto chegamos?

Antes de dormir, foi inevitável não pensar. Lembrei de uma postagem de facebook de um amigo que dizia ser contra o casamento hétero porque a religião dele era contra. Mas o quê ele tem na cabeça pra querer proibir uma coisa só porque a religião dele é contra? Nem todo mundo segue a religião dele, nem todo mundo é obrigado a seguir suas regras. Imagina se um hindu resolve proibir o consumo de carne bovina? Ou se um judeu o de camarão? Que sem noção! Agora por que temos de achar que a religião de algumas pessoas gays deve proibir o casamento de pessoas hétero?

Não conseguia dormir, todos esses acontecimentos contra os héteros me deixaram perplexo. Como as pessoas podiam achar que isso era um “vitimismo” deles? Resolvi ligar a TV e assistir um futebol enquanto o sono não vinha, percebi que havia um jogador, o Rick Alison, sendo fortemente vaiado por especularem ser hétero. Gente, quanta perseguição!

Como que nós, os gays, que dizemos seguir o amor, querer justiça acima de tudo, somos contrários a tudo que envolva pessoas héteros? Como achamos que não há nenhum problema? Tem uns que dizem que vivemos ainda numa ditadura hétero, dizem que ninguém pode discordar dos héteros, mas não é bem isso. Discordar da prática hétero todos podem, o que não podemos é fazer discursos de ódio contra eles, liberdade de expressão não é liberdade ao ódio. Ainda tem aqueles que dizem que os héteros querem privilégios, mas não, eles só querem ter uma vida “normal” como a nossa. Vivemos numa ditadura, só que outra. Ninguém pode ser diferente de nós, ninguém pode ter outra opção sexual. Vivemos numa ditadura gayzista.

Fim.

A crônica acabou, óbvio que ela é fictícia. No entanto, a crônica inversa que é a vida real não acaba, pelo contrário, parece não ter fim. Até quando? A heterofobia e a ditadura gay existem apenas nos sonhos de alguns lunáticos cegos. A realidade, meu amigo, é outra. Todos os acontecimentos relatados na crônica são episódios reais só que contra os gays, até quando acharemos isso normal?

*Saullo Diniz é graduando em Geografia pela UFRJ e colunista em Pragmatismo Político

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