Redação Pragmatismo
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Dilma Rousseff 30/Jun/2015 às 11:32
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Detalhes da visita de Dilma aos EUA e a reaproximação com Obama

Dilma nos EUA: mais que novas relações, possibilidade de ganhos políticos e econômicos. Visita da presidente pode mudar cenário do segundo mandato e afetar posição do Brasil no mundo

Dilma Obama luther king memorial
Dilma e Obama em visita ao memorial Martin Luther King, em Washington (Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR)

Filipe Figueiredo, Opera Mundi

A visita de Dilma Rousseff aos Estados Unidos pode tanto mudar o cenário de seu segundo mandato quanto afetar a posição do Brasil na comunidade internacional. A presidente iniciou no domingo, dia 28 de junho, sua visita de trabalho ao país, com uma agenda que inclui Nova Iorque no dia 29, Washington nos dias 29 e 30 e encerra-se em São Francisco, no dia 1º de julho. Uma visita bilateral longa para os padrões de Dilma, criticada, com dose de razão, por negligenciar os aspectos externos da política nacional. O esmiuçar da agenda de Dilma demonstra diversos aspectos, de política interna e externa, que, bem-sucedidos, podem melhorar as perspectivas de seu governo, além de influenciar questões geopolíticas globais.

O principal foco da visita e dos comentários em torno das relações bilaterais entre os dois países será o simbolismo do encontro entre Dilma e Barack Obama. É sabido e notório o escândalo de espionagem do governo dos EUA denunciado por Edward Snowden, que incluiu as comunicações pessoais de outros líderes nacionais, como Angela Merkel, da Alemanha, e a própria Dilma. O episódio causou grande distensão nas relações entre os EUA e a comunidade internacional, incluindo o Brasil. Dilma falou de forma incisiva sobre o assunto na Assembleia Geral das Nações Unidas, recebendo apoio alemão. Dilma também cancelou uma visita de Estado que faria aos EUA, um aspecto que deve ser deixado claro: a atual visita, de trabalho, não possui os mesmos impactos, simbolismos e importância da visita cancelada.

Em outras palavras, a visita sinaliza um fortalecimento de boas relações, mas ainda não recupera o lastro perdido no caso Snowden. Dilma será recebida em jantar na Casa Branca e ficará hospedada, quando em Washington, na Blair House, o palácio para hóspedes dignatários do governo dos EUA. Bons sinais de relações amistosas, de força simbólica, que espera-se que rendam frutos em outras agendas. Não que uma agenda política bilateral não exista. A proximidade no ramo de Defesa é uma delas. Obama espera adiantar a pauta ambiental com Dilma, pensando na COP21, que será realizada em Paris no final do ano. Em tempos recentes, nesse tema, o discurso brasileiro e o discurso dos EUA foi pouco congruente, o que espera-se que seja, no mínimo, amenizado.

Outras pautas políticas bilaterais envolvem temas previdenciários, já que existe um grande intercâmbio, mútuo, de profissionais dos dois países, além de um antigo desejo brasileiro: a dispensa de vistos para turistas brasileiros. As discussões sobre isso são realizadas desde uma década, no mínimo, e, caso consiga-se um avanço, pode representar uma vitória para Dilma. E não apenas na política exterior. Uma das principais críticas feitas ao governo Dilma, e ao governo Lula também, seria a do “antiamericanismo”, ou, no mínimo, de distanciamento dos EUA, um tradicional aliado, em prol de novas relações, como o BRICS. Pior, em prol de relações exteriores com motivos ideológicos, com os “bolivarianos” e Cuba.

Deixando de lado o sensacionalismo, o senso-comum e a falta de substância de boa parte dessas críticas, uma aproximação inédita como a abolição de vistos para turistas representaria, com impacto, uma boa relação com os EUA; logo, esvaziaria as críticas citadas, repetidas até pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. Poderia retomar parte do prestígio do governo com a classe média urbana, maior favorecida por uma medida como essa. No que concerne a política internacional, o foco deve ser o continente americano, especialmente Venezuela e Cuba, além da cooperação para as vindouras eleições no Haiti. O primeiro mandato de Obama focou-se no Oriente Médio e a Guerra ao Terror, agora os EUA estão retornando o olhar para os vizinhos. A retomada de relações com Cuba e a distensão com uma Venezuela em crise devem ser debatidas, mas longe de serem prioridade.

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O simbolismo político da visita de Dilma, entretanto, pode ter seu maior impacto é na agenda econômica. Dos quatro dias de sua visita, a presidente passará boa parte de seu tempo em fóruns empresariais, encontros com investidores e empreendedores. Inclusive, visitará o Vale do Silício, na Califórnia, quando a pauta deve ser inovação e intercâmbio intelectual; os EUA é o principal destino de intercambistas brasileiros do programa Ciência sem Fronteiras. Reaproximar-se de Obama é resgatar uma relação de confiança entre as duas economias, com esses investidores e empresários. Em meio ao anúncio de programas nacionais de concessões estatais e de incentivo para exportações, é uma relação mais que bem-vinda, necessária.

Uma injeção de capital na economia brasileira, nesse momento, é também um sopro de alívio para o segundo mandato de Dilma, que começou em crise. A relação econômica também é uma via de mão-dupla. Boa parte da comitiva presidencial é de ministros das áreas de economia e comércio. Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, estão presentes. Uma das prioridades brasileiras será a da abertura do mercado local para a importação de carne brasileira in natura, além da assinatura de acordos para unificação de regras em setores técnicos. A construção de uma agenda econômica na política exterior, com cooperação interministerial, é um dos focos do chanceler Mauro Vieira; ex-embaixador em Washington, lembre-se.

Não é apenas a importância das relações, mas também a possibilidade de ganhos políticos e econômicos, inclusive internos, que explica o foco de Dilma na visita. Ela teria dedicado boa parte de sua agenda recente em reuniões ministeriais para acertar detalhes e aspectos da visita. Com a recém-visita chinesa ao Brasil e o anunciado pacote de investimentos, a vindoura Cúpula do BRICS na Rússia, a institucionalização do Novo Banco de Desenvolvimento, a negociação de acordos comerciais entre Mercosul e União Europeia e, agora, a visita aos EUA, o Brasil consegue uma variedade de parceiros raramente vista. As relações Sul-Sul construídas na chancelaria de Celso Amorim somam-se à agenda comercial atual.

A visita de Dilma aos EUA e seu encontro com Obama é reduzida, ou focada, ao seu simbolismo político. Nas palavras de Roberta Jacobson, secretária de Estado adjunta para a América Latina, “trata-se do início de um novo capítulo em nossa relação bilateral. Esta relação foi posta à prova nos últimos 18 meses”. O destaque é justificado e importante, mas não a redução. Uma grande possibilidade de ganhos políticos e econômicos está ao alcance do governo de Dilma Rousseff. Seu segundo mandato começou já desgastado e passa por momento de queda de popularidade e radicalização do debate interno, com uma economia questionada e presente diariamente nos jornais. Novos investimentos, renovação econômica e o fortalecimento de relações com o “velho aliado” podem mudar esse panorama em curto prazo.

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Comentários

  1. Marlon Bravo Postado em 30/Jun/2015 às 12:49

    Não há reaproximação, a não ser ela acredite em contos de fadas. Kissiger foi embora de Timor Leste horas antes do país ser invadido pela Indonésia dizendo que isso não aconteceria. Se liga, Dilma: tira esse banana do ministério da justiça e chama de volta o delegado Lacerda pra comandar a PF. Só assim você neutraliza o golpe. Senão é caixão e vela.

  2. Junipero Postado em 30/Jun/2015 às 13:42

    Amizade (?) estratégica. É visível. O Brasil já passou do tempo em que escolhia aliados de acordo com o cenário internacional. Assim como a politica interna. (dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro), a politica externa segue o mesmo estilo: China, Cuba, Russia, Irã, Iêmen, não importa. nosso governo faz vista grossa para execuções se elas forem bem escondidas com um belo leque de dólares. São benefícios e riquezas que dizem serem boas aos brasileiros, mas que nunca vemos chegar nas mãos de ninguém, a exemplo dos frutos da Petrobras...

    • Maria Postado em 01/Jul/2015 às 14:13

      E porque não? Acaso UEA não tem acordobilaterais com a China, Cuba futuramente.

  3. Beto Postado em 30/Jun/2015 às 16:14

    Hahaha quando falou do fim de visto para turista imaginei a presidente ligando pro Barack: - eai Barack aqui quem fala eh a presidente Dilma, do Brasil! Como vai o sr presidente? E a familia? A tudo bom, que jóia! Então Obama to te ligando pra reconsidera aquela história do fim do visto pra brasileiro, sabe aquela que tu ofereceu pra eu esquecer que tu viu meu e-mail, viu meu encontros, roubou minha dieta! Então presidente? Partiu washington dc? É sabe porque? Eu não to aguentando essa classe média! Esses que toda hora tao ameaçando ir morar ai! É isso aí presidente! Se eu não deixa eles contente eles vão enche o teu saco! Eh claro que nos não queremos isso n eh presidente?Como minha mae dizia visita e que nem morto depois de um tempo começa a fede! Então a GNT combina vê quanto tempo ela dura sem fede e faz um acordo tratado isso ai! Então ta beijo! Ateehh atehh Segunda feira marcado! Isso ai ainda estou de dieta! Muita gentileza sua vai ter prato exclusivo pra mim? Vou ficar na suite Blair? Tao tá Barack ate segunda! Beijo abraço!

  4. Eduardo Postado em 30/Jun/2015 às 16:40

    a inveja é uma desgraça, votam mal depois fica acusando sem provas....

  5. enganado Postado em 30/Jun/2015 às 18:14

    E aí Presidenta DILMA, o que achou do Comandante do EI=Obama? Não sentiu falta do Subcomandante Bestanyahu?

  6. André Nelson Postado em 30/Jun/2015 às 18:59

    Gostaria de ter vontade de comentar esse assunto também.

  7. Rose Postado em 30/Jun/2015 às 23:32

    Então me explica pq a Dilma entregou o INPI para os americanos??? patentes são fonte de riqueza e em breve vamos perder isso...

  8. Junipero Postado em 01/Jul/2015 às 16:33

    "Futuramente"... Não estou me referindo aos EUA no meu comentário, mas sim ao Brasil (o nome disso é estrategia) e "futuramente" ...sim, como com a Russia, país distante dos EUA por poucos quilômetros de mar, facilmente transponíveis por uma ferrovia, mas a magoa da guerra fria ou da estranheza do sistema governamental siberiano parece não ter passado. A tal ligação física entre os dois países não sai do papel O que todo mundo sabe é que todo mundo quer ser "amigo" do Brasil.

  9. Carlos Postado em 01/Jul/2015 às 20:34

    Pois é, esse é o meu temor. Dilma fragilizada fazendo gracinha pra acalmar o "amigo" do Norte. Amigo da onça , talvez. O jogo está pesado e com auxílio das forças invisíveis dos ianques, o golpe paraguaio ficaria mais fácil . Oremos...