Redação Pragmatismo
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Feminismo 22/May/2015 às 16:46
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Resposta à escritora que disse que “mulheres devem ser mais maternais”

Uma resposta a escritora autointitulada feminista Camille Paglia: mulheres devem ser o que quiserem!

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Recentemente, no dia 24 de abril , a escritora auto-intitulada feminista (apesar de lutar pelo “direito dos homens“, de se opor a todo o feminismo, de desconsiderar as mulheres trans, e de defender um modelo utópico de feminilidade) Camille Paglia deu uma entrevista à Folha de S. Paulo na qual afirmava: “mulheres devem ser mais maternais“. Como transfeminista, e ativista brasileira, tomei a liberdade de enumerar os equívocos de Camille:

1. “Feministas de hoje culpam os homens por tudo. Feministas de hoje querem que os homens sejam como mulheres, pensem como mulheres. As feministas de hoje não são como as grandes mulheres dos anos 60”.

Feministas não culpam os homens por tudo. O feminismo percebeu, e Camille já deveria ter feito isso, que a produção da desigualdade nas relações de gênero é fruto do patriarcado, um sistema de poder, que fundamenta, historicamente, a supremacia do homem sobre a mulher. Obviamente, o acúmulo das lutas feministas tem trazido avanços, como o sufrágio e direitos políticos (ainda não paritários). Entretanto, Paglia não percebe que uma entrevista como a dela, dada em um país como o Brasil, em que os níveis de violência à mulher, os níveis de feminicídio, casos de estupro são imensos, é um verdadeiro desserviço – além, é claro, de ser uma mentira.

Nenhuma feminista quer que os homens “pensem” como mulheres. Aliás, Camille, existe, in natura e a priori, uma forma de pensar como homem e uma forma de pensar como mulher? Um jeito apriorístico e essencial de masculinidade e feminilidade? Em sua entrevista, se orgulha de ser uma feminista dos anos 60, mas não se lembra que “ninguém nasce mulher, se chega a sê-lo?”, ou Beauvoir é uma feminista contemporânea, Camille? Não existe um pensar como mulher, um pensar como homem, existe uma forma de olhar o mundo, que é geralmente condicionada pela cultura, que determina formas masculinas e femininas de ver o mundo. Essa diferença, moldada pela cultura, foi amplamente estudada pela feminista Lucy Iragaray, através dos estudos das enunciações feitas por homens e mulheres.

2. “O feminismo de hoje impede as mulheres de serem felizes”, “as mulheres devem se responsabilizar por suas vidas e parar de se vitimizar e culpar os homens, não há uma conspiração masculina”.

De qual modelo de felicidade parte esta afirmação? De uma felicidade submissa? Da mulher dona de casa? O feminismo de hoje permite a mulher escolher, libertar e inclusive a empodera para começar a experimentar seu próprio corpo e prazeres. As mulheres não estão enfraquecidas. Se estivessem, os homens e as anti-feministas, como você, não estariam reclamando tanto, não é verdade? Não estamos fazendo barulho? Não estamos conquistando direitos? E ainda assim, mulheres continuam recebendo 30% menos que os homens, e este dado é oficial.

Onde o feminismo fala em conspiração masculina? O homem, sujeito, ser humano, é diferente da estrutura patriarcal na qual se insere. Gostaria aqui de lembrá-la da filósofa feminista Judith Butler, em seu livro Mecanismos psíquicos do poder, quando ela nos fala sobre a forma como introjetamos o exercício do poder, seja no sentido de limitarmo-nos, seja no sentido de limitar o outro. O outro, nascido no patriarcado, educado pelo patriarcado, terá, obviamente, introjetado em si as formas de dominação patriarcais, e vai exercê-las, ainda que contra sua vontade. Não há uma culpa no homem, há, outrossim, um sistema de captura da própria masculinidade, como ferramenta de poder.

Por fim, depois associar o crescimento do “jihadismo”, com uma crise na masculinidade (como se os homens tivessem um instinto natural, ideia já superada desde de Margareth Mead, para a guerra, e não encontrando isso em nosso mundo, deslocam-se para lutar a jihad), Paglia propõe, em sua entrevista, que as mulheres, através da maternidade, exercem um tipo de poder sobre o homem e sobre a masculinidade, um poder que “por culpa do feminismo”, vem se perdendo.

Toda mulher quer ser mãe, Camille? Toda mulher pode ser mãe? Toda mulher possui um útero? E as mulheres trans, Camille? O que elas são, nessa concepção biologizante de homem e mulher?
Se há um poder na maternidade, não é o tipo de poder que lutamos pra ter. Aliás, não lutamos pra ter poder sobre os homens, mas para que o poder masculino para de nos estuprar, matar, apedrejar, perseguir, assediar, desempregar.

Não sei a realidade do mundo em que você vive, cara Camille Paglia. Mas no mundo em que vivo, seu texto é um desserviço masculinista que dá suporte ao patriarcado.

Fernando Vieira, Brasil Post

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Comentários

  1. Samael Postado em 22/May/2015 às 17:15

    Cara, minha mulher é feminista e leio varias matérias e blogs relacionados e vou te dizer que existe uma treta tão grande de feministas e RADFEMS E TRANS. Tantas vozes em discordância e gente querendo "cassar carteira de feminista". Uma pena tanta discordância, acho que isso enfraqueceu muito o feminismo.

  2. poliana Postado em 22/May/2015 às 17:19

    nossa, q resposta BRILHANTE!! e q estupidez sem precedentes dessa camille, meu deus. perdeu uma bela oportunidade de ficar calada!!!!

  3. Line Postado em 22/May/2015 às 18:13

    Essa camile já está decadente há muito tempo, demonstra ser muito infeliz, só vive lamentando e só fala besteiras e parece que saiu de algum blog misógino. Existe divergências entre as feministas. O problema é que ela coloca no feminismo toda a culpa da infelicidade e frustrações dela.

  4. LELCO Postado em 22/May/2015 às 23:30

    Acho que a Camille foi demais no que disse;concordo com ela sobre esse feminismo exagerado.É natural da mulher ser assim, como ela é, procurando agradar seu macho, o homem. O feminismo é um corpo estranho na sociedade, uma aberração que deve ser extinta. Esse artigo escrito e posto aqui é ridículo.

    • Samael Postado em 23/May/2015 às 02:11

      Você está vendo as coisas como homem e não como ser humano, olhando os dois lados. Primeiro temos que ver que essa Camille nasceu em 2 de abril de 1947, ela tem 68 anos, pela época em que ela viveu, sim, ela é uma feminista que viveu outra realidade que não se aplica mais a nossa realidade.Segundo, é necessário os dois lados agradarem seus parceiros, tanto o homem quanto a mulher, é uma troca que as vezes pode não acontecer dependendo do relacionamento, mas tem que ser uma coisa mutua. Terceiro, o feminismo é importante, muito importante, caso vc só veja as coisas como homem, veja caso você seja pai de uma menina, gostaria de ver ela subjugada, a mercê de um homem horrível que vc não pode escolher?!

    • Fernanda Postado em 24/May/2015 às 22:40

      Ridículo é você, machistinha. Agradar "seu macho"?!?!?!?!?!? Hahahhahahahahahahaha só posso rir da sua mediocridade.

  5. Fran Oliveira Postado em 23/May/2015 às 02:52

    Tudo que é "ismo" é ruim! O bom mesmo é o equilíbrio, o respeito mútuo, o amor. E cada um tem o direito de fazer suas escolhas. Essa história de "dançar conforme a musica que toca" às vezes é uma furada. Ela poderia ter dividido as sandices dela com o travesseiro que, sendo bom conselheiro, diria para ela ficar quieta.

    • thamara Postado em 23/May/2015 às 21:47

      Cara fran, por muito tempo compartilhei da sua opinião. Infelizmente, hoje, porém, descobri que o machismo mata enquanto o feminismo salva. É importante acima de tudo entender o que é o feminismo, pois muito se critica sem saber e nós, seres sociais, somos influenciados por pessoas que se quer sabem sobre o que de fato opinam. Eu também o repudie por pura ignorância, mas essa mesma ignorância omite a morte de mulheres por seus parceiros, a violência sexual, o assedio, dentre outras muitas coisas. O feminismo é capaz de te fortalecer e te libertar. Dessa forma, esta bem longe de repudio ao sexo oposto. Muito cuidado com a imagem vendida, pois o preço bate a nossa porta mesmo que sutilmente como na minha bateu de varias formas. Boa sorte!

  6. antonio Postado em 23/May/2015 às 21:08

    A pessoa que elaborou essa resposta já leu Personas Sexuais ou qualquer outra obra da autora? Ou ficou no ouviu dizer e resumiu um legado a uma entrevista?

  7. Maurício Patrício Júnior Postado em 24/May/2015 às 00:30

    No final das contas, o texto não chega a lugar algum, se afogando numa onda relativizante e não tendo base alguma para desconstruir o que Paglia disse. Esperava coisa melhor...

  8. Rosali de Rosa Cantlin Postado em 24/May/2015 às 04:28

    Não pela idade (também sou de 1947), mas que essa Camila perdeu o "bonde da história do feminismo", perdeu. Que eu me lembre, as feministas do tempo dela(que é também o meu) queimavam sutiã em praça pública porque queriam ser iguais aos homens. Fizeram tudo errado. Mas, pelo menos, lançaram a semente para os movimentos atuais. Não conseguimos tudo o que merecemos e exigimos, mas estamos no caminho. A luta é árdua! Só que, para conquistar nossos direitos, temos que evoluir em nossas idéias. Parece que a Camila não percebeu isso. Ela parou no tempo e no espaço. Atualmente está mais para uma velha decrépta do que para uma mulher moderna(sim, a gente pode ser moderna aos 68 anos). Devia pensar em se aposentar e aprender a fazer tricô. Seria uma forma muito legal de ser feminina e maternal. Fica a Dica, Camila!

  9. Adriana Postado em 24/May/2015 às 15:30

    Fran, que análise profunda. Todo 'ismo' é ruim. Pelamordedeus. Respeite a inteligência alheia. Eui agradeço a todas as feministas que vieram antes de mim, lutaram por direitos e garantiram que eu não tivesse a vida de semiescrava da minha bisavó e avós. Minha mãe já testudou, trabalhou fora e garantiu a mim esses direitos. Ou vc pensa q mulheres sempre foram à escola? Pelamordedeus, como pode ter mulher falando mal de mulher, só pra reforçar estereótipos... contra as mulheres.

  10. Fernanda Postado em 24/May/2015 às 22:48

    Rosali, dizer que as feministas dos anos 60 fizeram tudo errado é equivocado. No contexto da época elas foram extremamente importantes. A queima dos sutiãs não foi porque elas queriam ser iguais aos homens, foi uma atitude simbólica contra tudo que oprime e aprisiona as mulheres numa sociedade pautada pelo patriarcado.

  11. eu daqui Postado em 25/May/2015 às 10:53

    Não vejo conspiração masculina realmente. Mas vejo uma conspiração de setores que se beneficiam dos privilegios do status quo.

  12. Junipero Postado em 26/May/2015 às 09:50

    Comentário a altura, cru, mas realista e sóbrio. Apesar de praticamente uma lição para Camila e seguidora(e)s, imagino que o texto não possa ser digerido por muitos, devido ao seu nível realista e desmistificador, atualmente glamourizado e comercializado pela mídia, desde a fase fetal a post mortem, em especial para o brasil, onde muitas mulheres não se tornam mais mulheres, compram um pacote com metas pela Tv. Ao descuidar disso, já não se sabe demonstrar isso como exemplo às mais jovens, que no desespero do apreço masculino, mas sem saber como te-lo, correm atras de um celular para tirar selfies seminuas ainda na adolescência, se sujeitando a objeto sexual descartável, e ainda achar isso confortável. Já vimos aqui muita gente defender o rótulo de mulher, minimizando o gênero ao simples fato de possuir um útero e que este seja produtivo.

  13. sergio ribeiro Postado em 26/May/2015 às 12:01

    Essa Camile Paglia parecia interessante há um tempo atrás, mas acabou se perdendo e hoje não é mais levada a sério. Ultimamente para mais uma dessas subcelebridades: mais interessada em "causar" do que discutir alguma coisa a sério. Já tinha visto esta entrevista e achado uma tremenda besteira; nem precisava a autora ter respondido, apesar dos excelentes argumentos.