Redação Pragmatismo
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Racismo não 22/May/2015 às 13:52
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Racismo, coincidência ou azar?

Não existe racismo no Brasil. Muito menos machismo. O que existe são coincidências e azar. Confira seis cenas daquilo que há de melhor em nós

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Leonardo Sakamoto*

Não existe racismo no Brasil.

O que existe são coincidências.

Nesta quinta (21), a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Nilma Gomes vinculou, em audiência no Congresso Nacional, a mortalidade dos jovens negros (cinco assassinados a cada duas horas) ao racismo.

Pura coincidência. A mesma que faz com que balas de revólveres acertem mais jovens negros e pobres.

Coincidência e azar.

Toda a vez que trato da questão da desigualdade social e do preconceito que os negros e negras sofrem no Brasil (herança cotidianamente reafirmada de um 13 de maio de 1888 que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho do que uma abolição de fato, pois não garantiu as bases para a autonomia real dos ex-escravos e seus descendentes), sou linchado pelos comentaristas.

Até porque, como todos sabemos, o brasileiro não é racista. Nem explora sexualmente crianças e adolescentes. Muito menos é machista.

Então, seguem seis cenas, daquilo que há de melhor em nós.

Cena 1 – Lugares comuns

Tinha que ser preto mesmo!…Bandido bom é bandido morto… Baiano quando não faz na entrada faz na saída… Mulher no volante, perigo constante… Sabe quando pobre toma laranjada? Quando rola briga na feira.

Cena 2 – Conversando no trânsito

– Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho mal encarado.

– Aquilo é um cigano? Mantém o vidro fechado.

– Olha, meu filho não é preconceituoso, não. Ele até tem amigos gays.

– Tá vendo? É por isso que um tipo como esse vai continuar sendo lixeiro o resto da vida.

– Viu aquela luz? É um terreiro de macumba. Logo aqui na nossa rua! Mas o João Vítor vai dar um jeito nisso, ele conhece uma pessoa na subprefeitura que vai tirar essa gente daí.

Leia aqui todos os textos de Leonardo Sakamoto

Cena 3 – No salão de beleza

– Eu adoro o Brasil porque é um país onde não existe racismo como nos Estados Unidos. Aqui, brancos, negros e índios vivem em harmonia. Todos com as mesmas oportunidades e desfrutando dos mesmos direitos. O que? Se eu deixaria minha filha casar-se com um negro? Claro! Se ela conhecesse um, poderia sem sombra de dúvida.

Cena 4 – Na redação do vestibular

– Os sem-terra são todos delinquentes que querem roubar o que os outros conquistaram com muito suor.

– Os índios são pessoas indolentes. Erra o governo ao mantê-los naquele estado de selvageria.

– Tortura é um método válido de interrogatório.

Cena 5 – Enquanto isso, entre os amigos

– Uma puta! Alguém pega o extintor para jogar nessas vadias.

– Um índio! Alguém pega gasolina para a gente atear fogos nesses vagabundos.

– Um mendigo! Alguém pega um pau para a gente dar um cacete nesses sujos.

– Umas bichas! Alguém pega uma lâmpada fluorescente para bater nessas aberrações.

Leia também: Jovens negros e pobres, as principais vítimas da redução da maioridade penal

Cena 6 – Em um bar qualquer

– Vê se me entende que eu vou explicar uma vez só. A política de cotas é perigosa e ruim para os próprios negros, pois passarão a se sentir discriminados na sociedade – fato que não ocorre hoje. Além disso, com as cotas, estará ameaçado o princípio de que todos são iguais perante a lei, o que temos conseguido cumprir, apesar das adversidades. O Brasil é um país onde todos são iguais. Esse pessoal pró – cota é que tenta instituir a discriminação.

*Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política.

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Comentários

  1. Doug Postado em 22/May/2015 às 14:17

    Um breve resumo do conservadorismo brasileiro...

  2. felipe Postado em 22/May/2015 às 14:36

    Verdade, a onde do mimimi e do politicamente correto de sempre queria ver ele falar sobre os repasses feitos a sua ONG...

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 14:47

    Saka é outro que parece ter o dom de tirar reacinhas do prumo com seus gabaritos. Tem meu respeito com seus textos simples e didáticos. Aguardando a moçadinha do "não existe racismo no Brasil, esses pretinhos gostam de se fazer de vítima...viva Ali Kamel" chegar pra bostejar...

    • José Ferreira Postado em 22/May/2015 às 15:18

      "Bostejar"? É assim que o Eduardo trata os comentários com ideias contrárias às suas? E eu não vou com a cara do Ali Kamel, pois procuro ver trabalhos acadêmicos de verdade, ao invés de ver textinhos de jornalismo (que não é ciência), seja do Kamel ou do Sakamoto.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 15:27

        Se doeu, Zé? Bem...no caso específico do racismo, nega-lo ou fazer malabarismo de retórica pra relativiza-lo NECESSARIAMENTE é bostejar. Racismo é um FATO. Simplesmente não há espaço pra "idéias" aqui, não existe "eu discordo" nem "eu concordo", nada disso se aplica. Em sendo FATO, qualquer relativização/negação do FATO é bostejar, sempre. Mera lógica terceiranista.

      • José Ferreira Postado em 22/May/2015 às 15:58

        Não estou "doído", o que discuto aqui é sobre a comparação de minhas argumentações (que são pró-sociais) com os conceitos de Ali Kamel, do qual nem considero como válidas. Ninguém esta a negar ou fazer "malabarismo" em relação ao preconceito, mas devemos analisar a situação para que não se classifique qualquer coisa como racismo, o que pode prejudicar em relação aos verdadeiros casos de racismo e/ou injúria racial.

      • Eduardo Ribeiroo Postado em 22/May/2015 às 16:05

        Tá certo. Me esclareça uma dúvida: quando a guria NEGRA sofreu RACISMO EXPLÍCITO e você sugeriu que "se ela alisasse o cabelo e usasse uma franja os problemas de racismo que ela sofre cessariam", você estava sendo pró-social? E quando você diz que o grande teórico sobre racismo e cotas sociais é um cidadão que tem como mote a seguinte frase: "os negros não foram pra frente porque são PREGUIÇOSOS", quando você admira um cara desse você está sendo pró-social também?

      • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 16:13

        Eu fico pasmo...justo o José Ferreira, cujos textos dá pra fazer uma compilação do racismo brasileiro, falar que é pró-social, negar malabarismo...por favor...

      • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 16:16

        Olha o Pereira. Racismo "é falsificação, é mentira, é invenção"...esse dorme com o livro do Pai Kamel debaixo do travesseiro.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 16:38

        Quer ter a verdadeira dimensão do problema? Sai na rua, Pereira. Vai pra uma faculdade de engenharia/medicina e conta quantos pretos tem lá. Depois vai pra uma cadeia e conta quantos são pretos lá. Suas perguntas são as típicas perguntas relativizadoras. "ainnn não se pode mais reclamar de um negro que presta um serviço mal prestado...". Ninguém afirma que isso é racismo a priori. Apesar de só o fato de você imaginar o "pretinho serviçal" pra dar seu exemplo (entre tantos possíveis) já é um bom indício. Fico imaginando a sutileza com que você trata aquele garçom pretinho petulante que derrubou um pouco e desperdiçou seu vinho de 800,00/garrafa.

      • Silva Postado em 22/May/2015 às 17:48

        Você Zé ferreira é um racista nato,nega mas não convence, tal qual Kamel, coisa de reaça!

      • José Ferreira Postado em 25/May/2015 às 16:15

        Você não me conhece, caro Silva.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 16:54

      Puxa, que sorte que ele conhecia seu vizinho então. Se não conhecesse, esse preto maltrapilho fedorento gritando só poderia ser ladrão. Mas aí era só chamar a polícia, e eles levariam o preto inconveniente pra algum canto - o que seria dele só Deus sabe - e você poderia dormir feliz no seu condomínio sem nenhum preto a lhe incomodar.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 17:16

      É sim, é monstruoso mesmo. Principalmente por ser institucionalizado, por ser uma IDEOLOGIA. Mesmo você fazendo um esforço hercúleo pra cranear situações capciosas que confundam seu interlocutor, o racismo é tão intrínseco que sai ao natural. É como eu disse: se não fosse conhecido do seu vizinho, perigava de ser mais um pretinho morto a essa altura, constando nos autos como "assalto a mão armada e resistência a prisão".

    • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 17:18

      Então não é a DESIGUALDADE que cria assaltantes. É a falta de moral cristã. Tá sertinho, Pereira. Nem sei por que perco meu tempo...

    • Eduardo Ribeiro Postado em 22/May/2015 às 17:50

      Mais economia de mercado que há aqui? Você insiste nessa sandice de que o Brasil é comunista? Gramsci? Pereira...larga essas bandeiras olavetes. O Olavão chamou todas as Olavetes de idiotas essa semana, larga de lamber as botas desse cartomante debilóide que não te dá moral nenhuma. E ninguem disse que desigualdade e falta de moral andam necessariamente juntas. Desigualdade e violência sim, necessariamente. O Brasil enquanto nação absurdamente desigual (mesmo tendo diminuido essa desigualdade nos ultimos anos) é necessariamente violento. Tem nada a ver com moral católica, menino. Onde há desigualdade há violência.

  4. Rodrigo Postado em 22/May/2015 às 15:53

    (Outro Rodrigo) Claro que há racismo e discriminação. Claro que ela é ampla e irrestrita, vide caso do atleta negro, recém divulgado: o atleta mostra-se contrangido, ofendido em vídeo, sendo alvo de comentários totalmente inadmissíveis e que não representam brincadeira alguma, ao que seus "algozes" (um ou mais de um, segundo comentário de outro comentarista), alegadamente seriam um casal de pessoas homossexuais. Assim, enquanto não buscarmos tratar o ser humano quanto à sua arbitrariedade, sua maldade, enquanto focarmos apenas em um grupo e nos negarmos a ver as falhas dos demais, comuns ao ser humano (e nem por isso admissíveis), a chaga da discriminação, da arbitrariedade, da altivez terá lugar cativo em nosso meio. E, ao fim, a pesquisa é em muito interessante, mas em muito resumida, pois ao buscar afirmar tantas e lamentáveis mortes como racismo, há omissão quanto ao algoz de tais vítimas. Qual o percentual de pessoas de cada "cor"? Qual o percentual de policiais e criminosos algozes? E, quando presente a figura do policial, qual o percentual de mortes de negros decorrentes de arbitrariedades, mas não de efetivo embate? Qual a condição econômica dos algozes? Novamente, pois: enquanto partirmos para a valoração do viés cognitivo, querendo que uma parcela represente uma verdade, os problemas prosseguirão, jamais sendo tratada a verdadeira causa. Somente restará verdadeira a assertiva de Paulo Freire, no sentido de que a educação não libertadora leva o oprimido a sonhar ser opressor. Ou ainda a de Sartre, no sentido de que "o inferno são os outros", ao que "nós" seguiremos sendo perfeitos e intocados, puros e imaculados, dignos de devoção e "eles" seguirão sendo o "demônio".

  5. Salomon Postado em 22/May/2015 às 16:23

    Lendo alguns comentários, é possível identificar que o texto contém verdades irreprocháveis. Está de parabéns o articulista, os contra-argumentos são sempre os mesmos.

    • Deisi Postado em 22/May/2015 às 18:00

      Sakamoto como sempre genial! Só reaça acha que é achismo! Conclusão a carapuça serviu, mas quero ver vesti-la. Assim caminha um reaça, negar e negar, pior que acreditam não ser racista.

  6. Silva Postado em 22/May/2015 às 17:51

    Pereira exercendo seu lado cristão, vomitando ódio! Só entende de intolerância e preconceito!

  7. Roberto Pedroso Postado em 23/May/2015 às 09:31

    Vemos pela onda de comentários raivosos nos comentários que se seguiram após o texto,vemos a capacidade que Sakamoto tem de fazer com que reacionários "saiam do armário" com sua argumentação provocativa, Sakamoto é realmente muito sagaz.O problema do racismo é claro presente e premente em nossa sociedade fruto de uma herança histórica maldita e vergonhosa de quase quatrocentos anos de escravidão e de uma abolição realizada de forma a transformar deliberadamente os escravos recém libertos em cidadãos de segunda classe,quem conhece o minimo da história da formação do nosso pais sabe que nossa nação foi estruturada sob a égide nefasta do preconceito do racismo e da discriminação; causas geradas devido a essa herança histórica vergonhosa,agora percebo um comportamento interessante de alguns "doutos"que chegam a afirmar que o racismo existe sim, mas que é menor do que os setores progressistas apregoam! me pergunto com se comprova tal argumento?com quais números estatístico se comprova que existe racismo em escala menor do que se imagina?como se comprova(de forma clara objetiva e séria)tal conceito? é Raquel Sherazade fazendo escola....

    • Eduardo Ribeiro Postado em 23/May/2015 às 17:53

      É o que eu disse. Tem seu valor. Não é nenhum gênio, grande teórico, mas a cada texto dele as máscaras reacinhas caem.

  8. Rodrigo Postado em 23/May/2015 às 21:10

    (Outro Rodrigo) Silva, se você não conhece o cristianismo quanto à sua essência, valorando o etiquetamento, você apenas se iguala a quem usa "petista" como sinônimo de pessoa sem caráter. Apenas difere quanto à roupa, quanto à feição, ao endereço, mas a infeliz conduta é a mesma. Respeito é sempre de bom tom.

  9. Luiz Souza Postado em 24/May/2015 às 05:04

    Esse foi sob medida para a comunidade nazifascista do PP. Texto simples porém suficiente para deixar as baratas incapazes de tirar o "casco" do chão. Divirto-me com o agitar das patas.