Redação Pragmatismo
Compartilhar
Mídia desonesta 06/May/2015 às 14:28
16
Comentários

Por que os veículos de comunicação têm viés editorial de direita?

Donos de empresas de comunicação figuram nas listas de famílias mais ricas do Brasil e representam interesses de anunciantes. Isso explica posições editoriais como as em defesa do PL 4330, que abre caminho para redução de direitos trabalhistas

mídia desonesta comprada direita comunicação dinheiro psdb

Róber Iturriet Avila*

Conforme explorado neste mesmo espaço, as posições políticas de direita e de esquerda expressam valores, diagnósticos e prescrições distintas para os problemas da sociedade. De maneira genérica, as perspectivas da direita econômica entendem que o mercado é eficiente na produção de bens e na distribuição da renda. Ao contrário da esquerda econômica, que prescreve tanto regulação na produção, quanto políticas distributivas. Esse último aspecto se justifica, sobretudo, pela compreensão de que o mercado funcionando livremente tende a concentrar riqueza. De um lado porque o capital influencia a remuneração e a condição do trabalho, e de outro, pelas distintas grandezas dos capitais, uns com mais escala do que outros, desencadeando em poder de mercado de grupos empresariais e capacidades competitivas assimétricas. Nesse sentido, muitas das políticas apregoadas pelas forças de esquerda objetivam melhorar a repartição da renda e da riqueza. Elevação dos níveis salariais, estabelecimento de um salário mínimo, políticas de crédito para microempresas e tributação progressiva são pautas comuns a esse campo do pensamento. Especificamente no caso do Brasil, a política tributária é regressiva e penaliza mais os pobres. Já as fatias mais ricas da população brasileira pagam menos impostos do que seus congêneres na maioria dos países. Para além desse ponto, a Operação Zelotes da Polícia Federal e o caso SwissLeaks indicam alguns caminhos utilizados pelos estratos com elevada renda para pagarem menos impostos. A participação do salário, do lucro e a estruturação dos tributos são focos de divergências importantes entre a direita e a esquerda. Geralmente, aqueles que são mais ricos são contra a esquerda porque não querem contribuir mais com o bem-estar coletivo, por entenderem que sua renda/riqueza é fruto de seu esforço.

Leia aqui todos os textos de Róber Iturriet Avila

Já a esquerda, genericamente, compreende que as condições de colocação no mercado são desiguais, sobretudo porque os pontos de partida e as possibilidades de ascensão não são equânimes. Além disso, o histórico familiar e as heranças recebidas são determinantes na colocação social dos indivíduos. Nessa medida, a renda individual é um resultado social, haja vista que sua distribuição reflete a assimetria de oportunidades e a influência que alguns estratos com poder político e econômico têm sobre as regras de distribuição e a tributação. Sob esse pano de fundo, é possível levantar elementos que ajudam a compreender por que boa parte dos grupos jornalísticos brasileiros têm uma linha editorial de direita. A despeito de existir uma vasta pluralidade nas concepções teóricas de economia e de sociologia, os comentaristas, repórteres e analistas que expõem suas posições nos meios de imprensa de referência são, majoritariamente, de direita. Dessa maneira, a perspectiva que chega ao grande público pelos principais veículos transpassa a ideia de que existe apenas uma visão de mundo. A “mídia” não conforma um grupo monolítico, há veículos de esquerda, sobretudo nos meios eletrônicos. Entretanto, as posições e as interpretações da realidade mais expostas nos principais canais de comunicação apontam que as soluções para os problemas sociais passam pela redução do Estado, pela redução de impostos, pela menor oneração tributária sobre as empresas, entre outros.

Adicionalmente, não é infundado aventar que há uma constante tentativa de denegrir políticas e governos de esquerda. Embora o público mais qualificado enxergue esse viés, todos os cidadãos deveriam estar a par de que os periodistas não são neutros. São de direita, por exemplo, Arnaldo Jabor, Bóris Casoy, Carlos Sardenberg, Demétrio Magnoli, Diogo Mainardi, Eliane Cantanhêde, Ferreira Gullar, Luiz Felipe Pondé, Merval Pereira, Miriam Leitão, Olavo de Carvalho, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo, Ricardo Amorim, Ricardo Noblat, Rodrigo Constantino, William Waack, entre outros tantos articulistas. É preciso ter em mente que muitos donos das empresas de comunicação figuram entre as listas de famílias mais ricas do Brasil, encabeçada pela família Marinho. Isso ajuda a explicar as posições editoriais do Globo e da Folha de São Paulo a favor da PL 4330, abrindo caminho para a redução de direitos trabalhistas e dos salários. Em linha semelhante, o jornal O Estado de São Paulo se posiciona mais claramente como opositor aos governos de esquerda na América Latina. A Editora Abril também reproduz a visão de mundo com base em interpretações de direita. O Instituto Millenium, que defende abertamente as posições de direita, tem entre seus patrocinadores grandes empresas de imprensa como Grupo RBS, Estadão e Abril. A métrica das manchetes mostra de forma objetiva o viés existente. Para além do interesse desses grupos empresariais, é preciso observar que grande parte de seus anunciantes não deseja elevações salariais que comprometam seus lucros e tampouco avanços na justiça fiscal, pois eles seriam chamados a contribuir mais com o bem-estar coletivo. Além disso, no âmbito econômico, os entrevistados são representantes do meio empresarial, os quais, legitimamente, defendem seus interesses. Pondera-se que o ethos jornalístico interfere na produção e no fluxo das informações. Normas profissionais também intermedeiam o processo de escolha das pautas. A toda sorte, as linhas editoriais estão mais translúcidas: há escassez de pluralidade na interpretação da sociedade exposta nos principais veículos do País. O viés antiesquerdista atinge patamares elevados no momento atual. A constante perspectiva pessimista da realidade, o enfoque em problemas pontuais sem uma análise ampla das questões, a seletividade na ênfase de denúncias de corrupção, o diagnóstico de que o governo federal intervém demais e, no limite, a completa distorção dos dados estão explícitas. É justificável a plena autonomia editorial dos meios impressos, já a radiodifusão é concessão pública e deveria ter um papel educativo e imparcial. Mesmo que se leve em conta que as suas crenças e seus os valores são do campo direitista, convém desnudar os interesses por trás dessa parcialidade. O que eles têm a ganhar com políticas econômicas e sociais de direita?

*Róber Iturriet Avila é doutor em economia, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. eduardo de paula barreto Postado em 06/May/2015 às 14:39

    . BRASILISTA Perguntam-me se sou petista Devido ao que tenho escrito Deixo claro que sou brasilista Sem apreço por nenhum partido Apenas manifesto a minha opinião Que é fruto da profunda avaliação Das notícias do dia a dia Tenho exercido o direito De expressar-me do meu jeito Por isso me expresso em poesia. Sou contra os oportunistas Medíocres e gananciosos Que fazem da política Um balcão de negócios No qual vendem a Nação Fazendo da corrupção Uma prática corriqueira E protegidos pelos comparsas Escondem tudo das massas Com apoio da Mídia rasteira. Hoje o Brasil vive Uma situação inusitada Políticos e pessoas da elite Também veem a Lua quadrada Isso eu nunca vi no Brasil Aliás acho que ninguém viu Tantos presos bem-vestidos Por isso eu alimento a certeza De que se continuar a limpeza O Brasil sairá fortalecido. Eu ficaria muito feliz Se a nossa Pátria em seu colo Abrigasse clones do juiz Sérgio Fernando Moro E colocasse um no CARF Outro no HSBC e colocasse Um também no Trensalão E se restasse alguém na turma Poderia pôr um na lista de Furnas E quem sabe no mineiro Mensalão. Assim eu desconsideraria o golpismo E colocaria uma bandeira na janela Simbolizando o meu patriotismo E usaria camisa verde e amarela E gritaria para todo o Brasil De forma ordeira e varonil: Finalmente acredito na justiça! E encomendaria outros clones Não de juízes de renome Mas de políticos sem cobiça. Eduardo de Paula Barreto .

  2. Eduardo Ribeiro Postado em 06/May/2015 às 15:12

    Daqui a pouco baixa algum menino maluquinho aqui pra dizer que a matéria não procede, porque a mídia é sabidamente de esquerda, que Globo e Veja são comunistas, que vivemos uma ditadura midiática marxista, que a direita não se vê representada, porque são 12 anos que a direita vê sua liberdade de expressão ser cerceada, e blablabla...

    • Ricardo Postado em 07/May/2015 às 14:28

      Não duvido. Tem gente que diz que nazismo é de esquerda...

  3. Marcos Silva Postado em 06/May/2015 às 16:08

    Por que que as palavras 'inveja' e 'meritocracia' são tão adoradas por aqueles que odeiam a Esquerda? Alguém sabe dizer?

    • Gabriel Pires Postado em 07/May/2015 às 12:22

      Por que as pessoas, a priori, só são capazes de enxergar o que existe dentro dos próprios corações. Eu digo que ser verdadeiramente de esquerda é mais um estado de espírito do que alguma forma de ilustração.

  4. Marcos Silva Postado em 06/May/2015 às 16:15

    Capitalismo só é bom pra quem tá do lado bom da moeda, chapa. E em um país sério, a imprensa iria mostrar tanto o lado bom quanto o lado ruim dos governos, e não essa palhaçada que acontece hoje no Brasil, com a imprensa massacrando a Esquerda. Só alguém muito iludido para dizer a última frase que você disse.

    • Dedé Postado em 07/May/2015 às 16:11

      Na verdade não. Onde as pessoas possuem melhores condições de vida, nos países de capitalismo mais avançado ou onde o sistema funciona de forma capenga, ou pior, em países socialista? EUA, Austrália, Europa Ocidental, Japão, Hong Kong, Canadá. São nesses países onde as pessoas possuem maior renda e melhores condições de vida. Há pobreza nesses lugares? Sim. Claro que há. Pobreza é uma condição natural da humanidade, a pobreza existe e sempre irá existir. Mas não há como comparar as condições de pobreza nesses países com a que existe no terceiro mundo. Já estive nos EUA, fui a NY, Miami e Los Angeles. Tenho uma amiga que vive em Los Angeles. Vc vai em alguns bairros considerados pobres, de maioria negra ou latina e fica impressionado com a estrutura das ruas e das casas. Há pobreza, mas a pobreza relativa. Gente pobre que tem carro, bons aparelhos domésticos e não passa fome. Não tem acesso a um bom serviço de saúde ou a educação de qualidade, que poderia melhorar a qualidade de vida. Mas a pobreza dessas populações não se compara a pobreza que se ver em Salvador ou Recife, ou no morros cariocas. Desse ponto de vista, mesmo para os mais pobres, viver num país capitalista é melhor que viver no 3° mundo ou em países socialistas.

  5. Marcello Postado em 07/May/2015 às 10:44

    A coisa vai além, ser de esquerda hoje em dia é como ser um criminoso confesso. Posições de esquerda são tão demonizadas que o senso comum dificilmente se abre para uma análise mais detalhada dos argumentos da esuqerda. Fica só no: 'VAI PRA CUBA, SEU PETRALHA!

  6. Wladimir Postado em 07/May/2015 às 11:36

    Um bom texto, mas de boa. Dá uma organizada nisso aí que ta horrível de ler.

  7. Gessiana Postado em 07/May/2015 às 13:08

    Isso me faz lembrar meu avô, um bom homem, de ótimo coração, porém pouco esclarecido. Ele era só mais um, como muitos daqueles que acreditavam no Jornal Nacional como a verdade absoluta. Acreditava até em histórias que "comunista se alimentava de criancinhas". Daí eu ficava refletindo sobre, tinha eu lá pelos meus 11 anos. E quanto a falta de informação, visão das coisas podia me atingir negativamente, atingir milhões de brasileiros que vivem frente uma caixa, onde os empresários disparam seus interesses em detrimento de uma população tão carente. Profundamente me sinto bem representada. Ainda há salvação!

  8. Carlos Prado Postado em 07/May/2015 às 13:20

    ashuahsuasuahsuah, com certeza a mídia é tudo direitista, seja lá o que seja ser de direita. Ser de direita deve ser estar alinhado aos EUA, simbolo do direitismo ashuaushausha

    • Ricardo Postado em 07/May/2015 às 14:29

      Não sabe?! Leia Bobbio.

    • Tchekowski Postado em 07/May/2015 às 15:59

      Estar alinhado aos EUA é entreguismo. Leia o texto de novo, Carlinhos. "Geralmente, aqueles que são mais ricos são contra a esquerda porque não querem contribuir mais com o bem-estar coletivo, por entenderem que sua renda/riqueza é fruto de seu esforço". "o histórico familiar e as heranças recebidas são determinantes na colocação social dos indivíduos"

  9. Thiago Teixeira Postado em 07/May/2015 às 18:02

    Porque os principais clientes (que consomem cerveja, carros zero quilômetros, pacotes do Itaú, Seguros) dos anunciantes da grande mídia são PLAYBOYS. E playboys são da elite, logo brancos, consequentemente de Direita.

  10. Thiago Postado em 08/May/2015 às 13:38

    Não acho que todos esses jornalistas citados sejam de direita (embora os veículos para os quais trabalhem as vezes sejam). O problema é que não se pode mais criticar o governo, sem ser chamado de coxinha, elitista. Muitas vezes as críticas feitas por esses jornalistas são absolutamente válidas, e suas previsões acabam se confirmando posteriormente. Prefiro um jornalismo inquisitivo e crítico, do que o pragmatismo político, que na maior parte do tempo puxa o saco dos que estão no poder

    • Thiago Teixeira Postado em 09/May/2015 às 07:24

      E porque a mídia burguesa não mostra os dados positivos? Será que só tem coisa ruim? Reflita. Prefiro um jornalismo como o da Voz do Brasil, TV Câmara e TV Senado, jornalismo profissional, isento, imparcial e informativo.