Saullo Diniz
Colunista
Compartilhar
Racismo não 06/May/2015 às 17:42
17
Comentários

Não existe racismo no Brasil

racismo brasil negros abolição escravidão preconceito

Saullo Diniz, Pragmatismo Político

“Não existe racismo no Brasil”, “isso é um vitimismo”, “tenho até amigos negros” dentre outras, são frases extremamente populares nas (poucas) discussões raciais em nosso país. No entanto, esse discurso é extremamente falacioso. Ao mesmo tempo em que somos considerados um país “miscigenado”, somos uma sociedade extremamente dividida como salientou a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade de Oxford (ING) em entrevista ao jornal El País: “Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids” (1). Se ela exagerou ou não, não é minha intenção nesse breve artigo, mas discutir alguns números que podem nos dar alguns esclarecimentos.

Muitos autores já fizeram tal trabalho de forma muito mais aprofundada e detalhada tanto na análise histórica quanto nos fatos atuais, no entanto, sabemos que o conhecimento acadêmico dificilmente chega ao conhecimento popular. Esse é o motivo desse pequeno texto. Prezando pela honestidade intelectual, mais uma vez fiz questão de disponibilizar todas as fontes no final do texto.

No censo 2010, ficou registrado que o número de negros e brancos no país continua bem próximo sendo 47,3% da população branca e 53,7% negra ou parda (2). Tendo em vista esses números, o mais sensato a se esperar ao analisar índices criminais ou educacionais é que se mantenha uma parcela bem parecida, ou seja, que a proporção de negros e brancos se mantenha ou fiquem, de certa forma, bem próximos, mas não é o que acontece.

Ao analisarmos a população carcerária, já nos deparamos com a primeira irregularidade. Os últimos dados apontam que 60% dos presos são negros ou pardos (3). O próprio G1, periódico da Globo, informou recentemente que o a cada 3 presos, no estado de São Paulo, 2 são negros e que o número de jovens negros mortos pela polícia era três vezes maior que o de brancos (4), lembrando que isso é apenas no território paulista, se formos aumentar a análise para a escala nacional, dados da Anistia Internacional afirmam que em 2012, 77% de todos os assassinatos tiveram como vitimas pessoas negras (5). Recentemente, o Mapa da Violência mostrou que em cerca de 98% das cidades brasileiras morrem mais negros do que brancos (6). Além disso, alguns autores confirmam o que não é nenhuma novidade: há mais negros do que brancos da Fundação Casa, antiga FEBEM (7).

Quando entramos nos méritos da educação o problema persiste. Um estudo do Instituto da Economia da UFRJ apontou que 71,6% dos analfabetos são negros ou pardos (8). O tempo médio que os negros levam para concluir os Ensinos Fundamental e Médio também é maior que a média dos brancos (9). Quando tratamos da quantidade de negros aprovados nos concursos de vestibular os números também assustam, em 2012 apenas 7,3% dos alunos da USP eram negros ou pardos e na UNICAMP, 8,5% (10). Ainda assim, a porcentagem de formandos negros no Brasil, seja em instituições privadas ou públicas, é de apenas 6,13% sendo menor ainda nos cursos de medicina, cerca de 2,66% (11).

Leia aqui todos os textos de Saullo Diniz

Recentemente, duas polêmicas rondaram a internet: a discussão sobre as políticas de cotas na USP e o negro (Fernando Holiday) que chama de “discurso de vagabundagem” a mesma discussão sobre as cotas. Pra ver como as coisas pouco mudam na história. Gilberto Freyre ainda no Casagrande & Senzala lançado em 1933 já falava que essa era exatamente uma das palavras designadas aos negros: vagabundos; após mais de 80 anos, ainda tem gente que os designe assim?! Como já vimos, o número de negros nas universidades é bem pequeno – principalmente nas públicas -, como podemos mudar isso? Os argumentos que dizem que a solução não é a criação de cotas, mas o investimento em educação para que todos possam ter acesso às universidades está correto – mesmo que bem vago. No entanto, a questão é: e enquanto esses investimentos na educação não são feitos, como ficarão os negros? Assistindo a festa dos brancos? Daqui a 10 anos vamos continuar vendo que apenas 6% dos formandos no Brasil são negros ou vamos dar mais oportunidades de fato a eles? Deve-se esclarecer, obviamente, que não há falta de capacidade por parte da população negra, muito pelo contrário, o que temos são condições totalmente diferentes no acesso a educação. Coloque o Ayrton Senna pilotando um fusca e ele nunca ganharia algum ponto na história da fórmula 1. Até porque, algumas pesquisas já mostraram que em algumas universidades os cotistas têm um desempenho melhor que os não-cotistas (12). Essa discussão não exclui o fato de pessoas brancas pobres também necessitarem de políticas de ação afirmativa – como já existe em muitas universidades -, só não podemos esquecer do peso que a cor delega (as cotas raciais também contam renda e/ou ter estudado em escola pública, ok?).

racismo brasil escravidão negros preconceito

Por que insistimos em dizer que não há nenhum problema racial no país se os negros são os que mais são presos, mais são assassinados, são a maioria dos analfabetos, demoram mais para concluir o colégio e são minoria no ensino superior? Será que ninguém acha estranho essa desproporção? Os meios de comunicação sempre tentam pegar uma exceção pra tentar provar a regra, tentando impor a meritocracia acima de tudo, esquecendo de analisar o passado dessas relações, negligenciando as centenas de anos de escravidão. Como bem analisou Marcelo Lopes de Souza, professor da UFRJ: “No Brasil, por outro lado, é comum, em meio a um universo cultural um tanto hipócrita, esquecer ou revelar a cor da pele de um negro ou mulato economicamente bem-sucedido; é o chamado branqueamento cultural, o qual, erroneamente, induz muitos a acreditarem que no nosso país não há racismo, e que a única questão relevante a ser enfrentada, em matéria de (in)justiça social é a da pobreza” (13). Se não é racismo, só pode ser cegueira.

Finalizo o breve texto com uma citação de um trecho da música Negro Drama dos Racionais MC‟s:

“Você deve estar pensando: o que você tem a ver com isso? Desde o início por ouro e prata, olha quem morre, então veja você quem mata. Recebe o mérito, a farda que pratica o mal, me ver pobre, preso ou morto já é cultural. História, registros, escritos… não é conto, nem fábula, lenda ou mito. Não foi sempre dito que preto não tem vez? Olha o castelo e não foi você quem fez!”

Fontes:

(1) http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/17/politica/1421520137_687513.html

(2) http://www.brasil.gov.br/educacao/2012/07/censo-2010-mostra-as-diferencas-entre-caracteristicas-gerais-da-populacao-brasileira

(3) http://www.revistaforum.com.br/blog/2012/11/pesquisa-revela-em-numeros-realidade-carceraria-do-pais/

(4) http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/03/taxa-de-negros-mortos-pela-policia-de-sp-e-3-vezes-de-brancos-diz-estudo.html

(5) http://www.cartacapital.com.br/sociedade/violencia-brasil-mata-82-jovens-por-dia-5716.html

(6) http://mapadaviolencia.org.br/index.php

(7) http://www.revistaforum.com.br/blog/2012/06/de-febem-a-fundacao-casa/

(8) http://g1.globo.com/educacao/noticia/2011/04/taxa-de-analfabetismo-entre-negros-e-maior-aponta-relatorio.html

(9) https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/reportagens/a-grande-massa-de-estudantes-que-concluem-o-ensino-medio-em-escolas-publicas-nao-considera-o-ingresso-em-universidades-publicas-diz-marcelo-knobel

(10) http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2012-12-21/usp-tera-de-quintuplicar-numero-de-negros-para-cumprir-programa-de-cotas.html

(11) http://www.emdialogo.uff.br/content/alunos-negros-sao-apenas-613-entre-os-formandos-no-ensino-superior

(13) http://www.estadao.com.br/noticias/geral,desempenho-de-cotistas-fica-acima-da-media-imp-,582324

(13) SOUZA, Marcelo Lopes de. ABC do Desenvolvimento Urbano. 7 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013, p. 70.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook.

Recomendados para você

Comentários

  1. LELCO Postado em 06/May/2015 às 22:30

    O Brasil é um pa[is racista sim;e muito, apesar de ter metade da população negra, de ter origem negra.É um apartheid.

  2. José Ferreira Postado em 06/May/2015 às 23:25

    Esse texto mistura coisas com sentido com coisas sem sentido. Aponta-se os problemas, mas determina soluções que não se encaixam na solução do problema. Também não foi muito honesto o uso de aspas na palavra "miscigenação", pois dá a entender que ser mestiço é algo ruim. Sou mestiço mesmo (branco-índio-negro), e, apesar dos tais membros do "movimento negro" não gostem disso, os mestiços existem. Essa ideologia em transformar o Brasil em um país "birracial" acaba apagando as outras identidades existentes.

  3. Pereira Postado em 07/May/2015 às 10:08

    Racismo existe e é uma realidade, porém não existe racismo ao nível que querem e fomentam os esquerdistas. Quanto mais recismo existir no Brasil, mas motivos têm a turma vermelha para se vitimizar e criar conflitos, incentivando cada vez mais o binário "nós contra eles".

    • B. Ferreira Postado em 08/May/2015 às 13:14

      Cara, pare um momento com essa utilização do termo "turma vermelha" e afins, pqp, o racismo independe de partidos. Santa paciência.

      • Thiago Teixeira Postado em 09/May/2015 às 07:35

        E quem a pratica diariamente é a turma cheirosa verde e amarela.

  4. Roberto Pedroso Postado em 07/May/2015 às 10:41

    O racismo é real presente e latente em nossa sociedade fazendo do preconceito e discriminação fatores que pautam nossas relações sociais cotidianas,se tornando uma especie de característica perniciosa de nossa cultura pois os ecos de cerca de quatrocentos anos de escravidão não se apagam facilmente,infelizmente.

    • B. Ferreira Postado em 08/May/2015 às 13:14

      Excelente!

  5. Laura A Postado em 07/May/2015 às 11:06

    Foi bem dito ao colocar que as cotas são um método responsável pela "socialização" e inserção dos negros no mercado através do ingresso universitário. O racismo existe sim e é também papel social tentar coibi-lo. As cotas não resolvem o problema educacional, mas inserem pessoas no mercado e dão oportunidade. Seria muito bem feito se ao passo que incluem através das cotas, melhorassem também o sistema educacional. Não sei se responsabilizar a esquerda por fomentar o racismo como diz Pereira seria certo uma vez que, não vimos na história do Brasil combate ao racismo por parte de direitistas. Muito pelo contrário, a ideia da privatização, do monopólio e de uma organização social baseada nos princípios da direita faria só com que a exclusão aumentasse e, consequentemente, o racismo, já que como bem observado no texto a maioria dos excluídos não é branca.

  6. Eduardo Ribeiro Postado em 07/May/2015 às 11:17

    Texto perfeito. Agora, só aguardando os meninos-maluquinhos filhotes de Ali Kamel pra dizer que não existe racismo no Brasil, que isso aí é tudo vitimização, que estão se achando especiais e pleiteando direitos a mais, que estão tentando dividir o país (como se ele já não fosse essencialmente dividido), que isso é coisa inventada por petralha, que não se pode nem chamar um negro de macaco mais que a patrulha do politicamente correto já vem encher o saco, que não se faz nada contra a "brancofobia", que não existe dívida histórica nenhuma com os negros.....os de sempre virão que eu sei.

    • Pereira Postado em 07/May/2015 às 11:34

      Quando o racismo chegar nesse nível que quer a turma do pano vermelho, até posso considerar esse texto. E eles estão fazendo de tudo para que o racismo chegue a níveis cavalares.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 07/May/2015 às 14:33

        Conforme esperado. No Fantástico Brasil do Pereira não existe racismo. Papai Ali Kamel abençoa você, meu caro.

      • André Anlub Postado em 08/May/2015 às 09:16

        Turma do pano vermelho que teve/tem duas pessoas brancas como presidente; sendo que nos respectivos governos nunca se viu tanto afrodescendente nas faculdades... Pesquise mais e tire os antolhos do partidarismo.

      • Pereira Postado em 08/May/2015 às 09:47

        Não é o Ali kamel que incentiva o racismo, é a esquerda analfabeta.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 08/May/2015 às 10:51

        Não basta ser discípulo fervoroso do astrólogo fascista que nega evolução, gravidade e heliocentrismo. Agora além disso você se tornou fervoroso seguidor e defensor do canalha que nega veementemente o racismo brasileiro. Está indo muito bem, parabéns.

  7. Luiz Souza Postado em 10/May/2015 às 12:48

    Ainda não sei que lenda prefiro: O movimento negro, o politicamente correto, os bolivarianistas, o vitimismo, o Saci ou o Curupira? Do mundo real afirmo que o massacre de pretos pelas PM/SS's continua forte e direitista ama mesmo vendilhão e doleiro.

    • Luiz Guilherme Prats Postado em 10/Feb/2016 às 12:46

      Pois é. Este pessoal do politicamente correto, os vigilantes da moral social, estão tornado o livre pensamento inviável. Vamos chegar daqui a pouco a moral pública da URSS sob Stálin, em que, quem não era comunista da ala bolchevique com filiação stalinista, era calado, caçado, expurgado e morto. Só uma moral era possível.

  8. Luiz Guilherme Prats Postado em 10/Feb/2016 às 12:42

    O problema de textos como o seu, se me permite a sinceridade, é a ausência de conceituação, pelo menos para que saibamos do que você propõe chamar de "negro"e "não-negro". Em segundo lugar, não dá para aceitar como pressuposto que estas categorias, uma vez conceituadas, sejam realidades objetivamente observáveis e dicotômicas. Há um longo caminho que os defensores da tese do racismo institucionalizado no Brasil passam batidos. Nem explicam, nem definem. Daí, já partem para "constatações". Acho muito complicado falar em "negros" e "não-negros" no Brasil quando estas categorias, além de não conceituadas, sequer fazem sentido para a imensa maioria da população nacional que é mestiça. Pretos são negros ? e pardos, também ? Mas pardos podem se achar bancos, ou não ? Quem vai dizer que não ? Os defensores da tese da existência de um "racismo institucionalizado"? O IBGE ? Vamos dar ao Estado este poder ? Quais as conseqüências ? Seu texto é de militante. Não sou contra militantes até porque já militei em partido político e movimento estudantil e na minha associação profissional. O Brasil precisa de pessoas que acreditem em algo, mas não para tentar impor sem discussão séria uma bandeira que até o momento só serviu para dar cargos para militantes em governos estaduais, municipais e federal. O problema ocorre quando se camufla a luta pelo poder com discursos pretensamente bem-intencionados e que se imagina moralmente superior aos demais. Há muito de desonestidade na condução deste debate, se é que posso chamá-lo assim. Pois todos que levantam dúvidas sobre a validade da tese de que o Brasil é um país racista, vêm sendo sistematicamente rotulados, calados e caçados. Faça m uma pesquisa na internet e verão. Isto demonstra que se trata de uma menos de fazer justiça (seja lá o que se entenda por isso) do bandeira política pelo poder.