Redação Pragmatismo
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Homofobia 06/May/2015 às 14:46
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A carta de Jean Wyllys para Roberto DaMatta e Ziraldo

Jean Wyllys lamentou as atitudes homofóbicas de Roberto DaMatta e Ziraldo. Se disse surpreso com o comportamento do antropólogo, mas que do cartunista não esperava coisa diferente. Único deputado assumidamente homossexual no Brasil revelou que Ziraldo já se recusou a sentar em mesa com ele por ser gay

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O antropólogo Roberto DaMatta e o cartunista Ziraldo (Imagem: Pragmatismo Político)

Único parlamentar declaradamente homossexual do Congresso, o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) criticou o antropólogo Roberto DaMatta e o cartunista e escritor Ziraldo pelas posições que assumiram em relação aos homossexuais nos últimos dias. Para Jean, os dois se apresentam como intelectuais que pregam a “tolerância”, mas, na prática, são “intolerantes em relação à saída da homossexualidade da privacidade e do silêncio onde eles imaginavam que esta deve estar confinada”.

Em texto publicado no Facebook, Jean disse ter ficado decepcionado e chocado com DaMatta, que não desmentiu o ator Paulo Betti, que o acusou de tê-lo agredido verbalmente no último fim de semana por ter interpretado o jornalista gay Téo Pereira na novela Império, da TV Globo. O deputado afirmou, porém, não ter se surpreendido com as críticas feitas por Ziraldo à presença de personagens em telenovelas.

“No caso do Ziraldo, confesso que não me surpreendeu. Dez anos atrás, quando eu ainda não era deputado, ele se recusou a compor uma mesa comigo na Feira do Livro de Porto Alegre e os organizadores me contaram que era por causa da minha sexualidade”, escreveu.

No último fim de semana, ao participar de um evento literário em Poço de Caldas (MG), Ziraldo disse que a homossexualidade está “hiperdimensionada” na TV. “A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais… Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?”

Desde o episódio de dez anos atrás, Jean Wyllys diz não ter mais admiração por Ziraldo. “Qualquer talento e contribuição para a cultura que ele tenha dado perdeu o brilho para mim, porque por trás dela havia uma pessoa doente de ódio, que não conseguia dividir uma simples conversa com outra pessoa por conta de sua sexualidade”, criticou Jean.

O deputado lembrou que, por ironia do destino, Ziraldo é autor da logo do Psol, o seu partido. “O sol dele, talvez contra a sua própria vontade (já que a criação sempre diz mais do que o criador queria dizer), ilumina um partido que tem o único parlamentar homossexual assumido do Brasil”, ressaltou.

No caso de DaMatta, Jean contou que sempre teve relação de respeito com o antropólogo e que não imaginava que ele fosse capaz de mostrar o que chamou de “preconceito homofóbico tão desumano”. “Parece que ele não leu sua própria obra. Conheço o Roberto; ele sempre me tratou muito bem e nunca me pareceu que a minha orientação sexual fosse um problema para ele, mas a gente nunca conhece inteiramente as pessoas e nunca sabe quando seus preconceitos inconfessáveis podem aflorar. O relato de Paulo Betti, que não foi desmentido por DaMatta, é realmente chocante! É uma ofensa gratuita a todos nós!”

Ao final do texto, Jean Wyllys manda um recado ao cartunista e ao antropólogo: “Desculpem-me, Ziraldo e DaMatta, para o armário eu não volto, tampouco para o silêncio! Vocês terão de conviver com pessoas como eu, agora capazes de desmascarar seus discursos nos espaços que vocês imaginavam que eram exclusividade de pessoas como vocês!”.

Leia a íntegra do texto do deputado:

“Fiquei muito triste pelas atitudes homofóbicas do antropólogo Roberto DaMatta e o cartunista Ziraldo, duas pessoas cuja obra (acadêmica, no primeiro caso, e artística, no segundo) tem sido importante para compreender e representar o Brasil. Para quem não tiver lido as notícias sobre eles, seguem os links:

(1) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/05/paulo-betti-denuncia-homofobia-do-escritor-roberto-damatta.html

(2) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/05/qual-e-o-problema-de-ziraldo-com-os-homossexuais.html

Sempre admirei muito o trabalho do Roberto DaMatta e, por isso, escrevo essas linhas com tristeza. Sou contra os “linchamentos virtuais”, mesmo quando eles começam (na opinião de quem os inicia) por uma “boa causa”, e por isso não quero que minhas palavras deem espaço a isso (por isso, também, comentários ofensivos no post ou insultos a qualquer um deles serão deletados), mas não posso deixar de dizer o quanto lamento que um intelectual que sempre respeitei — e cujas etnografias têm sido tão importantes para interpretar o Brasil e sua cultura popular, assim como sua leitura de Tocqueville é importante para compreender e debater a democracia — seja capaz de mostrar um preconceito homofóbico tão desumano. Parece que ele não leu sua própria obra. Conheço o Roberto; ele sempre me tratou muito bem e nunca me pareceu que a minha orientação sexual fosse um problema para ele, mas a gente nunca conhece inteiramente as pessoas e nunca sabe quando seus preconceitos inconfessáveis podem aflorar. O relato de Paulo Betti, que não foi desmentido por DaMatta, é realmente chocante! É uma ofensa gratuita a todos nós!

No caso do Ziraldo, confesso que não me surpreendeu. Dez anos atrás, quando eu ainda não era deputado, ele se recusou a compor uma mesa comigo na Feira do Livro de Porto Alegre e os organizadores me contaram que era por causa da minha sexualidade. Na época, preferi não fazer público o acontecido, porque avaliei que acabaria dando lugar a mais um escândalo midiático sem qualquer resultado positivo, mas a partir daquele momento ele se apequenou para mim. Qualquer talento e contribuição para a cultura que ele tenha dado perdeu o brilho para mim, porque por trás dela havia uma pessoa doente de ódio, que não conseguia dividir uma simples conversa com outra pessoa por conta de sua sexualidade. Mas o tempo passou e olhem que ironia: Ziraldo é o autor da logo do PSOL, partido pelo qual esse cara com quem ele não quis sentar na mesma mesa se elegeu e reelegeu deputado. O sol dele, talvez contra a sua própria vontade (já que a criação sempre diz mais do que o criador queria dizer), ilumina um partido que tem o único parlamentar homossexual assumido do Brasil..

Pois é, o criador tem muito o que aprender com sua criatura (como ilustra a imagem deste post, retirada de uma cartilha publicada em 2010 pelo MEC e pela Secretaria de Direitos Humano, ilustrada por Ziraldo: http://www.turminha.mpf.mp.br/multimidia/cartilhas/CartilhaZiraldodireitoshumanos.pdf

Não conheço os termos usados por DaMatta para se referir à representação de homossexualidade feita por Paulo Betti — o ator não divulgou o conteúdo exato da fala, mas se referiu às expressões do antropólogo como “muito violentas”. Mas não é mera coincidência que DaMatta e Ziraldo se refiram à visibilidade de gays e lésbicas em telenovelas, o principal produto cultural consumido pelos brasileiros. Em ambas as falas, nota-se a expressão daquela homofobia que, por um lado, prescreve a “tolerância” em relação em relação aos homossexuais, mas, por outro, considera que a heterossexualidade é a única a merecer o reconhecimento da sociedade por meio da livre e onipresente representação nas telenovelas e, por conseguinte, a única prática sexual e afetiva a ser institucionalizada. DaMatta e Ziraldo são daqueles intelectuais que falam em “tolerância”, mas que se mostram intolerantes em relação à saída da homossexualidade da privacidade e do silêncio onde eles imaginam que esta deve estar confinada. Para ambos, a única sexualidade que pode vir a público — seja na troca de afetos em bares, restaurantes e casas de shows, seja por meio da representação audiovisual — é a heterossexualidade. Daí o fato de Ziraldo e DaMatta desrespeitarem não apenas dois artistas importantes, mas também os gays e lésbicas que certamente mantêm algum tipo de relação com ambos (além do desrespeito a toda comunidade LGBT). Essa forma de homofobia se revela particularmente nefasta porque deseja retroceder em relação às conquistas democráticas e nos empurrar para o armário.

Desculpem-me, Ziraldo e DaMatta, para o armário eu não volto, tampouco para o silêncio! Vocês terão de conviver com pessoas como eu, agora capazes de desmascarar seus discursos nos espaços que vocês imaginavam que eram exclusividade de pessoas como vocês!”

Congresso em Foco

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Comentários

  1. poliana Postado em 06/May/2015 às 16:45

    o jean willys, como sempre, BRILHANTE em seus posicionamentos. orgulho desse conterrâneo!

  2. leonardo Postado em 06/May/2015 às 22:15

    Nojo desse conterrâneo!

  3. RafaeL Postado em 06/May/2015 às 22:39

    Gostava tanto do Ziraldo... Depois dessa já era o meu respeito por ele. Que mente pequena!

  4. mary Postado em 06/May/2015 às 23:22

    Também estou indignada, a que nível chega o preconceito, mas não tem jeito, daqui pra frente como diz o deputado, mais e mais pessoas sairá do armário, como fiz Zagalo ''vocês vão ter que me engolir'' .

  5. Roberto Pedroso Postado em 07/May/2015 às 10:13

    Não creio que este deputado represente a verdadeira luta em prol dos direitos dos homossexuais e achei no minimo estranho estas atitudes reiteradas de sempre gerar polemicas usando as mídias sociais para obter holofotes e atenção midiática,não creio também que este senhor represente o perfil da esquerda no Brasil,ademais Ziraldo tem direito a opinião(por mais equivocada torta e retrograda que ela seja),defender o direito a livre manifestação somente quando as opiniões não são contrarias as minhas é fácil, confortável e comodo,defender sim o direito a livre manifestação de pensamento quando estes se confrontam contra meus princípios e valores isso sim é defesa real do direito a livre opinião. Me causa estranhamento este deputado trazer á baila um fato ocorrido dez anos atrás para detrair e criticar o escritor Ziraldo,realmente muito estranho,este senhor (Deputado Jean)é hoje considerado por muitos como um ativista dos direitos civis e dos homossexuais,em tempos idos ativistas eram pessoas mais sérias e comprometidas com ideias concretos a exemplo do sociólogo Luiz Mott este sim sempre foi realmente engajado, percebo que outrossim o senhor Jean é muito competente em fabricar polemicas,e vem se especializando e lançando mão desse tipo de expediente cada vez mais.e dessa forma garantirá sua reeleição no próximo pleito se especializando em fabricar polemicas sendo tão hábil nisso quanto seu opositor mais celebre mas não menos oportunista Jair Bolsonaro,ambos especializados em jogo de cena.

    • Renato Postado em 07/May/2015 às 15:09

      Roberto, não sentar numa mesa com uma pessoa porque ela é mulher, ou negra, ou anã, ou deficiente, ou estrangeira, ou aidética, enfim, não é mera questão de opinião. Com gay é a mesma coisa. Dizer que Fernanda Montenegro não pode fazer "apologia" (isso nem faz sentido) ao afeto homossexual é o mesmo que dizer que ela não poderia fazer "apologia" ao afeto inter-racial ou quaisquer afetos similares que já sofreram opressão da sociedade como hoje sobre o afeto gay. As coisas são o que são, e me orgulho de um representante que está sempre disposto a levantar a voz contra os sinais de opressão.

      • Roberto Pedroso Postado em 08/May/2015 às 10:28

        Senhor Renato não tenho o intuito de ferir suscetibilidades mas muito estranhamento me causa o fato deste rapaz,hoje deputado,trazer novamente a baila um fato ocorrido a dez anos atrás justamente neste momento quando sabemos que o escritor Ziraldo está sendo recriminado por uma opinião polemica e anacrônica a atitude deste deputado me parece muito inoportuna em tal caso,sobre a referencia que Ziraldo faz a "apologia do amor homossexual"o escritor se refere, a meu ver,ao conceito de responsabilidade social do ator ao enfrentar o desafio de interpretar um personagem e assumir a defesa de tese que se estabelece com tal ato; pois a grande Fernanda Montenegro(sendo ela a grande dama do teatro nacional uma atriz com carreira sólida e talento incontestável e inquestionável,tendo sua vida atrelada a história do teatro nacional) poderia se recusar a interpretar tal personagem pois a grande dama do teatro não seria obrigada a interpretar um papel caso não quisesse,mas ao faze-lo assume a defesa implícita da tese de defesa de certos valores sociais ao aceitar papel tão polemico em uma produção televisiva,enfim mesmo com a atitude equivocada de Ziraldo vejo como temerário a campanha de difamação e o julgamento moral motivado por 'crime de opinião"que vem sendo realizada contra Ziraldo via redes sociais não vejo isso como algo correto ou justo, tais atos podem abalar a imagem do escritor Ziraldo de forma irreversível.Apelo a celebre frase de Nietzsche " Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro."

    • RafaeL Postado em 07/May/2015 às 21:19

      Roberto Pedroso, é sempre bom saber o que presta e o que não presta. Se não fosse por ele (Jean Wyllys), talvez eu nunca reconheceria os vários preconceituosos que o mesmo escracha. Logo, agradeço ao nobre Deputado por utilizar a mídia e nos mostrar as porcarias da sociedade.

      • Roberto Pedroso Postado em 08/May/2015 às 13:38

        Acredito que estabelecer"o que presta e o que não presta"é tarefa do cidadão/eleitor que deve estar atento em quem vota para ser seu representante devemos verificar a vida pregressa dos políticos identificando os oportunistas de ocasião que se valem de discursos demagógicos e de polemicas vazias de forte apelo junto a opinião publica para assim conseguir se perpetuar no poder.

      • RafaeL Postado em 08/May/2015 às 19:38

        Seu ponto (ideia da 1ª linha), obviamente, é válido, Roberto. Porém é agindo desse modo que admiro a atitude do nobre Deputado Jean Wyllys em evidenciar as mazelas da sociedade/política, pois desta forma, podemos nos orientar melhor quanto aos que prestam e não prestam dentro de tal círculo. Abs.

  6. Pudim Postado em 07/May/2015 às 13:28

    Huuummm... já vi isso acontecer. Como é bom o mundo dar voltas! =D www.youtube.com/watch?v=Qi4-z-brAd4

    • Eduardo Ribeiro Postado em 07/May/2015 às 15:20

      Esses fascistinhas não tem limites. É desonestidade intelectual demais. Querem disfarçar a própria homofobia lançando um sofisma juvenil, um vídeo-espantalho. São uns coitados.

    • RafaeL Postado em 07/May/2015 às 20:55

      Pudim, você sentaria ao lado de alguém que > http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/04/jean-wyllys-explica-por-que-nao-sentou-ao-lado-de-jair-bolsonaro.html?

  7. SOLANGE Postado em 07/May/2015 às 14:49

    O PRIMEIRO DA FOTO TEM CARA DE MAU MESMO.....PRA MIM JÁ DIZ TUDO. O SEGUNDO...BEM...PARECE QUE ESTÁ CONTAMINADO COM MATERIAL RADIOATIVO.

  8. José Carlos Postado em 07/May/2015 às 22:01

    Eu que fui leitor assiduo do "Pasquim" na Ditadura civil-militar , me sinto decepcionado com a atitude do Ziraldo, quanto ao antropólogo a decepção é ainda maior, lamentável!!

  9. Itajaci Postado em 08/May/2015 às 11:12

    Não gosto do Ziraldo desde que descobri que ele só gosta de fazer roda de leitura ou eventos com crianças branquinhas e riquinhas, se forem pobres ele corre léguas. Uma vez o Sesc em Pernambuco contratou e ele não gostou pq o público era formado por crianças pobrinhas, coitadinhas, tão sofridinhas...

  10. Maria auxiliadora Postado em 12/May/2015 às 00:32

    Estranha resposta do DaMatta. Não assisto novelas, a bem da verdade é que globo aqui em casa só para ver F1. O DaMatta confirmou o dia do encontro com o Betti, dia 24/4. Que o parabenizou e o alertou para eventuais agressões homofóbicas. PERAI, a tal novela ficou quantos meses no ar e terminou quando mesmo??? Alertou para ataques preconceituosos depois de terminada a novela???? Está gagá ou foi como o Betti contou!!!!! Agora deixando a profundidade de lado, orientação sexual é algo tão íntimo que não deveria ser respeitado de tal forma que não precisaria sequer ser assunto para leis