Mailson Ramos
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Protestos 15/Apr/2015 às 18:18
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Uma manifestação à sombra do nada

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Mailson Ramos*

As notícias do domingo não foram nada positivas para a oposição ao governo Dilma. Os manifestantes e a imprensa que cobriu os eventos da “passeata democrática” enxergaram mais espaços vazios no atribulado e frívolo trote de pernas brancas sobre as calçadas nobres deste país. E o descontentamento visível – senão uma patologia do ódio – resultou em extremados, violentos e indignos posicionamentos de uma manifestação dita democrática. Porque a expressão “dar um tiro na cabeça” é tão feia, assustadora e assombrosa que nos remete a um período lamentável da história brasileira. O discurso destas manifestações não se altera: é uma referência explícita, mesmo que pontual, ao golpismo e à intervenção militar que agora adquiriu até constitucionalidade. Vexatório.

Os políticos e os grupos midiático-hegemônicos que convocam as manifestações costumam não comparecer aos eventos; nem mesmo em São Paulo, onde se aglomera uma turma reacionária e conservadora, é possível ver um simples deputado da oposição arrastar seus sapatos pelo asfalto da Avenida Paulista. Pegou mal da última vez sair nas manifestações, protestar contra a corrupção e ser indiciado por corrupção alguns dias depois. A estratégia não agrada e o medo de que o tapete seja revirado preocupa os paladinos da ética. É melhor observar a caravana do alto de suas coberturas, as mãos enfiadas na água e o discurso de Pilatos na ponta da língua, especialmente quando as manifestações começam a representar um fiasco.

Leia também: PL da Terceirização: um golpe em curso no Congresso Nacional

A manifestação de direita é natimorta: a oposição não dialoga, exige; a direita não está acostumada a ir às ruas para protestar; o discurso é pobre e sem ideias mais profundas para melhorar o país; grandes nomes dos principais partidos da oposição estão envolvidos ou são citados em esquemas de corrupção. Para os manifestantes, basta gritar o mantra “fora Dilma” e tudo está resolvido como num passe de mágica. Não existe um modelo perfeito de como se manifestar democraticamente, com bases firmadas em reivindicações sérias e reais. Mas se existir um modelo, ele passou longe da aglomeração dos “bem nascidos”. É em São Paulo, onde ocorre uma das maiores greves de professores estaduais do Brasil, que as manifestações têm seus ânimos acirrados. Propositalmente a greve tem sido suprimida no noticiário das grandes emissoras de TV e sequer aparece em qualquer referência dos manifestantes. Isso se chama indignação seletiva.

Salvador, domingo de chuva, clássico entre Bahia e Ceará pelas semifinais da Copa do Nordeste. Alguns gatos pingados foram até a Barra. Naturalmente gritavam ao mesmo tempo “fora Dilma” e “bora Bahêa”. Não há muita expectativa em torno de uma manifestação que não apresenta ideias. Queriam estar na Fonte Nova, mas cederam à indelével satisfação de xingar a presidente da República e desfilar numa passeata de reivindicações vazias. Do céu, os helicópteros da TV Globo avistavam grupos de andarilhos em movimento porque o calor era muito intenso na maioria das cidades. Estava tão quente que um grupo de manifestantes, no Rio de Janeiro, repousou sob a sombra duma árvore. Naquele sol causticante, somente uma árvore era capaz de cobri-los. Não suas ideias, ideologias e reivindicações vazias.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Nossa Política. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

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Comentários

  1. Denisbaldo Postado em 15/Apr/2015 às 20:58

    Engraçado, ontem a sua opinião era de fracasso dos coxinhas. Já mudou de novo? Ou voce é daqueles que sempre mete a boca em tudo, o em cima do muro, o bonzão, "nada é bom suficiente pra mim"? Diz aí Naro, qual político hoje representa os seus anseios? Será que voce consegue admirar alguém, consegue acreditar em alguém? Ou nada presta, só voce? Voce fala como um garoto mimado em busca de atenção. Pronto, conseguiu a minha. E aí, vai responder ou vai se calar como na maioria das vezes?

    • Wander Postado em 15/Apr/2015 às 21:29

      Por ter contado quatro matérias só no PP é sinal que acessa também o Democracia e Política, Tijolaço, Viomundo, ou seja, sites que tenham conteúdos e discutem ideias. Está no caminho certo, não precisa concordar, mas já sente o faro onde pode buscar o conhecimento.

  2. Thiago Teixeira Postado em 16/Apr/2015 às 07:56

    Boechato ontem fez um escândalo com as manifestações contra a TERCEIRIZAÇÃO. Colocou no ar uma reporcagem de manifestantes da matança de negros por policias brancos nos Estados Unidos sendo presos por tentarem fechar uma ponte. Ai vem o coxinhão golpista: "Estão vendo? Em país sério, onde reina a democracia, ninguém fecha avenida, já no Brasil ... os sindicados causam tumulto nas ruas". Tipo assim, camisa vermelha fechando rua é TUMULTO, branco rico coxinha tucano fascista com camisa da seleção de R$ 270,00 é manifestação popular.

    • felipe Postado em 16/Apr/2015 às 10:36

      Acho que a questao foi o direito de ir e vir, quando uma manifestação fere o direito constitucional de ir e vir do cidadão pode se pensam assim. Eu ouvi ele no rádio de manhã e entendi exatamente isso, não houve violência, depredação de patrimônio mas impediu milhares de pessoas de bem de ir trabalhar, isso eu nao acho justo. Fora isso, toda manifestação por direitos é bem vinda.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 16/Apr/2015 às 14:21

      Onde ele falou isso? Boechat na TV é um e no rádio é outro. Esse xilique é típico do padrão TV BAND de jornalismo, que é apenas o mais puro reflexo do reacionarismo brasileiro. E ele, como bom funcionário, tem que atuar como porta-voz dos caras e demonstrar raiva, ódio, asco às manifestações que são realmente úteis ao povo brasileiro. E dá-lhe "mimimi direito de ir e vir", "mimimi esses vagabundos não me deixaram chegar ao meu trabalho", "mimimi tumulto nas ruas, avenidas fechadas". Não o ouvi no rádio ontem e hoje, mas em geral o discurso dele no rádio é bem diferente. Se mostra mais racional no rádio.

      • poliana Postado em 16/Apr/2015 às 15:13

        naro, vc está a par do pl 4330??? leu a respeito da terceirização e sabe o q isso implicaria no país???!!! se sim, estando eu no trânsito, tendo meu direito de ir trabalhar cerceado, seria a 1º a aderir às manifestações, pois se essa aberração passar, logo mais muitos destes "cidadãos" parados no trânsito n terão mais trabalho pra ir todos os dias...olha vc relativizando as manifestações dos trabalhadores. fala como se fosse uns revoltadinhos de plantão e revolucionários adolescentes querendo mudar o mundo. por favor, se vc n leu, leia sobre a terceirização e entenda a tragédia q isso seria no nosso ordenamento.

  3. junior maia Postado em 16/Apr/2015 às 11:59

    nossa, a imagem revela muito...

  4. Herbert Postado em 17/Apr/2015 às 17:03

    Muito bom texto! Parabéns!