Redação Pragmatismo
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Educação 16/Apr/2015 às 13:30
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Por que e a quem Paulo Freire incomoda?

“Ao invés de ‘basta de Paulo Freire’, precisamos de mais Paulo Freire para um país mais decente”. Especialistas explicam por que o patrono da educação brasileira incomoda conservadores e desavisados

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Paulo Freire (Arquivo)

Ana Luiza Basílio, Centro de Referências em Educação Integral

“Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”. “É preciso colocar Paulo Freire em seu devido lugar, que é o lixo da história”. Esses foram alguns ecos decorrentes das manifestações contra o governo no mês de março (relembre aqui), que reuniram pessoas nas ruas de várias capitais brasileiras.

Por que Paulo Freire incomoda? A quem? O que esses discursos revelam? Levamos os questionamentos a alguns especialistas, com o intuito de resgatar parte da história e da contribuição do educador pernambucano, declarado patrono da educação brasileira em 2012, pela lei 12.612, sancionada pela presidente Dilma Rousseff.

O lugar de Paulo Freire

Para o professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti, é preciso rigor para falar de Paulo Freire. Ele relembra as incontáveis publicações e referências ao educador, algumas disponíveis na internet, e completa: “ele tem um lugar no mundo garantido pelo reconhecimento do seu trabalho, com contribuições na educação, nas artes, nas ciências e até na engenharia”.

Por isso, avaliá-lo somente como educador não basta, opina o professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Miguel Arroyo. “A radicalidade dele tem que ser entendida dentro de nossa história”, garante. Daí a necessidade de se reivindicar o lugar de Paulo Freire. “Sobretudo por parte dos educadores populares que assumem, para além de suas ideias, as concepções de mundo que estão por trás delas”, reflete Gadotti.

Uma pedagogia concreta

O rechaço a Paulo Freire não é novidade e tampouco recente. Tem início já nos fins dos anos 50 e começo da década de 60, momento em que o educador idealiza a educação popular e realiza as primeiras iniciativas de conscientização política do povo, em nome da emancipação social, cultural e política das classes sociais excluídas e oprimidas. Sua metodologia dialógica foi considerada perigosamente subversiva pelo regime militar, o que rendeu a Freire o exílio. O educador, entretanto, não deixou de produzir e nesse período escreveu algumas de suas principais obras, dentre elas, a Pedagogia do Oprimido.

Arroyo entende que as manifestações atuais contra o educador só mostram que os setores conservadores continuam tão reacionários quanto na época da ditadura. “E isso surge em um momento em que o partido político que está no poder foi eleito, majoritariamente, pelo cidadão pobre, negro, nordestino. A rejeição a Freire, a meu ver, revela uma questão premente de nossa história de reconhecer ou não o povo como sujeito de direitos”, garante, ponto sobre o qual o educador se apoia para chamar a pedagogia freiriana de “pedagogia dos oprimidos concretos”.

“O que caracteriza a nossa história é não reconhecer os indígenas, os negros, os pobres, os camponeses, os quilombolas, os ribeirinhos e os favelados como sujeitos humanos”, condena o educador.Em sua análise, essa crença serviu, ao longo da história, como justificativa ideológica para que as classes dominantes escravizassem e espoliassem esses setores sociais. “Tudo isso a partir de uma visão de que somos o símbolo da cultura, civilidade e os outros a expressão da sub-humanidade, subcultura, imoralidade. É isso que nos acompanha ao longo da vida e Paulo Freire se contrapôs a isso, inverteu esse olhar”, analisa Arroyo.

O que ele considera “como um dos pontos mais radicais e politicamente avançados de Freire” é a valorização da cultura, das memórias, dos valores, saberes, racionalidade e matrizes culturais e intelectuais do povo, contrapondo-se à lógica de que era necessária a inferiorização de uns para garantir a dominação de outros. Na educação, sobretudo, essa radicalidade implica em enfrentamentos. “Existe a ideia de que nós, cultos, racionais, conscientes, vamos fazer o favor de, através da educação, conscientizar o povo; para Freire não se tratava de conscientizá-los, moralizá-los, mas de reconhecê-los como sujeitos de uma outra pedagogia, capaz de dialogar com essas culturas, identidades e histórias”, esclarece Arroyo.

Paulo Freire em outros contextos

Essa centralidade nos sujeitos, própria da concepção freiriana, também apoiou a organização de trabalhadores. Na cidade de São Paulo, quando à frente da Secretaria Municipal de Educação, na gestão de Luiza Erundina, Paulo Freire aprovou o Estatuto do Magistério importante não só aos docentes como a todos os profissionais da educação, como avalia a atual chefe de gabinete da deputada estadual Luiza Erundina, Muna Zeyn, que trabalhou com o educador na gestão paulistana. “Para ele, todos estavam em processo de educação, do bedel à faxineira, passando pelo professor”.

Influência também na construção de organizações e movimentos de massa, caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para a militante do setor de Educação do Movimento Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de Pernambuco, Rubneuza Leandro de Souza, a combinação entre necessidade e conscientização foi vital para a organização do movimento. ”Sobretudo em relação à educação. Começamos a nos perguntar qual educação queríamos. Sabíamos que não era aquela que desconhecia o contexto das crianças e as estigmatizava como filhas de ladrões, criminalizando a nossa luta”, critica.

Nas escolas do MST, há uma necessidade de que o conhecimento escolar se articule com a realidade e que a educação se estabeleça como elemento de transformação, “libertadora, contra hegemônica e emancipadora”. Rubneuza explica que, nos acampamentos, onde muitas vezes não há escolas próximas, o movimento busca auto organizá-las e que, quando o assentamento é conquistado, há um processo de formalização da instituição. “Isso porque a educação formal entra em contradição com nosso processo de luta, quase sempre porque a escola não entende a realidade que a criança vive”.

Pela integralidade dos indivíduos

Há quem ataque a pedagogia freiriana, tratando-a como doutrinária. Gadotti explica que a grande questão é entender que Freire reconhecia a educação como ato político, de cultura. “A primeira aula de alfabetização em Angicos (Rio Grande do Norte) foi sobre cultura”, relembra o educador. A educação, a formação e até a alfabetização inicial precisa passar pela cultura, pelo reconhecimento do sujeito que conhece, que faz sua leitura do mundo. E é por ser cultural que a educação é política, não no sentido partidário, mas de decidir a vida na pólis (cidade), discutir a vida, o mundo que queremos”.

Ainda de acordo com Gadotti, a educação deve ser vista como um dos elementos de uma cidade educadora , que prevê a educação integral, e não deve se referir só ao conhecimento e ao saber simbólico, mas também ao sensível, ao técnico. “A integralidade do saber é o tecido técnico, simbólico, político, cultural e implica também a politicidade do ato educativo. Ninguém nega que a educação supõe valores, princípios, ética. É isso que falta discutirmos na educação brasileira hoje”, constata Gadotti.

Por mais Paulo Freire

Em sua análise, a perseguição a Paulo Freire na época da ditadura não apenas o expulsou do Brasil, mas também do sistema de ensino do país, impondo um autoritarismo e associando a educação ao chamado tecnicismo pedagógico, que a afasta de qualquer caráter social. “Não conseguimos sequer agregar qualidade a esse tecnicismo, mas o fato é que ele é uma herança da ditadura e continua forte”, evidencia.

Para Gadotti, o ethos freiriano não está presente nas escolas hoje. “Estaria se tivéssemos uma educação participativa, democrática, em que a escola formasse para a cidadania, como está na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Não é só formar para o trabalho, mas para a cidadania, para que o povo participe da construção de uma nação. Ao invés de ‘basta de Paulo Freire’, precisamos de mais Paulo Freire para um país mais decente”, reforça.

Arroyo também compartilha da opinião e demonstra preocupação, sobretudo com a proposta de educação integral. “Não podemos entendê-la como mais tempo de escola, nesse mesmo contexto que estamos inseridos. Seria um desrespeito para o povo e iria contra tudo o que Paulo Freire defendia”, alerta. É fundamental, em sua opinião, que as propostas pedagógicas incorporem os indivíduos em suas totalidades. “Precisamos entender as crianças que chegam às escolas em diversos contextos, o da família negra, o da favela, como filhos de mulheres trabalhadoras. Que saberes e lutas eles trazem consigo para a educação?”, indaga.

“Essas são experiências reais, totais, que exigem uma proposta plural, integrada”, problematiza. Para ele, é urgente pensar que a educação, o currículo diversificado e os saberes prévios podem dar conta de devolver a humanidade roubada das crianças e adolescentes oprimidos. “A função da escola só é integral se ela passa a ser um espaço digno, justo, capaz de recuperar o que lhes roubam”, conclui.

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Comentários

  1. Clarice Postado em 16/Apr/2015 às 16:34

    Pelo visto você não leu a matéria, nem Paulo Freire, nem nenhum estudo sobre ele. É esse o discurso que impera hoje. "Eu acho ruim (embora eu não saiba nada sobre isso) e vou ignorar todos os fatos, argumentos e opiniões, inclusive de especialistas, porque é o que eu penso". Tem gente aí achando que o seu umbigo é o centro do universo. Não adianta argumentar, não adianta discutir. É inflexibilidade e intolerância pura. Correndo o risco de cair num chavão: vai estudar, Mindium!!!!

    • Priscila Postado em 17/Apr/2015 às 01:01

      grande Gadotti, grande Paulo Freire, infelizmente hoje é bonito dizer que Marx é um lixo, que Freire é isso ou aquilo e quem reproduz esse discurso sequer passou perto da obra complexa de qualquer um desses autores. Que possamos sim fazer críticas a esses pensadores, mas críticas sensatas, não crítcas vazias e robotizadas. POr mais leitura, por mais discussões e por mais respeito a diversidade de pensamentos.

  2. tiago morais Postado em 16/Apr/2015 às 16:46

    E o q dizer do 'triangulo ' de Paulo freire, q viralizou em 15/03? Do odio contra cotistas? Dos trotes nas universidades? Muita coisa a dizer. A começar pelo fato de q tudo isso só reforça a falta q ele faz.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 16/Apr/2015 às 16:56

    Incomoda porque sua imagem é atrelada, desde os anos 60, à maléfica esquerda. Hoje, como vivemos tempos de imbecilidade generalizada, sua imagem é ainda atrelada à maléfica esquerda e também à esdrúxula LENDA do "marxismo cultural". De modo que se sabemos por que incomoda, necessariamente sabemos a quem incomoda. Incomoda os de sempre. Paulo Freire entra no mesmo balaio de "bolsa-familia", "Mais Médicos", etc...são "coisas que todo elitista safado deve odiar, mesmo que não saiba bem o porque".

  4. Ricardo Postado em 16/Apr/2015 às 17:28

    Pessoalmente eu acho que o problema é que empurram Paulo Freire guela abaixo no sistema de ensino brasileiro... Não há opções além dele. É óbvio que ele foi (e é) um genio, mas o problema é que tratam ele como um Deus, sem permissão para discussão deoutras alternativas. Não se permitem outras alternativas. Queira ou não o Brasil não está legal nos rankings de educação. A culpa é do Paulo Freire, não sei... O método Paulo Freire funciona com todo mundo ?!?!?! ou DEVE funcionar com todo mundo ?!?!?! O que é imposto não é legal, podem falar o que quiserem.

    • Aracelli Postado em 17/Apr/2015 às 22:22

      Aí é q vc se engana...

  5. Fábio Alves Postado em 16/Apr/2015 às 17:28

    Muito obrigado por essa matéria. Ela veio bem a calhar. Eu mesmo agora entendi a razão de toda essa rejeição a Paulo Freire.

  6. Denisbaldo Postado em 16/Apr/2015 às 18:57

    Verdade, está na hora do retorno da ditadura militar bancada pelos EUA (dívida externa), porque só assim que fomos "uma grande nação". Quando os EUA pediram a grana de volta, acabou a ditadura e a "grande nação".

  7. leonardo Postado em 16/Apr/2015 às 20:30

    Paulo Freire simboliza à educação brasileira!!!!! Não precisa falar mais nada. Rsrs.

  8. Carlos Postado em 16/Apr/2015 às 21:24

    Paulo Freire é patrono da educação brasileira, eduacação essa que gerou um país com mais de 60% de taxa analfabetismo funcional e uma legião de coitados que precisam de cotas. Por isso mesmo, acho adequada a veneração que as massas têm por ele. A elite moral e intelectual do Brasil feita por gente que tem talento e se esforça pra crescer, essa sim foge léguas de Paulo Freire.

    • Araci Borges Dias Martins Postado em 22/Apr/2015 às 16:49

      Certamente não era essa elite que estava na Paulista gritando contra Paulo Freire. Aquilo alí de eleite não tem nada. Gentinha baixa mostrando os seios, homens babando como cães, velhotas ignorantes dizindo asneiras, Jovens ignrants gritando imbecilidades. Deprimente.

  9. Thiago Lopes Postado em 17/Apr/2015 às 09:34

    Faltam livros na vida de vcs.Vcs são um mar de burrice. Minduim, vc só deve ter lido os quadrinhos da turma da Mônica. Talvez vc esteja confundindo Paulo Freire com Paulo Coelho. Mas acho que até Paulo Coelho é grande demais pra vc.

  10. Thiago Teixeira Postado em 17/Apr/2015 às 09:56

    Bom é o Pondé.

  11. Roberto Pedroso Postado em 17/Apr/2015 às 11:24

    Impressionante e incrível como certos apedeutas imbecilizados que pouco ou nada sabem sobre educação e pedagogia estabelecem criticas infundadas e atacam a figura deste brilhante educador que foi responsável pela criação de um método pedagógico para a alfabetização de jovens e adultos que inclusive foi exportado para outros países, mas os detratores do conceito pedagógico desenvolvido por Paulo Freire não devem saber que seu método não é de fato utilizado em larga escala no país,infelizmente,talvez se o fosse a situação no âmbito educacional seria outra muito mais auspiciosa.infelizmente o conceito metodológico de Paulo Freire escapa a compreensão dos apedeutas que analisam seu método como mera doutrinação ideológica, não sabem que graças ao golpe militar seu projeto educacional foi abortado e sabotado e, permanece até hoje não por coincidência, sendo visto e analisado com desconfiança e receio pelos setores mais conservadores da sociedade, o método de Paulo Freire ainda é contestado de forma preconceituosa por aqueles que não entendem absolutamente nada sobre pedagogia mas se apressam em julgar de forma precipitada um modelo pedagógico legitimo e notadamente eficaz,demonstrando que os "criticos"de Paulo Freire talvez nem sequer conheçam de fato seu trabalho e obra e mesmo assim se apressam em criticá-lo de forma tendenciosa e descabida revelando sua incomensurável ignorância .Aos criticos desavisados de Paulo Freire procurem estudar um pouco sobre pedagogia, educação publica, e metodologia pedagógica antes de se apressarem em realizar criticas descabidas e infundadas sem nenhum embasamento teórico,estudem antes de opinar.

  12. Elzy Nascimento Postado em 28/Dec/2015 às 17:54

    Perfeito comentário Roberto Pedroso!