Redação Pragmatismo
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Internet 08/Apr/2015 às 19:10
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O mundo obscuro da internet: onde o ódio tem vez

Facebook: um mapa das redes de ódio. Pesquisa vasculha território obscuro da internet: as comunidades que clamam por violência policial, linchamentos, mortes dos “esquerdistas” e novo golpe militar

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Fanpages de admiradores das Polícias Militares no Facebook (Imagem: Pragmatismo Político)

No dia 5 de março o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), publicou um mapa de redes de admiradores das Polícias Militares no Facebook. São páginas dedicadas a defender o uso de violência contra o que chamam de “bandidos”, “vagabundos”, “assaltantes”, fazer apologia a linchamentos e ao assassinato, defender policiais, publicar fotos de pessoas “justiçadas” ou mortas violentamente, vender equipamentos bélicos e combater os direitos humanos.

Para centenas de milhares de seguidores dessas páginas, a violência é a única mediadora das relações sociais, a paz só existe se a sociedade se armar e fizer justiça com as próprias mãos, a obediência seria o valor supremo da democracia. Dentro dessa lógica, a relação com os movimentos populares só poderia ser feita através da força policial. Qualquer ato que escape à ordem ou qualquer luta por direitos é lido como um desacato à sociedade disciplinada. Um exemplo: no sábado, dia 8 de março, a página “Faca na Caveira” publicou um texto sobre o Dia Internacional das Mulheres no qual manda as feministas “se foderem”. Em uma hora, recebeu 300 likes. Até a tarde de domingo, 1473 pessoas haviam curtido o texto.

Abaixo o professor Fábio Malini explica como fez a pesquisa e analisa o discurso compartilhado por esses internautas. “O que estamos vendo é só a cultura do medo midiático passando a ter os seus próprios veículos”, diz ele. Explore as redes.

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Como você chegou a esse desenho das redes? O que ele representa?

É um procedimento simples em termos de pesquisa. O pesquisador cria uma fanpage no Facebook e passa a dar “like” num conjunto de fanpages ligada à propagação da violência. Em seguida, usamos uma ferramenta que identifica quais os sites que essas fanpages curtem. E, entre elas, quais estão conectadas entre si. Se há conexão entre uma página com outra, haverá uma linha. Se “Faca na Caveira” curte “Fardados e Armados” há um laço, uma linha que as interliga. Quando fazemos isso para todas as fanpages, conseguimos identificar quais são as fanpages da violência (bolinhas, nós) mais conectadas e populares. Isso gera um grafo, que é uma representação gráfica de uma rede interativa. Quanto maior é o nó, mais seguida é a página para aquela turma. No grafo, “Polícia Unida Jamais será vencida” é a página mais seguida pela rede. Não significa que ela tem mais fãs. Significa que ela é mais relevante para essa rede da violência. Mas a ferramenta de análise me permite ver mais: quem são as páginas mais populares no Facebook, o que elas publicam, o universo vocabular dos comentários, a tipologia de imagens que circula etc.

O que você queria ver quando pesquisou esse tema? E o que achou de mais interessante?

Pesquisei durante apenas uma semana para testar o método de extração de dados. Descobri que o Labic, laboratório que coordeno, pode ajudar na construção da cultura de paz nesse país, desvelando os ditos dessas redes, que estão aí, lotadas de fãs e públicas no Facebook. Assustei-me em saber a ecologia midiática da repressão no Facebook, em função da agenda que esses sites estabelecem.

Primeiro há um horror ao pensamento de esquerda no país. Isso aparece com inúmeros textos e imagens que satirizam qualquer política de direitos humanos ou ligadas aos movimentos sociais. Essas páginas funcionam como revides à popularização de temas como a desmilitarização da Polícia Militar ou textos de valorização dos direitos humanos. Atualmente, muitas dessas páginas se articulam em função da “Marcha pela Intervenção Militar”. Um de seus maiores ídolos é o deputado Jair Bolsonaro.

Após os protestos no Brasil, a estrutura de atenção dos veículos de comunicação de massa se pulverizou, muito tráfego da televisão está escoando para a internet, o que faz a internet brasileira se tornar ainda mais “multicanal”, com a valorização de experiências como Mídia Ninja, Rio na Rua, A Nova Democracia, Outras Palavras, Revista Fórum, Anonymous, Black Blocs. São páginas muito populares. Mas não estão sozinhas. Há uma guerra em rede. E o pensamento do “bandido bom, bandido morto” hoje se conformou em votos. Esse pensamento foi capaz de construir redes sociais em torno dele.

A despolitização, a corrupção, os abusos de poder, a impunidade, estão na raiz da força alcançada por essas redes da violência e da justiça com as próprias mãos. E não tenho dúvida: essas redes, fortes, vão conseguir ampliar seu lastro eleitoral. Vão ajudar na eleição de vários políticos “linha dura”. Em parte, o crescimento dessas redes se explica também em função de forças da esquerda que passaram a criminalizar os movimentos de rua e ficaram omissas a um conjunto de violações de direitos humanos. O silêncio, nas redes, é resignação. O que estamos vendo é só a cultura do medo midiática passando a ter os seus próprios veículos de comunicação na rede.

Você escreveu que “é bom conhecer e começar a minerar todos os conteúdos que são publicadas nelas.” Por que?

Porque é preciso compreender a política dessas redes e seus temas prioritários. Instituir um debate por lá e não apenas ficar no nosso mundo. É preciso dialogar afirmando que uma sociedade justa é a que produz a paz, e não uma sociedade que só obedece ordens. Estamos numa fase de mídia em que se calar para não dar mais “ibope” é uma estratégia que não funciona. É a fala franca, o dito corajoso, que é capaz de alterar (ou pelo menos chacoalhar) o discurso repressor.

É interessante, ao coletarmos e minerarmos os dados, notar que muitas dessas páginas articulam um discurso de Ode à Repressão com um outro pensamento: o religioso, cujo Deus perdoa os justiceiros. Isso se explica porque ambos são pensamentos em que o dogma, a obediência, constituem valores amplamente difundidos. Para essas redes, a defesa moral de uma paz, de um cuidado de si, viria da capacidade de os indivíduos manterem o estado das coisas sem qualquer questionamento, qualquer desobediência.

No lugar da Política enfrentar essas redes, para torná-las minoritárias e rechaçadas, o que vemos? Governantes que passam a construir seus discursos e práticas em função dessa cultura militarizada, dando vazão a projetos que associam movimentos sociais a terrorismo. Daí há uma inversão de valores: a obediência torna-se o valor supremo de uma democracia. E a política acaba constituindo-se naquilo que vemos nas ruas: o único agente do Estado em relação com os movimentos é a polícia.

O grafo mostra as relações entre os diversos nós dessa rede. Mas e se a gente quiser saber o que essas redes conversam? As PMs estão no centro de vários debates importantes hoje: o tema da desmilitarização. A repressão às manifestações. O assassinato de jovens pobres, pretos, periféricos. Esses nós conversam sobre essas coisas? Em que termos?

Sim, esses nós se republicam. Tal como páginas ativistas se republicam, tais como páginas de esporte se republicam. Todo ente na internet está constituindo numa rede para formar uma perspectiva comum. As ferramentas para coletar essas informações públicas estão muito simplificadas e na mão de todos. Na tenho dúvida que as abordagens científicas das Humanidades serão cada vez mais centrais, pois a partir de agora o campo das Humanidades lidará com milhões de dados. É uma nova natureza que estamos vendo emergir com a circulação de tantos textos, imagens, comportamentos etc.

Você escreveu que “os posts das páginas, em geral, demonstram o processo de construção da identidade policial embasada no conceito de segurança, em que a paz se alcança não mediante a justiça, mas mediante a ordem, a louvação de armamentos e a morte do outro.” Pode dar exemplos de como isso aparece? E por que isso é grave? Afinal, na visão dos defensores e admiradores da polícia, as posições que defendem dariam mais “paz” à sociedade.

Sábado, 8 de março, foi o Dia Internacional da Mulher. Uma das páginas, a Faca na Caveira, deu parabéns às mulheres guerreiras. Mas mandaram as feministas se foderem. O post teve 300 likes em menos de meia hora e na tarde de domingo tinha 1473 likes. A paz só será alcançada com ordem e obediência, dizem. No fundo, essas redes revelam-se como repressoras de qualquer subjetividade inventiva. Por isso, são homofóbicas e profundamente etnocêntricas de classes. É uma espécie de decalque do que pensa a classe média conectada no Brasil, que postula que boné de “aba reta” em shopping é coisa da bandidagem.

Em Vitória, onde resido, em dezembro de 2013, centenas de jovens que curtiam uma roda de funk nas proximidade de um shopping tiveram que entrar nesse recinto para fugir da repressão da polícia, que criminaliza essa cultura musical. Imediatamente foi um “corre-corre” no centro comercial. Os jovens foram todos colocados sentados, sem camisa, no centro da Praça de Alimentação. Em seguida, foram expulsos em fila indiana pela polícia, sob os aplausos da população. Depois, ao se investigar o fato, nenhum deles tinha qualquer indício de estar cometendo crime. Essa cultura do aplauso está na rede e é forte. É um ódio à invenção, à diferença, à multiplicidade. É por isso que a morte é o elemento subjetivo que comove essa rede. Mostrar possíveis criminosos mortos, no chão, com face, tórax ou qualquer outro parte do corpo destruída pelos tiros, é um modo de reforçar a negação da vida.

Essas redes conversam com outras redes não dedicadas especificamente à questão das PMs? Vi, por exemplo, que tem um “Dilma Rousseff Não”, um “Caos na Saúde Pública” e um “Movimento Contra Corrupção”. Que ligações as pessoas ali estabelecem entre esses temas?

Sim, são páginas que se colocam no campo da direita mais reacionária do país. Mas isso também é um índice da transmutação do conservadorismo no Brasil. Infelizmente, o controle da corrupção se tornou um fracasso. Essa condição fracassada alimenta a despolitização. E a despolitização é o combustível para essas páginas. Mas a despolitização não é apenas um processo produzidos pelos “repressores”, mas por sucessivos governos mergulhados em escândalos e que são tecidos por relações políticas absolutamente cínicas em nome de alguma governabilidade.

Patrícia Cornils, Outras Palavras

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 08/Apr/2015 às 23:14

    Eu era frequentador desses sites e me considero de esquerda. Generalizar militares, ex-militares e simpatizantes como de Direita é muito genérico. A histeria foi tanta, que tiraram quase todas do ar blogs que entoavam canções do exército, do BOPE, ROTA, DEIC, GOE, ROTAM, falava de armamento, honra, graduações na polícia, prisões, crimes, ação policial, repercussão da mídia, resgates e muito mais. Tem dez vez mais coxinhas reacionários propagando fascismo aqui no PP do que nesses blogs.

    • eu daqui Postado em 09/Apr/2015 às 11:57

      Não frequento esses blogs pra poder comparar com o pp, mas acredito em vc. E não só tem muito coxinha assumido por aqui e no mundo real, mino. Tem também os piores coxinhas: os de discurso populista (mal) disfarçado de esquerda, mas que se revelam de forma indisfarçavel na intolerancia, mordacismo, ódio e totalitarismo que são ferramentas e valores tipicamente de direita.

  2. George Postado em 09/Apr/2015 às 10:35

    só página lixo, tudo o que há de câncer. Ainda bem que no facebook tem a opção de "ocultar tudo da página x ou y".

    • Thiago Teixeira Postado em 09/Apr/2015 às 21:03

      Tudo bem George, pode ser lixo para você e tens pleno direito de repudiar os militares, agora privar as pessoas de compartilharem assuntos policiais é totalmente antidemocrático.

      • jane Postado em 10/Apr/2015 às 11:36

        Tá, e ele disse pra privar as pessoas onde mesmo? Você sequer lê ou pensa antes de postar? E, em tempo, se o "assunto" for apologia à violência, divulga-lo é crime, então priva-los de fazer isso é o que manda a lei de nosso estado democrático. Não que a lei esteja sempre certa, mas democracia não é falar o que você quiser, procure estudar mais.

      • Thiago Teixeira Postado em 10/Apr/2015 às 18:19

        Quem precisa estudar é a senhora, eu não disse que ele disse que está privando as pessoas, comentei com ele que há sites retirados do ar. Você leu o artigo? Conhece as páginas?

    • Lucas Souza Postado em 10/Apr/2015 às 11:38

      Thiago, ele não está privando ninguém de compartilhar conteúdo de outras páginas, só está dizendo que, caso algo compartilhado não o agrada, ocultaria a página do seu feed de notícias.

  3. IHateU Postado em 10/Apr/2015 às 12:22

    Acho legal o povo dessa página e de muitas semelhantes. Primeiro, não são capazes de pensar com a cabeça, tanto quanto o povo de direta. Fácil provar isso, basta ler os argumentos de todos os membros, quando decidem refutar algo. Se você acha que está certo pensar assim, são outros 500. Aí e uma escolha sua. Só não pense que vc está com o pensamento livre e que ele e seu por que você parou para analisar. Segundo, não destilam ódio contra as classes menos favorecidas, mas generalizam, chamam de apelidinhos e ficam repetindo um vai estudar, para quem não tem a mesma opinião. Legal, bem assim que vamos encontrar a paz. Segregando e generalizando. Terceiro, acusam os outros de cagar regra na vida das pessoas. Se eu não usar um termo estabelecido por esse povo, já e um absurdo. Se não for branco leite azedo elitista, é negro. Não existem outros aí, espalhados pelo mundo. Ou vc e um, ou outro. Se vc e árabe e se considera como tal, vc não pode, pq a galera da ajuda universal vai cagar regra e dizer que vc está sendo preconceituoso consigo mesmo, se não se encaixar no padraozinho criado. Aí eles vão analisar sua cor, ver para que lado mais vc tende, te encaixar lá e dizer que vc só se considera diferente pq a sociedade fez isso com vc. Pq eles ignoram toda existência de outros povos. Não podem existir. Aliás, para tudo tem padrão bem definido. Que bosta de liberdade é essa? Respeito e o princípio que menos se vê dos dois lados. Vou esperar agora, ver se alguém vem aqui cagar regrinha,destilar ódio, tentar adivinhar se sou homem branco elitista coxinha e generalizar, claaaaro.

    • saulo Postado em 10/Apr/2015 às 12:42

      Seu ridículo, tem muito mais reacionários nesses blogs do que qualquer outro tipo de seguidores... escreveu 17 linhas mas a segunda linha acabou com seu texto...

      • IHateU Postado em 10/Apr/2015 às 14:04

        Vc contou as linhas? E ah, obrigada pelo ridiculo. Você escreveu cinco linhas e morreu na segunda palavra. Eu não desci ofensa em ninguém, mas é assim que o povo sem educação e respeito reage, mesmo. Não importa de onde vem, nem idade, nem cor, nem histórico, droga nenhuma. Não sabe nem quem e a pessoa do outro lado, não sabe nada sobre a minha vida. Nem meu sexo, nem onde moro, absolutamente nada. Mas sair xingando qualquer um... Isso sabe muito bem, né? Por isso que não existe um debate, uma exposição de idéias, uma reflexão. O povo já chega com 200 pedras na mão. Vai, assim mesmo, com essa intolerância e falta de respeito ao próximo, que vc vai chegar na igualdade e paz.

      • IHateU Postado em 10/Apr/2015 às 14:06

        Viu, começou a destilar ódio, já. Vamos aguardar.

  4. Wanderson Postado em 10/Apr/2015 às 16:15

    Esse ato de colocar a imagem do corpo de um suposto marginal com o rosto estraçalhado por um tiro de escopeta para que todo mundo veja,com a desculpa que se fez justiça,não me parece muito civilizatório.Parece mais que regredimos aos tempos antigos onde condenados eram mortos e esquartejados em praça pública e seus restos ficavam lá, apodrecendo para que todos o vissem(e cheirassem).Só que agora a coisa ficou aperfeiçoada,com megabits de velocidade. É.O fanatismo está em tudo mesmo.