Redação Pragmatismo
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Cultura 03/Apr/2015 às 14:00
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Malucos de estrada: o que importa é ser livre!

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Malucos de estrada (Imagem: Pragmatismo Político)

Adriana Delorenzo, Revista Fórum

Um pano, artesanato, a pé, de bike, de carona, não importa como. Quando chegam a uma cidade é para a “pedra de maluco” que eles vão. Assim é chamado o local onde os “hippies” expõem seus trabalhos feitos com arame, cerâmica, sementes, cascas, penas, madeira, entre outros materiais.

Embora conhecidos como hippies, não é assim que eles se reconhecem. “Desfolclorizar” esse “hippie” brasileiro é o que faz o documentário “Malucos de Estrada”. “O maluco é um canibal cultural, um antropófago. Seu caminhar, sua rota o define. As culturas com as quais têm contato, as diferentes pessoas que atravessam seu caminho, as geografias que ele percorre, tudo isso cria um ser único, paradoxal e multifacetado”, explica o diretor do filme Rafael Lage, do coletivo Beleza da Margem.

Os depoimentos do documentário revelam quem são e o que é a “cultura da malucada”. Há relatos de quem tinha casa, família, estudo, e saiu para o mundo, com a cara e a coragem. “Ser maluco é traçar uma rota e ir.” “Quando você fica livre, você vê como é oprimido”. “A gente vive num mundo onde tudo é podado, não somos livres.” Estas são algumas frases que indicam o que querem ao levar uma vida nômade, sem casa e trabalho tradicional.

Importante dizer, o maluco é um ser, mas é também um estar. Você pode ter vivências na maluquês, sem necessariamente ter isso como uma identidade definidora. Já alguns se definem dessa forma. Mas não é a pessoa que vai dizer ‘eu sou maluco’, quem diz isso são as suas atitudes no dia a dia, elas falam por você. E aí surge essa expressão tão comum no universo da malucada, que é a ‘atitude de maluco”, completa Lage.

Para filmar o documentário, foram percorridos 19 estados em cinco anos e feitas aproximadamente 300 entrevistas. O projeto foi possível graças a uma campanha de financiamento colaborativo, que arrecadou cerca de 65 mil reais de 2.072 pessoas, de 26 estados do país. “O documentário nunca teve roteiro, foi um processo de pesquisa e auto-antropologia sobre o movimento. A pé, de bicicleta, carro, barco e avião, câmera na mão, um bom microfone e um desejo profundo de trazer à tona algo que nunca havia sido percebido pela massa da sociedade. É uma bomba semiótica”, diz Lage.

Repressão em BH: onde tudo começou

As filmagens começaram mais como uma arma do que com a expectativa de se tornar um documentário. Segundo Lage, de 2009 a 2012, o foco era o midiativismo. O objetivo era denunciar a atuação dos fiscais da prefeitura de Belo Horizonte e da Polícia Militar do estado de Minas Gerais. “Nesta época, era comum que as operações da prefeitura acabassem com a apreensão de bens pessoais (como mochilas, barracas de camping, roupas e material de higiene), além dos artesanatos e ferramentas dos artesãos. Quando o artesão acusava o furto institucionalizado, era preso por desacato. Perante o juiz, era a palavra de um artesão contra a de policiais e fiscais, que quase sempre combinavam suas versões inverídicas sobre os fatos”, relata Lage.

Após acompanhar 18 operações da prefeitura, ele fez um documentário, onde reúne “flagrantes cenas de ilegalidade dos agentes públicos”. O vídeo foi entregue ao Ministério Público. “Foram realizadas três audiências públicas sobre o tema e o MP abriu um inquérito e em parceria com a Defensoria Pública de Minas Gerais, processamos a prefeitura de Belo Horizonte com uma ação civil pública. Em 2012, a justiça de Minas Gerais, proferiu uma liminar que garantiu o direito de livre expressão nas ruas da cidade e ordenou a devolução de todos os artesanatos apreendidos.”

Além de mostrar a cultura, o filme dialoga com os problemas enfrentados por quem busca essa forma de vida, como a repressão que os artesãos da Praça Sete, em BH, sofreram. “Com o tempo, percebemos que não bastava denunciar a violência do Estado, pois ela, em sua raiz, era fruto do preconceito e do enorme desconhecimento da sociedade sobre quem são estas pessoas. Então tínhamos também de mostrar a cultura, trazer à tona a realidade desse universo cultural e foi assim que surgiu a trilogia Malucos de Estrada”, conclui Lage.

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Comentários

  1. ingrid Postado em 03/Apr/2015 às 15:48

    re comendo o canal "Além das aparências, pessoas incríveis, historias lindas.

  2. Gustavo Postado em 03/Apr/2015 às 23:57

    Adoro ver esse tipo de reportagem. Parabéns ao PP e obrigado por mostrar exemplos de pessoas que vivem nestas condições. Sabe de uma coisa, isso faz a gente refletir sobre as coisas da vida, sobre o que é ser e ter nesse mundo, sobre valores morais, sobre nossos preconceitos, etc. Muito bom mesmo, um belo exercício de consciência.

  3. fernando fernandes Postado em 04/Apr/2015 às 05:45

    Qdo fiz 2 viagens longas de bike pelo sul—sudeste, encontrei algumas destas "figuras" perambulando pelo brasil afora. Diferentes historias, alguns por escolha, outros quase obrigados a viver como nomades. Interessante um, q ja tinha andado a pe mais de 1000 km e q tinha ganho dias antes uma bike velha. Dizia: "agora ninguem me segura, vou viajar a america do sul inteira. Entretanto, tenho q agora tomar cuidado senao me roubam a bicicleta". Rsrs Agora ele tem preocupação, percebi.

  4. Salomon Postado em 04/Apr/2015 às 10:09

    Cada qual tem o direito de rumar sua vida como bem entenda. Essa é a maior conquista da história da humanidade. Entretanto, Deus disse: escolhe o que tu queres, mas paga por isso (está lá em gênesis, não exatamente nesses termos). Penso que a melhor palavra para definir esse 'estilo de vida' é a maluquice, como definiu o texto. De todos os quadrantes que se olhe a questão, para logo se percebe que o indivíduo que aderiu à esse 'estilo', abriu mão de seus deveres (e de seus direitos) para ser, no seu próprio entendimento, 'livre'. Acho que esse é um modo de encarar a realidade em que a pessoa se obriga a passar por privações, degenerescência e auto flagelo. Certa feita, em Ouro Preto, sentei para conversar com um desses 'malucos' e ele me disse que estava na estrada há décadas, em busca de uma namorada grávida que havia lhe deixado. Ora, se esse era o motivo verdadeiro do nomadismo, acho que ele estava muito mais a fim de expiar os próprios pecados do que encontrar a ex companheira e o filho, ou a filha. Falei para ele que ser um viramundo era um bom modo de nunca encontrar ninguém, e de não ser encontrado. Mas os malucos sempre rebatem com a tal da liberdade. Bem definiu Cecília Meireles: "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda". Um outro autor disse, não me lembro quem, que "para um peixe, o máximo de liberdade, é um rio sem margem". Ser totalmente livre é muito arriscado, pois é via de mão dupla. Pode vir outro maluco em sentido contrário.

    • André Postado em 07/Apr/2015 às 08:44

      Sim, mas deixa eles.

  5. eu daqui Postado em 06/Apr/2015 às 09:10

    Liberdade é experiencia e conceito diferente pra cada um. Não acredito em liberdade sem produtividade nem engajamento.

  6. Eduardo Postado em 06/Apr/2015 às 20:33

    Defina "benesses do governo" por favor? Temos que respeitar pessoas que vivem "a margem" do sistema, porém não podemos esquecer que lutar contra um sistema nefasto não é tarefa de esquerdistas malandros Maria, mas "é nosso dever e a nossa salvação", rsrsrsrsrsrsrs. Sem tetos são pessoas humildes, em sua maioria, que lutam contra um dos males do Brasil: o latifúndio. Esse mesmo latifúndio que expulsa milhares de famílias de suas terras todos os anos Acho que vc precisa se informar melhor...

  7. Luciana Oliveira Postado em 07/Apr/2015 às 01:06

    Ja ouviu falar sobre a função social da propriedade? A Constituição Federal explica. Sobre uma das "benesses do governo", defendida por todos os presidenciaveis na eleição passada, já lestes sobre o programa bolsa-familia e suas condicionalidades? Se leu não entendeu...