Redação Pragmatismo
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Cuba 10/Apr/2015 às 17:18
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Como Che Guevara encararia a aproximação de Cuba com os EUA?

Quatro estudiosos em Che Guevara e Cuba avaliam o que um dos principais ideólogos da revolução cubana diria dessa nova realidade da ilha caribenha

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Imagens de Che Guevara podem ser vistas em todas as regiões de Cuba e em vários países da América Latina (Foto: AP Photo/Franklin Reyes)

Às vésperas do que promete ser um encontro histórico entre os presidentes cubano, Raúl Castro, e americano, Barack Obama, na Cúpula das Américas, no Panamá, alguns críticos questionam se uma aproximação entre Havana e Washington não seria uma traição ao passado revolucionário da ilha.

Há mais de 50 anos, uma revolução liderada por Fidel Castro, irmão de Raúl, derrubou um governo apoiado pelos Estados Unidos e colocou em prática seus ideais comunistas.

Uma figura importante nessa transição em Cuba foi Che Guevara, que se tornou referência mundial como símbolo de revolução socialista.

Agora, o mundo observa o líder cubano fazendo um acordo com os Estados Unidos, abrindo as portas para uma nova relação entre os dois países – e o eventual fim do embargo econômico à ilha.

Mas o que Che Guevara, um dos principais ideólogos da implantação do comunismo em Cuba – que ele via como um ponto de partida para uma revolução contra o capitalismo em todo o continente latino-americano – pensaria dessa nova realidade?

Para responder a essa pergunta, a rede BBC ouviu quatro especialistas em Cuba e Che Gevara:

1. Lucia Alvarez de Toledo, biógrafa de Che Guevara

‘Che detestava os Estados Unidos’

Che é a alma de Cuba. Ele é o espírito da nação, é inacreditável, ele está em todo lugar.

Ele articulou o que eu pensava. Eu estava cercada por aqueles horríveis americanos, e nós éramos como uma colônia, pelo amor de Deus.

Nós produzimos este homem que falava, pensava e era como nós, claro que amávamos ele.

Ele detestava (os Estados Unidos), porque via pobreza extrema em um continente que não precisava ser pobre.

Quando a revolução triunfou, qualquer um que estivesse envolvido com os americanos foi expulso.

(Hoje) Che diria que a revolução cubana está tão firmemente entrincheirada que ninguém pode tirá-la (dos cubanos), ninguém pode tirar seu serviço de saúde pública, ninguém pode tirar sua educação. Eu me sinto bem com isso porque a revolução é sólida.

Ele diria: eles acordaram, perceberam seus erros. Porque são os americanos que perceberam que seu comportamento não os beneficiou, e eles agora vão mudar.

2. Louis Perez, diretor de Estudos da América Latina na universidade da Carolina do Norte

EUA querem que o povo cubano seja agente da mudança

Há esta crença histórica e cultural nos Estados Unidos de que o destino de Cuba pertence a eles. Basicamente, Cuba foi uma ilha tropical que existia para servir ao prazer americano.

O clamor da revolução por legitimidade moral e poder político foi sua capacidade de reivindicar soberania nacional e autodeterminação.

Em um período de 24 meses, a nova liderança de Cuba mudou o propósito do governo cubano para servir interesses cubanos: Cuba para os cubanos.

A derrubada do governo cubano era o objetivo primordial da política americana entre 1960 e dezembro de 2014. Para isso produziram dificuldades econômicas para tornar a vida o mais difícil possível para o povo cubano. Na esperança de que eles entrariam em desespero, derrubar o governo e assim produzir o resultado esperado pelos Estados Unidos.

A nova abordagem procura dar poder ao povo de Cuba para fazê-los largar da dependência do governo cubano e assim servir como agentes internos para mudança política.

Cuba poderia ser inundada com capital, turistas e produtos americanos. Agora resta ver como será a relação entre os cubanos e esse novo ambiente social e econômico.

Para se ter uma noção da resposta de Che, veja a carta que Fidel Castro escreveu (ela foi publicada no jornal estatal de Cuba em janeiro) na qual ele apoia a transição com má vontade. Ele reconhece a necessidade inevitável de reconciliação com os Estados Unidos, mas continua a ser muito, muito, cauteloso.

3. Carmelo Mesa-Lago, professor de economia na Universidade de Pittsburgh

Che Guevara um mito do passado

Quando a União Soviética se desintegrou em 1990, Cuba entrou em uma grave crise econômica, a pior desde a Grande Depressão. Fidel não teve outra alternativa além de fazer reformas: ele legalizou a circulação do dólar e investiu no setor de turismo para receber estrangeiros.

Empregos privados e um mercado agrícola foram permitidos. Isso gerou efeitos positivos na economia.

Fidel nunca gostou dessas reformas orientadas pelo mercado, ele simplesmente nunca teve outra alternativa.

Cuba está se privatizando. Eles anunciaram em 2010 que teriam que demitir 1,8 milhão de trabalhadores no setor estatal. Isso representa 36% da força de trabalho.

Agora é possível comprar e vender casas, os cubanos podem ter uma segunda casa no campo ou na praia. O Estado mantém a posse da terra, mas dá contratos de dez anos para fazendeiros para que eles possam investir na terra. Che se oporia a isso.

Raúl percebeu há um tempo atrás que o sistema não poderia continuar, mas Fidel estava no comando, e ele não poderia ir contra Fidel. Quando ele assumiu, gradualmente começou a implementar as reformas.

Che Guevara era um idealista e poderia dizer que Raul está traindo a revolução.

(Mas) ninguém em Cuba está pensando no que Che Guevara pensaria. As pessoas não querem sonhos. Elas apoiaram esse sistema por 54 anos. E agora querem comprar coisas, viajar, comprar suas casas.

Você encontra retratos de Che Guevara em qualquer lugar na América Latina. E claro que há um grande retrato de Che Guevara na Plaza de La Revolucion, que Fidel usava para falar com a nação. Mas é como uma brincadeira. É simplesmente um mito do passado.

4. Rafael Hernandez, editor chefe da revista cubana ‘Temas’

Reformas no ‘espírito do Che’

As visões de Che Guevara são mal entendidas. Nós não queríamos impor o modelo socialista soviético, mas criar um tipo diferente de sistema socialista e nesse sistema socialista havia uma presença legítima do setor privado.

Apenas em 1968 a Revolução Cubana nacionalizou os últimos pequenos negócios em Cuba. Em outras palavras, a Revolução Cubana conviveu com o setor privado por nove anos.

A Revolução Cubana em 1968 teve uma virada em direção a um movimento ideológico mais radical. Naqueles anos a questão de se aproximar de uma sociedade comunista se tornou parte da agenda cubana em termos de: ‘nós temos que construir o socialismo e o comunismo ao mesmo tempo’. Aquela ideia se tornou predominante e fez Cuba eliminar os 60 mil negócios privados que haviam sobrado.

Raúl Castro está promovendo um sistema mais descentralizado, e eu penso que esse é o sistema que Che Guevara queria: ter um setor público que pudesse ser mais eficiente.

(Em um encontro com os Estados Unidos em 1961) Che Guevara estava dizendo que não faria nenhuma mudança em nosso sistema, mas estamos prontos para discutir qualquer outra coisa. Na metade da Guerra Fria, a mensagem que Che Guevara estava enviando ao governo Kennedy era ‘nós queremos paz, nós queremos dialogar e nós queremos negociar’.

Se o socialismo só consegue sobreviver em uma ‘urna de vidro’ (em um país isolado), é impossível ele se sustentar.

Nesta manhã eu estava em uma palestra com uma multidão de jovens e muitos citavam Che Guevara ao falar de nossos problemas atuais. Isso significa que seu pensamento está vivo.

BBC

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Comentários

  1. Guilhermo Postado em 10/Apr/2015 às 19:22

    O povo cubano deve estar muito feliz por poder respirar a sombra de uma democracia. Acho engraçado quando vejo pessoas idolatrando os ideais de Che Guevara mas jamais abandonando os confortos que a globalização capitalista proporciona.,

    • Daniel Postado em 13/Apr/2015 às 14:31

      Confortos da globalização capitalista que beneficiam apenas 2% da população mundial.

      • Nicolau Postado em 29/Sep/2015 às 18:34

        O socialismo baneficia só a Dinastia Comunista de Castro em Cuba, os outros 99% do povo vivem na miséria!

  2. Alexandre Lopes Postado em 11/Apr/2015 às 12:58

    O socialismo não é regime de um ou alguns países. Assim como o capitalismo não funciona num número restrito de países ( precisa do mundo inteiro ) o socialismo também. O socialismo é a mais perfeita antítese do capitalismo e , por isso , precisa abranger toda a humanidade para realmente dar certo. Se é certo que o capitalismo é a barbárie, não menos certo é que o socialismo é humanitário. É uma escolha que cabe à humanidade !

    • Alexandre Lopes Postado em 13/Apr/2015 às 18:46

      João, você é um tolo . A gente não se preocupa se é utópico ou não . Quem é justo busca pautar sua vida de acordo com os ditames da justiça . Esse seu pragmatismo chulo e mequetrefe só faz de você um tonto bastante útil a quem caga e anda para a sua existência !

    • Alexandre Lopes Postado em 14/Apr/2015 às 10:01

      João, o que você pretende com essas colocações ? Está querendo debelar um socialista no debate . É uma questão de ego , de vaidade ? O que você quer ? Afirmar sua identidade , impondo aos outros seus pontos de vista para lá de questionáveis . Deixa eu te falar uma coisa : pelos seus comentários , percebo que você não passa de um garoto bobo , que está perdido igual a uma barata tonta no debate político . Se você deixar de lado sua prepotência juvenil e , humildemente , tentar entender o que você tanto critica , aposto que você vai virar , em breve , um homenzinho . Por ora, o que há em você é apenas um menino bobo tentando fugir dos próprios fantasmas .

    • Alexandre Lopes Postado em 17/Apr/2015 às 15:46

      Mestrado em economia numa instituição respeitada para quê ? Para ficar repetindo chavões de direitistas toscos , como , Reinaldo Azevedo e Arnaldo Jabor . Nem precisava de tanto . Bastaria continuar lendo o que você deve ler diariamente para sustentar esse tipo de tese ! Em relação aos ataques que você proferiu contra mim , não vou nem me pronunciar a esse respeito , porque esse piti é típico de quem foi atacado na ferida. E , por fim , a sua concepção de vida prova que você é um tolo que confunde sucesso ou êxito com acumulação do dinheiro . Sucesso é atingir suas metas de acordo com os seus ideias ou objetivos de vida e estes , muitas vezes , podem não ter nada a ver com a acumulação excessiva de dinheiro . Essa sua visão reducionista prova , cabalmente , o quão burrinho você é . Um sujeito desprovido de qualquer capacidade de abstração , em função de sua obsessão por grana . Se eu acreditasse em deus , já estaria rezando por você . Como não acredito , desejo-lhe boa sorte na vida rs...

  3. sirley Postado em 11/Apr/2015 às 20:04

    Com Rússia e a China era mais óbvio uma aproximação, acho que o tal Raul está indo pro lado errado! Isso fica para que os críticos estudem em detalhes!

  4. Renato Postado em 11/Apr/2015 às 21:22

    Só pra lembrar: os americanos também sofreram mudanças ao longo destes anos. Será que Che se oporia ao Obama e aos democratas de hoje?

  5. Didier Postado em 12/Apr/2015 às 00:00

    O que miou Maria ,foi o discurso Norte Americano (USA) que dizia que NUNCA tratarão com CUBA .