Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 09/Apr/2015 às 16:55
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Casos de violência obstétrica traumatizam mulheres por toda a vida

Outras dores do parto: mães relatam ‘novo tipo’ de violência obstétrica em hospitais. Além dos abusos contra as mulheres, há casos em que até os bebês não escapam da violência

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Luana Carvalho, A Crítica

A alegria em relembrar o nascimento do primeiro filho é ofuscada pela angústia que sente ao relatar a violência que sofreu durante o parto. Este é o caso da vendedora Tayana Guimarães, 23, que derramou lágrimas enquanto contava a história. Assim como ela, centenas de mulheres são vítimas, diariamente, da violência obstétrica – que vai desde o tratamento dado pela recepcionista das maternidades às imposições médicas.

Nos últimos dois anos, o Ministério Público Federal registrou 53 denúncias de violência obstétrica no Brasil, sendo três no Amazonas. Mesmo sendo um tipo de violência ainda pouco denunciada – muitas vezes por falta de informação – há casos que chocam e traumatizam mulheres pelo resto da vida.

A vendedora Tayana se programou para ter o pequeno Luiz Antônio, hoje com oito meses, em casa. Porém, quando começou a sentir as dores, a família bastante preocupada resolveu levá-la a uma maternidade pública. Ela optou pelo parto ‘normal’ acreditando que tudo aconteceria naturalmente.

“A doula (acompanhantes de parto profissional) que estava comigo não pôde entrar na maternidade. Tive que ficar deitada na maca do hospital com outras gestantes ao meu lado. Duas médicas passaram por mim para fazer o ‘toque’ enquanto meu marido massageava minhas costas”.

A bolsa foi estourada pela cirurgiã obstetra com um palito. Para piorar a situação, Tayana passou pelo que mais temia: a episiotomia, um corte cirúrgico feito na região períneo. “Deitei, coloquei os pés no apoio e quando vi que a médica ia me cortar, questionei. Mas ela afirmou que como era meu primeiro filho o procedimento era necessário. Mesmo anestesiada, notei a força que ela fazia para fazer o corte. Foram 20 pontos, tive uma hemorragia e ainda estou me recuperando”, relatou.

O bebê de Tayana também não escapou da violência. “Ele chorava muito e no terceiro dia uma pediatra constatou que ele estava com a clavícula fraturada porque ele foi ‘puxado’ com muita força. Ela ainda disse que isso normalmente acontece quando eles fazem a manobra para tirar o bebê”, contou.

Momentos de terror

O que era para ser um momento perfeito tornou-se uma lembrança ruim na vida da artista plástica Marcela Aureliano. Com 32 anos, ela foi impedida de ter um parto natural “por conta da idade”, entre outros tipos de violência obstétrica que sofreu.

“Eu e meu bebê estávamos bem de saúde. Eu havia me preparado para ter meu filho em casa, mas aconteceram alguns imprevistos e meu ‘plano B’ era ir para uma maternidade pública. Já na triagem fui super mal tratada pelas enfermeiras que não sabem lidar com mulheres em trabalho de parto”.

Os maus tratos foram além da enfermagem. “A primeira coisa que o médico fez foi perguntar ‘o que eu estava fazendo alí’, argumentando que ‘mulher que tem mais de 30 anos não pode ter parto normal’. Me deixaram em uma maca desconfortável, sem comida e sem água. A dor era muita e lembro que eu chorava bastante”, desabafou.

O ápice da violência foi quando Marcela recusou a ocitocina artificial (hormônio que acelera as contrações na hora do parto) e o médico a abandonou, dizendo que ela “estava fazendo tudo errado”. “Ninguém respeitava o que eu queria e eu comecei a passar mal. Me deram soro com remédio para dor. As enfermeiras falavam que eu tinha que fazer a cesárea. Na sala de cirurgia não permitiram que meu marido entrasse e ainda me mandaram calar a boca várias vezes”.

‘Apavorante’

A professora Gabriela Repolho de Andrade, 23, não sabia o que era violência obstétrica até o nascimento da primeira filha. Diferente de Tayana e Marcela, a professora sofreu violência obstétrica em um hospital particular, onde foi internada com forte dor de cabeça e visão embaçada.

O plano de saúde não cobria o parto, apenas consultas e exames do pré-natal. “Cheguei ao atendimento de urgência e desconfiaram de pré-eclâmpsia ( quando a grávida tem pressão arterial elevada). Por causa da carência do plano fui humilhada e constrangida pela médica, que dizia que eu tinha ido ao hospital para ter o parto de graça”.

A parturiente foi proibida de ter um acompanhante durante o parto, direito dado às gestantes e preconizado pelo Ministério da Saúde. “Eles me levaram para a sala de cirurgia e pediram um cheque caução para autorizar o procedimento. Mas meu marido não tinha o dinheiro na hora. Minha pressão subiu ainda mais e eu perdi a visão do lado esquerdo durante o procedimento”, contou.

Inquérito civil

Gabriela denunciou o caso ao Ministério Público do Estado (MPE-AM) e Federal (MPF-AM) em 2013, mas a denúncia foi arquivada por se tratar de “um caso isolado, de direito individual”. Orientada por um procurador, ela entrou com um processo cível na Justiça. “Ele também sugeriu formar um grupo para solicitar uma audiência pública e fazer denúncia coletiva. Desde então estamos tentando reunir as mães que passaram por violência obstétrica”.

Para a surpresa dela, o MPF-AM instaurou um inquérito civil em novembro do ano passado para avaliar possível prática de violência obstétrica nos hospitais e maternidades do Amazonas.

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Comentários

  1. Márcia Postado em 09/Apr/2015 às 19:34

    Lamentável sim que ocorram casos reais de Violência Obstétrica, devemos observar com o devido cuidado, o que realmente se trata de violência, ou apenas ilusões de um parto perfeito. Infelizmente há muitas situações em que as parturientes (certamente leigas) chegam ao hospital, ditando o obstetra o que eles devem fazer. Inclusive está citado no texto, que algumas queria ter o parto em casa, como se isso fosse algo sem risco. Descartam e diminuem a importância do profissional, que estudou anos para exercer esta profissão, realizar um parto seguro e gerenciar os riscos decorrentes dele. Muito dos procedimentos padrões, são tidos como Violência Obstétrica. O próprio trabalho de parto é um evento estressante, tanto para os profissionais, quanto para a paciente, não há parto sem dor. Trabalhei anos em maternidade, não é fácil. Nunca tive filhos, mas vi o quanto é doloroso, angustiante. Não há parto sem dor, e as estruturas da maternidades, não comportam um parto humanizado, como sonhamos, como deveria ser. Caso um dia eu resolva ter filhos, certamente farei todo um planejamento para que seja uma cesárea programada.

    • rosiane Postado em 09/Apr/2015 às 19:48

      discordo q nao a partp sem dor, pois o meu quasse nao doeu e o da minha prima nao doeu nd. concordo q deva se investigado mas mtos medicos e infermeiras nao tem a menor paciencia com as pacientes, dificil pode ser em alguns csos mas humanidade tratar as pacientes com respeito nao custa nd

    • Adriana Postado em 09/Apr/2015 às 22:00

      Marcia, antes de qualquer coisa informe-se mulher, trabalhou tantos anos em maternidade e nao sabe o que é realmente necessario e o que é imposto pelo medico?

    • Bárbara Postado em 09/Apr/2015 às 23:44

      Nossa, Márcia, vc parece ter sido doutrinada direitinho para oferecer o pior tratamento e para acreditar que o parto precisa necessariamente ser um filme de terror... Pesquise um pouco mais sobre o assunto. O erro no parto já começa pela posição da mãe, que fica deitada na cama, dificultando a saída do bebê e acarretando nessa necessidade terrível de todo esse aparato médico. Os partos na cama começaram porque o rei Luis 14 queria ver o filho nascendo. Desde 7000 anos antes de cristo, já se documentam partos através de pinturas rupestres, desenhos e outros documentos. Neles, em diferentes culturas, mas mulheres davam a luz sentadas, ou de cócoras, ou em pé mesmo. O parto é um evento natural, que com certeza pode ter diversas complicações. Mas tratar esse evento como algo terrível, com necessidade de cesáreas, anestesias, injeções, fórceps, puxadas, isso não me parece nem um pouco adequado.

    • Nadja Postado em 10/Apr/2015 às 06:50

      Márcia, você diz que muitos "procedimentos normais" sao tidos como violência obstétrica... eles SÃO... Fazer manobra está PROIBIDO pelo ministério da saúde... O soro pra acelerar o parto sem necessidade é violencia... Fazer a episitomia também não é festa que faz em todo mundo e mesmo sem a parturiente querer... Isso tudo é violência... E sobre não realizar partos no hospital essa é a recomendação de muitos países que trabalham com parto humanizado como a Inglaterra... A parturiente tem uma doula que é a boa e velha parteira... Treinada e profissionalizada... Pra fazer o parto em casa... A parturiente só deve ir ao hospital se ela possui algum risco... Porque ter o parto em casa é muito mais confortável e humano...

  2. Fabiola Postado em 09/Apr/2015 às 21:35

    Esses médicos (sei que não podemos generalizar mas a maioria) faltaram na aula de bioética e fizeram o juramento em vão

  3. Tammy Postado em 09/Apr/2015 às 23:39

    Não pode ser padrão um procedimento altamente não recomendado pela OMS como a episiotomia.

  4. Danila Postado em 10/Apr/2015 às 10:09

    A Márcia é a típica profissional de maternidade que ainda acha que a parturiente é leiga. E com essa soberba de "nós sabemos mais que você, nós estudamos para isso", continuam sujeitando mães à procedimentos que tornam os partos muito mais doloridos do que realmente eles são. Mas creio que a mudança já começou... e tenho esperança que essa realidade seja mudada, muito em breve.

  5. eu daqui Postado em 10/Apr/2015 às 10:20

    Ficam traumatizadas por toda a vida e continuam parindo por toda a vida.kkkkkkkkkkkk

  6. Luciene Cavalcanti Postado em 10/Apr/2015 às 11:17

    Imaginem quantas "Márcias" existem para agredir as mulheres, e familiares nesse momento tão delicado. É bom que saibamos que as Márcias existem, são elas que justificam essa matéria que acabamos de ler...meus sentimentos à pessoas como essa moça que estão exercendo a profissão errada...

  7. Luciana Postado em 10/Apr/2015 às 13:23

    Por mais que alguns procedimento violentos sejam "necessários", o que eu duvido muito, nada justifica tratar mal, humilhar e usar de violência verbal contra as parturientes, que estão no momento mais difícil da vida delas. Falta sensibilidade por parte dos profissionais de saúde. Típicos profissionais que escolhem tal profissão por que paga bem e não por vocação. Pra se trabalhar com saúde, tem que uma sensibilidade que muitas pessoas não tem.

  8. Lara Postado em 10/Apr/2015 às 18:16

    Em todos os casos, as mulheres parece que não se prepararam. Não tinham um obstreta? Acharam que poderiam ter o parto em casa, mas na primeira intercorrência correram ao hospital?

    • Danila Postado em 13/Apr/2015 às 10:47

      Lara vou descrever meu caso, para ficar mais fácil de entender: mudei de obstetra por 2 vezes. Os dois primeiros não faziam parto normal (oi???), cada um com sua desculpa esfarrapada, tentou me convencer a fazer uma cesárea. O terceiro obstetra, que me pareceu mais favorável ao parto normal, deixou claro que não me atenderia de madrugada ou fins de semana... a não ser que estivesse de plantão. Isso porque era pelo plano de saúde. Para ele atender no horário que meu filho estivesse pronto para nascer, deveria ser "particular". Valor que varia de 3.500,00 a 5.000,00 dependendo da duração do trabalho de parto (deixo claro que não critico o médico em questão, sabendo que o valor que os planos de saúde pagam é uma vergonha). Então assim como essas mães que você diz parecer não "estarem preparadas", eu estava sujeita a parir também com um plantonista que nunca tinha me visto antes. Bem vinda... esse é nosso sistema atual de osbtetrícia. Ou você paga doula e médico humanizado, ou você está sujeita a todo tipo de violência. Por sorte meu filho decidiu nascer as 11:00 de uma quinta-feira, e o médico nos assitiu.