Redação Pragmatismo
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Mundo 28/Apr/2015 às 10:46
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As últimas horas de Rodrigo Gularte no corredor da morte na Indonésia

Brasileiro no corredor da morte ainda crê em clemência. Rodrigo Gularte, que será executado nas próximas horas na Indonésia, tem reagido com "delírio" à notificação de seu fuzilamento e rejeitou seus últimos desejos: "Isso é alguma coisa como Aladim?"

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O brasileiro Rodrigo Gularte e sua mãe, Clarissa (reprodução)

Tudo indica que Rodrigo Muxfeldt Gularte será executado nas próximas horas na Indonésia, mas ele ainda acredita em clemência. Teria reagido com “delírio” à notificação de sua execução, e rejeitou seus últimos desejos, dizendo não ser preciso: “Isso é alguma coisa como Aladim?”

O paranaense, de 42 anos, foi condenado à morte em 2005, um ano após ser preso no aeroporto de Jacarta com 6 kg de cocaína escondidos em pranchas de surfe. Está na prisão de Nusakambagan, onde será executado por fuzilamento.

Foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide no ano passado, e a defesa tentava convencer autoridades a reverter a condenação. Para a família, Gularte foi aliciado por traficantes devido seu estado mental.

Diz a prima Angelita Muxfeldt que ele criou um “mundo próprio”, no qual desconhece a realidade. Ela está há quase três meses na Indonésia tentando reverter a condenação do brasileiro e será a última familiar a vê-lo antes da execução.

Gularte ainda crê em clemência. Citou uma conferência internacional, na qual a pena de morte teria sido abolida, disse Ricky Gunawan, advogado que assumiu o caso em março e visitou-o no domingo. Teria se negado, também, a fazer seus últimos desejos.

“Ele rejeitou, rindo. E disse: ‘Isso é alguma coisa como Aladdin? Não preciso disso'”, contou o advogado.

Gularte será o segundo brasileiro a ser executado na Indonésia. Em janeiro, o carioca Marco Archer Cardoso Moreira foi fuzilado após ser condenado à morte por tráfico de drogas.

Infância

A mãe de Rodrigo, Clarisse, de 70 anos, esteve com o filho pela última vez em fevereiro. Disse que seu “coração sangrava”. “Ele está completamente depressivo, só fala coisas desconexas”.

Natural de Foz do Iguaçu de uma família de classe média alta, Gularte teve o surfe como esporte preferido. Apesar de ter sido feliz na infância, começou a enfrentar problemas a partir do momento em que começou a utilizar drogas. Parentes e conhecidos falam de um rapaz alto, gentil e educado, mas envolvido com drogas desde a adolescência.

Enredo

A Indonésia é parte das rotas do tráfico de drogas no Sudeste Asiático e é conhecida por ter uma das mais duras leis contra narcóticos do mundo. A pena de morte para tráfico tem apoio popular no país.

Mesmo assim, traficantes se aventuram, atraídos pelo lucro vindo do tráfico. Mais de 130 presos estão no corredor da morte, 57 por tráfico, segundo a agência Associated Press.

O governo alega que entre 40 e 50 pessoas morrem todos os dias no país devido às drogas, um número difícil de ser confirmado. O presidente, Joko Widodo, disse que rejeitaria clemência a condenados por tráfico devido à situação de “emergência” causada pelas drogas no país.

A viagem de Gularte para a Indonésia, em julho de 2004, foi “uma tragédia”, diz a mãe. A prima fala em “erro imenso”. Para a família, ele foi aliciado por traficantes internacionais, que se aproveitaram dos seus problemas mentais. O que aconteceu depois poderia virar filme.

Ao ser pego, estava com outras duas pessoas, que escaparam e voltaram ao Brasil. Gularte assumiu responsabilidade por toda a droga que era levada, segundo Angelita.

A mãe e a prima chegariam à Indonésia uma semana após a prisão. Um advogado se ofereceu para defender Gularte ainda no aeroporto. “Nós ligamos para esse advogado, ele veio até o nosso hotel e perguntou: ‘Vocês querem ver o Rodrigo?'”, diz Angelita.

Era por volta das 21h, diz. “‘Mas é possível?’ eu perguntei. Ele deu um telefonema e disse: ‘Vamos’. Chegamos na prisão, ele mandou o Rodrigo vir, o vimos e conversamos com ele. O advogado nos mostrou que era influente”.

A família ficou impressionada. Pagou pelo advogado, mas ele fugiu com o dinheiro. Perdeu prazos e recursos e, no julgamento, não apareceu. Na verdade, nem o advogado, nem representantes da embaixada brasileira, nem a família apareceram no julgamento. Segundo Angelita, eles não teriam sido avisados.

Sem defesa, diz a prima, Gularte foi condenado à morte em 2005. Depois disso, ainda tentaria suicídio na prisão.

Exames

Há três anos Gularte piorou, diz Angelita. No ano passado, parentes contrataram uma equipe médica para que examinasse seu estado mental.

O diagnóstico foi esquizofrenia paranoide, com delírios e alucinações. E a recomendação de que ele fosse transferido para um hospital psiquiátrico. Família e testemunhas dizem que Gularte perdeu a noção de realidade e ainda crê em clemência

O laudo, no entanto, não foi aceito pelas autoridades indonésias, já que os especialistas haviam sido contratados pela defesa. Um novo exame, feito por um grupo diferente de especialistas aceito pelo governo, em fevereiro, confirmou o diagnóstico inicial.

Autoridades, então, ordenaram outra avaliação, feita em março, cujo resultado jamais foi divulgado, apesar de pedidos repetidos da família e do governo brasileiro. Familiares dizem que há anos tentavam convencer Gularte a receber tratamento fora da prisão. Mas ele se recusava a deixar a ilha, dizendo não estar doente.

‘Vozes de satélite’

O padre irlandês Carolus Burrows conheceu o brasileiro anos atrás, nas missas que celebrava na prisão. Ele foi escolhido para dar-lhe a extrema-unção e acompanhá-lo antes da execução.

Diz o padre que, nos últimos anos, Gularte passou a falar com “vozes de satélite e as paredes”. E que, desde o ano passado, não conseguia sequer assistir às missas, antes frequentadas com certa regularidade.

O complexo de prisões da “Ilha da Morte” está sob forte vigilância por conta da atenção desperta pelas execuções iminentes Estas vozes, disseram o padre e a prima, alertam Gularte de que a prisão é um local seguro e que, fora dali, ele pode ser morto.

“Ele diz que no hospital não é seguro. Que ele vai ser encapuzado, algemado. Que tem franco-atiradores na ilha e que ele vai ser morto a caminho do hospital”, disse Angelita.

Ela citou ainda contos sobre “vidas passadas no Egito e histórias surreais” e que outros presos teriam medo de dividir a cela com ele. Diz Angelita que Gularte, nos últimos meses, se recusava a tirar um boné, virado para trás, alegando ser sua proteção. Recentemente, teria perdido 15 kg, disse a mãe.

A execução será em Nusakambangan, um complexo com sete prisões, onde estão centenas de condenados por tráfico, assassinato e outros crimes. Tem o apelido de “Alcatraz da Indonésia”.

Foi em Nusakambangan que Marco Archer foi executado.

Marco havia sido preso pouco antes de Gularte, também em Jacarta, ao tentar entrar com 13,4 kg de cocaína escondidos em tubos de asa delta. Ele se tornou o primeiro brasileiro a ser executado no exterior em tempos de paz.

Na prisão, Marco e Gularte se encontraram. Quem os conheceu disse que o primeiro era extrovertido e o segundo mais quieto, e que a amizade que tinham era limitada. Dos nove presos a serem executados na Indonésia há dois cidadãos da Austrália, três da Nigéria e uma das Filipinas, a única mulher do grupo, e um indonésio, além de Gularte.

As execuções deverão ser realizadas na madrugada desta quarta-feira (horário local).

BBC Brasil

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Comentários

  1. Alex Postado em 28/Apr/2015 às 11:09

    Dos nove presos a serem executados na Indonésia há dois cidadãos da Austrália, """três da Nigéria, um da Nigéria""" e uma das Filipinas, a única mulher do grupo, e um indonésio, além de Gularte.

  2. poliana Postado em 28/Apr/2015 às 13:15

    "Isso é alguma coisa como Aladim?"...seria cômico se não fosse TRÁGICO!!

    • papa leguas Postado em 28/Apr/2015 às 18:09

      ele poderia ter pelo menos feito uma graça, como ultimo desejo pedir a visita do presidente ou do diretor da prisão e como esse não iria ceder mesmo o pedido de clemencia só pra sacanear jogava um pouco de merda nele kkkkkkk só pra entrar pra historia ( brasileiro horas antes do fuzilamento joga merda do presidente da indonesia kkkkkkkk) tinha criado um mitoooo

  3. Gabriel Postado em 28/Apr/2015 às 14:09

    Não querendo defender o erro que esse cara fez, mas se fosse um americano no lugar dele eu duvido se seria executado. Du-vi-do.

  4. teresinha Postado em 28/Apr/2015 às 14:23

    ha inda a esperanca jesus salvou um ladrao que estava crucificado ao seu lado na hora da morte...

  5. Marcos Silva Postado em 28/Apr/2015 às 14:26

    Eu era totalmente a favor da pena de morte quando (há pouco tempo atrás) eu achava que as pessoas já nasciam más; típico pensamente de quem se deixa levar por emoção e desconsidera a razão. Nada que um pouco de estudo sobre sociologia e história não resolva. E resolveu. Hoje sou contra tal pena. Abandonei o discurso "Bandido bom é bandido morto" por este: "Bandido bom é bandido preso, punido e ressocializado". Apesar de usar o adjetivo "bom" nessas frases, bom mesmo seria se todos tivessem acesso a educação de qualidade e oportunidades iguais, para que ninguém (exceções) caia no mundo do crime.

    • wilson Postado em 28/Apr/2015 às 15:29

      Esta coberto de Rasão Marcos!

    • Marcslla Postado em 28/Apr/2015 às 15:47

      Educação é tudo, parabêns por buscar aprender e repensar seus valores!

    • Gabriel Gabo Postado em 28/Apr/2015 às 15:55

      Concordo com você, mesmo sabendo que isso é uma completa utopia. A minha posição de ser contra a pena de morte não me torna automaticamente contra as leis da Indonésia. Como diz o velho malandro do meu bairro: "Foi arrastar na quebrada dos outros, agora aguenta as consequências".

    • Renan Postado em 28/Apr/2015 às 17:55

      Mas meu filho, não é que as pessoas nascem más, é que mesmo inerentemente boas, possuem a maldade dentro delas, ou seja, a inclinação para o mal. O tipo de sociologia que você estudou foi... deixa eu pensar... Marx e Rosseau, que estão completamente errados quando diziam "que o homem nasce bom, o ambiente os corrompe", ora, nós sabemos que não, pois até entre as tribos mais puras existiam guerras tribais, índios sem contato com o homem moderno (corrompido pelo capitalismo) enterram crianças vivas, existem culturas de tribos quenianas em que o estupro sempre foi permitido. Então o homem não é totalmente bom, ele é inclinado para o mal. Essa ideia de que as pessoas nascem todas boas é que é emocional, cercada de muito romantismo. Já a realidade é dura e Como se controla isso? Algo chamado ascese, que foi ridiculamente banido da sociedade racional e por isso a sociedade "racional", cada vez mais está entregue a seus prazeres, sem a capacidade de renunciar nada pelo seu bem e do próximo, e está cada vez mais irracional, pois é incapaz de usar o que nos diferencia dos animais: a razão e a vontade. Infelizmente ou se tem disciplina própria ou Estado nos disciplina, e talvez da maneira mais cruel, porque a prisão, a punição e a ressocialização (não tem como ressocializar que não nunca foi socializado, então já existe um problema) vão nas causas e são necessárias ao curto prazo, mas ao longo é preciso de um árduo processo de ir na raiz, ou seja, nós mesmos. Passar bem.

      • Marcos Silva Postado em 28/Apr/2015 às 19:02

        "Essa ideia de que as pessoas nascem todas boas é que é emocional" Qual ideia, zé? Eu não defendo essa ideia. Inclinação para o mal? Vá fazer suas profecias bem longe de mim, cara. Um ser humano só pode fazer duas coisas: aprender ou inventar. Em uma sociedade, todos devem ter oportunidades iguais para aprendizagem. Talvez você aprenda isso.

    • leandro santos Postado em 28/Apr/2015 às 20:50

      O Brasil está acostumado com leis brandas para criminosos, e por isso se assusta com este tipo de pena em países sérios. Muitos dizem que cadeia não recupera ninguém, mas quem falou que ela serve pra isso ?? A função primaria da cadeia é retirar da sociedade o criminoso para que esta mesma sociedade não seja atingida pelos atos irresponsáveis destes elementos e secundariamente incutir na mente do criminoso a pena paga pelos seus atos criminosos.

      • Marcos Silva Postado em 29/Apr/2015 às 19:05

        Não, meu chapa. As cadeias foram feitas para prender, punir e ressocializar as pessoas. Esse teu pensamento valentão vai acabar quando você resolver pensar e refletir, ou então, quando você quebrar a sua cara com essas ideias emotivas.

  6. lis Postado em 28/Apr/2015 às 15:33

    A última parte ficou confusa, são três, uma ou quatro pessoas da Nigéria que estão lá?

  7. JULIA Postado em 28/Apr/2015 às 15:45

    Hipótese: Em período de ferias, decido visitar um lugar desse e alguém troca minha mala ou abre-a(com uma caneta como ensinado naqueles videos do youtube) e coloca uma encomenda dessas. Será que eu terei meios de provar minha inocência ou serei mais um na fila da morte?! Este é um lugar em que eu jamais colocarei meus pés.

  8. Junior Postado em 28/Apr/2015 às 16:16

    Parem de desrerpeitar a lei.

  9. marines de conto Postado em 28/Apr/2015 às 18:58

    Tive um irmão que morreu por conta de drogas. O traficante não mata só os viciados,mata uma família inteira. Deve haver perdão por isso?

  10. Eduardo Postado em 28/Apr/2015 às 19:42

    DROGA.... quem vende esta desgraça por acaso tem clemência dos pobres coitados que destroem, das famílias que levam a loucura, da sociedade que é envenenada e destruída em sua juventude.... lógico que não. Não sou a favor da pena de morte, mas que haja punição exemplar, de uma forma a desencorajar esse comércio infeliz.

  11. paty Postado em 28/Apr/2015 às 20:18

    Quem sou eu para julgar.

  12. stela Postado em 28/Apr/2015 às 20:32

    Sou a favor apena de morte pq, existe pessoas que matam comete erros inamesiveis! Eu acho que ouvese mas atitudes das leis nao averia criminosos totao cruel como existi ,penso que uma pessoa que mata uma pessoa ou comete crime de trafico, na minha opiniso deveria ter uma chance paga pelo crine na cadeia srm regalias fazer eles sofrer das 10 parte uma o sofrime que eles fizeram uma familia sofrer! Essa seria a unica chanche que poderia ser dado depois dessa se volta se a repitir os mesmos crimes ezecucao já! !!!

  13. Line Postado em 28/Apr/2015 às 22:49

    O cara era de família rica aqui no Brasil, não apenas de classe-média-alta como dizem. Já costumava traficar drogas antes na Europa e na Ásia, se ferrou na Indonésia. Ele conhecia as leis do país, mas achou que não seria pego. Queria ganhar dinheiro fácil. Uma ganância suicida. Não quis estudar e trabalhar honestamente. Com a família que tem, tudo seria mais fácil pra ele para investir em estudos e trabalho.